CBS e IBS: só 9,1% dos contadores têm plano pronto
Pesquisa com profissionais da área tributária acende alerta para empresas de todos os portes e para o microempreendedor individual que depende de contabilidade terceirizada.
Ricardo Silva
📖 11 min de leitura
Resumo em 30 segundos
- Apenas 9,1% dos contadores ouvidos em levantamento recente afirmam ter plano de transição pronto para CBS e IBS.
- A cobrança dos dois novos tributos está prevista para começar em menos de dois meses, substituindo parte do atual sistema sobre consumo.
- Para reduzir risco, empresas devem revisar cadastro de produtos, confirmar atualização do sistema fiscal e reforçar o caixa antes da virada.
- O MEI também sente efeitos, principalmente na relação com fornecedores e com clientes pessoa jurídica que buscam crédito tributário.
Falta menos de dois meses para o início da cobrança da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), os dois novos tributos que substituirão parte do atual sistema tributário brasileiro. E o número que acende a luz amarela não vem do governo, mas de dentro do próprio setor que precisa operacionalizar a mudança: apenas 9,1% dos contadores ouvidos em levantamento recente afirmam ter um plano de transição pronto para aplicar nos clientes.
O dado é relevante porque, na prática, a maior parte das empresas brasileiras — sobretudo micro, pequenas e médias — não calcula, emite nota nem apura imposto sozinha. Quem faz isso é o escritório de contabilidade. Se o contador não está preparado, a empresa também não está. E o impacto chega até o microempreendedor individual, que costuma manter contato com o contador apenas para resolver pendências pontuais, mas que também será afetado por regras de transição e por mudanças nas obrigações acessórias.
Neste guia, você vai entender o que a pesquisa revelou, o que são CBS e IBS, por que o setor contábil chegou atrasado à largada, quais são os riscos práticos para o seu negócio e o que dá para fazer agora para não ser pego de surpresa quando a cobrança começar.
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O que a pesquisa revelou sobre o preparo dos contadores
O levantamento ouviu profissionais contábeis e tributários de diferentes regiões e portes de escritório, e o retrato é preocupante: só 9,1% declararam ter um plano estruturado de transição para CBS e IBS pronto para ser colocado em prática junto aos clientes. A maioria ainda está em fase de estudo, de mapeamento ou simplesmente aguardando regulamentação adicional antes de agir.
Esse resultado contrasta com o calendário oficial da reforma tributária, que já definiu o início da cobrança dos novos tributos. Ou seja, o profissional que vai operar a mudança no dia a dia ainda não se sente seguro para fazê-lo, mesmo faltando poucas semanas para o começo da nova sistemática.
Outro ponto importante do estudo é a distribuição desse despreparo: ele não está concentrado apenas em escritórios pequenos. Profissionais de estruturas maiores também relataram dificuldades para traduzir o texto legal em procedimentos aplicáveis a cada tipo de cliente — comércio, indústria, serviços, profissional liberal, produtor rural, MEI. A reforma mexe com classificações, alíquotas, créditos tributários e obrigações acessórias ao mesmo tempo, o que torna qualquer plano de transição um projeto complexo e demorado.
O que são CBS e IBS e por que eles mudam o jogo
A CBS, Contribuição sobre Bens e Serviços, é um tributo federal que substituirá contribuições hoje cobradas pela União no consumo. Já o IBS, Imposto sobre Bens e Serviços, é um tributo de competência compartilhada entre estados, Distrito Federal e municípios, que substituirá tributos estaduais e municipais incidentes sobre consumo. Juntos, eles formam o novo modelo de IVA (Imposto sobre Valor Agregado) brasileiro, com apuração não cumulativa e cobrança "por fora" do preço.
Na prática, o contribuinte final continuará pagando imposto sobre o que consome, mas a lógica de apuração muda bastante para quem vende. Em vez de várias camadas de tributos com regras diferentes (como acontece hoje com PIS, Cofins, ICMS e ISS), a ideia é ter uma base ampla e uniforme, com crédito amplo para a empresa ao longo da cadeia. Isso exige um novo jeito de emitir nota fiscal, novas rotinas de escrituração e, principalmente, uma releitura do custo tributário de cada produto e serviço.
Para o empresário, essa mudança tem duas faces. Por um lado, tende a simplificar o sistema no médio prazo e reduzir a chamada "cumulatividade" — aquele imposto que incide em cascata ao longo da cadeia produtiva. Por outro, no curto prazo, qualquer erro de parametrização de sistema, de classificação de mercadoria ou de apuração de crédito pode significar imposto pago a mais, perda de margem ou autuação.
Por que o setor contábil chegou atrasado à largada
Há um conjunto de fatores que ajuda a entender por que só uma minoria dos escritórios tem plano pronto. O primeiro é o volume de regulamentação infralegal necessária para colocar a reforma em pé. Mesmo com a estrutura geral da CBS e do IBS definida em lei, boa parte das regras operacionais — leiautes de documento fiscal, forma de apuração de crédito, regimes específicos para determinados setores — depende de normas complementares. Enquanto esse arcabouço não se consolida, o contador tem receio de treinar a equipe e investir em processos que podem mudar de novo.
O segundo fator é o custo de atualização. Montar um plano de transição exige capacitação de equipe, contratação ou atualização de sistemas, revisão de contratos com clientes e, em muitos casos, repactuação de honorários para refletir o novo volume de trabalho. Escritórios menores, que operam com margens apertadas, costumam adiar esse investimento até ter mais clareza.
O terceiro fator é a heterogeneidade da carteira. Um escritório de contabilidade típico atende um mix de empresas no Simples Nacional, no Lucro Presumido e no Lucro Real, além de MEIs e autônomos. Cada regime terá uma forma diferente de conviver com CBS e IBS no período de transição, o que multiplica o número de cenários que o profissional precisa dominar antes de orientar o cliente.
Por fim, há um componente de informação. Muito do que circula sobre a reforma ainda está em linguagem técnica e jurídica, difícil de traduzir em procedimentos de rotina. O contador precisa fazer essa ponte entre a norma e o balcão da empresa — e esse trabalho de "tradução" é o que, segundo o próprio levantamento, está atrasado na maioria dos escritórios.
O impacto prático para empresas de todos os portes
Para a empresa cliente, o atraso do contador se traduz em três riscos concretos. O primeiro é operacional: se o sistema de emissão de nota fiscal não estiver parametrizado corretamente na virada, a empresa pode ter notas rejeitadas, vendas travadas e atraso na entrega para o consumidor. Qualquer varejo que dependa de alto volume de emissão diária sente esse efeito já nas primeiras horas do novo regime.
O segundo risco é financeiro. Como CBS e IBS trabalham com crédito tributário na cadeia, a empresa que não souber apurar corretamente o imposto pago nas compras pode acabar recolhendo mais do que deve ou, pior, pagar e não conseguir se apropriar do crédito a que tem direito. Em um cenário de margens apertadas, essa diferença pode comprometer o resultado do trimestre.
O terceiro risco é de conformidade. Com novas obrigações acessórias vindo pela frente, qualquer inconsistência entre o que a empresa declara e o que o sistema do fisco cruza pode gerar autuação, multa e necessidade de retificação. Esse tipo de problema costuma aparecer semanas depois do fato gerador, quando corrigir já custa mais caro.
Para empresas do Simples Nacional, há uma camada adicional de atenção: a forma como o regime vai conviver com CBS e IBS envolve escolhas que o próprio empresário precisará fazer, com orientação do contador, para preservar competitividade e crédito tributário na cadeia. Sem orientação, a decisão fica no piloto automático — e nem sempre o piloto automático favorece o seu negócio.
E o MEI? O que muda para o microempreendedor individual
O microempreendedor individual costuma operar com estrutura enxuta: emite nota quando o cliente pede, paga a guia mensal e, no máximo, troca algumas mensagens por ano com um contador ou com o portal do Simples. Mesmo assim, o MEI não está fora do radar da reforma.
Do ponto de vista do recolhimento, o MEI continua sendo um regime simplificado, com guia unificada. Mas, do ponto de vista do mercado, o microempreendedor pode sentir o efeito da reforma de duas maneiras: na relação com fornecedores (que vão precisar ajustar notas e preços) e na relação com clientes pessoa jurídica, que passarão a observar com mais atenção o tipo de documento fiscal recebido para fins de crédito tributário.
Na dúvida, o passo prático para o MEI é simples: confirmar se o cadastro e a atividade declarada estão corretos, manter a emissão de nota em dia e procurar orientação antes de aceitar contratos de longo prazo com preço fechado — porque a composição tributária do serviço pode mudar ao longo do período de transição.
O que a empresa pode fazer agora para não ser pega de surpresa
Enquanto parte dos escritórios corre atrás do prejuízo, há medidas que o próprio empresário pode tomar nas próximas semanas para reduzir riscos. A primeira é marcar uma conversa específica com o contador — não a reunião de rotina sobre folha e impostos, mas um encontro dedicado à reforma. Nessa conversa, três perguntas precisam ser respondidas: quem, dentro do escritório, está liderando a transição; qual o cronograma proposto para a sua empresa; e quais ajustes de sistema, cadastro e precificação precisam ser feitos antes da virada.
A segunda medida é revisar o cadastro de produtos e serviços. CBS e IBS dependem de classificação correta para apurar imposto e crédito. Produtos cadastrados com código errado, descrição genérica ou NCM desatualizado tendem a gerar problema já na primeira nota emitida sob o novo regime. Esse é um trabalho que leva tempo e exige a participação de quem conhece o estoque, não só do contador.
A terceira medida é conversar com o fornecedor de sistema de gestão ou de emissor de nota fiscal. Pergunte, por escrito, se o sistema terá atualização a tempo, qual o custo dessa atualização e o que acontece se a homologação atrasar. Ter essa resposta documentada ajuda a negociar prazos e, se for o caso, buscar alternativa antes do aperto.
A quarta medida é separar caixa. Qualquer transição tributária costuma gerar oscilação de fluxo nos primeiros meses — seja por imposto pago a mais que depois vira crédito, seja por atraso no recebimento de clientes que também estão se ajustando. Chegar na virada com reserva de capital de giro reduz o estresse e dá margem para corrigir rota sem apagar incêndio no banco.
Por último, vale acompanhar os canais oficiais. Informações sobre cronograma, obrigações acessórias e regimes específicos são publicadas pelos órgãos competentes, como a Receita Federal e o Comitê Gestor do IBS, e devem ser a referência primária na hora de tirar dúvida — inclusive para checar o que o escritório de contabilidade está orientando.
Cronograma, riscos regulatórios e o que esperar dos próximos meses
O calendário de implantação da CBS e do IBS prevê etapas que vão além da virada inicial, com fases de teste, alíquotas de transição e convivência temporária com tributos atuais. Isso significa que o esforço de adaptação não termina em janeiro: ele se estende por meses, possivelmente anos, até que o novo sistema esteja plenamente consolidado.
Para a empresa, isso tem uma leitura prática. Não adianta tratar a reforma como um evento único ("no dia X muda tudo"), porque haverá ajustes sucessivos ao longo do tempo. O melhor caminho é institucionalizar a adaptação: nomear um responsável interno, criar um canal direto com o contador, acompanhar as publicações oficiais e revisar processos a cada nova norma que sair.
Para o contador, o recado da pesquisa é claro: o tempo de estudar sem agir acabou. Os 9,1% que já têm plano pronto tendem a largar na frente, reter clientes e, inclusive, ganhar mercado dos escritórios que vão chegar atrasados à virada. Os demais 90,9% precisarão correr nas próximas semanas para transformar leitura de norma em procedimento aplicável.
E para o leitor que está no meio desse processo — como empresário, MEI ou trabalhador de uma empresa afetada — o resumo prático é este: não espere o início da cobrança para descobrir se o seu contador está preparado. Pergunte agora, exija cronograma, revise cadastro, confirme sistema e separe caixa. A reforma tributária é a maior mudança no consumo em décadas, e chegar organizado é a diferença entre atravessar a transição com dor administrativa ou com prejuízo financeiro.
Conclusão: o que fazer na próxima semana
O dado de que apenas 9,1% dos contadores têm plano de transição pronto não é um indicador abstrato: ele diz, em números, que a maior parte das empresas brasileiras vai depender de um esforço de última hora para entrar em conformidade com CBS e IBS. Quem assume o controle agora — conversando com o contador, revisando cadastros, testando sistema e reservando caixa — reduz drasticamente o risco de ser surpreendido.
O próximo passo é simples e cabe nesta semana: agende uma reunião específica com o seu contador apenas sobre a reforma tributária, leve as perguntas certas (quem lidera, qual o cronograma, o que precisa ser ajustado antes da virada) e exija resposta por escrito. Se a resposta não vier, é sinal de que a sua empresa pode estar entre as que vão precisar correr em janeiro — e, nesse caso, melhor descobrir agora do que no dia da primeira nota rejeitada.
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Referências
- Emenda Constitucional nº 132/2023 — reforma tributária do consumo
- Lei Complementar nº 214/2025 — normas gerais de CBS e IBS
- Receita Federal do Brasil — orientações sobre a transição para CBS e IBS
- Comitê Gestor do IBS — regulamentação do novo tributo de estados e municípios
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