Mulher estilosa com sacolas de compras caminhando em uma área urbana, sorrindo vibrante.

Endividamento dos mais pobres é por necessidade, diz estudo

Pesquisa Nexus/BTG mostra que famílias de baixa renda se endividam para pagar contas básicas como luz, comida e remédio — e não por consumismo.

TB

Tatiana Botelho

📖 9 min de leitura

A imagem do brasileiro endividado por gastar demais em roupa, celular ou viagem começa a cair por terra quando se olha para quem realmente carrega as maiores dívidas do país. Uma pesquisa feita pela Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, encomendada pelo BTG Pactual, aponta que o endividamento das famílias de baixa renda no Brasil tem uma origem muito diferente do consumismo: é motivado por necessidades básicas do dia a dia.

O retrato desenhado pelo levantamento é duro. Enquanto o discurso público costuma culpar o endividado por falta de controle ou por consumo por impulso, o que os dados mostram é uma população que recorre ao cartão de crédito, ao carnê, ao cheque especial e a empréstimos porque o salário simplesmente não fecha o mês. A dívida, nesse caso, não é um sinal de descontrole — é uma ferramenta de sobrevivência.

Se você se sente preso em um ciclo de contas, juros e parcelas que não terminam, este texto vai te ajudar a entender por que isso acontece com tanta gente, o que a pesquisa revela sobre o perfil desse endividamento e, principalmente, quais caminhos existem para sair da armadilha dos juros altos usando modalidades de crédito mais baratas, como o consignado.

O que mostra a pesquisa sobre o endividamento dos mais pobres

O levantamento da Nexus/BTG olhou para o comportamento financeiro das famílias brasileiras com renda mais baixa e identificou que a maior parte das dívidas contratadas por esse grupo tem como destino contas essenciais. Estamos falando de gastos como conta de luz, conta de água, aluguel, alimentação, medicamentos, gás de cozinha e material escolar dos filhos.

Esse é um ponto importante porque muda completamente a forma como se enxerga o problema. Uma família que se endivida para comprar comida no supermercado não está gastando mal — está com renda insuficiente. E quando o salário não cobre o básico, a única saída acaba sendo o crédito, geralmente o mais caro disponível: cartão de crédito rotativo, cheque especial e crediário de loja.

Outro dado relevante que emerge desse tipo de estudo é a diferença de perfil entre classes. Famílias de renda mais alta também se endividam, mas normalmente por outros motivos: financiamento de imóvel, financiamento de carro, viagens, reformas. Já a base da pirâmide se endivida para não deixar faltar o essencial. Isso explica por que, mesmo com dívidas menores em valor absoluto, os mais pobres sofrem muito mais com o peso dos juros — porque contratam as modalidades mais caras do mercado e pagam por muito mais tempo do que gostariam.

O estudo também joga luz sobre um efeito perverso desse ciclo: quem entra endividado por necessidade tende a permanecer endividado. Como a dívida original foi contratada para tapar um buraco do orçamento que não se fechou, o mês seguinte chega com o mesmo buraco — só que agora acrescido dos juros da dívida anterior. É a chamada bola de neve, e ela não é fruto de má administração, mas de renda estruturalmente insuficiente.

Por que o consumismo não é a principal causa do endividamento

A narrativa de que o brasileiro se endivida por consumismo é confortável para quem não vive esse dia a dia, mas os números da pesquisa Nexus/BTG mostram que ela não se sustenta quando se olha para as camadas mais pobres da população. Consumo supérfluo até existe, é claro, mas não é o motor principal do endividamento nessa faixa de renda.

Existem alguns fatores estruturais que ajudam a entender por que a dívida por necessidade domina o cenário:

1. Inflação de alimentos e energia. Nos últimos anos, os itens que mais pesaram na inflação foram justamente os que a família de baixa renda mais consome: comida, luz, gás, transporte. Quando o preço do arroz, do óleo e da carne sobe, quem ganha um salário mínimo sente muito mais do que quem ganha dez salários.

2. Renda que não acompanha o custo de vida. Reajustes salariais raramente empatam com a inflação real da cesta básica. Isso corrói o poder de compra e obriga a família a completar o orçamento com crédito.

3. Ausência de reserva de emergência. Quem mal fecha o mês não consegue guardar dinheiro. Qualquer imprevisto — um remédio caro, um conserto, uma consulta particular, o desemprego de alguém da casa — vira dívida imediatamente, porque não há colchão financeiro para absorver o susto.

4. Trabalho informal e renda instável. Uma parcela grande da população de baixa renda vive de bico, autônomo ou informal. Meses bons se alternam com meses ruins, e o crédito acaba sendo o instrumento para atravessar os meses fracos.

Esses quatro elementos, somados, criam o ambiente perfeito para o endividamento por necessidade. E é por isso que discursos de educação financeira do tipo "basta apertar o cinto e cortar o cafezinho" não funcionam para essa realidade: não há cafezinho a cortar. Há renda a mais para conquistar e dívida cara a substituir por dívida barata.

Como sair do endividamento por necessidade sem piorar a situação

Se a raiz do problema é estrutural, a saída também precisa ser prática e realista. Ninguém sai de uma dívida por necessidade fazendo mágica, mas existem passos concretos que reduzem o peso dos juros e devolvem fôlego ao orçamento.

Passo 1: Mapear todas as dívidas. Antes de qualquer decisão, pegue papel e caneta (ou uma planilha simples no celular) e liste todas as dívidas: com quem você deve, quanto deve, qual a taxa de juros e quantas parcelas faltam. Só de fazer esse mapeamento, a maioria das pessoas descobre que está pagando juros absurdos em uma ou duas dívidas específicas — geralmente cartão de crédito rotativo e cheque especial, as duas modalidades mais caras do mercado.

Passo 2: Atacar primeiro as dívidas mais caras. A ordem para quitar não é pelo tamanho da dívida, mas pela taxa de juros. Uma dívida de R$ 500 no rotativo do cartão cresce mais rápido do que uma dívida de R$ 2.000 em um crediário de eletrodoméstico. Priorize pagar as dívidas de juros altos e negocie prazos maiores nas de juros baixos.

Passo 3: Trocar dívida cara por dívida barata. Esse é o ponto-chave. Se você tem dívidas caras (cartão, cheque especial, agiota) e tem acesso a uma linha de crédito mais barata, faz todo sentido trocar. É aqui que o crédito consignado entra como ferramenta importante para aposentados, pensionistas do INSS e trabalhadores com carteira assinada.

Passo 4: Renegociar diretamente. Bancos e financeiras têm hoje canais próprios de renegociação. Feirões como o Desenrola já mostraram que é possível fechar dívidas antigas com descontos expressivos. Nunca aceite a primeira proposta — contraproponha e peça condições melhores.

Passo 5: Reconstruir o orçamento com a nova parcela. Depois de trocar a dívida cara pela mais barata, é fundamental caber a nova parcela dentro do orçamento. Se a parcela nova continuar sufocando o mês, o ciclo recomeça.

Consignado como alternativa mais barata para quem tem direito

Para quem recebe aposentadoria ou pensão do INSS, ou trabalha com carteira assinada, o empréstimo consignado costuma ser a modalidade de crédito mais barata disponível no mercado. As taxas são menores do que as do cartão de crédito, do cheque especial e do crédito pessoal comum porque a parcela é descontada diretamente do benefício ou do salário, o que reduz o risco para a instituição financeira.

Se você é aposentado ou pensionista do INSS, as regras oficiais em vigor em 2026 são as seguintes:

  • Prazo máximo: 108 meses para pagar.
  • Margem consignável total: 40% do valor do benefício. Desses 40%, 5% ficam reservados apenas para cartão benefício e/ou cartão consignado.
  • Se você tem algum cartão (benefício ou consignado) contratado, sobram 35% de margem para o empréstimo consignado.
  • Se você não tem nenhum cartão contratado, pode usar os 40% inteiros para o empréstimo consignado.
  • Carência para a primeira parcela: até 90 dias após a contratação.

Se você é trabalhador CLT com carteira assinada, as regras são:

  • Prazo máximo: 96 meses.
  • Margem consignável: 35% do salário, integralmente destinada ao empréstimo (não existe modalidade de cartão nesse formato hoje).

Um caso que precisa ser esclarecido é o de quem recebe o Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS). Muita gente ouve por aí que "quem recebe BPC não pode fazer consignado" — e isso está errado. Por lei, o BPC/LOAS pode ser usado para empréstimo consignado; não há vedação legal. O que acontece na prática é que, no cenário atual de 2026, com o aumento de revisões e cessações desse tipo de benefício, as instituições financeiras autorizadas recuaram na oferta desse crédito para esse público. Ou seja: é permitido por lei, mas a disponibilidade prática está reduzida no momento. Vale consultar o banco onde você recebe o benefício antes de assumir que não tem direito.

Usar o consignado para trocar dívidas caras (como as do cartão de crédito) por uma parcela menor e mais previsível pode aliviar bastante o orçamento apertado — desde que a nova parcela realmente caiba no bolso e não vire mais um peso mensal fixo por longos anos.

O que a pesquisa Nexus/BTG muda no debate sobre educação financeira

O grande mérito do levantamento é forçar uma conversa mais honesta sobre o endividamento no Brasil. Enquanto o problema for tratado como culpa individual — "se endividou porque quis", "gastou mais do que ganha", "falta educação financeira" —, as políticas públicas e as ofertas do mercado vão continuar mirando o alvo errado.

Educação financeira é fundamental, ninguém discute. Mas ela precisa ser oferecida com uma dose de realidade: ensinar a fazer orçamento não resolve o problema de quem ganha R$ 1.500 e tem R$ 1.800 de despesas essenciais. Nesses casos, o caminho passa por acesso a crédito mais barato, renegociação de dívidas antigas, ampliação da renda (formalização, qualificação, novos bicos) e uso consciente das linhas que existem para o perfil do trabalhador ou do aposentado.

Para o leitor que está nessa situação hoje, o próximo passo prático é este: liste suas dívidas, identifique quais têm juros mais altos, verifique se você tem margem para contratar um consignado (INSS ou CLT) e simule a troca. Em muitos casos, uma única operação de crédito mais barato substitui três ou quatro dívidas caras e devolve fôlego imediato ao orçamento. Não resolve a raiz do problema — que é a renda —, mas compra tempo para reorganizar a vida financeira sem afundar em juros que crescem todo mês.

Referências

  • Pesquisa Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, encomendada pelo BTG Pactual, sobre endividamento de famílias de baixa renda no Brasil (divulgada em julho de 2026).
  • Regras vigentes do empréstimo consignado para beneficiários do INSS, trabalhadores CLT e beneficiários do BPC/LOAS, conforme normativos do INSS e legislação aplicável em 2026.

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