BC estuda medidas para conter crédito caro às famílias
Ata do Comef mostra preocupação do Banco Central com endividamento em juros altos e sinaliza mudanças que podem baratear o crédito. Entenda.
Tatiana Botelho
O aumento do endividamento das famílias brasileiras voltou ao centro das atenções da autoridade monetária. Em documento divulgado no início de setembro, o Comitê de Estabilidade Financeira (Comef) do Banco Central mostrou preocupação com o avanço do crédito caro no orçamento doméstico e sinalizou que estuda medidas concretas para conter esse movimento. Para o trabalhador que hoje convive com faturas de cartão, cheque especial, crédito pessoal sem garantia e parcelamentos com juros altíssimos, entender o que está em discussão é essencial — porque as decisões que saem dessa mesa costumam mudar, em poucos meses, o custo real do dinheiro no dia a dia.
Nesta matéria, você vai entender por que o Banco Central acendeu o alerta, quais medidas estão sobre a mesa, como isso conversa com linhas mais baratas como o empréstimo consignado, o que muda para quem já está endividado e como se posicionar para não cair em armadilhas de crédito caro. A ideia é traduzir, em linguagem simples, um debate técnico que impacta diretamente o bolso de aposentados, pensionistas e trabalhadores CLT.
Por que o Banco Central voltou a olhar para o crédito das famílias
O crédito às famílias vem crescendo em ritmo forte no Brasil, e uma parte relevante desse crescimento acontece justamente nas linhas mais caras — aquelas em que os juros mensais são de dois dígitos e o custo total ao consumidor supera com folga o dobro do valor emprestado. Segundo o Comef, esse padrão eleva o risco de inadimplência e compromete a estabilidade financeira, além de reduzir a capacidade de consumo das famílias, que passam a destinar uma fatia cada vez maior da renda apenas para pagar juros.
O problema não é o crédito em si — ele é ferramenta importante para lidar com emergências, antecipar sonhos e organizar as contas. O problema é o crédito CARO, contratado muitas vezes sem que o consumidor tenha clareza do custo efetivo total (CET) ou sem que tenha comparado alternativas mais baratas. É esse desequilíbrio que a autoridade monetária quer atacar.
Outro ponto que chamou atenção do Banco Central é o peso do rotativo do cartão de crédito e do cheque especial no orçamento das famílias de menor renda. Essas duas linhas figuram, historicamente, entre as mais caras do sistema financeiro brasileiro. Quando o consumidor entra nelas, é comum que a dívida dobre em poucos meses, criando o efeito bola de neve que o regulador quer justamente combater.
O que a ata do Comef sinalizou sobre o crédito caro
A ata do Comef funciona como um raio-x do que o Banco Central está observando na saúde financeira do país. No documento mais recente, o comitê reforçou que o comprometimento da renda das famílias com o serviço da dívida está em patamar elevado e que uma parte significativa desse comprometimento vem de linhas com juros altos.
A leitura do documento indica três preocupações centrais:
- Endividamento com linhas caras — famílias que poderiam ter acesso a crédito mais barato acabam ficando presas em produtos de juros altos, seja por falta de informação, seja porque o crédito barato tem barreiras de acesso (garantia, tempo de contratação, avaliação de risco).
- Renegociações que não resolvem o problema de fundo — muitas vezes, o consumidor troca uma dívida cara por outra igualmente cara, apenas empurrando o problema para frente.
- Educação financeira insuficiente — o brasileiro médio ainda tem dificuldade de comparar CET, prazos e condições, o que abre espaço para contratações desvantajosas.
A ata também sinaliza, sem cravar prazo, que o Banco Central pretende avançar em medidas regulatórias que reduzam essa exposição das famílias ao crédito caro. Ou seja: mudanças estão no radar e devem começar a aparecer nos próximos meses.
Quais medidas o BC pode adotar para conter juros abusivos
Quando o Banco Central fala em medidas para conter o encarecimento do crédito, o leitor precisa entender que existe um cardápio de instrumentos possíveis. Nem todos serão adotados, e alguns dependem também do Conselho Monetário Nacional (CMN) e até do Congresso. Ainda assim, é possível mapear as ações mais discutidas:
- Ampliação da portabilidade de crédito — hoje o consumidor já pode migrar sua dívida de um banco para outro em busca de juros menores. A tendência é que esse processo fique mais simples, mais rápido e mais transparente, forçando as instituições a competirem por bons pagadores.
- Regras mais duras para o rotativo do cartão — o rotativo já passou por mudanças, com limitação do tempo em que o consumidor pode ficar nele. Novas regras podem apertar ainda mais esse teto e obrigar migração automática para linhas mais baratas.
- Estímulo ao crédito com garantia — empréstimos garantidos por imóvel, veículo ou por benefício previdenciário (caso do consignado) tendem a ter juros muito menores do que o crédito pessoal sem garantia. O BC pode criar mecanismos para facilitar a contratação desses produtos.
- Mais transparência no CET — obrigar bancos e fintechs a mostrarem, de forma clara e comparável, o custo efetivo total de cada operação, para que o consumidor não confunda "juros baixos ao mês" com "empréstimo barato".
- Aperfeiçoamento do cadastro positivo — quem paga em dia deveria pagar juros menores. O uso mais intenso do cadastro positivo permite que bancos ofereçam taxas melhores para bons pagadores.
Esse conjunto de possibilidades ainda depende de calibragem. O que a ata deixou claro é que a inércia não é mais uma opção — o Banco Central quer agir.
Como o consignado entra nessa discussão
Quando o assunto é reduzir o custo do crédito para as famílias, o empréstimo consignado é peça central. Isso porque ele é, historicamente, uma das linhas mais baratas do mercado brasileiro — justamente porque o pagamento é descontado direto na folha do benefício ou do salário, o que reduz drasticamente o risco de inadimplência para o banco.
Para aposentados e pensionistas do INSS, os parâmetros oficiais vigentes em 2026 são:
- Prazo máximo: 108 meses.
- Margem consignável total: 40% do valor do benefício, dos quais 5% são reservados exclusivamente para cartão benefício e/ou cartão consignado.
- Se o beneficiário tem algum cartão (benefício ou consignado) contratado, o empréstimo consignado fica com 35% de margem.
- Se não tem nenhum cartão, os 40% inteiros podem ser usados para o empréstimo consignado.
- Carência de até 90 dias para o vencimento da primeira parcela.
Já para o trabalhador CLT, o consignado privado tem regras próprias:
- Prazo máximo: 96 meses.
- Margem consignável de 35%, integralmente destinada ao empréstimo (não existe cartão nessa modalidade).
Uma dúvida muito comum é sobre quem recebe BPC/LOAS. Este é um benefício assistencial pago pelo INSS — não é aposentadoria nem pensão. Por lei, o BPC/LOAS PODE ser usado para empréstimo consignado, não há vedação. No entanto, diante do alto volume de cessações e revisões desse tipo de benefício, as instituições autorizadas recuaram na oferta de consignado para BPC/LOAS. Ou seja: é permitido por lei, mas a disponibilidade prática junto aos bancos está reduzida no momento. Se você recebe BPC/LOAS e ouviu que "não pode fazer consignado", saiba que essa informação, do ponto de vista jurídico, é incorreta.
A importância do consignado na discussão do Banco Central é justamente essa: substituir dívidas caras por dívidas baratas. Um aposentado que troca o saldo do rotativo do cartão (juros de dois dígitos ao mês) por um consignado INSS (juros muito menores ao mês) alivia o orçamento imediatamente.
O que muda na prática para quem já está endividado
A sinalização do Banco Central é positiva no médio prazo, mas o consumidor endividado precisa de solução no curto prazo. Enquanto as novas regras não saem, existem caminhos concretos que já estão disponíveis e que dialogam com o espírito das mudanças anunciadas:
1. Faça o diagnóstico completo das dívidas. Liste TODAS as dívidas, com valor, taxa de juros ao mês, CET, prazo restante e parcela mensal. Sem esse mapa, é impossível decidir qual atacar primeiro.
2. Priorize a dívida mais cara. O consumidor tende a pagar primeiro a dívida que o "cobrador aperta mais", mas o correto é atacar aquela com maior taxa de juros. Rotativo do cartão e cheque especial normalmente ocupam o topo do ranking.
3. Considere a portabilidade. Se você tem um empréstimo em um banco e outro banco oferece taxa menor para o mesmo saldo devedor e prazo semelhante, você pode migrar. Isso vale para consignado, crédito pessoal e financiamento de veículo.
4. Avalie a troca por consignado. Para aposentados, pensionistas do INSS e trabalhadores CLT, trocar uma dívida cara por uma parcela de consignado (dentro da margem disponível) costuma ser a alternativa mais eficiente. Lembre-se dos parâmetros: até 108 meses e margem de 35% ou 40% no INSS, até 96 meses e margem de 35% no CLT.
5. Renegocie diretamente com o credor. Bancos, financeiras e lojas têm interesse em receber. Programas periódicos de renegociação, como os que envolvem o Desenrola, mostram que descontos relevantes podem ser obtidos por quem procura a instituição.
6. Fuja das "soluções milagrosas". Empresas que prometem "limpar seu nome em 24h" ou "quitar todas as dívidas com desconto absurdo mediante pagamento antecipado" tendem a ser golpes. Só negocie diretamente com o credor ou por canais oficiais.
Como se preparar e evitar cair em crédito caro
O melhor consignado é o que você não precisa contratar. O melhor cartão é o que é pago integralmente todo mês. As medidas do Banco Central ajudam, mas o consumidor também tem papel decisivo em não cair — ou não voltar a cair — no crédito caro.
Construa uma reserva de emergência. Mesmo que pequena, uma reserva que cubra despesas básicas por um ou dois meses evita que você recorra ao cheque especial ou ao rotativo diante de imprevistos. Comece com pouco, o importante é começar.
Antes de assinar qualquer crédito, compare o CET. O custo efetivo total inclui juros, tarifas, seguros embutidos e IOF. Duas ofertas com "a mesma taxa de juros ao mês" podem ter CETs muito diferentes. É esse número que deve guiar sua decisão.
Desconfie de parcelas "cabidas no bolso" com prazos longuíssimos. Uma parcela pequena em 96 ou 108 meses pode significar pagar duas ou três vezes o valor emprestado. Prazo longo só faz sentido quando a taxa é realmente baixa e quando não há alternativa melhor.
Cuidado com o cartão consignado. Ele é um produto legítimo, mas historicamente tem sido apontado como origem de problemas, principalmente entre aposentados que contratam sem entender o funcionamento. Lembre-se: os 5% da margem do INSS reservados para cartão benefício/consignado existem justamente para separar esse produto do empréstimo tradicional.
Eduque-se financeiramente com fontes confiáveis. O próprio Banco Central mantém programas de educação financeira gratuitos. O INSS oferece informações oficiais sobre benefícios e consignado no site gov.br. Prefira sempre canais oficiais quando o assunto envolver o seu benefício ou o seu salário.
Reveja contratos antigos. Muitos consumidores contrataram consignados há alguns anos com taxas que hoje estão desatualizadas em relação ao mercado. Uma portabilidade bem feita, dentro da nova realidade regulatória, pode reduzir a parcela sem alongar o prazo.
Conclusão: o que esperar dos próximos meses
A ata do Comef deixou claro que o Banco Central não vai assistir passivamente ao avanço do crédito caro no orçamento das famílias brasileiras. As medidas em estudo tendem a facilitar a migração para linhas mais baratas, apertar o cerco sobre rotativo e cheque especial, e ampliar a transparência das ofertas de crédito.
Para o leitor, o resumo prático é este: não espere as novas regras para agir. Se você tem dívidas caras hoje, faça o diagnóstico, priorize a mais cara, avalie a portabilidade e considere trocar por consignado dentro dos limites oficiais — 108 meses e 35% ou 40% de margem no INSS, 96 meses e 35% de margem no CLT. Quem recebe BPC/LOAS não está proibido por lei de contratar consignado, mas precisa lidar com a redução atual da oferta pelas instituições.
O próximo passo é simples e depende só de você: pegue papel e caneta (ou uma planilha), liste todas as suas dívidas com taxa e prazo, e comece pela mais cara. Esse é o mesmo caminho que o Banco Central está tentando pavimentar do lado regulatório — e quanto antes você começar, menos juros vai pagar nos próximos meses.
Referências
- Ata do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef) — Banco Central do Brasil, reunião divulgada em setembro.
- Seu Crédito Digital — análise sobre possíveis medidas do BC para conter o encarecimento do crédito às famílias (portabilidade, cadastro positivo e crédito com garantia).
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