
Endividamento das famílias em 81,6%; atraso médio cai
Peic mostra que 81,6% das famílias estão endividadas, mas o tempo médio de atraso caiu. Veja o que muda no bolso de quem ganha até 3 salários.
Tatiana Botelho
Se você olha para o extrato do cartão e sente que 'todo mundo está devendo', a estatística confirma essa sensação — mas com uma novidade importante. A pesquisa mais recente sobre endividamento no Brasil mostra que 81,6% das famílias estão com algum tipo de dívida em aberto. O número praticamente estacionou em relação aos meses anteriores, o que já é um sinal de que a bola de neve parou de crescer.
A parte que quase ninguém está notando é ainda mais interessante: mesmo com o total de endividados alto, o tempo médio de atraso das contas caiu, e um número maior de famílias entrou no grupo dos 'pouco endividados'. Ou seja: as pessoas continuam devendo, mas estão devendo menos e conseguindo pagar mais rápido do que antes.
Neste guia, você vai entender exatamente o que mudou no perfil da dívida do brasileiro, por que esse movimento é especialmente relevante para quem ganha até 3 salários mínimos, e o que fazer, na prática, para aproveitar esse cenário de folga — ainda que pequena — no orçamento.
O que diz a pesquisa de endividamento e por que o dado de 81,6% importa
O indicador que serve de termômetro para as finanças das famílias brasileiras mostrou que 81,6% dos lares têm hoje pelo menos uma dívida em aberto — considerando cartão de crédito, carnê, financiamento de casa, de carro, crédito pessoal, consignado e cheque especial. É um patamar historicamente elevado, mas que parou de subir.
Esse 'estacionamento' é mais importante do que parece. Nos ciclos anteriores de aperto financeiro, quando a taxa de endividamento passava dos 80%, ela costumava continuar crescendo por meses seguidos, empurrando famílias para a inadimplência. Desta vez, o número simplesmente travou — e alguns componentes por trás dele começaram a melhorar.
Os principais pontos que ajudam a explicar o quadro atual são:
- Cartão de crédito segue como o vilão nº 1, respondendo pela maior fatia das dívidas das famílias.
- O tempo médio de atraso caiu, mostrando que quem atrasa está regularizando a situação mais rápido do que no ano passado.
- Cresceu o grupo que se declara 'pouco endividado', ou seja, com dívidas dentro de um limite considerado administrável pelo próprio orçamento.
- Diminuiu a fatia de quem se diz 'muito endividado', o que sugere alívio na ponta mais frágil.
Esse conjunto de sinais indica que, mesmo com o cartão pressionando, uma parte relevante das famílias está conseguindo renegociar, quitar parcelas antigas e organizar melhor o orçamento — sobretudo com a ajuda de programas de renegociação e do uso mais consciente do crédito consignado, que tem juros bem menores que o rotativo do cartão.
Por que a queda no tempo de atraso é a notícia mais relevante do mês
Quando se fala em endividamento, existe uma diferença enorme entre 'ter dívida' e 'estar inadimplente'. Ter dívida significa que existe uma parcela a pagar no futuro — pode ser o financiamento da casa, um consignado bem estruturado, o cartão parcelado sem juros. Já estar inadimplente é quando a parcela venceu e não foi paga, e é aí que o nome vai para os cadastros de restrição e o crédito futuro fica mais caro (ou fecha de vez).
A queda no tempo médio de atraso indica justamente que, entre as famílias que se atrapalharam com alguma conta, um número maior está conseguindo pagar dentro do próprio mês, sem deixar a dívida 'envelhecer'. Isso muda o jogo por três motivos:
- Menos juros acumulados. No cartão de crédito, o rotativo é uma das linhas de crédito mais caras do país. Cada mês a mais de atraso multiplica a dívida. Sair do atraso em 30 dias, em vez de 90, pode significar uma dívida final muito menor.
- Nome limpo mais rápido. Quanto menos tempo o CPF fica negativado, menor o impacto em contratações futuras (aluguel, financiamento, plano de celular pós-pago, cartão novo).
- Recuperação do acesso ao crédito bom. Quem regulariza rápido volta antes a ter acesso a linhas de juros menores, como o consignado do INSS e o consignado CLT, evitando cair de novo no rotativo do cartão.
Ou seja, o atraso médio menor mostra que a educação financeira do brasileiro está, aos poucos, avançando: em vez de deixar o problema crescer, mais gente está tratando a dívida como prioridade dentro do mês em que ela vence.
O impacto no bolso das famílias que ganham até 3 salários mínimos
O grupo que ganha até 3 salários mínimos concentra a maior parte das famílias endividadas no país e é o mais sensível a qualquer variação nas contas fixas — energia, aluguel, transporte, alimentação, remédio. Para esse público, a leitura do cenário atual precisa ser feita com pé no chão.
O que melhorou:
- O comprometimento com dívidas parou de crescer no ritmo dos meses anteriores.
- A parcela das famílias que se declara 'muito endividada' recuou, o que costuma indicar renegociações concluídas.
- O tempo em atraso é menor, o que reduz o total de juros pagos no fim das contas.
O que ainda preocupa:
- O cartão de crédito continua sendo a principal fonte de dívida, e é justamente a linha mais cara do mercado.
- Para quem ganha até 3 salários, uma única conta médica ou um conserto do carro ainda são suficientes para desorganizar o orçamento do mês.
Na prática, o recado para quem está nessa faixa é: aproveite o momento de leve folga para atacar a dívida mais cara primeiro. Se o seu maior peso é o rotativo do cartão de crédito ou o cheque especial, essas duas linhas devem ser o alvo número um. Elas cobram, tradicionalmente, taxas de juros muito acima do consignado, do crédito pessoal comum e até do parcelamento direto com a loja.
Uma estratégia que tem funcionado para muitas famílias é substituir a dívida cara por uma mais barata. Aposentados e pensionistas do INSS, por exemplo, podem usar o consignado com margem total de 40% do benefício — sendo que, se não houver cartão consignado ou cartão benefício contratado, os 40% inteiros ficam disponíveis para o empréstimo, com prazo de até 108 meses e carência de até 90 dias para a primeira parcela. Já o trabalhador CLT tem hoje acesso ao consignado privado com margem de 35% e prazo de até 96 meses. São linhas com juros menores que costumam servir para quitar cartão e cheque especial de uma vez, trocando uma dívida cara por outra bem mais barata.
O que fazer agora para melhorar o seu perfil de dívida
O cenário está mais favorável para renegociar. Bancos e financeiras, de olho na melhora no perfil de pagamento das famílias, tendem a oferecer condições melhores para quem procura regularizar a situação antes de virar inadimplente 'antigo'. Veja o passo a passo prático:
1. Faça uma lista de todas as dívidas. Escreva no papel ou no celular: nome do credor, valor total, juros cobrados, valor da parcela e data de vencimento. Só de enxergar tudo junto, muita gente já descobre onde está o rombo real.
2. Ranqueie da mais cara para a mais barata. O rotativo do cartão e o cheque especial costumam vir no topo. Financiamento imobiliário e consignado, na base. Ataque primeiro a mais cara.
3. Negocie com o próprio credor antes de aceitar qualquer oferta de fora. Muitos bancos oferecem descontos agressivos no valor da dívida (às vezes 50% ou mais) para quem propõe quitar à vista ou em poucas parcelas.
4. Considere programas oficiais de renegociação. O Programa Desenrola Brasil, do Ministério da Fazenda, já ajudou milhões de pessoas a limpar o nome com condições especiais e é um caminho a acompanhar de perto, verificando no site oficial as condições vigentes e o público-alvo atual.
5. Só troque dívida cara por dívida barata — nunca o contrário. Se for pegar um consignado para quitar cartão, ótimo. Se for pegar mais cartão para pagar cartão, é armadilha.
6. Reserve pelo menos 5% da renda para começar uma reserva. Sem colchão, qualquer imprevisto joga a família de volta na dívida cara. Comece pequeno, mas comece.
Atenção a uma informação que circula errada: muita gente ouve por aí que 'quem recebe BPC/LOAS não pode fazer empréstimo consignado'. Isso é incorreto. Por lei, o BPC/LOAS pode, sim, ser usado para consignado — o que acontece hoje é que, diante do volume elevado de revisões e cessações desse benefício, várias instituições recuaram na oferta prática dessa modalidade. Ou seja: é permitido por lei, mas atualmente a disponibilidade nas instituições financeiras está reduzida.
Resumo prático: o que levar dessa notícia para o seu orçamento
O endividamento das famílias brasileiras continua alto, em 81,6%, mas parou de subir e mostra sinais de melhora no perfil das dívidas: menos gente 'muito endividada', mais gente 'pouco endividada' e atrasos mais curtos. Para quem ganha até 3 salários mínimos, esse é o momento certo para atacar as dívidas caras primeiro — cartão de crédito e cheque especial — e, quando fizer sentido, substituí-las por linhas com juros menores, como o consignado.
O próximo passo é simples e cabe hoje: pegue papel e caneta, liste todas as suas dívidas com valores e juros, e escolha UMA para renegociar esta semana. Não precisa ser a maior — precisa ser aquela que, uma vez resolvida, vai te dar fôlego imediato no orçamento do mês. É assim, uma decisão de cada vez, que se sai do vermelho.
Referências
- Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) — Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
- Programa Desenrola Brasil — Ministério da Fazenda.
Comentários (0)
Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!
Deixe seu comentário
📩 Gostou? Receba mais como este
Novidades sobre consignado e FGTS toda semana.