← Voltar ao blog
gold statue of man raising his hands

FGTS atrasado impede empresa de distribuir lucros aos sócios

Empresas em débito com o FGTS ficam proibidas por lei de distribuir lucros e dividendos a sócios e diretores. Veja o que muda para o trabalhador e como cobrar.

RS

Ricardo Silva

📖 8 min de leitura

Muitos trabalhadores de carteira assinada só descobrem que o FGTS não está sendo depositado pelo empregador quando vão pedir o saque por demissão, financiar um imóvel ou conferir o extrato do Fundo de Garantia. O que pouca gente sabe é que a falta de recolhimento do FGTS não prejudica apenas o empregado: ela trava também a vida financeira da própria empresa. Pela legislação brasileira, companhias em débito com o Fundo de Garantia ficam impedidas de distribuir lucros e dividendos aos sócios, diretores e administradores. Ou seja, enquanto o dinheiro do trabalhador não entra na conta vinculada, os donos do negócio também não podem retirar lucros legalmente. Neste guia, vamos explicar como essa regra funciona, em quais situações ela é aplicada, o que muda para o empregado e quais são os caminhos para cobrar o depósito que está em atraso.

O que diz a lei sobre FGTS atrasado e distribuição de lucros

A regra que liga o pagamento do FGTS à distribuição de lucros está prevista na Lei nº 4.357/1964, em seu artigo 32, e foi reforçada pela própria Lei do FGTS (Lei nº 8.036/1990). Pelo texto legal, pessoas jurídicas em débito com o Fundo de Garantia, com a Previdência Social ou com tributos federais não podem distribuir quaisquer bonificações a seus acionistas, dar ou atribuir participação de lucros a sócios, cotistas, diretores e demais membros de órgãos dirigentes.

Na prática, isso significa que a empresa que deixa de recolher o FGTS dos empregados não pode pagar dividendos, retiradas pró-labore extraordinárias, bônus ou participação nos resultados aos seus sócios enquanto a dívida não for quitada ou parcelada. A regra vale para todos os tipos de sociedade: limitadas (LTDA), sociedades anônimas (S.A.), empresas de pequeno porte e até microempresas que tenham empregados registrados.

O objetivo do legislador foi claro: impedir que os donos do negócio recebam lucros enquanto deixam de pagar direitos trabalhistas básicos, como o depósito de 8% sobre o salário do trabalhador na conta do FGTS, conforme determina a Lei nº 8.036/1990.

Quem é atingido quando a empresa está em débito com o FGTS

A proibição de distribuir lucros atinge diretamente os sócios e administradores da empresa, e não o trabalhador comum. Veja quem fica impedido de receber valores enquanto houver atraso no FGTS:

  • Sócios e cotistas de sociedades limitadas, que não podem receber distribuição de lucros e dividendos;
  • Acionistas de sociedades anônimas, que ficam impedidos de receber bonificações;
  • Diretores, gerentes e membros de conselhos com poder de decisão sobre a empresa, que não podem receber participação extraordinária nos resultados;
  • Titulares de empresa individual (EIRELI e equivalentes), no que se refere a retiradas que configurem distribuição de lucro.

Além disso, descumprir essa regra gera consequências sérias. A própria Lei nº 4.357/1964 prevê multa que pode chegar a 50% do valor distribuído indevidamente, aplicada tanto à empresa quanto aos administradores que autorizaram o pagamento. Em casos mais graves, a falta de recolhimento de FGTS combinada com retirada de lucros pode reforçar pedidos de desconsideração da personalidade jurídica em ações trabalhistas, atingindo o patrimônio pessoal dos sócios.

O trabalhador perde a PLR se o FGTS estiver atrasado?

Aqui é preciso fazer uma distinção importante: a Participação nos Lucros e Resultados (PLR) paga ao trabalhador é diferente da distribuição de lucros aos sócios. A PLR do empregado é regida pela Lei nº 10.101/2000 e nasce de acordo coletivo ou convenção específica entre empresa e empregados.

A proibição da Lei nº 4.357/1964 atinge a distribuição de lucros aos donos do negócio. Ela não revoga, automaticamente, o direito do trabalhador à PLR pactuada em acordo coletivo. Em outras palavras: se o sindicato ou o acordo interno estabelece o pagamento da PLR ao empregado, esse direito segue válido, ainda que a empresa esteja em débito com o FGTS. O que a empresa não pode é repassar lucros aos sócios enquanto a dívida com o Fundo de Garantia não for regularizada.

O ponto de atenção é outro: empresas que deixam de pagar o FGTS costumam estar em situação financeira frágil, o que pode resultar em atraso de salários, da própria PLR e até de outras verbas trabalhistas. Por isso, ao identificar problemas no recolhimento do FGTS, vale acompanhar de perto o pagamento de todos os direitos.

Como saber se o FGTS está sendo depositado corretamente

O trabalhador tem direito de acompanhar mês a mês os depósitos do FGTS e não precisa esperar a demissão para descobrir um atraso. As principais formas de consulta são oficiais e gratuitas:

  1. Aplicativo FGTS, disponível para celulares Android e iPhone, operado pela Caixa Econômica Federal, que é o agente gerenciador do Fundo;
  2. Site da Caixa, na área específica do Fundo de Garantia, com acesso ao extrato completo da conta vinculada;
  3. Internet Banking da Caixa, para quem é correntista;
  4. Atendimento presencial em uma agência da Caixa, mediante apresentação de documento com foto e Carteira de Trabalho.

O depósito do FGTS deve ser feito até o dia 20 de cada mês, referente ao salário do mês anterior. Quando essa data cai em fim de semana ou feriado, o prazo é antecipado para o dia útil imediatamente anterior, conforme regras da Caixa. Se o trabalhador notar que um mês ficou sem depósito, sem o valor correto (8% sobre a remuneração, ou 2% para contrato de aprendiz) ou com lançamentos estranhos, há indício de irregularidade.

O que fazer quando o FGTS não foi depositado

Identificar o problema é o primeiro passo. Depois disso, o trabalhador conta com canais oficiais para exigir a regularização sem precisar, num primeiro momento, contratar advogado. Os caminhos recomendados são:

  • Denúncia ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE): pode ser feita pelo portal gov.br, de forma anônima ou identificada. O MTE é responsável por fiscalizar o cumprimento da legislação trabalhista, incluindo o recolhimento correto do FGTS.
  • Comunicação à Caixa Econômica Federal: como agente operador do Fundo, a Caixa também recebe denúncias e pode iniciar procedimento de cobrança administrativa contra a empresa.
  • Reclamação na Justiça do Trabalho: o trabalhador pode ajuizar ação para cobrar os depósitos não realizados, com correção e multa. O prazo para cobrar judicialmente os valores não recolhidos é de cinco anos, respeitado o limite de dois anos após o fim do contrato de trabalho.
  • Sindicato da categoria: muitos sindicatos prestam assistência jurídica gratuita ao trabalhador e podem intermediar negociações ou ações coletivas.

É importante saber que, enquanto a empresa estiver em débito com o FGTS, ela também ficará impedida de obter Certidão de Regularidade do FGTS (CRF). Sem esse documento, a companhia não consegue participar de licitações públicas, tomar empréstimos em bancos oficiais, receber benefícios fiscais ou registrar atos societários em juntas comerciais. Ou seja, o atraso no Fundo de Garantia trava a operação da empresa em várias frentes — e a proibição de distribuir lucros é apenas uma delas.

Por que essa regra é importante para o trabalhador

Mesmo que a proibição de distribuir lucros tenha como alvo direto os sócios, ela funciona como um mecanismo de proteção indireta para o empregado. Quando os donos do negócio sabem que não poderão sacar lucros, parcelar dividendos ou retirar bonificações enquanto o FGTS estiver atrasado, há um incentivo concreto para colocar os depósitos em dia. Em muitos casos, é justamente essa restrição que leva empresas a regularizarem a situação para conseguir voltar a operar normalmente, emitir certidões e remunerar seus sócios.

Para o trabalhador, o FGTS é uma reserva fundamental: ele pode ser usado na demissão sem justa causa, no financiamento da casa própria, na aposentadoria, em casos de doença grave e em outras situações específicas previstas em lei. Por isso, acompanhar os depósitos mensais e cobrar a regularização quando algo está errado é uma forma direta de proteger esse patrimônio.

Conclusão: fique atento ao seu extrato do FGTS

O FGTS não é apenas um número no contracheque. Ele é um direito do trabalhador, garantido por lei, e seu não recolhimento gera efeitos em cadeia que vão muito além do bolso do empregado — chegam até a impedir que os donos da empresa distribuam lucros entre si. Se você trabalha de carteira assinada, o passo prático é simples: instale o aplicativo oficial do FGTS, confira o extrato pelo menos uma vez por mês e, ao identificar atraso ou valor incorreto, registre denúncia no MTE e procure orientação no seu sindicato ou na Justiça do Trabalho. Quanto antes o problema for identificado, maiores as chances de recuperar valores que são, por lei, exclusivamente seus.

Referências

Comentários (0)

Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu comentário

📩 Gostou? Receba mais como este

Novidades sobre consignado e FGTS toda semana.