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Fotografia aérea impressionante da paisagem urbana de São Paulo, Brasil.

Endividamento em SP atinge pior nível em 4 anos, diz Peic

Pesquisa Peic/FecomercioSP aponta que cerca de 80% das famílias da capital paulista estão endividadas, pior nível em 4 anos. Veja como sair do vermelho.

TB

Tatiana Botelho

📖 12 min de leitura

O orçamento das famílias paulistanas está mais apertado do que em qualquer outro momento dos últimos quatro anos. Levantamento mensal sobre endividamento e inadimplência do consumidor mostra que cerca de 8 em cada 10 famílias da capital de São Paulo terminaram o mês com algum tipo de dívida em aberto — o pior resultado para o indicador desde 2022, segundo a Peic/FecomercioSP. O dado acende um alerta: não se trata mais de um problema pontual de quem perdeu o emprego, e sim de um movimento amplo, que atinge desde famílias de baixa renda até trabalhadores formais de classe média.

Se você está nesse grupo, este conteúdo foi feito para te ajudar a entender, em linguagem simples, por que o endividamento subiu, quais são as dívidas que mais fazem estrago no bolso, como identificar se sua situação é de risco e, principalmente, qual o passo a passo realista para sair do vermelho — incluindo quando vale (e quando NÃO vale) usar um empréstimo consignado para reorganizar as contas.

O retrato do endividamento das famílias em SP

O indicador acompanhado mensalmente na capital paulista considera endividada toda família que tem pelo menos uma conta a prazo em aberto: cartão de crédito parcelado, carnê de loja, financiamento de carro ou casa, crédito pessoal, cheque especial, crédito consignado ou cartão de loja. Pela metodologia, basta ter uma dessas dívidas para entrar na conta — mesmo que esteja sendo paga em dia.

E é justamente esse universo que cresceu. A proporção de famílias endividadas na capital chegou a aproximadamente 80% do total, marcando o pior nível em quatro anos. Em paralelo, subiu também o percentual das famílias que se declaram sem condições de pagar as contas em atraso — ou seja, aquelas que não conseguem enxergar um caminho para quitar o que devem dentro do orçamento atual, segundo a mesma pesquisa.

Dois pontos chamam atenção. Primeiro: a alta atingiu famílias de todas as faixas de renda, mas foi mais intensa nas faixas mais baixas, que dependem do crédito para fechar o mês. Segundo: cresceu o tempo médio de atraso, sinal de que muita gente deixou de pagar há mais de 90 dias e já entrou na lista de devedores dos birôs de crédito.

Na prática, isso significa que o problema não está só em "ter dívida" — quase todo brasileiro tem alguma —, mas em não conseguir mais encaixar a parcela no salário. Essa é a linha que separa o endividamento saudável do endividamento perigoso.

Por que o endividamento atingiu o pior nível em 4 anos

O endividamento é resultado de uma equação simples: de um lado, o quanto entra de renda; do outro, o quanto sai de despesa fixa, despesa variável e parcelas de dívida. Quando o segundo lado cresce mais rápido do que o primeiro, o cartão de crédito e o cheque especial entram como "tapa-buraco". É esse o cenário do paulistano hoje.

Alguns fatores explicam o agravamento recente:

  • Custo de vida pressionado. Itens de peso no orçamento das famílias — como alimentação fora de casa, conta de luz, aluguel e transporte — têm subido e corroído a sobra mensal.
  • Juros do crédito livre em patamar elevado. Mesmo quando a taxa básica recua, modalidades como cartão rotativo e cheque especial continuam entre as mais caras do mercado.
  • Renda real estagnada em parte das famílias. Para quem depende de salário mínimo, benefício do INSS ou trabalho informal, o ganho mensal não acompanhou o aumento das despesas básicas, encurtando a margem para imprevistos.
  • Uso do cartão como extensão do salário. Cresceu a parcela de famílias que usa o cartão de crédito não para parcelar uma compra grande, mas para pagar mercado, farmácia e contas de casa — comportamento que empurra a dívida para o mês seguinte sem reduzir o problema.

A combinação desses elementos fez o paulistano chegar ao fim de 2026 com mais contas a prazo, parcelas maiores e menos folga para absorver qualquer susto, como uma emergência médica ou um conserto inesperado em casa.

Cartão de crédito, cheque especial e os vilões do orçamento

Nem toda dívida é igual. Para entender se o seu endividamento é saudável ou está virando bola de neve, é fundamental separar as modalidades por custo (juros cobrados) e por finalidade (o que você comprou).

As modalidades mais caras — e que mais aparecem no bolso do paulistano endividado — são:

  1. Cartão de crédito rotativo. Acontece quando você paga menos do que o valor total da fatura. O saldo restante entra no rotativo, com uma das maiores taxas de juros do mercado brasileiro. Hoje, por norma do Conselho Monetário Nacional, o rotativo só pode durar um ciclo: depois disso, o banco é obrigado a oferecer parcelamento. Ainda assim, o parcelamento da fatura segue caro.
  2. Cheque especial. É o limite que cobre o saldo negativo da conta corrente. Cobra juros altos e diários. Usado por mais de alguns dias por mês, vira um dos buracos mais difíceis de fechar.
  3. Crédito pessoal sem garantia. Concedido por bancos e fintechs, costuma ter juros menores que cartão e cheque especial, mas ainda elevados se comparado a modalidades com garantia.
  4. Carnê de loja e cartão de loja. Embora pareçam "fáceis", podem embutir taxas altas e multas pesadas em caso de atraso.

Do outro lado, existem dívidas com custo controlado e finalidade produtiva: financiamento imobiliário (constrói patrimônio), financiamento estudantil e, em alguns casos, o empréstimo consignado — que tem a menor taxa do mercado por ser descontado direto na folha ou no benefício.

A regra prática é: dívida cara, de curto prazo e usada para pagar consumo do dia a dia é a que mais empurra a família para o vermelho. É nela que está o foco do enxugamento.

Como saber se você está endividado de forma perigosa

Muita gente convive com parcelas no orçamento sem saber se está em zona segura ou em zona de risco. Existem alguns sinais claros — e um deles é praticamente um diagnóstico.

Faça a seguinte conta: some todas as parcelas mensais de dívida (cartão parcelado, crediário, empréstimo, financiamento de carro, consignado, etc.) e divida pela sua renda líquida mensal. Se o resultado for:

  • Até 30%: comprometimento considerado dentro do tolerável pela maior parte dos especialistas em orçamento doméstico.
  • Entre 30% e 50%: zona de atenção. Qualquer imprevisto pode te jogar para o atraso.
  • Acima de 50%: zona de alto risco. O orçamento já está estruturalmente apertado e tende a se deteriorar.

Além do percentual, há outros sinais de alerta que indicam que a dívida virou bola de neve:

  • Pagar o mínimo da fatura do cartão de crédito por mais de um mês seguido.
  • Usar o cheque especial todo mês para fechar a conta.
  • Fazer um empréstimo para quitar outro empréstimo, sem reorganizar o orçamento.
  • Atrasar contas básicas (luz, água, aluguel) para pagar dívidas de cartão.
  • Estar com o nome negativado em birôs como SPC, Serasa ou Boa Vista.

Reconhecer o estágio é o primeiro passo. Quem está em zona de atenção ainda consegue se reorganizar sozinho. Quem está em zona de risco precisa de um plano mais agressivo de troca de dívida cara por dívida barata e, em muitos casos, de renegociação.

Passo a passo para sair do vermelho

Não existe mágica para quitar dívidas — existe método. O caminho que mais funciona para o trabalhador CLT, o aposentado do INSS e a família de baixa renda segue cinco etapas claras:

1) Faça o raio-X completo das dívidas. Liste, em uma folha ou planilha, todas as dívidas: a quem você deve, o valor total atualizado, a taxa de juros, o número de parcelas restantes e o valor de cada parcela. Sem essa visão, qualquer plano fica no chute.

2) Priorize quitar a dívida mais cara primeiro. A regra de ouro é atacar pelo juro, não pelo valor total. Cheque especial e rotativo do cartão devem ser eliminados antes de qualquer outra coisa, mesmo que a parcela pareça pequena. Enquanto eles existirem, o buraco continua crescendo.

3) Negocie diretamente com o credor. Bancos, financeiras e lojas têm canais oficiais de negociação. Em muitos casos, é possível conseguir desconto de juros e multas em troca de pagamento à vista ou de parcelamento mais longo. Vale acompanhar também a abertura de mutirões de renegociação promovidos por órgãos como a Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor) e o Procon.

4) Troque dívida cara por dívida barata. Essa é a manobra mais poderosa para quem tem acesso a crédito com garantia. Quitar o rotativo do cartão usando um crédito de juros menores reduz drasticamente o custo total da dívida. É aqui que o consignado pode entrar — desde que respeitando limites, como veremos no próximo tópico.

5) Refaça o orçamento doméstico. Sem mexer nas despesas mensais, a dívida volta. Corte assinaturas pouco usadas, reveja plano de celular e internet, evite o cartão para o mercado e estabeleça um teto de gasto por categoria. O ideal é criar uma sobra mensal mínima de 10% da renda para começar uma reserva de emergência — mesmo que pequena no início.

Esse passo a passo parece simples, mas funciona. O erro mais comum é tentar resolver o problema pegando mais crédito sem mudar o comportamento de gasto. Nesse caso, a dívida volta — só que maior.

Quando o empréstimo consignado pode ajudar (e quando NÃO pode)

Entre todas as modalidades de crédito disponíveis para o trabalhador formal e o beneficiário do INSS, o empréstimo consignado é, em regra, a mais barata. Isso porque a parcela é descontada direto na folha de pagamento ou no benefício, o que reduz o risco para a instituição financeira e permite juros menores.

Para o aposentado e pensionista do INSS, as regras vigentes em 2026 são:

  • Prazo máximo de 108 meses para quitar o empréstimo.
  • Margem consignável total de 40% do valor do benefício, sendo 5% reservados exclusivamente para cartão benefício e/ou cartão consignado.
  • Se o aposentado tiver algum cartão (benefício ou consignado) já contratado, o empréstimo consignado fica com até 35% de margem.
  • Se não tiver nenhum cartão, os 40% inteiros podem ser usados para o empréstimo consignado INSS.
  • A primeira parcela pode vencer em até 90 dias após a contratação, dando fôlego para a reorganização.

Para o trabalhador CLT (carteira assinada), as regras atuais são:

  • Prazo máximo de 96 meses.
  • Margem consignável de 35% do salário, integralmente destinada ao empréstimo (não existe cartão consignado nessa modalidade hoje).

O consignado faz sentido como ferramenta de troca de dívida: quem está pagando juros altos no cartão ou no cheque especial pode quitar essas dívidas com um consignado e ficar com uma única parcela, muito menor e com prazo definido. Não faz sentido, por outro lado, usar o consignado para gastar mais ou para cobrir despesas de consumo que não estão dentro do orçamento — nesse caso, ele só adia o problema.

Um ponto importante: quem recebe o Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS) — benefício assistencial pago pelo INSS — pode, por lei, contratar empréstimo consignado. Existe muita informação equivocada circulando de que o beneficiário do BPC estaria proibido de pegar crédito consignado, e isso não é correto. O que ocorre no cenário atual é diferente: por causa do alto volume de revisões e cessações desse tipo de benefício, muitas instituições autorizadas recuaram na oferta do consignado para BPC/LOAS. Ou seja, é permitido por lei, mas a disponibilidade prática junto aos bancos está reduzida. Antes de fechar a contratação, o beneficiário precisa consultar diretamente a instituição.

Como evitar voltar ao endividamento

Quitar a dívida é metade do trabalho. A outra metade é não voltar para o vermelho — algo que, segundo o próprio comportamento histórico das famílias brasileiras, costuma acontecer em menos de 12 meses se nada mudar no orçamento.

Algumas atitudes simples reduzem fortemente o risco de recaída:

  • Crie uma reserva de emergência. O alvo inicial é guardar o equivalente a um mês de despesas básicas. Esse colchão evita ter que recorrer a cartão ou cheque especial diante de um imprevisto.
  • Use o cartão como meio de pagamento, não como crédito. Se você não pode pagar à vista, em regra não pode pagar parcelado: a parcela vira despesa fixa do mês seguinte e empilha.
  • Evite o rotativo a todo custo. Pagar o mínimo da fatura é a porta de entrada mais rápida para o endividamento perigoso.
  • Reveja contratos recorrentes. Streaming, academia, planos de celular, seguros e clubes de assinatura tendem a inchar com o tempo e podem ser reduzidos sem perda real de qualidade de vida.
  • Negocie antes de atrasar. Procurar o banco no primeiro mês de aperto é muito mais fácil do que negociar depois de três meses de atraso e com o nome negativado.
  • Desconfie de oferta de crédito fácil por mensagem. Golpes que se passam por bancos, fintechs e até pelo INSS cresceram. Contratação de crédito deve ser feita apenas pelos canais oficiais da instituição — aplicativo, site oficial ou agência.

O endividamento das famílias paulistanas no pior nível em quatro anos é, antes de tudo, um sinal de que o orçamento doméstico precisa voltar para o centro da rotina. Olhar para o extrato, listar as dívidas, atacar primeiro a mais cara, trocar juros altos por crédito mais barato (quando fizer sentido) e manter o cartão como meio de pagamento — e não como salário antecipado — é o que separa quem fica preso na bola de neve de quem consegue voltar ao azul nos próximos meses.

Se o seu caso é de comprometimento acima de 50% da renda, com cartão no rotativo e cheque especial ativo, o próximo passo é claro: pare de assumir novas parcelas hoje, procure o seu banco para abrir uma negociação e, se for aposentado, pensionista ou CLT, simule um consignado apenas como ferramenta de troca de dívida. Pequenas decisões nas próximas semanas valem mais do que qualquer corte heróico daqui a seis meses.


Referências

  • Peic – Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor / FecomercioSP (divulgação de novembro/2026).

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