
Crédito imobiliário cresce 23% e move R$ 180,9 bi em 2026
Crédito imobiliário cresceu 23% no 1º semestre de 2026, com R$ 180,9 bi concedidos. Veja o que impulsionou o setor e como avaliar um financiamento.
Tatiana Botelho
O mercado de crédito para compra da casa própria vive um momento que muita gente não esperava. Em um cenário de juros básicos elevados, a expectativa natural seria de desaceleração — afinal, financiamento imobiliário costuma ser o primeiro a sentir quando o crédito fica caro. Só que os números do primeiro semestre de 2026 contam outra história: as concessões de crédito imobiliário cresceram 23% e movimentaram R$ 180,9 bilhões entre janeiro e junho, segundo dados de referência da Abecip e do Banco Central.
É um volume expressivo, que coloca o setor entre os principais motores da atividade econômica no ano e levanta uma pergunta legítima para quem sonha em comprar um imóvel: se o crédito habitacional está crescendo tanto assim com a Selic no patamar atual, é hora de entrar nesse mercado ou de esperar? Este texto explica, em linguagem direta, o que está impulsionando essa alta, por que os juros altos não travaram o setor como se imaginava e o que o trabalhador comum precisa avaliar antes de assinar um contrato de longo prazo.
Crédito imobiliário no 1º semestre de 2026: os números que surpreenderam
O ritmo do financiamento habitacional entre janeiro e junho foi o destaque do semestre no crédito às famílias. A alta de 23% na comparação com o mesmo período do ano anterior, somada ao volume de R$ 180,9 bilhões concedidos, mostra que a demanda por imóvel não recuou. Pelo contrário: manteve-se em um patamar acima do que o próprio mercado projetava no início do ano.
Para entender por que esse dado chama tanta atenção, é importante lembrar como funciona o crédito imobiliário. Diferente do consignado ou do cartão, o financiamento de imóvel envolve prazos longos, muitas vezes de 20, 25 ou até 35 anos. Quando o custo do dinheiro sobe, a parcela mensal sobe junto, e o comprador precisa comprometer uma fatia maior da renda para conseguir o mesmo imóvel. Em tese, isso deveria afastar boa parte dos interessados. Não foi o que aconteceu.
O crescimento veio combinado em duas frentes. De um lado, os financiamentos com recursos da poupança (o chamado SBPE), que atendem principalmente a classe média e imóveis de maior valor. De outro, os financiamentos do FGTS, que sustentam o programa habitacional para famílias de menor renda. As duas modalidades avançaram, o que sugere um movimento amplo, não concentrado em um único perfil de comprador.
Por que a Selic alta não travou o financiamento da casa própria
A primeira explicação é técnica: o crédito imobiliário no Brasil não é indexado diretamente à Selic da mesma forma que outras linhas. Grande parte dos contratos usa a Taxa Referencial (TR) mais um juro fixo, e outra parcela usa o próprio saldo da poupança como funding. Isso amortece o repasse imediato dos aumentos da taxa básica de juros para a prestação do financiamento habitacional. Ou seja: quando a Selic sobe, o consignado e o crédito pessoal reagem rápido; o financiamento imobiliário reage com atraso e de forma mais suave.
A segunda razão é comportamental. Comprar imóvel é uma decisão que muita família adia por anos. Quando surge estabilidade no emprego, um aumento de salário, uma herança ou o acúmulo de FGTS suficiente para a entrada, a decisão sai do papel — mesmo que o cenário macroeconômico não seja o ideal. O comprador de primeiro imóvel raramente escolhe o "melhor momento de mercado"; ele escolhe o momento em que a vida dele permite.
Um terceiro fator relevante é a valorização dos imóveis. Quando o preço dos apartamentos e casas sobe de forma consistente, comprar hoje pode sair mais barato do que esperar mais um ou dois anos. Muitos compradores estão fazendo essa conta e concluindo que, mesmo com juros altos, adiar a compra pode custar mais caro no total.
Por fim, há o papel do FGTS. Para o trabalhador de carteira assinada, o Fundo funciona como uma poupança forçada que só pode ser usada em situações específicas — e a compra do imóvel é uma delas. Com o saldo acumulado, o trabalhador consegue dar entrada, amortizar saldo devedor ou até pagar parte das parcelas, o que torna o financiamento viável mesmo em ciclos de juros altos.
O que muda para quem quer financiar um imóvel agora
Se o mercado está aquecido, isso significa que é o momento certo para o trabalhador comum entrar em um financiamento? A resposta honesta é: depende do bolso, não do noticiário. Um contrato de 20 ou 30 anos é uma das decisões financeiras mais longas da vida de uma pessoa e precisa ser avaliado com calma.
Algumas verificações são essenciais antes de assinar:
1. Comprometimento da renda. A regra prática mais usada pelos bancos é que a prestação não deve ultrapassar 30% da renda familiar. Passar disso significa apertar demais o orçamento e ficar exposto a qualquer imprevisto — desemprego, redução de jornada, gastos com saúde.
2. Estabilidade do emprego. Financiamento imobiliário não combina com renda instável. Se o trabalho é formal e consolidado, o risco cai. Se a renda oscila muito, vale acumular reserva antes de assumir o compromisso.
3. Uso do FGTS. Para o trabalhador CLT, o saldo do FGTS é uma ferramenta poderosa. Ele pode compor a entrada, ser usado para amortizar o saldo devedor a cada dois anos e, em algumas condições, abater parte das parcelas mensais. Fazer essa conta faz diferença real no custo total do imóvel.
4. Sistema de amortização. A escolha entre SAC (parcelas decrescentes) e Price (parcelas fixas) muda muito o total pago ao final. O SAC costuma ser mais barato no acumulado, mas começa com prestações mais pesadas. Vale simular antes de decidir.
5. Custo Efetivo Total (CET). A taxa "anunciada" pelo banco não é o custo real. É preciso comparar o CET, que inclui seguros, tarifas e demais encargos. Dois financiamentos com a mesma taxa de juros podem ter CET bem diferentes.
Aposentados, pensionistas e o crédito imobiliário: o que considerar
Uma dúvida comum entre o público de aposentados e pensionistas do INSS é se vale a pena, nessa fase da vida, entrar em um financiamento imobiliário longo. Aqui, cada caso é um caso. Alguns pontos merecem atenção:
- Prazos muito longos podem ir além da expectativa de vida contratual aceita pelo banco. Instituições costumam limitar a idade final do contrato, o que reduz o prazo disponível para quem já é aposentado.
- Financiamento imobiliário compete no orçamento com outras dívidas já contratadas, como o empréstimo consignado do INSS. Vale lembrar que, para aposentados e pensionistas, a margem consignável total é de 40% do benefício, sendo 5% reservados a cartão consignado ou cartão benefício. Se essa margem já está comprometida, assumir uma prestação de imóvel pode apertar demais o orçamento mensal.
- Para quem não tem imóvel próprio e paga aluguel, financiar ainda pode fazer sentido, especialmente se houver ajuda familiar ou uso do FGTS acumulado ao longo da vida laboral.
A conversa com um planejador financeiro ou com um funcionário do próprio banco, antes de assinar, evita arrependimentos.
O que esperar do crédito imobiliário no 2º semestre de 2026
O ritmo forte do primeiro semestre não garante repetição na segunda metade do ano. O comportamento das concessões nos próximos meses depende de fatores como a trajetória da Selic definida pelo Banco Central, o nível de emprego formal, o saldo da poupança (que é a principal fonte de recursos do SBPE) e a política do FGTS para habitação.
Se o cenário de juros começar a ceder, a tendência é de aceleração. Se, ao contrário, a Selic subir mais, os bancos podem apertar critérios de concessão, exigir entradas maiores e reduzir o prazo oferecido. Para quem já está com a decisão de compra amadurecida, esperar demais pode ser tão arriscado quanto entrar cedo em um contrato mal dimensionado.
Resumo prático para quem está pensando em financiar
O recado do primeiro semestre de 2026 é claro: mesmo com juros altos, muita gente está conseguindo comprar imóvel — porque planejou, porque usou o FGTS a favor, porque escolheu bem o prazo e o sistema de amortização, e porque não deixou a prestação estourar o orçamento.
Se a casa própria está nos seus planos, o próximo passo é objetivo: junte três meses de comprovantes de renda, verifique o saldo atualizado do seu FGTS, simule o financiamento em pelo menos três bancos diferentes comparando o Custo Efetivo Total e só depois assine. Um contrato bem dimensionado hoje vale mais do que esperar por um cenário perfeito que pode nunca chegar.
Referências
- Folha de São Paulo — Mercado (28/07/2026); dados de referência: Abecip / Banco Central — concessões de crédito imobiliário no 1º semestre de 2026 (R$ 180,9 bilhões; alta de 23% na comparação anual).
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