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Datafolha: cai uso de poupança e empréstimo em bets

Pesquisa Datafolha mostra queda no uso de poupança e empréstimo para apostar em bets, mas cresce a percepção de vício entre brasileiros. Veja o que mudou.

TB

Tatiana Botelho

📖 13 min de leitura

As apostas online — as chamadas bets — entraram de vez na rotina financeira do brasileiro nos últimos anos, e os efeitos disso começam a aparecer com mais clareza nas pesquisas de opinião. Um novo levantamento Datafolha realizado em maio trouxe dois movimentos que, juntos, ajudam a entender o tamanho do problema: caiu a fatia de apostadores que tira dinheiro da poupança ou faz empréstimo para bancar as jogadas, mas, ao mesmo tempo, aumentou a percepção da população de que as bets estão criando uma onda de vício no país.

Esses dois indicadores podem parecer contraditórios à primeira vista, mas conversam diretamente. Eles mostram que parte dos apostadores começou a ajustar o bolso depois do susto do ano passado — quando o tema explodiu no debate público —, mas também revelam que a sociedade passou a enxergar com mais clareza o estrago que as bets podem fazer na vida financeira e emocional das famílias. Para quem vive de salário, aposentadoria ou benefício do INSS, entender esse cenário é essencial antes de decidir se vale (ou não) arriscar parte da renda em plataformas de aposta. Neste guia, você vai entender o que a pesquisa mostrou, por que esses números mudaram, quais são os sinais de alerta financeiro e como proteger o orçamento de uma dívida silenciosa que pode crescer rápido.

O que a nova pesquisa Datafolha revelou sobre as bets no Brasil

O levantamento foi feito em maio e ouviu eleitores em todo o país sobre hábitos de aposta, frequência de uso de plataformas online e a forma como esses gastos são financiados. O recorte principal do estudo aponta para uma mudança no comportamento de quem joga: a parcela de apostadores que disse ter recorrido à poupança ou contratado empréstimo para colocar dinheiro nas bets ficou menor do que em pesquisas anteriores. Em paralelo, a fatia de brasileiros que enxerga as apostas online como um vício preocupante cresceu, segundo o Datafolha.

Esse duplo movimento é importante porque desmonta uma leitura simplista do tema. Não se trata apenas de "menos gente apostando" — trata-se de como se aposta, com que dinheiro se aposta e como o restante da sociedade percebe esse fenômeno.

Além da mudança nas fontes de dinheiro usadas para apostar, o estudo também investigou a relação entre o hábito de jogar e o impacto no orçamento doméstico. Entre os apostadores, ainda há um grupo expressivo que admite ter cortado outras despesas para manter as apostas, o que ajuda a explicar por que economistas e pesquisadores da área de proteção ao consumidor seguem tratando o tema como uma questão de educação financeira urgente.

Vale lembrar o contexto em que essa pesquisa aparece. Desde o fim de 2024 e ao longo de 2025, o setor de apostas online passou por um pente-fino regulatório, com regras mais duras de funcionamento, exigência de credenciamento das empresas autorizadas a operar no Brasil e fiscalização sobre publicidade. Esse novo ambiente provavelmente influenciou tanto o comportamento dos apostadores quanto a leitura que a sociedade faz sobre as bets.

Por que menos brasileiros estão tirando dinheiro da poupança ou pegando empréstimo para apostar

A queda no uso de poupança e crédito para alimentar contas em sites de aposta tem várias explicações possíveis. A primeira é o efeito da educação financeira informal que circulou nas redes sociais e na imprensa nos últimos meses. O debate público em torno das bets — com relatos de pessoas que perderam economias, atrasaram contas básicas ou comprometeram o salário inteiro em jogadas — funcionou como um alerta concreto para muita gente que estava começando a apostar.

A segunda explicação tem a ver com o aperto do orçamento. Em famílias de renda mais baixa, simplesmente não sobra mais dinheiro na poupança para ser sacado e jogado. O custo de vida pressionou o consumo, e a margem para "experimentar" apostas com reserva financeira ficou menor. Ou seja: parte da queda pode não significar maturidade — pode significar que as pessoas já não têm a sobra que tinham antes.

A terceira explicação envolve o crédito. Com o juro do cartão, do cheque especial e do crédito pessoal nas alturas, pegar empréstimo para apostar virou um péssimo negócio matemático. Quem fez essa conta percebeu rápido que, mesmo ganhando em uma jogada, perderia tudo no juro do mês seguinte. O empréstimo consignado, modalidade mais barata disponível no mercado para aposentados, pensionistas e trabalhadores CLT, deveria ser usado para necessidades reais — reforma, dívida cara, saúde, emergência familiar —, e nunca como combustível para apostas.

Há ainda um quarto fator: as restrições de pagamento. Plataformas de aposta autorizadas a operar no Brasil passaram a seguir regras mais rígidas sobre meios de pagamento, com bloqueios que dificultam, por exemplo, o uso de cartões de crédito em depósitos. Isso, na prática, diminuiu o caminho mais perigoso — o de apostar com dinheiro que ainda não é seu, e sim do banco.

Mesmo com essa queda, o alerta continua: qualquer dinheiro tirado da reserva de emergência, da poupança da família ou de um empréstimo para virar aposta é, do ponto de vista financeiro, uma decisão de altíssimo risco e baixíssima probabilidade de retorno consistente.

A percepção de vício em bets cresceu — e isso muda o debate

O outro lado da pesquisa é talvez o mais importante para entender o futuro do tema no Brasil. Mesmo com menos gente usando crédito para apostar, a percepção de que as bets são um vício cresceu na população, segundo o Datafolha. Isso indica que o problema deixou de ser visto como "um exagero de alguns" e passou a ser tratado, por parte significativa do país, como uma questão coletiva — de saúde mental, de proteção familiar e de defesa do orçamento das casas mais vulneráveis.

Esse tipo de mudança de percepção costuma anteceder novas ondas de regulação. Quando a sociedade enxerga um produto como capaz de causar dano social — como já aconteceu historicamente com cigarro, com bebida alcoólica e com agiotagem digital —, o ambiente político fica mais favorável a regras mais duras: limites de aposta, restrição à propaganda, proibição de figuras públicas em campanhas, exigência de avisos sobre risco de dependência e até bloqueios para perfis com sinais de comportamento compulsivo.

Para o leitor que vive de salário ou de benefício do INSS, essa mudança de clima tem um efeito prático. Empresas autorizadas tendem a se ajustar e oferecer ferramentas de autoexclusão, limites diários de depósito e canais de denúncia. Vale conhecer esses recursos antes que a aposta vire um problema. Quem sente que perdeu o controle deve procurar ajuda especializada — há serviços públicos de atendimento psicológico e grupos de apoio voltados especificamente para jogadores compulsivos.

O crescimento da percepção de vício também serve como aviso para familiares. Pais, filhos e cônjuges são, muitas vezes, os primeiros a perceber que algo está fora do lugar: contas atrasadas, sumiço de dinheiro, mentiras sobre gastos, isolamento, irritabilidade. Falar abertamente sobre o tema dentro de casa é uma das formas mais eficazes de impedir que a aposta vire dívida — e que a dívida vire uma crise familiar.

Quanto as bets pesam no orçamento das famílias brasileiras

Uma das maiores preocupações de economistas que acompanham o setor é o peso que as apostas online passaram a ter na composição do gasto mensal das famílias, especialmente entre quem recebe até dois ou três salários mínimos. Estudos do Banco Central já mostraram, ao longo dos últimos meses, que valores expressivos saíram via Pix para contas de empresas de aposta, com forte presença de transferências feitas em dias próximos ao pagamento do salário ou do benefício previdenciário.

A nova pesquisa Datafolha entra nesse debate ao mostrar que, embora menos gente esteja usando crédito e poupança, o gasto recorrente com bets continua presente no orçamento de muitos brasileiros. Isso significa que o dinheiro continua saindo — só está saindo da renda do mês, e não mais da reserva ou de empréstimos. Para uma família que já vive no limite, redirecionar 50, 100 ou 200 reais por mês para apostas pode significar atrasar a conta de luz, deixar de comprar um remédio ou ficar sem fundo para uma emergência.

Uma forma simples de medir se a aposta está prejudicando seu orçamento é olhar para três itens: a conta básica (luz, água, aluguel, supermercado), a reserva de emergência e a dívida. Se alguma dessas três áreas está sendo sacrificada para manter as apostas, o problema já começou. A regra de ouro da educação financeira é clara: aposta é entretenimento, não é renda. Quem trata bet como fonte de dinheiro está, na prática, escolhendo uma das modalidades mais caras de lazer que existem — porque, em média, sai sempre no prejuízo.

Aposentados e pensionistas precisam redobrar a atenção. O benefício previdenciário não é um salário comum: ele costuma ser a única renda da pessoa idosa e, frequentemente, sustenta também filhos e netos dentro de casa. Comprometer o benefício do INSS com apostas é colocar em risco a comida, o remédio e a moradia da família inteira.

Por que usar empréstimo consignado ou crédito para apostar é uma armadilha financeira

O empréstimo consignado é, hoje, a linha de crédito mais barata disponível para aposentados, pensionistas do INSS, servidores públicos e trabalhadores com carteira assinada. Por ter desconto direto na folha ou no benefício, o risco para o banco é menor — e o juro cobrado também. Justamente por isso, ele deve ser tratado como um recurso de uso responsável: serve para trocar uma dívida cara por uma mais barata, para cobrir uma emergência médica, para uma reforma necessária ou para realizar algo planejado. Nunca deve ser usado para apostar.

Quem pega consignado para colocar em bet entra em uma equação perversa. O dinheiro do empréstimo cai na conta em valor cheio, mas o desconto da parcela vai correr todo mês, por muitos meses, no benefício ou no salário. Se a aposta perde — que é o desfecho estatístico mais provável —, a pessoa fica sem o dinheiro e com a parcela descontando da renda. O efeito é cumulativo: o orçamento aperta, vem o atraso de outra conta, e aí entra o cartão de crédito, o cheque especial e, em pouco tempo, uma bola de neve.

O mesmo raciocínio vale para crédito pessoal, cartão de crédito, cheque especial e antecipação de salário. Todos esses produtos têm juros muito mais altos que o consignado e amplificam o prejuízo da aposta. A queda no uso de empréstimo para apostar, apontada pelo Datafolha, é uma boa notícia justamente porque indica que esse alerta começou a ser ouvido.

Se você já está em uma situação assim — com parcelas de empréstimo descontando do INSS e gastos com apostas no mês —, o primeiro passo é parar de apostar imediatamente. O segundo é organizar todas as dívidas no papel: valor, juro, parcela e prazo. O terceiro é avaliar se vale negociar com o banco, pedir portabilidade do consignado para uma taxa menor ou procurar atendimento gratuito de defesa do consumidor. Há canais públicos e programas de renegociação que podem ajudar.

Como identificar sinais de que as bets estão prejudicando sua vida financeira

Nem sempre o problema com aposta aparece de cara como vício. Muitas vezes, ele começa de forma silenciosa: um depósito pequeno aqui, outro ali, uma promessa de "recuperar o que perdi" no próximo mês. Por isso, vale ficar atento a sinais concretos de que o hábito virou risco:

  • Você passou a apostar com dinheiro destinado a contas básicas (luz, água, supermercado, aluguel).
  • Já recorreu a empréstimo, cartão de crédito ou cheque especial para fazer um depósito.
  • Mente para a família sobre quanto gasta com apostas.
  • Sente irritação, ansiedade ou angústia quando passa um tempo sem apostar.
  • Aposta tentando "recuperar" perdas anteriores.
  • Diminuiu o tempo com trabalho, estudo, família ou lazer por causa das jogadas.
  • Já atrasou conta ou parcela por causa de gasto com bet.

A presença de dois ou mais desses sinais já justifica buscar ajuda. Existem serviços públicos de saúde mental que atendem comportamento compulsivo, e há grupos de apoio gratuitos voltados especificamente para jogadores. Falar com alguém de confiança, expor a situação financeira e pedir ajuda para reorganizar o orçamento são passos que mudam vidas.

No lado prático do dinheiro, algumas medidas simples ajudam a quebrar o ciclo: tirar o aplicativo da bet do celular, retirar os meios de pagamento cadastrados na plataforma, ativar limites diários de depósito, configurar autoexclusão nos sites em que joga e pedir a um familiar de confiança que acompanhe o extrato. Para quem recebe benefício do INSS, vale também conferir periodicamente o desconto em folha, evitando contratações por telefone ou via redes sociais — situações que costumam estar associadas a fraudes contra aposentados.

Conclusão: o que esse novo cenário das bets significa para o seu bolso

A pesquisa Datafolha de maio joga luz sobre um momento de virada na relação do brasileiro com as bets. De um lado, há sinais de que o aprendizado começou: menos gente está usando poupança ou empréstimo para apostar, o que mostra que o debate público teve efeito. De outro, cresce a percepção de que as apostas online estão criando um problema coletivo de vício, o que tende a abrir espaço para regras ainda mais duras nos próximos meses.

Para o trabalhador CLT, para o aposentado e para o pensionista do INSS, a mensagem prática é direta: aposta nunca deve ser tratada como investimento, como complemento de renda ou como saída para dívida. Quem joga, joga por entretenimento — e entretenimento se paga com a sobra do orçamento, jamais com a reserva, com o salário inteiro ou com crédito.

Se você sentiu que alguma parte deste texto descreve a sua situação, o próximo passo é colocar tudo no papel: quanto entra de renda, quanto sai em contas fixas, quanto está indo para apostas e quanto está indo para parcelas de empréstimo. Esse simples exercício costuma ser o ponto de partida para retomar o controle. E, se as parcelas do consignado estão pesando, vale procurar alternativas legítimas de renegociação, portabilidade e organização financeira antes que o problema cresça. As bets vão continuar existindo — mas o seu orçamento, a sua família e a sua tranquilidade têm que vir sempre em primeiro lugar.

Referências

  • Pesquisa Datafolha de 20-21 de maio sobre bets e jogos online.
  • Folha de São Paulo — Mercado (cobertura do impacto financeiro das apostas online em famílias brasileiras).

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