Close-up de mãos usando smartphone com o aplicativo ChatGPT aberto na tela.

Golpe do amor: 37ª DP investiga estelionato em apps de namoro

Criminosos criam vínculos afetivos falsos para pedir dinheiro emprestado, e a Polícia Civil orienta como reconhecer os sinais antes de transferir qualquer valor.

Rita Cavalcanti

📖 8 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • A 37ª DP investiga um caso de estelionato sentimental iniciado em aplicativo de relacionamento, após meses de contato entre vítima e suposto parceiro.
  • No golpe do amor, o criminoso finge interesse afetivo por semanas ou meses antes de pedir dinheiro emprestado em uma falsa emergência.
  • Recusa recorrente de chamadas de vídeo, urgência financeira e pedido de sigilo em relação à família são sinais clássicos da fraude.
  • Em transferências via Pix, o Mecanismo Especial de Devolução permite ao banco tentar bloquear o valor quando a comunicação é feita rapidamente.

Encontrar uma pessoa interessante em um aplicativo de relacionamento virou rotina para milhões de brasileiros. O problema é que, junto com quem realmente busca conhecer alguém, há criminosos usando os mesmos apps para aplicar um dos golpes que mais cresce no país: o estelionato sentimental, popularmente chamado de "golpe do amor". Um caso recente investigado pela 37ª Delegacia de Polícia (37ª DP) acendeu novamente o alerta e mostra como esse tipo de fraude é planejado com paciência e frieza.

Nesta matéria você vai entender o que caracteriza o golpe do amor, como a Polícia Civil está tratando o caso da 37ª DP, quais são os sinais de que a pessoa do outro lado da tela pode ser um estelionatário e, principalmente, o que fazer para não perder dinheiro — e o que fazer se você já caiu.

O que é o golpe do amor (estelionato sentimental)

O estelionato sentimental é um tipo de fraude em que o criminoso finge estar apaixonado ou interessado em construir uma relação séria para, depois de conquistar a confiança da vítima, pedir dinheiro emprestado com as mais variadas desculpas. O nome técnico é estelionato sentimental, previsto como crime de estelionato no Código Penal, e o pedido financeiro sempre vem embrulhado em uma história emocional convincente.

O golpista costuma se apresentar como uma pessoa bem-sucedida, muitas vezes dizendo morar em outro estado ou fora do país, o que serve para justificar a impossibilidade de se encontrar pessoalmente. Ele investe semanas ou até meses em conversas diárias, mensagens carinhosas, chamadas de vídeo esporádicas (nem sempre com o próprio rosto) e todo tipo de gesto que simule uma relação verdadeira.

Quando percebe que a vítima está emocionalmente envolvida, entra em cena a "emergência": uma cirurgia de um parente, uma mala presa na alfândega, um problema bancário no exterior, uma dívida que precisa ser quitada rapidamente.

O dinheiro é solicitado por transferência, Pix, depósito ou até em criptomoedas. E, quando a vítima paga uma vez, o golpista costuma voltar com novos pedidos, sempre prometendo devolver tudo assim que "resolver" a suposta crise. Não devolve. Em muitos casos, a vítima só percebe que foi enganada quando o valor perdido já passa da casa dos milhares de reais.

O caso investigado pela 37ª DP

A 37ª DP passou a investigar uma ocorrência em que a vítima teria conhecido o suposto parceiro por um aplicativo de relacionamento e, depois de meses de conversas, foi convencida a transferir dinheiro para ajudá-lo em uma situação apresentada como urgente. O caso segue em apuração, e detalhes específicos como o valor total do prejuízo, o número de vítimas envolvidas e o perfil do investigado ainda não foram divulgados pela autoridade policial.

O que a investigação já reforça, no entanto, é um padrão que se repete em delegacias de todo o país: o criminoso raramente age sozinho e, muitas vezes, opera em quadrilha, com pessoas diferentes cuidando dos perfis falsos, das conversas e da lavagem do dinheiro recebido. Também é comum que um mesmo golpista mantenha vários "relacionamentos" ao mesmo tempo, aplicando o mesmo roteiro em várias vítimas em paralelo.

A orientação repassada pelo delegado responsável é clara: qualquer pedido de dinheiro vindo de alguém que você só conhece pela internet deve ser tratado como suspeito, independentemente do quanto essa pessoa pareça confiável nas mensagens.

Como os golpistas agem em apps de namoro

Entender o passo a passo do golpe do amor ajuda a reconhecer o problema antes de o prejuízo acontecer. O roteiro segue etapas bem definidas:

1. Perfil atraente e história bem construída. O criminoso monta um perfil com fotos bonitas (quase sempre roubadas de outras redes sociais), profissão de prestígio — médico, engenheiro, militar, empresário — e uma biografia que soa madura e emocionalmente estável. O objetivo é filtrar vítimas que buscam relacionamento sério.

2. Migração rápida para outro app. Depois do primeiro contato no app de namoro, o golpista pede para continuar a conversa no WhatsApp, Telegram ou Instagram. Isso o tira do ambiente monitorado pela plataforma de relacionamento, dificulta a denúncia e permite mensagens mais frequentes.

3. Bombardeio emocional (love bombing). Nas primeiras semanas, o volume de mensagens carinhosas é altíssimo: bom-dia, boa-noite, planos de futuro, declarações intensas. Essa fase serve para criar dependência emocional e reduzir a capacidade crítica da vítima.

4. Justificativa para não se encontrar. O golpista diz estar em outro país, em uma plataforma de petróleo, em missão militar, em viagem de trabalho longa. Chamadas de vídeo são raras, curtas ou apresentam falhas "técnicas" convenientes.

5. Crise inesperada e pedido de dinheiro. Passado o tempo de conquista, surge uma emergência que só a vítima pode resolver. O valor pedido pode começar pequeno — para testar — e crescer rapidamente.

6. Ciclo de novos pedidos. Após a primeira transferência, vêm novas desculpas: taxa bancária, imposto, liberação de encomenda, resgate de investimento. Enquanto a vítima paga, o relacionamento continua. Quando ela se recusa ou desconfia, o golpista some.

Sinais de alerta que você não pode ignorar

Alguns comportamentos são bandeiras vermelhas quase infalíveis. Se a pessoa com quem você conversa apresenta um ou mais destes sinais, redobre a cautela:

  • Se declara apaixonada em poucos dias ou semanas de conversa.
  • Insiste em migrar para aplicativos privados logo no início.
  • Está sempre "viajando", "embarcada" ou em país distante.
  • Recusa ou adia chamadas de vídeo com o rosto claramente visível.
  • As fotos parecem profissionais demais ou não aparecem em uma busca reversa de imagens.
  • Menciona projetos financeiros mirabolantes (investimentos, heranças, contratos internacionais).
  • Cria uma urgência súbita envolvendo dinheiro — sempre com prazo curto.
  • Pede sigilo: "não conte para sua família, eles não vão entender".

O isolamento é uma tática central. Ao pedir que a vítima não comente a relação com parentes e amigos, o golpista impede que alguém de fora perceba a manipulação e alerte antes da transferência.

Como se proteger do golpe do amor

Proteger-se não exige desconfiar de todo mundo — exige adotar critérios simples antes de misturar sentimento com dinheiro:

  • Nunca envie dinheiro para alguém que você não conhece pessoalmente. Essa é a regra número um. Não importa a história, não importa o valor, não importa a promessa de devolução.
  • Faça a busca reversa de imagens. Salve a foto do perfil e pesquise no Google Imagens ou em ferramentas similares. Se a mesma foto aparece em contas com outros nomes, é golpe.
  • Peça chamada de vídeo espontânea. Golpistas evitam vídeo em tempo real e em boa qualidade. Uma recusa recorrente já é resposta.
  • Converse com alguém de confiança. Contar sobre o relacionamento para familiares ou amigos costuma revelar sinais que a pessoa envolvida emocionalmente não enxerga.
  • Desconfie de investimentos "garantidos". Muitos golpistas evoluem do pedido de empréstimo para propostas de investimento em cripto ou plataformas estrangeiras. É uma variação da mesma fraude.
  • Não compartilhe dados bancários, senhas, cópias de documentos ou selfies com documento. Esses dados podem ser usados para outros golpes, inclusive contratação de crédito no seu nome.

O que fazer se você já caiu no golpe

Se você identificou tarde demais que foi vítima do estelionato sentimental, o primeiro passo é agir rápido — a chance de recuperar valores diminui a cada dia:

  1. Registre boletim de ocorrência. Vá à delegacia mais próxima ou use a delegacia eletrônica do seu estado. Guarde prints das conversas, comprovantes de transferência, número de telefone, e-mails e qualquer dado do golpista.
  2. Comunique o banco imediatamente. Em caso de Pix, existe o Mecanismo Especial de Devolução, que permite ao banco tentar bloquear e devolver o valor quando há indício de fraude. Quanto mais rápido a comunicação, maior a chance de bloqueio.
  3. Denuncie o perfil no aplicativo. Isso pode impedir que o mesmo golpista aplique o golpe em outras pessoas.
  4. Procure apoio emocional. O estelionato sentimental machuca duplamente: no bolso e no afeto. Não sinta vergonha — a fraude é elaborada justamente para enganar pessoas inteligentes e cuidadosas.
  5. Acompanhe a investigação. Guarde o número do BO e mantenha contato com a delegacia responsável. Novas vítimas do mesmo criminoso podem se somar ao caso e fortalecer a apuração.

O caso investigado pela 37ª DP é mais um lembrete de que o crime evoluiu junto com a tecnologia — mas a defesa continua sendo simples: relacionamento verdadeiro não começa com pedido de dinheiro. Se essa frase vier na conversa, encerre o contato, preserve as provas e procure a polícia.

Referências

  • Polícia Civil — 37ª Delegacia de Polícia (investigação em curso sobre estelionato sentimental)
  • Código Penal — art. 171 (crime de estelionato)
  • Banco Central — Mecanismo Especial de Devolução do Pix (MED)

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