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Empreender após os 60 pode triplicar renda do aposentado, diz Sebrae

Estudo do Sebrae com base na PNAD Contínua mostra que aposentados que formalizam o negócio triplicam a renda. Veja o que avaliar antes de abrir MEI.

AC

Anderson Coelho

📖 8 min de leitura

A ideia de que a aposentadoria é o fim da vida produtiva vem sendo derrubada por um movimento silencioso: milhões de brasileiros com mais de 60 anos estão empreendendo — e muitos deles estão ganhando bem mais do que ganhavam antes. Um novo estudo do Sebrae, elaborado a partir dos microdados da PNAD Contínua do IBGE referentes ao quarto trimestre de 2025, mostra que empreendedores sêniores que formalizam sua atividade chegam a triplicar a renda em comparação aos que permanecem na informalidade.

O dado interessa diretamente a quem recebe aposentadoria pelo INSS e sente que o benefício, sozinho, não dá conta do orçamento — cenário comum principalmente para quem se aposentou pelo teto mínimo. Antes de abrir um CNPJ, porém, é preciso entender o que o estudo revela, quais cuidados tomar para não perder direitos e como a formalização impacta a rotina financeira de quem já é aposentado. É isso que este guia explica em linguagem direta.

O que o estudo do Sebrae revelou sobre o empreendedor sênior

O levantamento, intitulado "Empreendedorismo Sênior sob a ótica da PNAD Contínua", olhou para o comportamento dos brasileiros com 60 anos ou mais que atuam por conta própria. O principal achado é claro: o simples ato de sair da informalidade e passar a atuar com CNPJ — seja como Microempreendedor Individual (MEI), seja como pequena empresa — está associado a uma renda substancialmente maior.

Segundo o presidente do Sebrae, Rodrigo Soares, a formalização deixou de ser burocracia e se tornou uma verdadeira alavanca de renda para quem tem mais de 60 anos, ampliando o acesso a crédito, a contratos com empresas maiores e à possibilidade de emitir notas fiscais. Em outras palavras: o aposentado que formaliza consegue vender para clientes que a informalidade não alcança.

A base de dados usada — a PNAD Contínua do IBGE do 4º trimestre de 2025 — é a mesma pesquisa oficial que serve de referência para as estatísticas do mercado de trabalho no país. Isso dá peso ao recorte: não se trata de uma amostra pequena ou de uma percepção isolada, mas de um retrato amplo do que está acontecendo com o trabalhador idoso brasileiro.

Outro ponto que chama atenção é o perfil desse empreendedor. Boa parte não começou a trabalhar por conta própria depois dos 60 — muitos já tinham uma atividade paralela ou uma prestação de serviço informal antes de se aposentar e, ao receber o benefício do INSS, decidiram profissionalizar aquilo que faziam "por fora". A aposentadoria, nesse caso, funciona como uma renda de segurança que dá coragem para investir no próprio negócio.

Aposentado pode abrir MEI? O que muda no benefício do INSS

Essa é a dúvida número um de quem lê o estudo e pensa em seguir o mesmo caminho: "se eu abrir uma empresa, posso perder minha aposentadoria?". A resposta curta é: não. Quem já recebe aposentadoria por idade, por tempo de contribuição ou por outras modalidades pode, sim, continuar trabalhando e abrir uma empresa — inclusive como MEI — sem perder o benefício mensal pago pelo INSS.

Há, porém, alguns pontos práticos que o aposentado precisa considerar antes de decidir:

  • Contribuição obrigatória do MEI. Ao virar Microempreendedor Individual, o aposentado passa a recolher a contribuição mensal do MEI, que já inclui o INSS. Como ele já é aposentado, essa contribuição não gera uma nova aposentadoria, mas continua sendo devida enquanto o CNPJ estiver ativo.
  • Imposto de Renda. Somar a aposentadoria com o faturamento como pessoa física (o "pró-labore" ou a retirada de lucros) pode empurrar o aposentado para uma faixa maior do Imposto de Renda. Vale fazer as contas antes.
  • Aposentadoria por invalidez. Este é o único caso mais delicado. Quem recebe aposentadoria por incapacidade permanente (a antiga aposentadoria por invalidez) precisa ter cautela: voltar a exercer atividade remunerada pode motivar uma revisão do benefício. Nesses casos, o ideal é conversar com o INSS antes de formalizar qualquer negócio.
  • BPC/LOAS não é aposentadoria. É importante não confundir: quem recebe o Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS), pago a idosos de baixa renda, tem regras específicas de renda familiar. Abrir uma empresa e passar a ter faturamento pode fazer o titular perder o direito ao BPC, porque o benefício é assistencial e leva em conta a renda per capita do grupo familiar.

Em resumo: para o aposentado "tradicional" do INSS, empreender é liberado e não coloca o benefício em risco. Para quem está em situações específicas (invalidez ou BPC), é preciso avaliar caso a caso.

Por que a formalização triplica a renda: os motivos práticos

O número impressiona — renda três vezes maior —, mas ele não é mágica. Existem razões concretas para essa diferença tão grande entre quem trabalha informalmente e quem formaliza a atividade após os 60. Vale entender cada uma, porque são justamente essas vantagens que o aposentado passa a acessar quando decide dar o passo.

1. Acesso a clientes maiores. Empresas de médio e grande porte, órgãos públicos e até condomínios exigem nota fiscal para contratar serviços. Sem CNPJ, o profissional fica restrito a clientes pessoa física e a contratos pequenos. Com CNPJ, o mesmo trabalho vira contrato recorrente.

2. Crédito com juros mais baixos. O empreendedor formalizado consegue crédito no CNPJ, com linhas específicas para pequenos negócios, geralmente com taxas menores do que as do crédito pessoal. Isso muda o jogo para quem quer comprar um equipamento, um veículo de trabalho ou reformar um ponto comercial.

3. Participação em compras públicas. Prefeituras, estados e órgãos federais contratam microempresas em processos simplificados. Sem CNPJ ativo, o aposentado nem sequer pode participar.

4. Precificação melhor. Quem emite nota consegue cobrar mais caro pelo mesmo serviço, porque agrega profissionalismo, previsibilidade e formalidade contratual — atributos valorizados pelo mercado.

5. Escala. O informal geralmente atua sozinho, no boca a boca. O formalizado consegue contratar um ajudante, terceirizar tarefas e, com isso, atender mais clientes no mesmo mês.

Quando o Sebrae fala em "triplicar a renda", está capturando o efeito combinado desses cinco fatores. Não é um bônus por ter CNPJ; é o acesso a um mercado inteiro que a informalidade não alcança.

Como o aposentado do INSS pode dar o primeiro passo com segurança

Empreender depois dos 60 exige uma dose extra de cuidado, porque o aposentado costuma trabalhar com um capital menor e menos tempo para "recuperar" um erro. Alguns passos ajudam a fazer essa transição com o pé no chão:

Comece pelo que você já sabe fazer. O estudo do Sebrae mostra que boa parte dos empreendedores sêniores atua em áreas em que já tinha experiência prévia — costura, culinária, serviços gerais, cabeleireiro, transporte, artesanato, aulas particulares. Isso reduz o risco, porque você não está aprendendo uma profissão nova; está formalizando algo que já domina.

Teste antes de investir alto. Antes de gastar economias ou usar o consignado do INSS para bancar um negócio, valide se existe cliente disposto a pagar pelo seu produto ou serviço. Comece pequeno, atenda amigos e vizinhos, ajuste o preço e só depois pense em ampliar.

Abra MEI se o faturamento couber no limite. O MEI é a porta de entrada mais simples: cadastro gratuito, contribuição mensal fixa e obrigações reduzidas. Para a maioria dos aposentados que estão começando, é o formato ideal. Se o negócio crescer e superar o limite anual permitido para MEI, aí sim vale migrar para Microempresa (ME).

Evite misturar as contas. Um erro clássico é usar a aposentadoria para pagar as despesas da empresa (e vice-versa). Abra uma conta separada, mesmo que seja uma conta digital gratuita, e trate o negócio como algo separado do orçamento doméstico.

Cuidado com o crédito. O empreendedor sênior que precisa de capital de giro deve avaliar as opções com calma. O empréstimo consignado do INSS existe e pode ser uma alternativa, mas comprometer parte da aposentadoria com parcelas fixas por vários anos exige planejamento. Só faça isso se o retorno esperado do negócio for claramente superior ao custo do crédito.

Procure apoio gratuito. O próprio Sebrae oferece cursos, mentorias e atendimento gratuitos para quem quer começar. Aproveitar essa estrutura antes de investir dinheiro é uma das formas mais baratas de evitar erros.

O recado que fica

O estudo do Sebrae com base na PNAD Contínua do 4º trimestre de 2025 traz uma mensagem importante para o aposentado brasileiro: ganhar mais depois dos 60 é possível, e a formalização é a chave que abre essa porta. Triplicar a renda não é promessa de enriquecimento rápido — é o resultado natural de sair da informalidade e passar a operar dentro das regras, com acesso a crédito, a clientes maiores e a contratos que antes eram inacessíveis.

Para quem depende da aposentadoria do INSS e sente o aperto no fim do mês, a decisão de empreender pode ser transformadora. Mas ela precisa vir com informação, planejamento e cautela: escolher a atividade certa, entender o impacto no benefício, cuidar do fluxo de caixa e evitar dívidas desnecessárias. Feito com calma, o empreendedorismo sênior deixa de ser plano B e vira o que o próprio dado mostra — uma das formas mais eficazes de melhorar de vida na terceira idade.

Referências

  • Sebrae — Estudo "Empreendedorismo Sênior sob a ótica da PNAD Contínua".
  • IBGE — PNAD Contínua, 4º trimestre de 2025.
  • Declaração de Rodrigo Soares, presidente do Sebrae.

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