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Golpe do consignado na Caixa: PF expõe fraude contra aposentados

PF revela esquema que abria contas falsas para sacar consignado do INSS em nome de aposentados. Veja como funciona e como bloquear seu benefício.

RC

Rita Cavalcanti

📖 8 min de leitura

Uma operação da Polícia Federal deflagrada em 16 de julho de 2026 trouxe à tona um esquema que preocupa milhões de aposentados e pensionistas do INSS: o uso de contas bancárias falsas, abertas em instituições como a Caixa Econômica Federal, para contratar empréstimo consignado em nome de terceiros. Na prática, o benefício da vítima era usado como garantia — e o dinheiro caía na mão dos criminosos.

Se você recebe aposentadoria, pensão ou qualquer benefício do INSS, precisa entender como esse tipo de golpe funciona, porque ele mira exatamente o público que tem margem consignável disponível e, muitas vezes, não acompanha de perto o extrato do benefício. Nesta matéria, você vai saber como a quadrilha agia, quais brechas foram exploradas, o que a lei permite (e o que não permite) no consignado e, principalmente, quais atitudes práticas tomar hoje para evitar cair — e o que fazer se descobrir que já caiu.

Como funcionava o golpe do consignado com conta falsa

Segundo apurado na operação da Polícia Federal, a lógica do esquema seguia um roteiro relativamente simples, o que explica por que fez tantas vítimas. Primeiro, os criminosos obtinham dados pessoais de aposentados e pensionistas — nome completo, CPF, número do benefício, data de nascimento e, em alguns casos, senha do Meu INSS. Esses dados podem vazar de várias formas: links falsos enviados por WhatsApp, ligações se passando por atendentes de banco, formulários de "recadastramento" e até compra de bases roubadas.

Com os dados em mãos, a quadrilha abria uma conta bancária em nome da vítima ou em nome de um "laranja", muitas vezes usando documentos adulterados. Essa conta servia como destino do dinheiro do empréstimo. Em seguida, o consignado era contratado — de forma remota, por aplicativo ou por correspondentes bancários — usando o benefício real do aposentado como garantia. O valor liberado caía na conta controlada pelos golpistas, enquanto as parcelas passavam a ser descontadas todo mês do benefício da vítima verdadeira.

O ponto crítico é que muitas vítimas só descobriam a fraude semanas ou até meses depois, quando percebiam que o benefício estava chegando com valor menor do que o de costume.

O que diz a regra do consignado INSS — e por que o golpe explora esse limite

Para entender por que o consignado é o produto preferido desse tipo de quadrilha, é preciso conhecer as regras oficiais do consignado do INSS. Hoje, o aposentado ou pensionista pode comprometer até 40% do valor do benefício com crédito consignado, e o prazo máximo é de 108 meses (9 anos). Dessa margem de 40%, 5% ficam reservados exclusivamente para cartão benefício ou cartão consignado. Ou seja:

  • Se o beneficiário não tem nenhum cartão contratado, os 40% inteiros podem ir para o empréstimo consignado.
  • Se já existe um cartão (benefício ou consignado), sobram 35% para o empréstimo.

Além disso, a primeira parcela pode vencer em até 90 dias após a contratação. Essa carência, embora legítima e útil para quem contrata de forma consciente, também dá fôlego ao golpista: ele pega o dinheiro imediatamente e ainda ganha até três meses até o primeiro desconto aparecer no benefício da vítima — tempo suficiente para sumir.

Vale um alerta importante: quem recebe BPC/LOAS (Benefício de Prestação Continuada) muitas vezes ouve que "não pode" fazer consignado. Isso é incorreto. Por lei, o BPC/LOAS pode ser usado como base para consignado. O que acontece no momento é que, diante do alto volume de revisões e cessações desse tipo de benefício, as instituições autorizadas reduziram a oferta prática para esse público. Ou seja: é permitido, mas a disponibilidade está restrita. Cuidado com quem promete o contrário para arrancar dados.

Já para o trabalhador CLT, o consignado privado tem prazo máximo de 96 meses e margem de 35%, toda voltada ao empréstimo (não existe cartão nessa modalidade hoje). Golpes semelhantes também podem ocorrer nesse universo, embora a operação em questão tenha mirado o consignado do INSS.

Como se proteger do golpe do consignado em nome de terceiros

A boa notícia é que existem medidas concretas — e gratuitas — para reduzir drasticamente o risco de virar vítima. Veja o que fazer hoje:

1. Ative o bloqueio de empréstimo consignado no Meu INSS. O próprio INSS oferece a opção de bloquear a contratação de novos empréstimos consignados no benefício. Enquanto o bloqueio estiver ativo, nenhum banco consegue registrar um novo contrato. Se um dia você quiser contratar, basta desbloquear, fazer a operação e bloquear de novo. É a proteção mais eficiente contra esse golpe.

2. Cadastre senha forte no Meu INSS e ative verificação em duas etapas na conta gov.br. A maior parte dos golpes começa com invasão do gov.br. Uma senha exclusiva (não repetida em outros sites) e o segundo fator de autenticação impedem que criminosos entrem na sua conta mesmo se tiverem seu CPF.

3. Confira o extrato do benefício todo mês. O valor líquido que cai na conta deve ser igual ao do mês anterior (fora reajustes oficiais). Qualquer redução inexplicada é sinal de alerta e deve ser investigada imediatamente no app Meu INSS, na aba de empréstimos consignados.

4. Nunca informe dados pessoais em ligações, WhatsApp ou links. Nenhum banco sério — nem a Caixa, nem o INSS — pede senha, código de aplicativo ou selfie por telefone ou mensagem. Se receber esse tipo de contato, desligue e ligue de volta pelo número oficial que está no cartão ou no site .gov.br.

5. Desconfie de "empréstimo aprovado" que você não pediu. Quadrilhas ligam avisando que um crédito "já está liberado" e pedem confirmação de dados para "finalizar". Se você não pediu, não confirme nada.

6. Evite intermediários informais. Correspondentes de rua, ofertas em redes sociais e promessas de aprovação sem consulta são o principal canal usado por quadrilhas para coletar documentos. Prefira contratar direto no aplicativo do banco ou em uma agência.

O que fazer se você descobrir que caiu no golpe

Se ao consultar o extrato você identificou um empréstimo consignado que não reconhece, aja rápido — quanto antes contestar, maior a chance de suspender os descontos e reaver os valores. O caminho é:

Passo 1 — Reúna as provas. Tire prints do contrato que apareceu no Meu INSS, do extrato do benefício mostrando o desconto e de qualquer mensagem suspeita que você tenha recebido antes.

Passo 2 — Registre reclamação no banco responsável pelo contrato. No caso apurado pela operação, muitos contratos passaram pela Caixa Econômica Federal. Peça formalmente a contestação da fraude e o número de protocolo. O banco tem obrigação de apurar e responder.

Passo 3 — Comunique o INSS. Pelo Meu INSS ou pela Central 135, registre a contestação do empréstimo consignado não reconhecido. O INSS pode determinar a suspensão dos descontos enquanto a apuração corre.

Passo 4 — Faça o Boletim de Ocorrência. Registre BO na Polícia Civil (pode ser online, na maioria dos estados) e, quando envolver esquema organizado como o desta operação, também na Polícia Federal. O BO é peça-chave para reforçar a contestação junto ao banco.

Passo 5 — Reclame nos canais oficiais. Se o banco não resolver em prazo razoável, registre reclamação no Banco Central (canal Fale Conosco/RDR) e no consumidor.gov.br. Em último caso, procure a Defensoria Pública ou um advogado — a jurisprudência tem sido favorável à vítima em fraudes com consignado, com devolução em dobro dos valores descontados.

Conclusão: benefício protegido é benefício com bloqueio ativo

A operação da Polícia Federal deflagrada em julho de 2026 mostra que o golpe do consignado em nome de terceiros não é mais coisa de fraudador isolado: são quadrilhas estruturadas, com contas de fachada e uso pesado de dados vazados. A vítima, quase sempre, é o aposentado que confiou em um contato aparentemente inofensivo.

A medida mais poderosa que você pode tomar hoje leva menos de dois minutos: entrar no Meu INSS e ativar o bloqueio para novos empréstimos consignados. Se, além disso, você conferir o extrato mensalmente e nunca passar dados por telefone ou link, o risco cai a praticamente zero. Proteger o seu benefício é proteger o seu sustento — e, nesse tipo de golpe, alguns cliques de prevenção valem mais do que meses tentando reverter o prejuízo.

Referências

  • Polícia Federal — operação deflagrada em 16/07/2026 sobre fraudes em consignado do INSS.
  • Caixa Econômica Federal — instituição utilizada em parte dos contratos fraudulentos apurados.
  • Seu Crédito Digital — descrição da mecânica do esquema no consignado do INSS.

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