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Golpe da ligação falsa do INSS faz pensionista perder R$ 108 mil

Pensionista do INSS em Araçatuba perde R$ 108 mil após instalar app de acesso remoto a pedido de falso atendente. Veja como o golpe funciona e como se proteger.

RC

Rita Cavalcanti

📖 12 min de leitura

Uma pensionista do INSS perdeu R$ 108 mil depois de receber uma ligação que parecia ser de um atendente oficial do órgão. O caso, registrado em Araçatuba, no interior de São Paulo, escancara uma modalidade de fraude que vem crescendo no país e que tem como alvo preferencial aposentados, pensionistas e beneficiários de programas federais: o chamado golpe da ligação falsa do INSS, em que criminosos convencem a vítima a instalar um aplicativo no celular e, a partir daí, tomam o controle total do aparelho — incluindo o acesso ao aplicativo do banco.

Neste guia, você vai entender em detalhes como esse golpe funciona, por que ele é tão eficaz contra o público da terceira idade, quais sinais devem acender o alerta imediatamente, o que o INSS faz (e o que nunca pede) por telefone, e qual o passo a passo correto se você ou um familiar caiu numa armadilha como essa. O objetivo é simples: que ninguém mais perca a aposentadoria de uma vida inteira por causa de uma ligação de cinco minutos.

Como funciona o golpe da ligação falsa do INSS

O golpe começa com uma ligação telefônica. Do outro lado da linha, uma pessoa se identifica como atendente do INSS, da Previdência Social ou, em algumas variações, de um banco que paga benefícios. O tom é sempre profissional, calmo e, principalmente, urgente: o criminoso afirma que há um problema no benefício da vítima, que existe um desconto indevido a ser estornado, que houve uma tentativa de fraude na conta ou que é preciso recadastrar dados imediatamente para não ter o pagamento bloqueado.

Para dar credibilidade, o golpista costuma já chegar com informações pessoais corretas em mãos — nome completo, número do benefício, valor aproximado da renda, às vezes até nome de familiares. Esses dados normalmente vêm de vazamentos antigos, de cadastros em sites duvidosos ou de consultas feitas em portais que prometem serviços de revisão de benefício. Quando a vítima ouve o próprio nome e o número correto do benefício, baixa a guarda. É exatamente esse o efeito desejado.

Na sequência, o suposto atendente pede que a pessoa instale um aplicativo no celular para “resolver o problema”, “fazer a validação do benefício” ou “proteger a conta”. O nome do aplicativo varia, mas a função é sempre a mesma: trata-se de um programa legítimo de acesso remoto, daqueles usados por equipes de suporte técnico para enxergar e controlar a tela de outro aparelho à distância. A partir do momento em que o aplicativo é instalado e a vítima fornece o código de acesso solicitado pelo golpista, o criminoso passa a ver tudo o que acontece na tela do celular e, pior, a operar o aparelho como se estivesse com ele na mão.

Com o controle remoto ativo, o restante é mecânico. O golpista pede para a vítima abrir o aplicativo do banco, digitar a senha, fazer uma “validação” de Pix ou de saldo. Em poucos minutos, transferências, empréstimos consignados pré-aprovados e até saques são executados sem que a vítima entenda o que está acontecendo. Em muitos casos, a tela do celular é “congelada” ou escurecida pelo próprio aplicativo de acesso remoto, e a pessoa só percebe o tamanho do prejuízo horas depois — quando já é tarde demais.

O caso de Araçatuba: R$ 108 mil desviados de uma pensionista

O episódio registrado em Araçatuba se encaixa exatamente nesse roteiro. Segundo a apuração do caso, a vítima — uma pensionista do INSS — atendeu uma ligação em que o interlocutor se apresentou como funcionário do órgão e alegou a necessidade de regularizar uma pendência ligada ao benefício. Convencida pela aparente formalidade da abordagem e pelos dados pessoais corretos citados pelo criminoso, ela seguiu as instruções e instalou no celular o aplicativo indicado pelo falso atendente.

A partir desse momento, perdeu o controle do próprio aparelho. Os criminosos acessaram o aplicativo bancário e, em uma sequência rápida de operações, realizaram transferências, contrataram crédito e movimentaram recursos disponíveis na conta. O prejuízo somou R$ 108 mil. O caso foi registrado na Polícia Civil, que apura a autoria e a possível ligação com uma quadrilha especializada nesse tipo de fraude.

O valor expressivo do golpe mostra um detalhe importante e cruel desse tipo de crime: o estrago não se limita ao saldo em conta. Quando o criminoso assume o controle do celular, ele também é capaz de contratar empréstimos em nome da vítima usando o próprio aplicativo do banco, comprometendo benefícios futuros e gerando dívidas que vão muito além do dinheiro que estava disponível no momento. Em casos envolvendo aposentados e pensionistas, é comum que parte do prejuízo venha justamente de contratos de crédito consignado disparados pelos golpistas em segundos.

Por que aposentados e pensionistas do INSS são os principais alvos

A escolha do público da terceira idade não é por acaso. Quadrilhas que aplicam esse tipo de fraude mapeiam, com método, três características que tornam aposentados e pensionistas alvos altamente rentáveis.

A primeira é a renda previsível e mensal. Quem recebe benefício do INSS tem um valor entrando em conta todo mês na mesma data, o que facilita o cálculo do golpe e aumenta a chance de haver saldo no momento da abordagem. A segunda é o acesso facilitado a crédito consignado. Aposentados e pensionistas têm pré-aprovação em diversas instituições financeiras, e contratos podem ser fechados em poucos cliques dentro do aplicativo do banco — exatamente o que o criminoso precisa para multiplicar o prejuízo.

A terceira característica, mais sensível, é a relação do público idoso com a tecnologia. Muitos aposentados começaram a usar aplicativos bancários há pouco tempo, foram empurrados para o digital pela pandemia e pelo fechamento de agências físicas, e não têm familiaridade com conceitos como “acesso remoto”, “autorização de espelhamento de tela” ou “token de validação”. Isso não é culpa da vítima — é uma vulnerabilidade que a indústria do crime aprendeu a explorar.

Soma-se a tudo isso o medo concreto de perder o benefício. Quando o golpista diz que o pagamento será suspenso, que há suspeita de fraude ou que é preciso recadastrar a biometria, ele aciona um gatilho emocional poderoso. Para quem depende daquele dinheiro para comer, comprar remédio e pagar conta de luz, a ideia de ficar sem o benefício no mês seguinte é suficiente para silenciar qualquer desconfiança.

Sinais de alerta: como identificar uma ligação falsa do INSS

Existem padrões de comportamento que se repetem em praticamente todas as variações desse golpe. Conhecer esses sinais é a forma mais barata e eficaz de se proteger. Desligue a ligação imediatamente sempre que perceber uma ou mais das situações abaixo.

Pedido para instalar aplicativo. O INSS jamais solicita a instalação de qualquer aplicativo para resolver problemas de benefício, e muito menos programas de acesso remoto à tela do celular. Se isso for pedido, é golpe — sem exceção.

Urgência exagerada. Frases como “se o senhor não fizer agora o benefício será cortado”, “a senhora tem cinco minutos para validar” ou “é a última chance antes do bloqueio” são técnicas clássicas de manipulação. Atendimento oficial não funciona com pressão psicológica.

Pedido de senha, código do banco ou foto de documento. Nenhum atendente legítimo, seja do INSS, seja de banco, vai pedir senha de aplicativo, código enviado por SMS, código do cartão ou foto de documento durante uma ligação. Esses dados são pessoais e intransferíveis.

Solicitação de Pix ou transferência para “validar” a conta. Qualquer movimentação financeira pedida durante a ligação é golpe. O INSS não cobra taxa, não pede depósito, não solicita transferência de valor algum para regularizar benefício.

Pedido para abrir o aplicativo do banco enquanto fala ao telefone. Esse é o momento em que o criminoso já assumiu o controle do celular pelo acesso remoto e quer apenas que a vítima execute, com as próprias mãos, o login e a senha do aplicativo. Se em algum momento da ligação alguém pedir para você abrir o app do banco, desligue.

Número parecido com o oficial. Golpistas usam ferramentas que falsificam o identificador de chamadas e exibem números próximos ao 135 (central oficial do INSS) ou números de bancos. Nunca confie no número que aparece na tela como prova de autenticidade.

O que o INSS realmente faz (e o que nunca pede) por telefone

Entender o que o órgão de fato faz é fundamental para não cair em armadilhas. De acordo com as orientações do próprio INSS, o atendimento oficial ocorre por canais bem definidos: o aplicativo Meu INSS, o site gov.br/inss, a Central 135 e as agências físicas mediante agendamento. O órgão não realiza atendimento por WhatsApp, não envia link por SMS solicitando recadastramento, não cobra taxa para liberar benefício e não pede senha, código bancário ou dados de cartão por telefone.

Quando há alguma pendência real no benefício — uma prova de vida atrasada, uma perícia a ser realizada, uma revisão administrativa — a comunicação aparece dentro do aplicativo Meu INSS, na carta de concessão ou em correspondência física. A regra prática é simples: se alguém liga dizendo que há um problema, a postura correta é desligar, abrir o Meu INSS por conta própria e verificar diretamente na fonte oficial. Se a pendência existir, ela estará lá. Se não estiver, era golpe.

Vale também lembrar uma confusão recorrente que os criminosos exploram: o INSS não vende empréstimo consignado, não liga oferecendo crédito e não tem “setor de liberação” de valor. Empréstimo consignado para aposentados e pensionistas tem regras claras e públicas, com prazo máximo de 108 meses e margem consignável total de 40% do benefício — sendo 5% reservados exclusivamente para cartão consignado ou cartão benefício. Quem oferece “liberação imediata”, “antecipação de 13º bloqueado” ou “revisão com valor retroativo” por telefone, em 100% dos casos, é golpe ou intermediário irregular.

Como se proteger e o que fazer se você caiu no golpe

A prevenção contra esse tipo de fraude se apoia em hábitos simples, que precisam ser repetidos até virarem automáticos — especialmente para quem tem familiares idosos em casa.

O primeiro hábito é nunca instalar aplicativos a pedido de terceiros, principalmente programas de acesso remoto. Se a ligação pedir isso, é golpe. Ponto. O segundo é tratar qualquer ligação inesperada com desconfiança ativa: desligue, respire e ligue você mesmo para o 135 ou abra o Meu INSS para checar a informação. O atendente verdadeiro não se ofende com isso — o golpista, sim, fará pressão para você não desligar.

O terceiro hábito é proteger o aplicativo do banco com camadas extras: senha forte, biometria, limite de Pix reduzido para o período da noite, autenticação em dois fatores. Bancos oferecem essas opções gratuitamente, e elas reduzem drasticamente o prejuízo caso o celular seja invadido. O quarto é conversar abertamente sobre golpes com pais, avós e familiares idosos. Vergonha de pedir ajuda é um dos maiores aliados do criminoso; combater isso em casa salva patrimônio.

Se o golpe já aconteceu, a velocidade da reação muda tudo. Os passos imediatos são:

  1. Desligar a internet e os dados do celular (modo avião), para interromper o acesso remoto do criminoso ao aparelho.
  2. Entrar em contato com o banco pelos canais oficiais — central telefônica impressa no verso do cartão ou app em outro dispositivo — para bloquear a conta, contestar as transações, cancelar empréstimos contratados na hora do golpe e abrir disputa formal por fraude. Quanto mais rápido a comunicação, maior a chance de reversão.
  3. Registrar boletim de ocorrência na Polícia Civil, presencialmente ou pela delegacia eletrônica do estado. O BO é documento essencial para a contestação bancária e para qualquer ação judicial posterior.
  4. Comunicar o INSS pela Central 135 ou pelo Meu INSS, informando que houve uma tentativa de fraude usando o nome do órgão. Isso ajuda no mapeamento dos golpes em circulação.
  5. Desinstalar o aplicativo de acesso remoto, alterar todas as senhas (banco, e-mail, redes sociais) a partir de outro dispositivo seguro e, se possível, restaurar o celular para configuração de fábrica.
  6. Procurar um advogado ou a Defensoria Pública. Em muitos casos de fraude com falha de segurança bancária, há jurisprudência favorável ao consumidor para devolução dos valores, especialmente quando se trata de empréstimos consignados contratados de forma fraudulenta dentro de aplicativo.

O caso da pensionista de Araçatuba é doloroso justamente porque mostra como uma ligação aparentemente banal, de poucos minutos, pode resultar na perda de uma vida inteira de economia. Mas ele também serve de alerta concreto: o golpe é estruturado, é repetitivo e, exatamente por isso, é evitável. Toda vez que o telefone tocar e alguém disser ser do INSS pedindo para instalar algo, validar dado bancário ou abrir o aplicativo do banco, a resposta correta é uma só — desligar e ligar você mesmo, no canal oficial, para checar. Esse único hábito, repetido sem exceção, é o que separa quem mantém o benefício de quem perde tudo em uma tarde.

Se você tem aposentados ou pensionistas na família, compartilhe este guia com eles hoje. Conversar sobre o golpe antes de ele acontecer é, na prática, o investimento de segurança mais barato e mais eficaz que existe contra esse tipo de crime.

Referências

  • Reportagem original sobre o caso de Araçatuba — Seu Crédito Digital.
  • Boletim de ocorrência registrado na Polícia Civil de Araçatuba-SP.
  • Orientações oficiais do INSS sobre golpes em nome do órgão — gov.br/inss.

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