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Consignado CLT: 74% dos tomadores têm mais de um empréstimo ativo

Levantamento Serasa mostra que 74% dos tomadores do Crédito do Trabalhador têm mais de um consignado ativo. Veja riscos e como se proteger.

RS

Ricardo Silva

📖 12 min de leitura

O novo consignado CLT, apelidado de Crédito do Trabalhador, nasceu com a promessa de baratear o crédito para quem tem carteira assinada. Mas um levantamento recente acendeu um sinal amarelo importante: a maioria absoluta de quem já contratou essa modalidade não tem apenas uma dívida ativa — tem várias. Segundo levantamento da Serasa, 74% dos tomadores do Crédito do Trabalhador aparecem com mais de um empréstimo em aberto simultaneamente. É um retrato relevante para uma modalidade tão nova, e mostra que a facilidade de contratar exige atenção redobrada com o orçamento antes de assinar o contrato.

Se você é CLT e está pensando em pegar consignado, ou já pegou e está começando a se perder nas parcelas, este guia foi feito para você. Vamos explicar o que esse dado significa na prática, como funcionam de verdade as regras do consignado privado, quais são os sinais clássicos de superendividamento e, principalmente, o que fazer para não cair — ou sair — dessa cilada. Tudo com linguagem direta, sem enrolação, e com base nas normas vigentes em 2026.

O que o dado de 74% realmente revela sobre o Crédito do Trabalhador

Quando três em cada quatro pessoas que contrataram uma modalidade de crédito têm mais de um empréstimo ativo ao mesmo tempo, o problema deixa de ser individual e passa a ser um alerta de mercado, segundo o levantamento da Serasa. Ter mais de uma operação em aberto não é ilegal e nem sempre é ruim — em alguns casos, o trabalhador está trocando uma dívida cara por uma mais barata, ou dividiu a contratação em dois bancos porque cada um ofereceu uma condição diferente. Mas quando isso vira padrão em 74% dos contratos, é sinal de que a maioria está usando o consignado CLT como reforço de caixa recorrente, e não como solução pontual.

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Esse comportamento é típico de quem já chegou ao consignado com o orçamento apertado. A pessoa contrata uma primeira parcela, sente um alívio imediato no bolso, mas em poucos meses o dinheiro volta a faltar — e ela contrata outra operação. Depois mais uma. Como as parcelas são descontadas direto na folha, o trabalhador não sente o peso mês a mês do jeito que sentiria em um boleto: o salário já cai reduzido, e a impressão é de que "está sobrando menos" em vez de "eu estou pagando muitas dívidas". Essa é a mecânica silenciosa que leva ao superendividamento.

Outro ponto importante: o Crédito do Trabalhador é uma modalidade recente. O fato de já haver um percentual tão alto de acúmulo de contratos em pouco tempo indica que o trabalhador CLT estava com demanda reprimida por crédito barato — e correu para tomar mais de um assim que a porta se abriu. O barateamento é bem-vindo, mas ele não resolve, sozinho, um problema estrutural de renda insuficiente ou de descontrole financeiro.

Como funciona o consignado CLT em 2026: regras que todo trabalhador precisa saber

Antes de falar em risco, é fundamental entender exatamente o que a lei permite hoje no consignado privado. Muita gente confunde as regras do CLT com as do INSS, e essa confusão é uma das portas de entrada do endividamento.

No consignado CLT, a margem consignável — ou seja, o pedaço do salário que pode ser comprometido com parcelas descontadas em folha — é de 35%. Esse é o teto. Se você ganha R$ 3.000, o máximo que pode sair automaticamente do seu contracheque para pagar consignado é R$ 1.050. Diferentemente do consignado do INSS, no CLT não existe hoje a modalidade de cartão consignado ou cartão benefício, então esses 35% inteiros ficam disponíveis exclusivamente para o empréstimo consignado.

O prazo máximo de pagamento é de 96 meses, ou seja, até 8 anos. É um prazo longo, o que reduz o valor da parcela mensal, mas aumenta significativamente o total pago em juros ao longo do tempo. Um erro comum é o trabalhador olhar apenas para o valor da parcela ("cabe no meu bolso") e ignorar o custo total do contrato ao longo dos 96 meses.

Comparando rapidamente com o consignado do INSS para evitar confusão: o INSS admite até 108 meses de prazo e 40% de margem total, sendo que 5% dessa margem ficam reservados exclusivamente para cartão benefício ou cartão consignado. Ou seja, aposentado e pensionista têm regras diferentes das do trabalhador CLT — não misture na hora de fazer conta.

O problema apontado pelo levantamento não está nas regras em si, que já limitam bem o comprometimento máximo do salário. O problema é que, mesmo dentro do teto legal, é possível fatiar o crédito em vários contratos, com bancos diferentes, e chegar ao limite dos 35% somando várias operações. Foi exatamente isso que aconteceu na maioria dos casos observados.

Por que acumular empréstimos consignados exige atenção

O consignado é oferecido como "crédito seguro" porque a taxa de juros é uma das mais baixas do mercado e o desconto em folha reduz o risco de inadimplência. Isso é verdade — do ponto de vista do banco. Do ponto de vista do trabalhador, acumular consignados tem três efeitos que precisam ser conhecidos:

1. Redução prolongada do salário líquido. Contratos de até 96 meses significam que aquele desconto na folha vai continuar aparecendo todo mês por até 8 anos. Se você contratou três operações em momentos diferentes, cada uma com um prazo longo, seu salário líquido só vai voltar ao normal daqui a muitos anos — período em que qualquer imprevisto (doença, redução de jornada, demissão) vira uma crise.

2. Perda do colchão de emergência. Comprometer 35% do salário com parcelas fixas significa viver com 65% do que se ganha, o mês inteiro, sem folga. Não sobra para poupar. E se não sobra para poupar, qualquer despesa inesperada — remédio, conserto de carro, escola — obriga a buscar mais crédito. Como o consignado já está no teto, a próxima parada costuma ser o cheque especial, o rotativo do cartão ou o crédito pessoal comum, todos muito mais caros. O consignado, que era para baratear a vida financeira, acaba puxando o trabalhador para dívidas ainda piores.

3. Risco em caso de demissão. Este é o ponto mais delicado do consignado CLT. Se o trabalhador for desligado, o saldo devedor não desaparece — ele precisa continuar sendo pago. Parte desse saldo pode ser retida da rescisão, e o restante vira dívida comum, cobrada normalmente. Ou seja, quem acumulou vários consignados enquanto tinha carteira assinada pode se ver, em caso de demissão, com uma rescisão praticamente zerada e várias dívidas para pagar sem salário fixo.

Esses três efeitos combinados são o combustível do superendividamento — situação em que a pessoa, mesmo pagando religiosamente as parcelas, não consegue mais manter o mínimo existencial (alimentação, moradia, saúde, transporte) sem contrair novas dívidas.

Sinais de alerta: como saber se você já está entrando no superendividamento

O superendividamento raramente chega de uma vez. Ele se instala aos poucos, e a pessoa costuma perceber tarde. Alguns sinais claros de que o consignado CLT está deixando de ser solução e virando problema:

  • Você contratou mais de um empréstimo consignado nos últimos 12 meses, cada um em um banco diferente, e já não lembra de cor quantas parcelas ainda faltam em cada contrato.
  • O valor descontado em folha, somando todos os consignados, está próximo ou já bateu no teto de 35% do salário.
  • Mesmo com o desconto em folha "organizando" as parcelas, você continua usando o cheque especial ou o rotativo do cartão para chegar até o fim do mês.
  • Você já pensou em contratar um novo empréstimo (consignado, pessoal ou de qualquer tipo) apenas para pagar as parcelas dos empréstimos anteriores.
  • Contas essenciais — luz, água, aluguel, condomínio, plano de saúde — começaram a atrasar depois que os descontos do consignado passaram a aparecer no contracheque.
  • Você evita abrir o aplicativo do banco ou olhar o contracheque com detalhe porque "prefere não saber".

Se você marcou dois ou mais desses itens, o alerta é sério. O dado da Serasa, de 74% de tomadores com múltiplos contratos ativos, indica que esse cenário está longe de ser exceção — é a regra entre quem usou o Crédito do Trabalhador. Reconhecer o problema cedo é o que separa quem consegue reorganizar as finanças em alguns meses de quem entra em um ciclo que pode durar anos.

Como evitar o superendividamento no consignado CLT

O consignado CLT continua sendo, dentro do universo do crédito, uma das opções mais baratas para o trabalhador com carteira assinada. O problema não está na ferramenta — está no uso. Algumas práticas ajudam a manter o consignado como aliado e não como armadilha:

Antes de contratar, some tudo o que já está descontado. Peça o contracheque atual e verifique quanto do seu salário já está comprometido com descontos obrigatórios (INSS, IR, plano de saúde, vale-transporte, etc.) e com descontos facultativos (outros consignados, associações, previdência privada). Só depois calcule quanto realmente sobra para novas parcelas dentro do limite de 35%.

Prefira um contrato bem estruturado a vários contratos pequenos. Quando o trabalhador contrata duas ou três operações separadas em bancos diferentes, ele geralmente paga taxas piores do que pagaria em uma única operação maior no banco mais competitivo. Além disso, controlar um contrato só é infinitamente mais simples do que controlar três.

Fuja do prazo máximo automático. Só porque o teto é de 96 meses não significa que você precisa contratar em 96. Prazos longos deixam a parcela pequena, mas quase dobram o custo total do dinheiro tomado. Sempre que o orçamento permitir, prefira um prazo menor.

Cuidado com portabilidade que "sobra troco". Um recurso comum é fazer a portabilidade do consignado para outro banco e, na mesma operação, aumentar o valor tomado. Muita gente sai do banco antigo devendo R$ 10 mil e chega no novo devendo R$ 20 mil — porque "sobrou uma graninha" que foi liberada no ato. Se o objetivo era reduzir a taxa de juros, faça só a portabilidade, sem o dinheiro extra.

Nunca use consignado para pagar consignado sem plano. Trocar dívida por dívida só faz sentido quando a nova operação reduz o custo total ou reorganiza o fluxo de caixa. Se for apenas para "empurrar com a barriga", o efeito é engordar a dívida.

Reserve mentalmente parte da margem. Uma boa prática é não comprometer os 35% inteiros logo de cara. Deixe uma folga, ainda que pequena, para o caso de precisar de uma operação de emergência mais barata no futuro. Quem já está no teto perdeu justamente a ferramenta mais barata do mercado.

Já está endividado? Veja o que fazer agora

Se você se reconheceu no perfil dos 74% com múltiplos contratos ativos e sente que a situação já saiu do controle, ainda há caminhos. O primeiro passo é o mais difícil e o mais importante: parar de contratar crédito novo. Enquanto entrar dinheiro novo, a conta nunca fecha.

Depois disso, faça um levantamento completo por escrito de todos os empréstimos ativos: banco, valor da parcela, número de parcelas restantes, saldo devedor e taxa de juros de cada um. Esse mapa é o que vai permitir tomar decisões racionais em vez de reagir no desespero.

Com o mapa em mãos, avalie três frentes:

Portabilidade de crédito. Você tem o direito de transferir seus contratos de consignado para outra instituição que ofereça taxa menor. A parcela cai, o prazo pode ser ajustado e o custo total diminui — desde que você não aproveite a portabilidade para pegar dinheiro extra.

Renegociação direta com o banco atual. Muitas instituições têm canais próprios para reestruturar contratos de clientes em dificuldade. Pode envolver alongamento de prazo, redução temporária de parcela ou consolidação de vários contratos em um só.

Lei do superendividamento. A legislação brasileira reconhece o superendividamento como situação jurídica e prevê mecanismos de repactuação coletiva das dívidas, preservando o mínimo existencial do consumidor. O Procon do seu estado é o canal público mais acessível para iniciar esse tipo de processo, e o atendimento é gratuito.

Se você recebe benefício assistencial e não CLT, atenção a um ponto que gera muita confusão: quem recebe BPC/LOAS pode, sim, fazer empréstimo consignado, pois não há vedação legal a esse tipo de contratação. O que ocorre atualmente é que, diante do alto volume de revisões e cessações desses benefícios, as instituições financeiras autorizadas recuaram na oferta prática, tornando a contratação mais difícil no dia a dia — mas o direito continua existindo. Isso vale como alerta: se alguém disser categoricamente que "BPC não pode consignado", a informação está incorreta.

Conclusão: crédito barato não é sinônimo de crédito seguro

O dado de que 74% dos tomadores do Crédito do Trabalhador têm mais de um empréstimo ativo é um espelho incômodo, mas necessário. Ele mostra que a modalidade cumpriu o papel de destravar acesso a crédito mais barato para o trabalhador CLT, mas também escancarou que grande parte do público chegou a essa porta já com o orçamento no limite — e usou o consignado para tapar buracos em vez de reorganizar a vida financeira.

As regras vigentes em 2026 são claras: até 35% de margem consignável e prazo máximo de 96 meses para o consignado CLT. Dentro desses limites, cabe ao trabalhador decidir se o consignado será uma ferramenta de organização ou o primeiro passo para o superendividamento. A diferença, na prática, está em três atitudes simples: planejar antes de contratar, evitar acumular vários contratos e nunca usar crédito novo para pagar crédito velho sem um plano bem definido.

Se você está pensando em contratar seu primeiro consignado CLT, use este momento para fazer as contas com calma. Se já tem um contrato ativo e está pensando no segundo, releia os sinais de alerta antes de assinar. E se já se encontra com múltiplas operações e sentindo o aperto, saiba que existem caminhos legais e gratuitos para reorganizar a situação — e que buscar ajuda cedo é o que faz toda a diferença.


Referências

  • Levantamento Serasa sobre o Crédito do Trabalhador (consignado CLT).
  • Seu Crédito Digital, 20/07/2026.

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