Biometria facial falha 5x mais com idosos, aponta NIST
Estudo do NIST mostra que reconhecimento facial erra até 5 vezes mais com idosos, afetando prova de vida do INSS e abrindo brechas para golpes.
Rita Cavalcanti
A biometria facial virou a chave que abre praticamente tudo na vida financeira do brasileiro: entra em aplicativo de banco, libera empréstimo, valida prova de vida do INSS, confirma saque do FGTS e até substitui a senha em pagamentos por aproximação. O problema é que essa tecnologia, tratada como se fosse infalível, comete mais erros quando o rosto analisado é de uma pessoa idosa — e essa falha silenciosa já está deixando aposentados sem acesso ao próprio dinheiro e servindo de porta de entrada para golpistas.
Um levantamento técnico do NIST, o instituto de padrões e tecnologia do governo dos Estados Unidos, apontou que algoritmos de reconhecimento facial erram até cinco vezes mais quando comparam imagens de pessoas com mais idade em relação a adultos jovens. Na prática, isso significa que o sistema pode simplesmente não reconhecer o titular verdadeiro do benefício — e, ao mesmo tempo, pode ser enganado com mais facilidade quando alguém tenta se passar por um idoso.
A seguir, explicamos por que essa falha acontece, como ela está sendo explorada por criminosos, o que fazer quando a prova de vida do INSS não passa no reconhecimento facial e como se proteger.
Por que a biometria facial falha mais com idosos
O reconhecimento facial funciona comparando pontos do rosto capturados na hora com uma imagem de referência guardada num banco de dados. Quanto mais nítidos e estáveis forem esses pontos, mais fácil para o algoritmo confirmar a identidade. O rosto de uma pessoa idosa, porém, muda de forma mais acentuada com o tempo: a pele perde firmeza, surgem rugas mais profundas, o contorno do queixo e das bochechas se altera, os olhos podem ficar parcialmente cobertos pelas pálpebras e é comum o uso de óculos de grau com lentes mais espessas.
O NIST identificou que essas variações fazem os algoritmos perderem precisão de forma desproporcional em rostos de pessoas mais velhas, chegando a taxas de erro várias vezes maiores do que as observadas em adultos jovens. Some-se a isso um fator prático: muitos idosos tiram a selfie de validação com celulares mais antigos, câmera de resolução mais baixa, iluminação ruim dentro de casa e a mão trêmula. O resultado é uma imagem de referência de qualidade inferior — o que piora todas as validações futuras.
Outro ponto pouco discutido é que a foto usada como referência muitas vezes foi tirada há anos, no cadastro original do banco ou do INSS. Se o titular envelheceu, adoeceu, emagreceu ou passou por cirurgia, o sistema pode não reconhecer que aquele rosto é o mesmo — e travar o acesso do dono legítimo do benefício.
Como a falha da biometria vira porta de entrada para golpes
Quando um sistema erra muito, ele precisa criar "saídas" para não deixar o usuário legítimo trancado do lado de fora. Essas saídas — atendimento humano, envio de documento por foto, videochamada, redefinição por SMS — são exatamente por onde os golpistas entram.
Os esquemas mais comuns hoje envolvendo idosos e biometria facial funcionam assim:
- Golpe do falso suporte do banco: o criminoso liga dizendo que houve "tentativa de invasão" e que é preciso refazer a biometria. Pede que o idoso aponte a câmera para o próprio rosto durante uma videochamada. Enquanto isso, do outro lado, o golpista está usando essa imagem ao vivo para passar na validação facial de uma conta que ele mesmo abriu ou de um empréstimo que está contratando em nome da vítima.
- Golpe da prova de vida falsa: a vítima recebe uma mensagem alegando que o benefício do INSS foi bloqueado e precisa fazer prova de vida por um link. O link leva a um aplicativo falso, que captura o rosto em movimento (o famoso "vira a cabeça, pisca, sorria") e depois usa esse vídeo para burlar sistemas reais de outros bancos.
- Uso de foto e documento vazados: com dados pessoais vazados e uma única foto pública (de rede social, por exemplo), quadrilhas testam abertura de contas em fintechs. Como a biometria falha mais com idosos, alguns sistemas acabam liberando quando o algoritmo fica "em dúvida".
- Consignado fraudulento: depois de assumir a identidade digital do idoso, o golpista contrata empréstimo consignado no nome dele. Vale lembrar que, no consignado do INSS, o prazo pode chegar a 108 meses e a margem consignável total é de 40% do benefício, sendo 5% reservados a cartão benefício ou cartão consignado. Ou seja: um único golpe pode comprometer boa parte da renda do aposentado por até nove anos.
O ponto grave é que, quando a fraude é descoberta, o idoso precisa provar que não foi ele. E, num sistema em que a biometria é tratada como "prova absoluta", desfazer esse tipo de contratação vira uma batalha jurídica longa.
Prova de vida do INSS travada: o que fazer quando o rosto não é reconhecido
A prova de vida do INSS, hoje feita majoritariamente por meios digitais, é um dos pontos em que a falha da biometria facial pesa mais no bolso do aposentado. Se o sistema não reconhece o titular, o benefício pode ficar bloqueado — e, sem o pagamento em dia, a pessoa perde o acesso à sua principal (às vezes única) fonte de renda.
Algumas orientações práticas quando o reconhecimento facial não passa:
- Não repita a tentativa dezenas de vezes seguidas. Muitos aplicativos bloqueiam a conta por segurança após várias falhas. Espere, refaça em local bem iluminado, sem contraluz (janela atrás), tire o óculos se as lentes estiverem refletindo e mantenha o rosto centralizado.
- Atualize a foto de referência quando possível. Alguns bancos e o próprio Meu INSS permitem refazer o cadastro biométrico presencialmente em uma agência. Isso é especialmente importante para quem envelheceu bastante desde o cadastro original ou passou por mudança significativa na aparência.
- Use os canais oficiais. Conforme o INSS, a prova de vida pode ser feita por outros meios além do aplicativo — como comparecimento à agência bancária onde recebe o benefício, atendimento no INSS ou por profissionais de saúde e assistência social em casos específicos. Nunca faça prova de vida por link recebido em SMS ou WhatsApp.
- Peça ajuda a um familiar de confiança, mas jamais entregue senhas nem faça a validação facial durante uma ligação com "atendente" que você não procurou. Bancos e o INSS não pedem que você aponte a câmera para o rosto em videochamada de suporte.
Para quem já teve o benefício bloqueado por falha na biometria, o caminho é procurar diretamente uma agência do INSS ou a agência bancária pagadora com documento com foto. É possível reativar o pagamento e refazer a prova de vida presencialmente, sem depender do algoritmo.
Como se proteger dos golpes que exploram a falha da biometria facial
Proteger o idoso hoje não é mais só "cuidar da senha". É proteger o rosto dele como um dado sensível. Algumas medidas concretas:
- Não faça selfie ou vídeo do rosto a pedido de ligação, SMS ou WhatsApp, mesmo que a pessoa diga ser do banco, do INSS ou da polícia. Nenhum órgão oficial pede biometria por esses canais.
- Desconfie de links de "prova de vida", "recadastramento" e "atualização de biometria" recebidos por mensagem. O acesso ao Meu INSS deve ser feito sempre pelo aplicativo oficial ou pelo site gov.br, digitando o endereço no navegador.
- Ative todas as camadas extras de segurança no aplicativo do banco: senha, biometria, notificação por push para novas contratações e limite baixo para operações sensíveis. Assim, mesmo que a biometria falhe e um golpista passe, ele esbarra em outro bloqueio.
- Bloqueie a contratação de empréstimo consignado quando não estiver usando esse produto. O INSS permite ao aposentado ou pensionista solicitar o bloqueio de novos empréstimos consignados no próprio benefício, evitando que quadrilhas contratem dívidas em nome dele. Para liberar, é preciso desbloquear ativamente.
- Cheque o extrato do benefício todo mês. Descontos novos e desconhecidos devem ser contestados imediatamente junto ao INSS e ao banco pagador. Quanto mais cedo a fraude for reportada, maior a chance de estorno.
- Converse em família. A maior parte dos golpes com biometria contra idosos começa com pressão emocional ("sua conta será encerrada hoje", "seu benefício vai cair"). Um combinado simples — "antes de fazer qualquer coisa no celular, me liga" — evita a maioria das fraudes.
A biometria facial continuará sendo parte central da vida financeira nos próximos anos, e ela não é ruim em si. O que precisa mudar é a forma como ela é tratada: nem os sistemas devem confiar cegamente no algoritmo, nem o próprio usuário deve acreditar que "como passou na biometria, então está seguro". Para o idoso, especialmente, o rosto virou o novo CPF — e merece o mesmo cuidado que se dá a documentos, senhas e cartões.
Se você é aposentado, pensionista ou cuida de alguém que é, o próximo passo prático é simples: entre hoje mesmo no aplicativo Meu INSS e ative o bloqueio de novos empréstimos consignados. Leva menos de um minuto e fecha uma das portas mais exploradas pelos golpistas que se aproveitam justamente das falhas do reconhecimento facial.
Referências
- NIST (National Institute of Standards and Technology) — programa FRVT/FATE sobre desempenho de algoritmos de reconhecimento facial por faixa etária.
- Regras do empréstimo consignado do INSS: prazo máximo de 108 meses e margem consignável total de 40% do benefício, com 5% reservados a cartão benefício ou cartão consignado.
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