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BPC do INSS: 'lista de remédios' que aprova é fake news

Circula nas redes uma suposta lista de medicamentos que garantiria o BPC do INSS. Veja por que é fake news e quais critérios realmente valem.

RC

Rita Cavalcanti

📖 7 min de leitura

Nos últimos meses, voltou a circular com força nas redes sociais e em grupos de WhatsApp uma informação enganosa: a de que existiria uma 'lista secreta' de remédios que, se estiverem na receita do paciente, garantiriam a aprovação automática do BPC — o Benefício de Prestação Continuada pago pelo INSS. A promessa é sedutora, principalmente para famílias que convivem com doenças crônicas e enfrentam dificuldades financeiras. Mas trata-se de fake news, e acreditar nela pode levar milhares de pessoas a cair em golpes, pagar por serviços indevidos e ter o pedido negado.

Neste guia, explicamos o que o INSS realmente avalia para conceder o BPC, por que nenhuma bula ou medicamento sozinho aprova o benefício, como funciona a perícia médica e social, e o que fazer para se proteger de golpistas que exploram a esperança de quem precisa. A informação correta, vinda diretamente das regras oficiais do INSS, é a sua melhor defesa.

O que é o BPC do INSS e quem realmente tem direito

O BPC, também chamado de BPC/LOAS (Lei Orgânica da Assistência Social), é um benefício assistencial, e não previdenciário. Isso significa que ele não exige contribuições ao INSS para ser concedido — diferente da aposentadoria, do auxílio-doença ou da pensão por morte. O pagamento é feito pelo INSS, mas os recursos vêm da assistência social do Governo Federal, e o valor corresponde a um salário mínimo mensal.

Têm direito ao BPC dois grupos principais:

  • Idosos com 65 anos ou mais que comprovem não ter meios de prover o próprio sustento nem de tê-lo provido por sua família.
  • Pessoas com deficiência de qualquer idade cuja deficiência (física, mental, intelectual ou sensorial) tenha efeitos de longo prazo — ou seja, que produza impedimentos por, no mínimo, dois anos — e que, associada a barreiras diversas, impeça a participação plena na sociedade em igualdade com as demais pessoas.

Além disso, o candidato precisa cumprir o critério de renda familiar per capita e estar inscrito no CadÚnico (Cadastro Único para Programas Sociais). O limite de renda per capita e regras específicas de composição do grupo familiar são estabelecidos em lei e periodicamente atualizados.

Ou seja: em nenhum momento a lei fala em 'lista de medicamentos que dá direito ao BPC'. Esse critério simplesmente não existe.

A fake news dos 'remédios que garantem BPC': por que é falsa

A desinformação costuma se apresentar em vídeos curtos ou posts com títulos alarmistas, do tipo: 'quem toma esse remédio já pode entrar com pedido de BPC' ou 'lista de medicamentos que aprova o benefício automaticamente no INSS'. Muitas vezes, os conteúdos citam remédios usados para depressão, hipertensão, diabetes, epilepsia, esquizofrenia ou doenças autoimunes.

O problema é conceitual. O BPC por deficiência não avalia o remédio, e sim o impacto funcional da condição de saúde na vida da pessoa. Duas pessoas podem tomar exatamente o mesmo medicamento e ter situações completamente diferentes: uma consegue trabalhar, estudar e se locomover normalmente; a outra depende de terceiros para tarefas básicas. Só a segunda, em tese, se enquadraria nos critérios de deficiência de longo prazo previstos em lei — e ainda precisaria cumprir o critério de renda.

Além disso, mesmo que a doença esteja registrada em receita, laudo ou exame, isso não substitui:

  1. A perícia médica federal do INSS, feita presencialmente por médico perito.
  2. A avaliação social, realizada por assistente social do próprio INSS, que analisa o contexto familiar, ambiental e as barreiras enfrentadas.
  3. A análise da renda familiar e da inscrição no CadÚnico.

Acreditar que 'basta apresentar a caixinha do remédio' para receber o BPC é uma armadilha. Muitas pessoas, ao seguirem esse tipo de dica, dão entrada em pedidos sem preparo adequado, têm o benefício negado e, pior, acabam pagando 'assessorias' e falsos despachantes que prometem uma aprovação que jamais está garantida por medicamento nenhum.

Como o INSS analisa o pedido de BPC na prática

Quem tem interesse em solicitar o BPC precisa entender que existe um caminho oficial — e gratuito. O pedido pode ser feito pelo aplicativo Meu INSS, pelo site gov.br/meuinss ou pela Central 135, sem necessidade de intermediários.

O fluxo geral costuma envolver:

  • Inscrição atualizada no CadÚnico, feita no CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) do município de residência. Sem CadÚnico atualizado, o pedido tende a ser indeferido logo de início.
  • Requerimento do BPC junto ao INSS, com envio de documentos pessoais e da composição familiar.
  • Agendamento da perícia médica (para pedidos por deficiência), realizada por médicos peritos federais em agências do INSS ou por meio de perícia documental, quando aplicável.
  • Avaliação social para pessoas com deficiência, considerando fatores como acesso a serviços, moradia, escolaridade e barreiras enfrentadas.
  • Análise final do pedido, com resultado disponível no Meu INSS.

Em nenhuma etapa desse fluxo o servidor pergunta 'qual remédio o senhor toma?' como fator decisivo. O medicamento pode aparecer como parte do histórico clínico apresentado à perícia, mas é apenas mais um elemento — o que pesa é o quadro funcional e as limitações comprovadas, sempre combinados ao critério de renda.

Outro ponto importante: o BPC pode ser revisado periodicamente pelo INSS. Nos últimos anos, o volume de revisões e cessações desse tipo de benefício aumentou, o que reforça a necessidade de o pedido ser feito com base em informações verdadeiras e documentação real, e não em atalhos prometidos por vídeos virais.

Vale lembrar ainda que, embora o BPC/LOAS possa, sim, ser usado para empréstimo consignado do ponto de vista legal (não há proibição na lei), atualmente as instituições financeiras autorizadas recuaram bastante nessa oferta justamente por causa do alto volume de revisões e cessações. É permitido por lei, mas a disponibilidade prática está reduzida — e isso também é usado por golpistas para pressionar beneficiários a 'garantirem o BPC agora' por meio de esquemas irregulares.

Como se proteger dos golpes que exploram o BPC

A fake news dos 'remédios que aprovam BPC' costuma vir acompanhada de ofertas de serviços pagos: 'assessorias', supostos 'especialistas em INSS' ou perfis em redes sociais que prometem entrar com o pedido em nome do beneficiário, mediante taxa ou percentual sobre o benefício. Essa é uma das principais portas de entrada para golpes envolvendo o BPC.

Algumas orientações práticas para se proteger:

  • Desconfie de qualquer promessa de aprovação automática. Nenhum medicamento, laudo ou 'lista' garante o BPC. Só a análise oficial do INSS decide.
  • Não pague intermediários para pedir o BPC. O requerimento é gratuito no Meu INSS, no site gov.br ou pela Central 135.
  • Nunca entregue sua senha do gov.br. Ela é pessoal e intransferível. Golpistas que pedem essa senha podem acessar dados, contratar empréstimos e desviar valores.
  • Cuidado com boletos e taxas antecipadas. O INSS não cobra taxa para conceder benefício.
  • Confirme informações apenas em canais oficiais, como o próprio Meu INSS, o portal gov.br/inss e o CRAS do seu município.
  • Se receber uma mensagem suspeita, especialmente via WhatsApp, prints, áudios ou vídeos virais, procure orientação antes de agir. O CRAS oferece apoio gratuito e presencial.

Se você ou alguém da família convive com uma doença grave ou deficiência de longo prazo, o caminho certo não é atrás de listas milagrosas — é buscar o CRAS, atualizar o CadÚnico, reunir laudos e documentos e formalizar o pedido no INSS. Esse processo pode levar tempo e exigir organização, mas é o único juridicamente válido.

Conclusão: informação correta é o melhor 'remédio' contra o golpe

A fake news de que determinados medicamentos aprovam automaticamente o BPC explora um público duplamente vulnerável: pessoas doentes ou com deficiência e famílias com renda baixa. Por isso, ela se espalha rápido. Mas as regras do BPC são claras: quem decide é o INSS, com base em critérios de idade ou deficiência de longo prazo, renda familiar per capita, inscrição no CadÚnico e perícia médica e social — não em uma bula.

O próximo passo prático, se você acredita ter direito ao BPC, é simples e não custa nada: procure o CRAS mais próximo, atualize seu CadÚnico e acesse o Meu INSS para dar entrada no pedido. Ignore vídeos milagrosos, não pague intermediários e não compartilhe correntes com 'listas de remédios'. Ao repassar informação falsa, mesmo sem querer, você ajuda golpistas a alcançarem mais vítimas.


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