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CLT x MEI: como calcular quanto você ganha ao virar MEI

Trocar CLT por MEI parece vantajoso, mas exige contas honestas: veja como calcular 13º, FGTS, férias e aposentadoria antes de pedir demissão.

TB

Tatiana Botelho

📖 9 min de leitura

A pergunta "vale mais a pena continuar CLT ou abrir um MEI?" ficou tão comum nos últimos anos que virou tema de mesa de bar, grupo de família e conversa de almoço no trabalho. E não é para menos: cerca de 30% dos atuais Microempreendedores Individuais no Brasil, o que equivale a quase 5 milhões de pessoas, já tiveram carteira assinada antes de abrir o próprio CNPJ. É um movimento gigantesco de troca de vínculo, que mudou a forma como o brasileiro pensa sobre trabalho e renda.

O problema é que muita gente faz essa migração olhando só para o valor que vai cair na conta no fim do mês. E aí mora a armadilha. O salário CLT vem cheio de benefícios embutidos que não aparecem no contracheque como "bônus", mas que valem dinheiro real: férias remuneradas, 13º, FGTS, INSS pago pela empresa, aviso prévio, entre outros.

Quando você vira MEI, tudo isso some — e passa a ser sua responsabilidade se quiser reconstruir alguma dessas proteções.

Este guia foi feito para você comparar CLT e MEI de forma honesta, sem romantizar nenhum dos lados. Vamos mostrar como calcular quanto o MEI precisa faturar por mês só para empatar com um salário CLT, quais custos fixos entram nessa conta e quais perguntas você precisa responder antes de pedir demissão para abrir seu CNPJ.

Por que tantos trabalhadores CLT estão virando MEI

O dado é impressionante: aproximadamente três em cada dez microempreendedores individuais no país são ex-empregados com carteira assinada, totalizando perto de 5 milhões de trabalhadores que fizeram essa transição. As motivações são variadas — desemprego, insatisfação com salário, desejo de flexibilidade, oportunidades de renda extra que viraram atividade principal — mas o ponto em comum é a busca por mais autonomia e, na maioria dos casos, mais dinheiro no bolso.

O MEI é uma figura jurídica criada para formalizar quem trabalha por conta própria com faturamento anual limitado, pagando impostos de forma simplificada em uma guia única mensal. Para muita gente, sair da CLT e virar MEI é o passo natural depois de descobrir que pode prestar o mesmo serviço direto ao cliente final, sem o intermédio do empregador.

Só que quantidade não é qualidade. O crescimento acelerado de MEIs também esconde muitas histórias de gente que fez conta errada, faturou menos do que esperava, ficou sem reserva para férias e voltou correndo para o mercado formal — geralmente ganhando menos do que ganhava antes. Fazer o cálculo certo, antes de assinar a rescisão, evita esse tipo de dor de cabeça.

O que existe no salário CLT que desaparece no MEI

Antes de comparar valores, é preciso entender que salário CLT e faturamento MEI são coisas diferentes. O salário CLT é apenas a parte visível de um pacote maior. Veja o que costuma acompanhar a carteira assinada e que o MEI precisa bancar sozinho:

13º salário: todo trabalhador CLT recebe um salário extra por ano, pago em duas parcelas. Na prática, isso equivale a mais 8,33% em cima do salário mensal.

Férias remuneradas + 1/3 constitucional: o trabalhador CLT tem direito a 30 dias de descanso por ano recebendo o salário normal mais um adicional de um terço. Isso representa aproximadamente 11,11% a mais no ano.

FGTS: o empregador deposita mensalmente 8% do salário bruto em uma conta vinculada, que o trabalhador pode sacar em situações específicas como demissão sem justa causa, aposentadoria ou financiamento de imóvel.

INSS pago pela empresa: além do desconto que aparece no holerite (parte do empregado), a empresa também recolhe uma contribuição patronal sobre o salário. Esse valor não vai para o bolso do funcionário, mas garante seus direitos previdenciários integrais junto ao INSS.

Multa de 40% do FGTS em caso de demissão sem justa causa: funciona como uma indenização paga pela empresa quando decide encerrar o contrato sem motivo grave.

Outros benefícios comuns: vale-transporte, vale-refeição, plano de saúde, plano odontológico, seguro de vida, participação nos lucros. Não são obrigatórios em todos os casos, mas são muito comuns em vagas formais.

Quando você soma tudo isso, o custo real de um funcionário CLT para a empresa costuma ficar bem acima do salário nominal. E é justamente essa diferença que precisa entrar no cálculo de quem quer virar MEI.

Como calcular o "faturamento equivalente" que o MEI precisa ter

A regra prática é simples: para saber quanto você precisa faturar como MEI para empatar com um salário CLT, você precisa somar ao salário todos os benefícios que perderia e ainda incluir os custos que passariam a ser seus.

Um exemplo prático com salário de R$ 3.000

Vamos a um exemplo didático. Imagine um trabalhador CLT com salário bruto de R$ 3.000 por mês. Fazendo uma conta conservadora dos benefícios diretos:

  • Salário mensal: R$ 3.000
  • 13º diluído no mês (8,33%): cerca de R$ 250
  • Férias + 1/3 diluídas (11,11%): cerca de R$ 333
  • FGTS (8%): R$ 240
  • Média da multa rescisória provisionada (aprox. 3,2%): cerca de R$ 96

Só com esses itens, o "salário real" desse CLT já passa de R$ 3.900 por mês. E ainda não entraram vale-refeição, vale-transporte, plano de saúde nem a contribuição previdenciária patronal.

O que o MEI precisa somar do outro lado

Agora, do lado do MEI, esse mesmo trabalhador precisaria:

  1. Faturar pelo menos esse valor todo mês.
  2. Descontar a guia mensal do MEI (DAS), que reúne INSS, ICMS e/ou ISS conforme a atividade.
  3. Guardar por conta própria o equivalente ao 13º, às férias e ao FGTS, se quiser manter o mesmo padrão de vida e proteção.
  4. Pagar seus próprios benefícios: plano de saúde particular, transporte, alimentação, celular, internet e demais custos operacionais do trabalho.
  5. Considerar meses de faturamento baixo, ausência por doença e períodos sem clientes — porque MEI que não trabalha, não fatura.

Uma conta realista costuma mostrar que o MEI precisa faturar bem mais do que o salário CLT antigo — muitas vezes bem acima do valor original — só para manter o mesmo padrão de vida com a mesma proteção.

Se o faturamento ficar igual ao salário anterior, na prática houve perda de renda, ainda que a conta bancária pareça mais cheia no primeiro mês.

Custos e obrigações que o MEI precisa bancar sozinho

Além dos benefícios que somem, virar MEI traz obrigações e despesas que o CLT nem enxergava. Entre as principais:

Guia mensal (DAS-MEI): valor fixo mensal que reúne a contribuição ao INSS e o imposto estadual ou municipal, conforme a atividade. É baixo em relação a outros regimes tributários, mas precisa ser pago todo mês, independentemente de ter faturado ou não.

Declaração Anual (DASN-SIMEI): obrigação de declarar anualmente o faturamento à Receita Federal. Quem esquece paga multa.

Emissão de notas fiscais: obrigatória em vendas para empresas e recomendada em qualquer venda, para manter o controle.

Contribuição previdenciária limitada: a alíquota reduzida paga na guia do MEI dá direito à aposentadoria por idade pelo valor de um salário mínimo. Se o objetivo for se aposentar por tempo de contribuição ou com valor maior, é preciso pagar um complemento por conta.

Reserva de emergência maior: sem seguro-desemprego, sem multa de 40% do FGTS e sem estabilidade contratual, o MEI precisa de uma reserva financeira maior para atravessar meses ruins.

Contabilidade e organização financeira: ainda que a burocracia seja simples, o MEI precisa separar contas pessoais e do CNPJ, controlar entradas e saídas e planejar impostos. Sem isso, o "lucro" some sem explicação.

Quando compensa migrar de CLT para MEI (e quando não compensa)

Depois de fazer a conta, algumas situações costumam indicar que a migração tende a valer a pena:

  • Você já tem clientes garantidos que pagariam direto ao seu CNPJ um valor bem maior do que seu salário atual.
  • Sua atividade permite atender vários clientes ao mesmo tempo, aumentando o faturamento sem depender de um único contratante.
  • Você tem reserva de emergência para pelo menos seis meses de despesas fixas.
  • Você consegue disciplina para separar renda de faturamento e para provisionar 13º, férias e aposentadoria por conta própria.

Por outro lado, os sinais de alerta que sugerem repensar a mudança:

  • O único cliente do seu MEI seria a empresa em que você trabalha hoje (isso pode configurar "pejotização" e trazer risco trabalhista).
  • Você não tem reserva financeira e depende do salário para pagar as contas do próximo mês.
  • Seu faturamento estimado como MEI é apenas igual ao salário CLT — nesse caso, sem os benefícios embutidos, você estará perdendo dinheiro na prática.
  • Você tem plano de saúde pela empresa e precisa dele para dependentes ou tratamentos em andamento.
  • Está próximo de somar tempo suficiente para uma aposentadoria pelo INSS com valor maior do que o mínimo.

Conclusão: faça a conta com papel, caneta e realismo

A migração de CLT para MEI já mudou a vida de milhões de brasileiros — os quase 5 milhões de MEIs que já tiveram carteira assinada são a prova viva disso. Mas o sucesso dessa mudança depende menos de "coragem" e mais de uma conta bem feita.

Antes de pedir demissão, pegue seu holerite, some todos os benefícios diretos e indiretos, calcule quanto você precisaria faturar como MEI todo mês para manter o mesmo padrão de vida e projete três cenários: um otimista, um realista e um pessimista. Se, mesmo no cenário realista, o MEI ganhar mais e continuar protegido, a migração faz sentido. Se só o cenário otimista fecha a conta, o risco é grande demais.

Ser MEI é uma ferramenta poderosa de organização financeira e profissional — mas não é mágica. Ela recompensa quem planeja e pune quem improvisa. Faça a conta antes, não depois.

Referências

  • Sebrae — Pesquisa sobre perfil do Microempreendedor Individual no Brasil
  • Portal do Empreendedor (gov.br) — Regras gerais do MEI: DAS mensal (INSS, ICMS e/ou ISS) e obrigação da Declaração Anual (DASN-SIMEI)

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