Couple happily shopping online with credit card and phone

Banco Central prepara medidas contra superendividamento

Diretor de Fiscalização do BC sinaliza novas ações contra o endividamento das famílias, com foco em cartão de crédito e crédito pessoal não consignado.

TB

Tatiana Botelho

📖 12 min de leitura

O Banco Central voltou a colocar o combate ao endividamento das famílias no topo da agenda de 2026. Em declaração recente, o diretor de Fiscalização da autoridade monetária, Ailton de Aquino, sinalizou que novas medidas estão sendo preparadas, com foco especial nas duas linhas de crédito hoje consideradas as mais críticas para o orçamento do brasileiro: o cartão de crédito e o crédito pessoal não consignado. A sinalização acende um alerta importante para quem já convive com dívidas dessas modalidades — e também abre uma janela de oportunidade para revisar contratos e trocar dívidas caras por linhas mais baratas antes que o cenário mude.

Neste guia, você vai entender exatamente o que foi sinalizado pelo BC, por que essas duas linhas de crédito estão no centro do problema, quais impactos práticos podem chegar ao seu bolso nos próximos meses e, principalmente, o que você pode fazer agora — sem esperar as novas regras entrarem em vigor — para reduzir juros, sair do vermelho e organizar o orçamento familiar. O objetivo é traduzir uma discussão técnica em decisões concretas para quem precisa de crédito no dia a dia.

O que o Banco Central sinalizou sobre o combate ao endividamento

A declaração do diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, indica que a autoridade monetária pretende avançar em medidas voltadas ao chamado crédito rotativo e às linhas de crédito pessoal sem garantia — justamente aquelas em que os juros costumam ser mais altos e nas quais o brasileiro mais se enrola. A sinalização se soma a um movimento já em curso do BC, que nos últimos anos tem endurecido regras para o cartão de crédito, incluindo o teto sobre os juros do rotativo e a limitação de tempo em que o consumidor pode permanecer nessa modalidade sem migrar para um parcelamento mais barato.

A lógica por trás dessas ações é simples: quando o consumidor entra em uma espiral de juros compostos altíssimos, ele deixa de consumir, deixa de pagar contas essenciais e, em muitos casos, deixa de honrar outras dívidas. Isso gera um efeito em cascata que afeta a economia como um todo — e por isso o Banco Central atua não só como regulador do sistema financeiro, mas como fiscalizador da forma como os bancos oferecem crédito à população.

Ainda não há um cronograma oficial publicado com as datas e os detalhes técnicos das novas medidas. Mas o recado da autoridade monetária é claro: o modelo atual, em que o rotativo do cartão e o crédito pessoal não consignado concentram taxas de juros que ultrapassam com folga os três dígitos ao ano, precisa mudar. Para o consumidor, isso significa que vale a pena acompanhar de perto os próximos anúncios do BC — e, ao mesmo tempo, não esperar as mudanças chegarem para começar a organizar as próprias finanças.

Por que o foco é cartão de crédito e crédito não consignado

Não é por acaso que o Banco Central escolheu essas duas linhas como prioridade. O cartão de crédito, quando usado de forma parcelada ou, pior, quando cai no rotativo, é historicamente uma das linhas mais caras do mercado brasileiro. O crédito pessoal não consignado — aquele empréstimo comum, feito no banco ou em financeiras, sem qualquer garantia — segue logo atrás. Nas duas modalidades, o custo total efetivo (que inclui juros, tarifas e seguros) frequentemente supera com folga o custo de linhas com garantia, como o consignado do INSS, o consignado CLT ou o crédito com garantia de imóvel.

A razão para essa diferença gigantesca é o risco. Quando o banco empresta sem garantia, ele precifica no juro a possibilidade de o cliente não pagar. Quando existe garantia — por exemplo, um desconto direto no benefício do INSS ou na folha de pagamento —, esse risco cai drasticamente e o juro despenca junto. Ou seja, o brasileiro que está pagando juros mensais elevados no rotativo do cartão está, na prática, financiando um risco que muitas vezes ele mesmo poderia eliminar migrando a dívida para uma linha com garantia.

É exatamente sobre esse desequilíbrio que o BC quer atuar. A ideia é criar mecanismos que forcem uma revisão do modelo, ampliem a transparência para o consumidor e reduzam o espaço para o superendividamento silencioso — aquele que acontece quando alguém entra no cartão para pagar contas do mês, vira o mês pagando só o mínimo e, em pouco tempo, deve várias vezes o valor original.

Como o cartão de crédito virou o vilão do orçamento familiar

Entender como o cartão de crédito virou o principal vilão do orçamento familiar ajuda a explicar por que o Banco Central está tão focado nele. O problema não está no cartão em si — que, usado com disciplina, é uma ferramenta útil de pagamento. O problema está em três hábitos que se combinaram nos últimos anos: o parcelamento sem juros exagerado, o uso do rotativo como se fosse uma extensão do salário e o acúmulo de várias faturas simultâneas em cartões diferentes.

Quando o consumidor parcela uma compra em 10 ou 12 vezes no cartão, ele compromete um pedaço do orçamento futuro. Se faz isso várias vezes seguidas, com diferentes compras, chega um momento em que a fatura mensal já vem "amarrada" com parcelas antigas — e qualquer imprevisto (uma conta de luz maior, um remédio, um problema no carro) empurra a pessoa para o rotativo. Uma vez no rotativo, os juros mensais aceleram o saldo devedor em uma velocidade que a maioria dos orçamentos familiares não consegue acompanhar.

O crédito pessoal não consignado, por sua vez, entra em cena justamente quando a pessoa tenta "tapar" o buraco do cartão. É comum ver alguém contratar um empréstimo caro para quitar uma fatura ainda mais cara. Isso pode aliviar no curto prazo, mas raramente resolve o problema estrutural: se o orçamento continua desequilibrado, a dívida volta em pouco tempo, agora somada às parcelas do empréstimo pessoal.

O diagnóstico do Banco Central é justamente esse: o brasileiro está tomando crédito caro para pagar crédito ainda mais caro, sem que exista uma orientação clara e obrigatória para migração de dívida ou renegociação estruturada. As novas medidas em estudo tendem a atacar exatamente esse ponto.

O que muda para quem já está endividado

A pergunta prática que todo mundo faz é: "se o BC mudar as regras, minha vida melhora ou piora?". A resposta honesta é: depende de qual é a sua dívida hoje e de como você vai agir a partir de agora. As sinalizações da autoridade monetária apontam para medidas que devem, no médio prazo, favorecer o consumidor — com mais transparência nas taxas, mais estímulo à migração para linhas mais baratas e mais restrição a práticas que empurram a pessoa para o rotativo. No entanto, essas mudanças não se aplicam automaticamente ao contrato que você já assinou.

Contratos vigentes seguem, em regra, as condições pactuadas na assinatura. Isso significa que, se você já está com uma dívida antiga no cartão ou em um empréstimo pessoal caro, o simples fato de o BC anunciar novas medidas não vai reduzir automaticamente o seu juro. O que muda é o cenário à frente: novas contratações e possíveis renegociações passam a acontecer em um ambiente regulatório potencialmente mais favorável.

Por isso, três atitudes se tornam ainda mais urgentes para quem já está endividado. A primeira é listar todas as dívidas em uma única planilha, com valor, taxa mensal e prazo — muita gente descobre nesse exercício que paga juros muito diferentes em contratos parecidos. A segunda é procurar o banco onde tem relacionamento e pedir formalmente uma renegociação ou portabilidade da dívida para uma linha mais barata. A terceira é avaliar se você tem acesso a uma linha com garantia (consignado, home equity, crédito com garantia de veículo), porque a diferença de juros costuma ser expressiva.

Alternativas mais baratas: consignado INSS e consignado CLT

Enquanto o Banco Central prepara as novas medidas, o consumidor não precisa esperar de braços cruzados. Existem hoje linhas de crédito com regras claras, juros muito menores e proteção regulatória forte — os empréstimos consignados. Duas modalidades merecem atenção especial: o consignado do INSS, voltado a aposentados e pensionistas, e o consignado CLT, voltado ao trabalhador com carteira assinada.

O empréstimo consignado do INSS pode ser contratado em prazo de até 108 meses, com margem consignável total de 40% do valor do benefício. Desses 40%, 5 pontos percentuais são reservados exclusivamente para cartão benefício e/ou cartão consignado. Na prática, isso significa que, se o aposentado ou pensionista já tem algum desses cartões contratado, a margem para o empréstimo consignado propriamente dito é de 35%; se não tem nenhum cartão, os 40% inteiros podem ser usados no empréstimo. A carência para o vencimento da primeira parcela pode chegar a 90 dias, o que dá fôlego para reorganizar o orçamento antes do início do desconto.

Já o consignado CLT, destinado a quem tem carteira assinada, permite prazo de até 96 meses e margem consignável de 35% do salário. Nessa modalidade, atualmente existe apenas a linha de empréstimo consignável — não há cartão associado —, então o percentual pode ser usado integralmente para a operação de empréstimo. Assim como no INSS, o desconto é feito diretamente na folha, o que reduz o risco para a instituição financeira e derruba o juro em relação ao crédito pessoal comum.

Vale reforçar um ponto importante para quem recebe o Benefício de Prestação Continuada, o BPC/LOAS. Ao contrário do que muita gente ouve por aí, o BPC/LOAS pode, sim, ser usado para empréstimo consignado — não existe vedação legal a essa contratação. O que ocorre atualmente, em 2026, é que o alto volume de cessações e revisões desse tipo de benefício fez com que as instituições autorizadas recuassem na oferta prática dessa modalidade. Ou seja: é permitido por lei, mas a disponibilidade junto aos bancos está reduzida no momento. O beneficiário do BPC/LOAS que buscar essa alternativa deve, portanto, ter expectativas realistas e comparar bem as instituições que ainda oferecem a linha.

Para quem está pagando juros elevados no cartão ou em um empréstimo pessoal, a lógica é direta: se você se enquadra em alguma dessas modalidades de consignado, provavelmente vale mais a pena portar a dívida do que continuar pagando o rotativo. A economia mensal pode ser expressiva e o prazo mais longo ajuda a reduzir o valor da parcela.

Como se preparar agora para as novas medidas do BC

Mesmo sem saber exatamente quando as novas medidas do Banco Central vão entrar em vigor, dá para tomar decisões inteligentes agora que colocam você em vantagem quando o cenário mudar. Preparar-se para essa transição é, na prática, se preparar para pagar menos juros e sair mais rápido do endividamento.

O primeiro passo é fazer um diagnóstico completo das dívidas. Anote cada contrato ativo, o saldo devedor atual, a taxa de juros mensal, o prazo restante e o valor da parcela. Só esse levantamento já revela onde está o "dreno" do orçamento — quase sempre o cartão de crédito no rotativo ou parcelamentos longos com juros embutidos.

O segundo passo é priorizar a quitação ou migração das dívidas mais caras. Aqui a matemática é simples: pagar antes a dívida com maior taxa de juros gera mais economia do que pagar antes a dívida com maior valor. Se o dinheiro for pouco, a estratégia é o oposto do que muita gente faz — trate primeiro o rotativo do cartão, depois o crédito pessoal não consignado, e por último as linhas mais baratas.

O terceiro passo é buscar portabilidade. A portabilidade de crédito é um direito garantido pelo Banco Central: você pode transferir sua dívida de um banco para outro que ofereça condições melhores, sem precisar da autorização do banco atual. Vale a pena cotar em mais de uma instituição antes de fechar qualquer renegociação.

O quarto passo é revisar hábitos de consumo. Nenhuma renegociação resolve o problema se o orçamento continuar entrando no vermelho todo mês. Cortar assinaturas que não usa, revisar o gasto com alimentação e transporte e criar uma pequena reserva de emergência (mesmo que comece com R$ 50 por mês) evita o retorno ao cartão na próxima urgência.

O quinto passo é ficar atento aos canais oficiais do Banco Central. Quando as novas medidas forem publicadas, é lá que sairão as regras exatas — e é a partir delas que você poderá exigir dos bancos o cumprimento das novas condições. Desconfie de informações que circulam em grupos de mensagens prometendo "perdão de dívida" ou "nova lei que zera cartão": mudanças reais são publicadas em normativos oficiais, não em correntes de WhatsApp.

Conclusão: o recado prático para o seu bolso

A sinalização do Banco Central de que novas medidas contra o endividamento estão a caminho, com foco em cartão de crédito e crédito pessoal não consignado, é uma boa notícia para o consumidor brasileiro no médio prazo. No curto prazo, porém, a decisão que faz diferença no seu bolso é a que você toma agora: mapear suas dívidas, atacar as mais caras primeiro, buscar portabilidade e, sempre que possível, migrar para linhas com garantia — como o consignado do INSS, o consignado CLT ou, dentro dos limites atuais de oferta, o consignado para quem recebe BPC/LOAS.

O próximo passo prático é claro: pegue hoje mesmo a última fatura do seu cartão e o extrato do seu empréstimo pessoal, some quanto você paga de juros por mês e compare com o custo de uma linha consignada. Em muitos casos, essa simples comparação já mostra que existe uma saída mais barata esperando por você — e ela não depende das novas medidas do BC para começar a funcionar.

Referências

  • Declaração de Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do Banco Central.
  • Folha de São Paulo — Mercado (contexto sobre cartão rotativo, crédito pessoal não consignado e medidas regulatórias do BC).

Comentários (0)

Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu comentário

📩 Gostou? Receba mais como este

Novidades sobre consignado e FGTS toda semana.