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Filho de rico tem 7x mais chance de seguir rico, diz Imds

Estudo do Imds mostra que quem nasce no topo tem 7 vezes mais chance de permanecer lá do que quem nasce na base tem de chegar ao topo no Brasil.

TB

Tatiana Botelho

📖 8 min de leitura

Nascer em uma família rica no Brasil é praticamente uma garantia de permanecer rico na vida adulta. Já nascer em uma família pobre, ao contrário, é quase uma sentença de continuar pobre. Essa desigualdade, que muitos brasileiros sentem na pele mas raramente veem em números, acaba de ganhar uma medida concreta: quem nasce no topo da pirâmide social tem 7 vezes mais chance de permanecer lá do que quem nasce embaixo tem de chegar ao topo, segundo estudo do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (Imds).

O Imds é uma instituição que se dedica a mapear como a renda e as oportunidades passam (ou não passam) de uma geração para outra no país. Neste texto, você vai entender o que esse número realmente significa, por que a mobilidade social é tão travada no Brasil e — mais importante — como a educação financeira e algumas decisões práticas do dia a dia podem ajudar a sua família a romper esse ciclo, mesmo em um cenário desfavorável.

O que o estudo do Imds revelou sobre mobilidade social

Mobilidade social é um nome técnico para uma pergunta bem simples: o filho vive melhor do que o pai viveu? Quando a resposta é sim para a maior parte da população, dizemos que o país tem alta mobilidade. Quando a resposta é não — quando o destino de cada pessoa já está praticamente escrito pelo berço em que ela nasceu —, a mobilidade é baixa. E é justamente isso que o levantamento do Imds mostra sobre o Brasil.

Segundo o estudo, um brasileiro nascido em uma família do topo da distribuição de renda tem 7 vezes mais probabilidade de continuar no topo quando adulto do que um brasileiro nascido na base tem de chegar até lá. Traduzindo: os ricos herdam a riqueza com muito mais eficiência do que os pobres conseguem construir uma nova. O topo se autoperpetua.

Essa constatação joga luz sobre algo que a estatística oficial de renda muitas vezes esconde. Não basta olhar o salário médio ou a taxa de desemprego em um ano específico. Para entender a desigualdade brasileira de verdade, é preciso olhar o que acontece entre gerações — e o retrato é de um país onde o esforço individual, sozinho, dificilmente vence a herança social.

Por que o filho de família rica tem tanta vantagem

O número de 7 vezes não aparece por acaso. Ele é o resultado somado de várias vantagens que se acumulam desde os primeiros anos de vida de uma criança. Entender essas engrenagens é o primeiro passo para agir sobre elas dentro da sua própria realidade.

Educação de qualidade desde cedo. Filhos de famílias com renda alta costumam estudar em escolas melhores, aprender um segundo idioma, ter acesso a atividades extracurriculares e chegar ao ensino superior com muito mais preparo. Isso se traduz em salários maiores na vida adulta.

Rede de contatos herdada. O primeiro emprego, o estágio, a indicação para uma vaga — muita coisa passa por quem os pais conhecem. Quem cresce em um ambiente onde advogados, médicos, empresários e servidores públicos são presenças cotidianas tem naturalmente mais portas abertas.

Patrimônio de partida. Herdar um imóvel, receber ajuda para dar entrada em um apartamento ou simplesmente não precisar sustentar os pais na velhice libera renda para investir, empreender e crescer. Quem começa do zero — ou pior, começa devendo — precisa correr muito mais para chegar ao mesmo lugar.

Segurança para arriscar. Quem tem uma família com dinheiro pode largar um emprego ruim, tentar uma faculdade cara, abrir um negócio próprio. Quem sustenta a casa não pode. Essa diferença de margem para errar é, talvez, a mais silenciosa e a mais poderosa de todas.

Quando essas vantagens se acumulam por décadas e passam de pai para filho, o resultado é exatamente o que o Imds mediu: um topo blindado e uma base com pouquíssimas escadas para subir.

O papel da educação financeira em romper o ciclo

Se o cenário é tão desfavorável, o que uma família de renda baixa ou média pode fazer? A resposta honesta é que nenhum truque financeiro individual compensa décadas de desigualdade estrutural. Mas há um ponto em que a decisão pessoal faz enorme diferença: o uso do dinheiro que entra em casa todo mês.

A educação financeira não é sobre "ficar rico rápido". É sobre parar de perder dinheiro de forma silenciosa e transformar cada real que sobra em um pequeno passo à frente. Para quem quer usar essa ferramenta para mudar a trajetória da própria família, três hábitos são inegociáveis:

1. Saber para onde o dinheiro está indo. A maioria das famílias brasileiras não sabe, em detalhes, quanto gasta com o quê. Anotar as despesas por 60 dias — em um caderno, em uma planilha ou em um aplicativo — revela vazamentos que ninguém imaginava: tarifas bancárias, assinaturas esquecidas, juros de rotativo do cartão, prestações caras.

2. Sair do crédito caro. Cartão de crédito rotativo e cheque especial são, historicamente, as linhas de crédito mais caras do mercado brasileiro. Quem consegue trocar uma dívida cara por uma linha mais barata — como um empréstimo consignado, no caso de aposentados, pensionistas e trabalhadores com carteira assinada — economiza centenas ou milhares de reais por ano em juros. Esse dinheiro que deixa de ir para o banco pode virar reserva de emergência ou investimento.

3. Construir uma reserva, mesmo que pequena. A diferença entre uma família que sobe de vida e uma que fica travada, muitas vezes, não é o quanto ganha, mas o quanto consegue guardar. Uma reserva equivalente a um ou dois salários já evita que qualquer imprevisto — uma doença, um conserto de geladeira, um período sem trabalho — vire uma nova dívida.

Nenhum desses hábitos, isoladamente, transforma um trabalhador de baixa renda em milionário. Mas todos juntos, aplicados ao longo de 10 ou 20 anos, mudam radicalmente as chances da geração seguinte. E é exatamente aí que a mobilidade social medida pelo Imds pode começar a ceder, um núcleo familiar por vez.

Passos práticos para melhorar a vida financeira da sua família

Se a leitura do estudo do Imds acendeu um alerta, aproveite o momento para colocar em prática ajustes que não dependem de esperar mudança nenhuma no país. Eles dependem apenas de você.

Faça um raio-x das dívidas. Liste todas as pendências: cartão, financiamento, empréstimo pessoal, boletos atrasados. Para cada uma, anote o valor total, a parcela mensal e a taxa de juros. As dívidas com juros mais altos são as primeiras que precisam ser quitadas ou trocadas por linhas mais baratas.

Descubra se você tem acesso a crédito mais barato. Aposentados e pensionistas do INSS, por exemplo, podem contratar empréstimo consignado com desconto direto no benefício, com prazo de até 108 meses e margem consignável total de 40% — sendo 5% reservados para cartão consignado ou cartão benefício. Já o trabalhador com carteira assinada tem acesso ao consignado CLT/privado, com prazo de até 96 meses e margem de 35%. Essas linhas costumam ter juros muito menores do que cartão e cheque especial e podem ser usadas estrategicamente para quitar dívidas caras — nunca para gastos supérfluos.

Cuidado com informações incorretas sobre o BPC/LOAS. É comum ouvir que quem recebe o Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS) não pode fazer empréstimo consignado. Isso não é verdade: por lei, o BPC/LOAS pode ser usado para consignado. O que ocorre no cenário atual, em 2026, é que, diante do alto volume de revisões e cessações desse benefício, muitas instituições autorizadas passaram a oferecer menos essa modalidade para esse público. Ou seja: é permitido pela legislação, mas a disponibilidade prática está reduzida.

Invista em educação — a sua e a dos seus filhos. Um curso técnico gratuito, uma capacitação online, o reforço escolar para as crianças. Essas escolhas parecem pequenas, mas são exatamente o tipo de investimento que rompe, ao longo do tempo, a lógica de "filho de pobre continua pobre" apontada pelo estudo do Imds.

Converse sobre dinheiro dentro de casa. Uma das maiores heranças que famílias de renda alta transmitem é justamente o hábito de falar de dinheiro com naturalidade — sobre juros, poupança, investimento, planejamento. Trazer esse tema para a mesa da sua casa, mesmo que os valores em jogo sejam modestos, prepara a próxima geração para tomar decisões melhores do que as suas.

Conclusão: o que fazer com esse dado

O estudo do Imds não é apenas um número curioso para citar em conversa: é um diagnóstico duro sobre o país em que a maioria dos brasileiros vive e cria seus filhos. A informação de que o topo tem 7 vezes mais chance de se autoperpetuar do que a base tem de subir escancara que, no Brasil, contar apenas com o próprio esforço é um jogo desigual.

Mudar isso em escala nacional depende de políticas públicas, educação, mercado de trabalho e uma série de fatores fora do alcance de qualquer família individual. Mas, no plano doméstico, três atitudes fazem enorme diferença ao longo dos anos: controlar os gastos, sair do crédito caro trocando-o por linhas mais adequadas — como o consignado, quando fizer sentido — e investir em educação para os filhos. É por aí que a próxima geração da sua família pode ter uma estatística um pouco melhor do que a atual.

Referências

  • Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (Imds) — estudo sobre mobilidade social intergeracional no Brasil.
  • Folha de S.Paulo, caderno Mercado, 31/07/2026 — divulgação da pesquisa do Imds sobre baixa mobilidade social no Brasil.

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