Geração nem-nem cresce e jovem troca de emprego: o impacto no bolso
Aumento de jovens fora da escola e do trabalho e a alta rotatividade no primeiro emprego afetam renda, crédito e planejamento financeiro. Veja como se proteger.
Rita Cavalcanti
A entrada no mercado de trabalho está cada vez mais instável para a juventude brasileira. Dados recentes divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego mostram que voltou a crescer o contingente de jovens que não estudam nem trabalham — a chamada geração 'nem-nem' — ao mesmo tempo em que aumenta a velocidade com que aqueles que estão empregados trocam de vaga. Levantamentos do CIEE sobre estágios e primeiros empregos reforçam esse cenário de rotatividade, e pesquisas do IBGE há anos vêm mapeando esse fenômeno entre os 15 e 29 anos.
O problema não é apenas social ou educacional. Para quem está nessa faixa etária, ou tem um filho ou neto nessa situação, o impacto financeiro é direto: renda interrompida, dificuldade para acessar crédito barato, ausência de reserva de emergência e atraso na construção de um histórico previdenciário. Neste guia, explicamos, com linguagem simples, o que está por trás desse movimento e — mais importante — o que dá para fazer, na prática, para proteger o orçamento e abrir caminho para crédito justo mesmo em um começo de carreira instável.
Por que a geração 'nem-nem' voltou a crescer no Brasil
O termo 'nem-nem' se popularizou para descrever jovens entre 15 e 29 anos que estão fora da escola e fora do mercado de trabalho formal ou informal. Não significa, na maioria dos casos, falta de vontade: significa, sim, falta de oportunidade compatível com a realidade desse jovem — vaga próxima de casa, salário que cubra transporte e alimentação, horário compatível com cuidado de irmãos ou filhos, e exigência de experiência que o primeiro emprego, por definição, não tem.
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De acordo com o Ministério do Trabalho, esse grupo voltou a crescer no recorte mais recente, depois de um período de recuperação pós-pandemia. O IBGE já vinha sinalizando que o Brasil tem uma das maiores taxas de jovens nessa condição entre os países monitorados.
Entre os fatores apontados estão a baixa qualidade das vagas oferecidas para quem não tem experiência, o desencorajamento após meses procurando trabalho sem retorno, a sobrecarga com tarefas domésticas (que atinge principalmente as mulheres jovens) e o custo elevado de manter os estudos enquanto se tenta trabalhar. O resultado é um ciclo: sem renda, o jovem não se qualifica; sem qualificação, não consegue a vaga; sem a vaga, não constrói histórico para uma vaga melhor depois.
Jovens estão trocando de emprego mais rápido — e isso tem preço
O outro lado da mesma moeda é a rotatividade. Os jovens que conseguem entrar no mercado estão permanecendo menos tempo em cada emprego. Dados do CIEE sobre estágios e programas de jovem aprendiz indicam que o tempo médio de permanência caiu nos últimos ciclos, e o MTE também aponta aumento no giro da mão de obra na faixa de 18 a 24 anos.
As razões são diversas: salários iniciais baixos, ambientes de trabalho desgastantes, ausência de plano de carreira, busca por propósito e flexibilidade, e a percepção (correta ou não) de que mudar de empresa é o caminho mais rápido para aumentar o salário. Mudar de emprego, em si, não é um problema — pode ser, inclusive, a melhor decisão financeira em alguns momentos. O problema é mudar sem planejamento, porque o curto prazo entre uma vaga e outra cria três efeitos colaterais que pouca gente percebe:
- Interrupção da contagem para o FGTS e para o INSS. Cada saída sem nova entrada imediata é um mês a menos de contribuição previdenciária, o que pesa lá na frente, na hora de pedir aposentadoria.
- Histórico de crédito fraco. Bancos e fintechs olham estabilidade de renda. Quem troca de carteira a cada poucos meses tende a receber limites menores e juros mais altos.
- Reserva de emergência zerada. A rescisão até dá um respiro, mas sem disciplina vira gasto imediato — e o jovem volta ao próximo emprego sem colchão financeiro nenhum.
O que a instabilidade na renda significa para o acesso a crédito
Um dos primeiros lugares onde a instabilidade financeira do jovem aparece é na hora de pedir crédito. Cartão recusado, limite baixíssimo, juros altos no cheque especial, financiamento de celular negado. Isso acontece porque as instituições financeiras avaliam três pilares: renda comprovada, tempo de vínculo e histórico de pagamentos. Quem está começando, ou está entre um emprego e outro, costuma falhar nos três.
Vale entender uma diferença importante para não cair em armadilha: o empréstimo consignado CLT, voltado para quem tem carteira assinada, tem regras específicas e exige justamente o vínculo formal que o jovem em rotatividade nem sempre tem. Hoje, o consignado privado permite comprometer até 35% do salário em parcela, com prazo máximo de 96 meses. Ou seja, é um crédito mais barato, mas só funciona enquanto o trabalhador está empregado — se ele pede demissão ou é desligado antes de quitar, o saldo costuma ser cobrado de uma vez ou migrado para uma linha muito mais cara. Para um jovem que troca de empresa em menos de um ano, esse é um risco real.
O recado prático: antes de assinar qualquer contrato de longo prazo (financiamento de carro, consignado, crediário extenso), o jovem precisa avaliar com honestidade qual é a chance de manter aquele vínculo de trabalho. Comprometer 30% ou 35% do salário em uma parcela de 6 ou 8 anos, em uma vida profissional que ainda está se desenhando, é uma decisão que merece cautela.
Como construir estabilidade financeira mesmo trocando de emprego
A boa notícia é que dá, sim, para construir saúde financeira em uma trajetória profissional instável — desde que se adotem algumas práticas que costumam ser ignoradas na largada da vida adulta. Vamos às mais importantes:
1. Tratar cada rescisão como recomeço, não como prêmio. As verbas rescisórias (saldo de salário, férias, 13º proporcional, multa de 40% do FGTS quando há demissão sem justa causa) costumam ser o maior valor que o jovem viu junto na vida até ali. A tentação de gastar é enorme. A regra de ouro: separe pelo menos metade desse valor para uma reserva de emergência guardada em aplicação de liquidez diária e baixo risco.
2. Manter o INSS em dia mesmo entre empregos. Quem fica meses sem carteira assinada pode contribuir como facultativo para não perder a qualidade de segurado e seguir somando tempo para a aposentadoria. É uma contribuição pequena perto do prejuízo de zerar a contagem.
3. Construir histórico de crédito com responsabilidade. Ter um cartão de crédito com limite baixo e pagar a fatura integral em dia todo mês vale mais, para o score, do que ficar sem cartão nenhum. O objetivo aqui não é endividar-se: é provar ao sistema financeiro que você honra compromissos.
4. Cuidado redobrado com promessas de 'crédito fácil' para quem não tem renda fixa. Jovens entre empregos são alvo preferencial de golpes de falso empréstimo, taxa antecipada e contratos com juros abusivos. Crédito sério não cobra taxa antes da liberação e não é oferecido por mensagem em redes sociais.
5. Investir em qualificação enquanto há tempo. Cursos técnicos gratuitos, programas como o Jovem Aprendiz e iniciativas de instituições como o CIEE são portas de entrada de baixo custo para o mercado formal. Cada certificação reduz o tempo entre um emprego e outro — e é nesse intervalo que mora boa parte do prejuízo financeiro da geração nem-nem.
O que esperar daqui para frente
O cenário desenhado pelos dados mais recentes do MTE e do CIEE não é positivo no curto prazo: a geração 'nem-nem' voltou a crescer, a rotatividade está alta e a renda inicial segue espremida. Mas o quadro também não é uma sentença individual. Quem entende, cedo, que renda instável exige planejamento mais rigoroso (e não menos) sai na frente.
O próximo passo prático para o leitor que está nessa situação — ou que tem um filho, sobrinho ou neto começando agora — é simples: abra hoje uma conta separada só para reserva de emergência, calcule quanto custa o seu mês básico (aluguel, comida, transporte, contas fixas) e estabeleça como meta guardar o equivalente a pelo menos três desses meses antes de assumir qualquer dívida de longo prazo. Esse é o colchão que transforma cada troca de emprego em oportunidade, e não em retrocesso financeiro.
Referências
- Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) — dados divulgados em 25/06 sobre jovens 'nem-nem' e rotatividade na faixa de 18 a 24 anos.
- CIEE — Centro de Integração Empresa-Escola: levantamentos sobre estágios, Jovem Aprendiz e tempo de permanência no primeiro emprego.
- IBGE — indicador de jovens de 15 a 29 anos fora da escola e do mercado de trabalho (PNAD Contínua).
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