Bets podem ter tirado R$ 141 bi da economia, diz USP
Estudo do Centro Made da FEA/USP estima que as bets podem ter subtraído até R$ 141 bilhões da economia em 2025 e respondido por 14% do endividamento das famílias.
Tatiana Botelho
As apostas online, popularmente chamadas de bets, deixaram de ser apenas um problema individual de quem perde dinheiro no celular e passaram a ter tamanho suficiente para mexer com a economia inteira do país. Um levantamento do Centro Made, ligado à Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), estimou que as bets podem ter drenado até R$ 141 bilhões da economia brasileira em 2025 e respondido por cerca de 14% do endividamento das famílias no período.
O número é grande e merece ser traduzido: estamos falando de dinheiro que saiu do bolso do trabalhador, do aposentado e do consumidor de baixa renda e não voltou como consumo no supermercado, na farmácia, no comércio de bairro ou como poupança para uma emergência.
Nesta matéria, você vai entender o que o estudo mediu, por que as bets impactam o orçamento das famílias mesmo de quem nunca apostou, quais grupos estão mais expostos e o que fazer, na prática, para proteger as próprias finanças de um comportamento que já foi classificado como problema de saúde pública em vários países.
O que o estudo da FEA/USP revelou sobre o impacto das bets
O Centro Made da FEA/USP se debruçou sobre um problema que, até pouco tempo atrás, era difícil de dimensionar: quanto dinheiro, de fato, está sendo movimentado pelas apostas online no Brasil e qual o efeito líquido disso sobre a economia. A pesquisa concluiu que, no cenário mais severo, as bets podem ter subtraído até R$ 141 bilhões da atividade econômica em 2025.
Esse valor não representa o total apostado — representa o efeito líquido negativo sobre a economia, ou seja, o quanto de consumo, poupança e investimento produtivo deixou de acontecer porque o dinheiro foi para plataformas de aposta em vez de circular no comércio, na indústria e nos serviços.
É por isso que economistas costumam olhar para as bets com preocupação: mesmo quando a operação é legal e recolhe impostos, o impacto agregado sobre o PIB tende a ser negativo, porque aposta não é atividade produtiva — é transferência de renda, e uma transferência em que, na média, quem aposta perde.
O estudo também sugere que uma parcela relevante do aumento recente do endividamento das famílias brasileiras tem relação direta com as bets. Segundo o levantamento, até 14% do endividamento pode ser atribuído a esse comportamento.
Traduzindo: de cada R$ 100 que as famílias tomaram emprestado ou deixaram de pagar em 2025, algo em torno de R$ 14 pode ter conexão com apostas.
Esse é um dado que muda a forma como discutimos crédito no Brasil. Cartão de crédito rotativo, cheque especial, empréstimo pessoal e até parcelamentos no boleto podem estar sendo usados, na ponta, para cobrir buracos deixados por apostas — e não para financiar consumo, saúde ou reforma da casa, como se imagina.
Como R$ 141 bilhões podem deixar de circular na economia
Para entender por que um valor tão alto pode simplesmente 'sumir' do circuito econômico, é preciso lembrar como o dinheiro funciona no dia a dia. Quando um trabalhador recebe o salário e gasta no mercado, aquele valor vira faturamento do supermercado, que paga funcionários, fornecedores e impostos — e assim o dinheiro circula, gerando renda para outras pessoas. Economistas chamam isso de efeito multiplicador.
Quando o mesmo trabalhador transfere parte do salário para uma plataforma de apostas, o efeito multiplicador é muito menor. Boa parte do valor apostado é redistribuída entre poucos ganhadores (a maioria absoluta perde), fica retida pela plataforma como margem, é remetida ao exterior ou vai para gastos com marketing pesado — inclusive patrocínios esportivos e publicidade digital. O restante que retorna à economia como consumo real é uma fração pequena do que entrou.
Além disso, apostar tende a substituir consumo essencial. Pesquisas de comportamento no Brasil já mostraram que, em famílias de baixa renda, o gasto com bets muitas vezes concorre com contas de luz, gás, alimentação e remédio. Ou seja, não é 'sobra' do orçamento sendo apostada — é o núcleo do orçamento sendo comprometido. Quando isso acontece em larga escala, o comércio de bairro sente, o pequeno prestador de serviço sente e, no fim, o próprio PIB sente.
É esse conjunto de efeitos — dinheiro que não vira consumo produtivo, valor que não gera empregos em cadeia e famílias que deixam de comprar o básico — que ajuda a explicar como um mercado que 'parece só entretenimento' pode ter retirado uma cifra na casa das centenas de bilhões da economia real em um único ano.
A relação entre bets e endividamento das famílias
O endividamento das famílias brasileiras já vinha em trajetória de alta antes mesmo da explosão das apostas online. Mas o estudo da FEA/USP acrescenta uma peça importante ao quebra-cabeça: parte relevante desse endividamento pode ter origem no comportamento de apostar.
O mecanismo, na prática, é conhecido de quem trabalha com orçamento familiar. Funciona mais ou menos assim:
- A pessoa deposita um valor pequeno na plataforma, ganha uma ou duas vezes e sente a sensação de recompensa.
- Depois de uma sequência de perdas, tenta 'recuperar o prejuízo' — o que, estatisticamente, é o momento em que a maior parte do rombo se forma.
- Como o dinheiro do mês acabou, a pessoa recorre a crédito rápido: cartão, rotativo, cheque especial, empréstimo pessoal, adiantamento de salário.
- No mês seguinte, parte do salário vai para pagar a dívida que financiou apostas — e sobra ainda menos para o essencial. O ciclo se repete.
A gravidade é que esses são exatamente os produtos de crédito mais caros do sistema financeiro brasileiro. O rotativo do cartão de crédito e o cheque especial estão entre as linhas com maiores taxas de juros do mundo. Quando são usados para cobrir perdas em apostas, o efeito é duplo: a família perdeu o dinheiro na aposta e ainda vai pagar juros altos por isso durante meses.
Não à toa, dados sobre inadimplência e uso de crédito emergencial têm crescido em paralelo à popularização das bets. O trabalho do Centro Made tenta justamente colocar número nessa correlação, sugerindo que uma fatia próxima de 14% do endividamento total das famílias pode estar ligada, direta ou indiretamente, ao fenômeno.
Por que aposentados e famílias de baixa renda são os mais afetados
Um dos pontos mais delicados desse debate é a distribuição do impacto. Apostar não afeta todas as faixas de renda da mesma forma. Quem tem sobra grande no orçamento pode perder dinheiro em bets e ainda pagar aluguel, escola e supermercado sem se endividar. Já quem vive com margem estreita — trabalhador que ganha até dois ou três salários mínimos, aposentado do INSS que depende do benefício do mês, beneficiário de programas sociais — sente o baque imediatamente.
Relatos que chegam a serviços de proteção ao consumidor e a núcleos de defesa financeira mostram um padrão: aposentados usam parte do benefício para apostar tentando 'complementar a renda', descobrem que perderam mais do que podiam e, sem margem para novas dívidas, deixam de pagar contas básicas ou tomam crédito com juros altíssimos para tapar o buraco. Em famílias jovens de baixa renda, o padrão é parecido, com o agravante de que muitas vezes o dinheiro apostado sairia do orçamento das crianças.
Há também um recorte de gênero e de geração que começa a aparecer nas pesquisas: homens jovens são maioria entre apostadores frequentes, mas o impacto financeiro atinge toda a família, especialmente mulheres que administram o orçamento doméstico e precisam refazer as contas depois das perdas.
Além do impacto direto, existe o custo invisível: estresse, brigas familiares, adoecimento mental, queda de produtividade no trabalho. Nada disso entra nos R$ 141 bilhões calculados pelo estudo, mas todos esses efeitos ampliam ainda mais o rombo social das bets — e explicam por que economistas, médicos e educadores financeiros vêm pedindo tratamento mais duro para o setor.
O que mudou com a regulamentação das bets no Brasil
Até pouco tempo atrás, as apostas online funcionavam em uma zona cinzenta no Brasil, com plataformas sediadas no exterior operando livremente e sem qualquer controle sobre publicidade, cadastro de apostadores ou pagamento de impostos. A partir da entrada em vigor do novo marco regulatório e da atuação da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, o setor passou a ter regras mais claras: exigência de licença, identificação obrigatória do apostador, limites sobre publicidade e proibição de aceitar depósitos de beneficiários de programas sociais.
A regulamentação foi um avanço em relação ao vazio anterior, mas o próprio tamanho dos números levantados pelo estudo da FEA/USP mostra que ela, sozinha, não resolve o problema. Regular não significa reduzir consumo — significa organizar o mercado, cobrar impostos e proteger o consumidor contra fraudes. O componente comportamental (o vício) e o componente distributivo (quem paga a conta são as famílias mais pobres) permanecem.
É por isso que o debate público começou a se deslocar. Não se discute mais apenas 'proibir ou liberar', mas sim medidas adicionais: limites de depósito por CPF, restrição de horários de publicidade, proibição de propaganda em eventos esportivos, canais claros de autoexclusão e campanhas de educação financeira específicas sobre apostas. Enquanto essas medidas não avançam, cabe ao apostador — e à família dele — construir uma proteção individual.
Como proteger o orçamento familiar do impacto das bets
Se o dado do estudo estiver correto e algo próximo de 14% do endividamento das famílias tiver relação com apostas, então cuidar desse ponto pode ser uma das medidas mais eficientes para melhorar a saúde financeira doméstica. Alguns passos práticos:
1. Faça o diagnóstico honesto do gasto com bets. Abra o extrato bancário dos últimos três meses e some tudo que foi transferido para plataformas de aposta, cassinos online, sites do tipo 'tigrinho' e afins. Muita gente descobre que gasta com bets mais do que com plano de saúde ou supermercado — e só percebe quando vê o número somado.
2. Trate como dívida, não como lazer. Se o valor apostado no mês é maior do que o que sobra depois de pagar as contas essenciais, o comportamento já saiu do campo do entretenimento. Nesse caso, o primeiro passo é cortar acesso: apagar aplicativos, bloquear sites, retirar o cartão salvo nas plataformas e, se possível, pedir autoexclusão no sistema oficial.
3. Renegocie dívidas caras antes de qualquer coisa. Se já existe rotativo do cartão, cheque especial ou empréstimo pessoal contratado para cobrir perdas em apostas, a prioridade é migrar essas dívidas para linhas de juros mais baixos e parar de gerar novas. Aposentado ou pensionista do INSS, servidor público e trabalhador CLT com carteira assinada têm acesso a linhas com juros menores que o rotativo, mas isso só resolve se, junto com a renegociação, o gasto com apostas for interrompido — caso contrário, a dívida volta.
4. Automatize a poupança de emergência. Uma das razões pelas quais tanta gente cai em ciclos de aposta é a ausência de reserva financeira. Sem colchão, qualquer imprevisto (remédio, conserto, boleto atrasado) empurra a família para o crédito caro. Programar uma transferência automática, mesmo que pequena, no dia do pagamento, para uma conta separada, cria a reserva que quebra esse ciclo.
5. Procure ajuda quando o comportamento fugir do controle. Vício em apostas é reconhecido como transtorno de saúde. O SUS oferece atendimento em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), e existem grupos de apoio gratuitos com metodologia semelhante à de outros programas de dependência. Reconhecer que é um problema de saúde — e não de 'falta de força de vontade' — é o primeiro passo para tratar de verdade.
6. Converse com a família. O impacto das bets raramente é sofrido por uma pessoa só. Colocar o assunto na mesa, mostrar os números do extrato e definir em conjunto um plano de reorganização financeira aumenta muito a chance de o comportamento ser interrompido antes que a dívida se torne impagável.
O que esperar daqui para frente
O trabalho do Centro Made da FEA/USP tem o mérito de colocar em números um debate que, até agora, era feito muito no campo da opinião. Se a estimativa de até R$ 141 bilhões subtraídos da economia e de 14% do endividamento familiar ligado às apostas se confirmar em pesquisas subsequentes, o país precisará tratar as bets como um problema estrutural — e não apenas como uma moda passageira do entretenimento digital.
Para o leitor, no entanto, a lição prática é imediata: independentemente do que fizer o regulador, quem controla o botão de depositar em uma plataforma de aposta é o próprio apostador. Rever esse hábito, olhar para o extrato sem autoengano e reorganizar o orçamento é o caminho mais rápido para transformar aquele número macroeconômico assustador em uma melhora concreta e visível no fim do mês da sua família.
O próximo passo, se você identificou que uma parte relevante do seu orçamento vem sendo consumida por bets, é simples e pode ser feito hoje: abra o aplicativo do banco, some quanto foi para apostas nos últimos 90 dias e escreva esse número em um papel. É a partir dele que qualquer plano financeiro sério vai começar.
Referências
- Centro Made — Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA/USP): estudo sobre impacto macroeconômico das apostas online no Brasil em 2025
- Ministério da Fazenda — Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA): marco regulatório das apostas de quota fixa (Bets) no Brasil
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