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Geração Z: 63% dos jovens sozinhos vivem de aluguel

Pesquisa Serasa/Opinion Box com 6.063 brasileiros mostra que 63% dos jovens da Geração Z que moram sozinhos pagam aluguel; mercado também pesa no orçamento.

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Tatiana Botelho

📖 10 min de leitura

Sair da casa dos pais deixou de ser sinônimo de liberdade financeira. Para a maior parte dos jovens da Geração Z — nascidos entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2010 — morar sozinho hoje significa, na prática, conviver com um boleto de aluguel todo mês e ver o valor gasto no supermercado subir mais rápido do que o salário. É esse retrato que aparece em um dos levantamentos mais recentes sobre o comportamento financeiro do brasileiro, que ouviu 6.063 pessoas em todas as regiões do país.

O número que chama atenção logo de cara: entre os jovens da Geração Z que já saíram da casa da família e vivem sozinhos, 63% moram de aluguel. Ou seja, quase dois em cada três não têm imóvel próprio nem contam com moradia cedida por parentes — a casa em que vivem depende de um contrato mensal, um depósito caução e, em muitos casos, de um fiador. Esse dado ajuda a explicar por que tantos jovens sentem que "o dinheiro nunca sobra" mesmo quando o salário até parece razoável no papel.

Neste guia, você vai entender o que está por trás desse cenário, quais são os dois gastos que mais apertaram o orçamento da nova geração, o que muda quando se compara com quem ainda mora com os pais e — o mais importante — como organizar as finanças para que o aluguel e o mercado não engulam toda a renda. A ideia aqui é sair da simples estatística e chegar em decisões práticas para o próximo mês.

Por que 63% da Geração Z que mora sozinha depende do aluguel

O percentual de 63% de jovens da Geração Z pagando aluguel não é um número aleatório. Ele é o resultado direto de um conjunto de fatores que se acumulam há alguns anos: preço do metro quadrado nos grandes centros em alta, juros do financiamento imobiliário elevados, entrada de mercado de trabalho mais tarde e salários iniciais que não acompanharam o ritmo de encarecimento das cidades.

Comprar o primeiro imóvel, que já era uma meta distante para gerações anteriores, ficou ainda mais complicado para quem está começando agora. O financiamento tradicional exige entrada, comprovação de renda estável e uma prestação que caiba dentro da margem de 30% do salário — uma equação difícil de fechar para quem tem carteira assinada há pouco tempo, é MEI ou trabalha por aplicativo. O caminho natural, então, tem sido o aluguel.

O problema é que alugar também deixou de ser barato. Nos últimos anos, os índices que corrigem os contratos de locação subiram bem acima da inflação oficial em vários momentos, e o resultado é o que se vê hoje: o jovem sai de casa, assume um contrato, e em pouco tempo já está renegociando o valor no aniversário da locação. Some-se a isso condomínio, IPTU, contas de luz, água, internet e gás, e o "custo de morar" real fica muito acima do valor anunciado no anúncio do imóvel.

Outro ponto que ajuda a explicar o alto índice de locação nessa geração é o próprio estilo de vida. Muitos jovens priorizam morar perto do trabalho, em bairros com mais oferta de transporte, comércio e serviços — regiões em que o preço de compra é proibitivo, mas o aluguel, ainda que caro, é possível. Existe também uma escolha consciente por flexibilidade: quem pode trocar de cidade em busca de uma oportunidade melhor prefere não estar preso a um financiamento de 30 anos.

Supermercado e moradia: os vilões do orçamento jovem

Quando os entrevistados foram convidados a apontar em quais categorias sentiram mais aumento de preço no dia a dia, duas se destacaram com folga: supermercado e moradia. Não por acaso, são justamente as duas despesas mais difíceis de "cortar". Você pode adiar a compra de um tênis, cancelar um streaming, deixar de sair no fim de semana — mas não pode parar de comer, e o aluguel vence todo dia 5, 10 ou 15, sem perdão.

A alta no supermercado é sentida de forma especialmente dura por quem mora sozinho. Comprar para uma pessoa costuma sair proporcionalmente mais caro do que comprar para uma família: as embalagens são feitas em porções maiores, as promoções privilegiam volume, e o desperdício de alimentos perecíveis é maior em uma geladeira que atende só um consumidor. Itens básicos como arroz, café, óleo, carnes e produtos de limpeza tiveram remarcações constantes, e o efeito cumulativo desses pequenos aumentos aparece no fim do mês.

Já no caso da moradia, o encarecimento vai além do aluguel em si. Conta de energia elétrica com bandeira tarifária, reajustes do plano de internet, taxa de condomínio corrigida em assembleia, aumento no preço do botijão de gás — tudo isso entra no pacote de "custo para morar" e pressiona o mesmo bolso.

A especialista em educação financeira da Serasa, Aline Vieira, avalia que o cenário exige um olhar mais atento do jovem sobre o próprio orçamento e sobre a construção de uma reserva capaz de amortecer imprevistos. A leitura é coerente com o que os números mostram: quando duas despesas obrigatórias tomam a maior parte da renda, qualquer solavanco — uma conta de luz mais alta, um remédio, uma manutenção no carro — pode empurrar a pessoa direto para o cartão de crédito ou para o cheque especial.

Morar sozinho x morar com a família: a diferença no bolso

A pesquisa também trouxe um recorte importante: quem ainda mora com pais ou familiares apresenta um perfil financeiro bem diferente de quem já saiu de casa. Isso não significa que um grupo esteja "certo" e o outro "errado" — mas ajuda a entender como a estrutura familiar impacta diretamente a capacidade de poupar e investir na juventude.

Quem mora com a família tende a ter menos despesas fixas obrigatórias. Aluguel, condomínio e boa parte das contas de consumo costumam ser divididos ou totalmente cobertos pelos pais, o que libera renda para outras finalidades. Nesse cenário, é mais viável guardar dinheiro, montar uma reserva de emergência, quitar dívidas antigas e até planejar a saída de casa com mais folga.

Quem já mora sozinho, por outro lado, tem um orçamento em que boa parte do salário está "comprometida antes mesmo de cair na conta". Aluguel, condomínio, mercado e contas somam com facilidade 60% a 70% da renda mensal, principalmente nas capitais. Sobra pouco para lazer, ainda menos para investimento e quase nada para lidar com imprevistos.

Essa diferença de estrutura ajuda a explicar por que, entre os mais jovens, o endividamento tem crescido em ritmo preocupante. Não é apenas uma questão de "consumo desenfreado" — é também consequência de um custo de vida que, para muitos, começou a apertar antes mesmo de o primeiro salário decolar.

Como organizar as finanças morando sozinho (mesmo com aluguel pesado)

Se o custo de morar sozinho hoje é alto, o caminho não é fingir que o problema não existe — é ganhar controle sobre ele. Alguns passos práticos ajudam quem está começando essa jornada, ou quem já mora sozinho e sente que o dinheiro está sempre no vermelho antes do próximo pagamento.

1. Coloque tudo no papel (ou no aplicativo). O primeiro passo, e o mais evitado, é listar todas as despesas fixas do mês: aluguel, condomínio, IPTU parcelado, luz, água, gás, internet, streaming, transporte, mercado e cartão de crédito. Sem esse mapa, é impossível saber onde o dinheiro está indo. A regra é simples: se você não sabe quanto gasta, você não controla — o gasto controla você.

2. Trate o aluguel como percentual, não como valor absoluto. Uma orientação clássica de educação financeira diz que moradia (aluguel + condomínio + IPTU) idealmente não deve passar de 30% da renda líquida. Se hoje esse número está em 40%, 50% ou mais, é um sinal claro de que o imóvel está grande demais para o momento — e vale considerar mudar para um bairro mais em conta, dividir com alguém ou renegociar o valor com o proprietário no fim do contrato.

3. Ataque o supermercado com estratégia. Fazer lista antes de sair de casa, comparar preço entre atacado e varejo, cozinhar em maior quantidade e congelar, evitar ir ao mercado com fome — parecem dicas óbvias, mas são justamente as que mais economizam. Quem mora sozinho tende a ganhar muito ao adotar compras quinzenais planejadas em vez de idas diárias por impulso.

4. Construa uma reserva de emergência, mesmo que pequena. A recomendação de guardar de três a seis meses de despesas fixas é o ideal, mas o começo pode ser mais modesto: R$ 50, R$ 100 ou R$ 200 por mês em uma aplicação de liquidez diária. O importante é criar o hábito. Essa reserva é o que impede que um imprevisto vire uma dívida no rotativo do cartão, cuja taxa de juros está entre as mais altas do mercado.

5. Cuidado com o crédito fácil. Cartão de crédito, cheque especial, empréstimo pessoal sem garantia — todos são ferramentas úteis, mas caras. Antes de recorrer a qualquer um deles, vale entender o custo total (não só a parcela) e verificar se existe alternativa com juros menores, como consignado para quem tem carteira assinada ou é aposentado do INSS.

6. Não confunda salário com renda disponível. O valor que você pode gastar de fato no mês é o que sobra depois de todas as despesas fixas e da parcela destinada à reserva. Encarar o salário inteiro como "disponível" é o principal erro de quem passa o mês no aperto.

O que fazer com essa informação a partir de agora

O retrato traçado pela pesquisa é duro, mas serve como um convite à ação: se 63% da Geração Z que mora sozinha convive com aluguel e enxerga supermercado e moradia como os principais responsáveis pela alta no custo de vida, organizar o orçamento deixou de ser tema de "gente mais velha" — passou a ser condição de sobrevivência financeira do jovem adulto.

O próximo passo prático é simples e cabe nesta semana: sente 30 minutos, abra o extrato dos últimos 60 dias e some, com honestidade, quanto foi para moradia e quanto foi para mercado. Se juntos passarem de 50% da sua renda, o foco do próximo trimestre precisa ser reduzir esse peso — seja renegociando o aluguel, mudando de imóvel, ajustando a rotina de compras ou buscando fontes extras de renda. E, em paralelo, começar a construir, ainda que devagar, uma reserva que te tire da dependência do crédito caro no primeiro imprevisto.

Morar sozinho continua sendo uma conquista importante. Mas, no cenário atual, ela só se sustenta com planejamento — porque o aluguel e o mercado, esses, não vão esperar você se organizar.

Referências

  • Pesquisa Serasa/Opinion Box com 6.063 entrevistados sobre comportamento financeiro do brasileiro.
  • Declaração de Aline Vieira, especialista em educação financeira da Serasa.
  • G1 Economia — cobertura de referência sobre os dados da pesquisa.

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