Bancos lucram R$ 255 bi com Selic a 15%: o que muda para você
Entenda como o lucro recorde dos bancos em 2025 e a Selic a 15% explicam os juros do cartão, do cheque especial e o que fazer para pagar menos.
Tatiana Botelho
Bancos lucram R$ 255 bi com Selic a 15%: o que isso explica sobre os juros do rotativo, cheque especial e consignado
Em 2025, os grandes bancos brasileiros somaram um lucro líquido próximo de R$ 255 bilhões, um patamar recorde alcançado justamente no mesmo ano em que a taxa básica de juros, a Selic, foi mantida em 15% ao ano. Para quem está com o nome no cartão, no cheque especial ou pensando em pegar um empréstimo, essa combinação de números não é detalhe técnico — é, na prática, a explicação de por que o crédito está tão caro no Brasil.
Quando a Selic sobe, todo o crédito da economia tende a ficar mais caro. Mas há uma pergunta que o trabalhador, o aposentado e o servidor fazem com razão: se o juro básico é alto, mas o banco continua lucrando recorde, quem está pagando essa conta? A resposta passa por um conceito chamado spread bancário — a diferença entre o que o banco paga para captar dinheiro e o que ele cobra de quem toma emprestado.
Neste guia, você vai entender, sem economês, o que está por trás do lucro dos bancos em 2025, como esse cenário se traduz nos juros que aparecem na sua fatura, por que algumas modalidades de crédito (como o rotativo do cartão e o cheque especial) são tão mais caras que outras (como o consignado), e o que você pode fazer hoje para gastar menos com juros. Este conteúdo é especialmente útil para trabalhadores CLT, aposentados e pensionistas do INSS, servidores públicos e famílias de baixa e média renda que precisam tomar decisões de crédito conscientes.
Vamos do macro ao microbolso: do número bilionário ao boleto do mês que vem.
O lucro recorde dos bancos em 2025 e a Selic a 15%
O ano de 2025 entrou para a história do setor bancário brasileiro. O conjunto das maiores instituições financeiras do país alcançou um lucro líquido próximo de R$ 255 bilhões, com uma rentabilidade sobre o patrimônio (o famoso ROE, sigla em inglês para Return on Equity) que segue entre as mais altas do mundo, segundo dados do Banco Central.
Para dar dimensão: enquanto bancos de países desenvolvidos costumam operar com ROE na casa de um dígito ou pouco acima, instituições brasileiras de grande porte vêm registrando rentabilidade consistentemente superior. Em outras palavras, emprestar dinheiro no Brasil é, hoje, um dos negócios mais lucrativos do planeta.
Por que a Selic alta convive com lucro alto
Existe um mito popular de que "quando a Selic sobe, o banco perde". É o contrário. Com a Selic em 15% ao ano, o banco consegue aplicar parte significativa do seu caixa em títulos públicos federais — considerados o investimento mais seguro do país — e receber essa taxa praticamente sem risco. Ao mesmo tempo, ele continua emprestando ao consumidor final a taxas muito mais altas que a Selic.
O resultado é uma equação simples para o banco:
- Capta dinheiro barato (depósitos à vista, poupança, CDBs com taxas inferiores à Selic em muitos casos).
- Aplica em título público rendendo perto da Selic, com risco baixíssimo.
- Empresta ao consumidor em modalidades que cobram juros muitas vezes superiores a 100% ao ano.
É desse intervalo gigantesco entre o custo de captação e o preço final do crédito que nasce o spread bancário.
O que está concentrado nesse lucro
O lucro do setor não vem de uma única fonte. Está distribuído principalmente entre:
- Receita de crédito (juros cobrados em cartão, cheque especial, financiamento, consignado).
- Tarifas (manutenção de conta, anuidade, serviços diversos).
- Tesouraria (ganhos com aplicações financeiras, especialmente em títulos públicos).
- Seguros, capitalização e previdência privada vendidos via balcão e aplicativo.
Quando a Selic está alta, as duas pernas mais rentáveis se reforçam ao mesmo tempo: o crédito fica mais caro (engorda a margem) e o caixa aplicado em títulos públicos rende mais. Daí o recorde.
O que é spread bancário e por que ele explica os juros que você paga
O spread bancário é, em uma frase, a diferença entre o juro que o banco paga para conseguir dinheiro e o juro que ele cobra de quem pega esse dinheiro emprestado. No Brasil, esse intervalo é historicamente um dos maiores do mundo.
A composição do spread, segundo a Febraban, costuma ser explicada em quatro grandes blocos:
- Inadimplência (calotes): parte do que você paga cobre o prejuízo de quem não paga. Quanto maior a inadimplência, maior o juro de quem paga em dia.
- Custos administrativos: estrutura, tecnologia, pessoal, agências.
- Tributos e custo do compulsório: impostos sobre operações financeiras e a parcela dos depósitos que os bancos são obrigados a deixar parada no Banco Central.
- Margem do banco (lucro): o que sobra para a instituição depois de cobrir os itens acima.
Por que o spread brasileiro é alto
O setor argumenta que inadimplência e tributação são os principais responsáveis pelo tamanho do spread. Já analistas independentes apontam que a concentração bancária — poucos grandes bancos dominando a maior parte do crédito — também pesa, porque reduz a concorrência por preço.
O efeito prático no seu bolso é direto: quanto maior o spread, mais caro fica o crédito para você, mesmo que a Selic não tenha mudado. Por isso, mesmo em ciclos de queda da Selic, o juro do cartão e do cheque especial demora a cair — e cai pouco.
Como comparar internacionalmente
Em economias mais maduras, autoridades de supervisão bancária — como o Office of the Superintendent of Financial Institutions (OSFI), no Canadá — acompanham a rentabilidade dos bancos e tendem a observar margens menores e taxas finais ao consumidor mais baixas. Não é só uma questão de regulação: é também concorrência mais intensa, mercado de crédito mais maduro e níveis de inadimplência menores.
O Brasil ainda combina juro básico elevado + spread alto + concentração bancária, e o resultado é o que aparece na fatura do consumidor.
Juros do rotativo do cartão de crédito: por que são os mais altos do mercado
O rotativo do cartão de crédito é, com folga, uma das linhas de crédito mais caras disponíveis ao consumidor brasileiro. Ele entra em ação quando você paga menos do que o valor total da fatura do cartão.
Mesmo com a regra que limita o total de juros e encargos do rotativo (a cobrança não pode ultrapassar o valor original da dívida), na prática a taxa anualizada dessa modalidade segue em patamar de três dígitos ao ano, segundo dados periódicos do Banco Central.
Por que o juro do rotativo é tão alto
Três motivos principais:
- Risco altíssimo: o banco emprestou sem garantia, sem saber se você vai pagar.
- Inadimplência elevada nessa modalidade: quem entra no rotativo costuma estar com o orçamento já apertado.
- Curto prazo e parcelas pequenas: o banco precisa recuperar custo e risco em pouco tempo.
O que fazer se você caiu no rotativo
- Nunca role a dívida no rotativo por mais de um mês. O banco é obrigado a oferecer o parcelamento da fatura com juros mais baixos que o rotativo puro.
- Compare a proposta de parcelamento com uma linha de crédito pessoal mais barata (idealmente consignado, se você for elegível).
- Evite o pagamento mínimo recorrente. Pagar o mínimo é a porta de entrada para a bola de neve.
Cheque especial: o crédito mais caro do dia a dia
O cheque especial é aquele limite que aparece automaticamente quando a conta fica negativa. Parece um "socorro", mas é um dos créditos mais caros do mercado brasileiro, com juros anualizados que historicamente convivem com o patamar do rotativo do cartão.
Existem regras do Conselho Monetário Nacional que estabelecem um teto para o juro do cheque especial e uma tarifa permitida sobre o limite contratado acima de determinado valor. Ainda assim, na anualização, a taxa permanece elevada.
Por que o cheque especial é tão perigoso
- Cobra juro automaticamente, sem você sequer perceber que entrou no limite.
- Cobra diariamente, e não mensalmente — cada dia no negativo já gera encargo.
- Cria uma falsa sensação de saldo: o aplicativo mostra um número "disponível" que, na verdade, é dívida.
Como sair do cheque especial
- Solicite a portabilidade da dívida para uma linha mais barata em outro banco.
- Negocie um crédito pessoal com prazo mais longo e juro menor para quitar o cheque especial de uma vez.
- Peça ao banco para desativar ou reduzir o limite do cheque especial — é um direito do consumidor.
Empréstimo consignado: por que é a opção mais barata e como funciona
Dentro do cenário de Selic a 15% e crédito caro, o empréstimo consignado continua sendo, de longe, a modalidade com as menores taxas de juros disponíveis ao consumidor. A razão é simples: a parcela é descontada diretamente da folha de pagamento ou do benefício, o que reduz drasticamente o risco de inadimplência — e, com risco menor, o juro também é menor.
Mas atenção: as regras de prazo e margem mudam conforme o público.
Consignado INSS (aposentados e pensionistas)
Para quem recebe aposentadoria ou pensão pelo INSS, as regras vigentes são:
- Prazo máximo: 108 meses (9 anos) para pagar.
- Margem consignável total: 40% do valor do benefício.
- Dentro desses 40%, 5% são reservados exclusivamente para cartão benefício e/ou cartão consignado.
- Na prática, isso significa:
- Se o aposentado tem algum cartão (benefício ou consignado) contratado → sobram 35% para o empréstimo consignado.
- Se o aposentado não tem nenhum cartão contratado → pode usar os 40% inteiros para o empréstimo consignado.
- Carência para a primeira parcela: até 90 dias.
Consignado CLT (trabalhador com carteira assinada)
Para o trabalhador da iniciativa privada, as regras atuais são:
- Prazo máximo: 96 meses (8 anos).
- Margem consignável: 35% do salário.
- Não há, hoje, a modalidade de cartão consignado privado em operação, então a totalidade dos 35% vai para o empréstimo consignado.
Consignado para servidores públicos
Servidores públicos federais, estaduais e municipais possuem regras específicas de margem definidas por cada ente público e pelas suas folhas de pagamento. Confira sempre a norma vigente do seu órgão antes de contratar.
E quem recebe BPC/LOAS pode fazer consignado?
Essa é uma das dúvidas mais comuns — e uma das que mais geram desinformação nas redes. A resposta correta é:
- Sim, por lei, o BPC/LOAS pode ser usado para empréstimo consignado. Não existe vedação legal. É incorreto afirmar que "quem recebe BPC não pode fazer consignado".
- No entanto, no momento atual, em razão do alto volume de revisões e cessações desse tipo de benefício, as instituições autorizadas recuaram na oferta do consignado para quem recebe BPC/LOAS. Ou seja: é permitido por lei, mas a disponibilidade prática junto aos bancos está reduzida.
Se alguém te ofereceu consignado vinculado ao BPC com facilidade, redobre a atenção: confira se a instituição é autorizada pelo Banco Central e jamais pague "taxa adiantada" para liberação.
Como se proteger dos juros altos na prática
O cenário de Selic a 15% e lucro bancário recorde não vai mudar amanhã. Mas há decisões concretas que você pode tomar agora para pagar menos juros e proteger seu orçamento.
Hierarquia do crédito: do mais caro ao mais barato
De forma geral, do mais caro para o mais barato:
- Rotativo do cartão de crédito
- Cheque especial
- Crédito pessoal sem garantia
- CDC (financiamento de bens)
- Empréstimo com garantia (veículo ou imóvel)
- Consignado público / INSS / CLT
A regra prática é: antes de aceitar a linha mais cara, verifique se você é elegível à linha mais barata e use o crédito barato para quitar o caro.
Checklist antes de contratar qualquer crédito
- Peça o Custo Efetivo Total (CET), e não apenas a taxa de juros. O CET inclui tarifas, seguros e impostos.
- Compare o CET de pelo menos três instituições autorizadas pelo Banco Central.
- Confira prazo, valor da parcela e total a pagar ao fim do contrato.
- Cheque se a instituição está registrada no Banco Central (consulta gratuita no site oficial).
- Desconfie de ofertas que pedem pagamento antecipado de taxa de liberação. Isso é golpe.
Renegociação é direito
Se você já está endividado, a renegociação é um direito, não um favor. O banco tem interesse em receber, mesmo que seja com desconto. Programas oficiais de renegociação coordenados pelo Banco Central e pelo governo federal costumam oferecer condições melhores do que o balcão tradicional.
FAQ — Perguntas frequentes sobre juros, bancos e crédito
Se a Selic cair, o juro do meu cartão cai junto?
Na teoria, sim. Na prática, muito pouco e com atraso. O juro do rotativo e do cheque especial é formado majoritariamente por spread (inadimplência, tributos, custos e margem do banco), e não pela Selic em si. Por isso, mesmo em ciclos de queda da Selic, essas taxas demoram a recuar.
Vale a pena trocar a dívida do cartão por um empréstimo consignado?
Na maioria dos casos, sim, desde que você se enquadre nas regras do consignado (INSS, CLT ou servidor). O juro do consignado é uma fração do juro do rotativo do cartão. Use o consignado para quitar a dívida cara — e não para gastar de novo.
Como sei se o banco está cobrando juro abusivo?
O Banco Central publica periodicamente as taxas médias praticadas pelo mercado em cada modalidade. Se a taxa que estão te oferecendo está muito acima da média, peça outras propostas. Importante: "juro abusivo" tem definição jurídica específica e, em geral, exige análise caso a caso por advogado ou Procon.
O que é portabilidade de crédito e como funciona?
É o direito de transferir uma dívida de um banco para outro que ofereça juros menores. A instituição original é obrigada a fornecer todos os dados do contrato. A portabilidade não gera custo para o cliente e é especialmente útil em consignado, financiamento de veículo e imóvel.
Posso ser negativado mesmo pagando o mínimo do cartão?
Pagando o mínimo, você não é negativado naquele mês, mas o restante da fatura entra no rotativo com juro altíssimo. Se a dívida crescer e você deixar de pagar em algum ciclo, aí sim a negativação acontece. Pagar só o mínimo é, na prática, adiar o problema e aumentar a conta.
Conclusão: o que levar deste guia
O recorde de lucro dos bancos em 2025, com a Selic a 15% e ganhos próximos de R$ 255 bilhões, não é um detalhe abstrato da economia. Ele se traduz, todo mês, na fatura do cartão, no extrato com cheque especial e na parcela do empréstimo. Entender essa engrenagem é o primeiro passo para parar de ser engolido por ela.
Resumo dos pontos principais:
- A Selic alta convive com lucro alto porque o banco capta barato, aplica em título público e empresta caro.
- O spread bancário — composto por inadimplência, custos, tributos e margem do banco — é o que mais pesa nos juros que você paga.
- O rotativo do cartão e o cheque especial são as linhas mais caras e devem ser evitadas ou quitadas o quanto antes.
- O empréstimo consignado segue como a opção mais barata: até 108 meses e margem de 40% para INSS, 96 meses e 35% para CLT.
- O BPC/LOAS pode legalmente ser usado para consignado, mas a oferta atual está reduzida pelo mercado.
- Antes de assinar qualquer crédito, exija o CET, compare três instituições e confira o registro no Banco Central.
Próximo passo prático: abra hoje o aplicativo do seu banco, identifique se você tem alguma dívida no rotativo ou no cheque especial e simule a substituição por uma linha mais barata. Se for aposentado, pensionista, CLT ou servidor, simule o consignado. Em muitos casos, a mesma dívida pode custar três a cinco vezes menos apenas pela troca de modalidade.
Conhecimento, neste cenário, é o juro que você deixa de pagar.
Referências
- Banco Central do Brasil — dados de lucro do sistema bancário em 2025.
- Banco Central do Brasil — Comitê de Política Monetária (Copom), decisões de 2025 sobre a Selic.
- Banco Central do Brasil — relatórios de estabilidade financeira; comparação internacional de ROE (Elos Ayta / Einar Rivero).
- Febraban — Rubens Sardenberg, sobre a composição do spread bancário.
- Elos Ayta — Einar Rivero, análise sobre concentração e rentabilidade bancária.
- Office of the Superintendent of Financial Institutions (OSFI), Canadá — dados de supervisão bancária.
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