Golpe do falso advogado: 1.520 denúncias na OAB-SP em 2026
OAB-SP registra 1.520 denúncias do golpe do falso advogado em 2026. Veja como criminosos usam dados reais de processos e como se proteger do Pix falso.
Rita Cavalcanti
O número de pessoas enganadas pelo chamado golpe do falso advogado disparou em São Paulo. Somente neste ano, a seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP) já recebeu 1.520 denúncias de cidadãos abordados por criminosos que se passam pelo advogado responsável por um processo real — em geral, ações previdenciárias, trabalhistas, indenizações e acordos contra bancos. O público mais atingido é justamente o mais vulnerável: aposentados, pensionistas do INSS, trabalhadores CLT em ações trabalhistas e famílias de baixa renda que aguardam há anos por algum valor na Justiça.
O que torna esse golpe especialmente perigoso é o nível de detalhe que o criminoso domina. Não se trata mais daquela ligação genérica do tipo "você ganhou um prêmio". O bandido tem em mãos o número do processo, o nome do advogado verdadeiro, a vara em que a ação tramita e até o valor estimado da causa. Para a vítima, parece impossível duvidar — afinal, como um estranho saberia tantos detalhes? É essa sensação de "só pode ser de verdade" que faz milhares de brasileiros transferirem dinheiro via Pix achando que estão pagando uma taxa para liberar um valor que, na prática, nunca vai chegar.
Neste guia, você vai entender como o golpe funciona, por que ele está crescendo, de onde vêm os dados sigilosos, quais sinais denunciam o golpista, o que fazer se você ou um familiar foi abordado e como confirmar com segurança se quem está ligando é mesmo o advogado da sua causa.
Como funciona o golpe do falso advogado que está atingindo aposentados
O roteiro do golpe é refinado e dividido em etapas. Primeiro, o criminoso entra em contato com a vítima por telefone, WhatsApp ou até por carta com aparência oficial. Ele se apresenta como o advogado responsável pelo processo da pessoa ou como um "colega de escritório" que estaria assumindo a causa em caráter de urgência.
Em seguida, vem a parte que derruba a desconfiança da vítima: o golpista cita o número do processo, o nome do juiz, a vara em que a ação corre, o valor que estaria para sair e até o nome do banco que vai fazer o pagamento. Para uma pessoa de 70 anos, que ajuizou uma revisão de benefício há cinco anos e quase desistiu de acompanhar, ouvir esses dados pelo telefone soa como notícia de Natal. É o gatilho emocional perfeito.
A partir daí, o golpista informa que existe uma "pendência" para liberar o valor. As justificativas variam, mas seguem um padrão:
- Pagamento de honorários sucumbenciais que teriam sido cobrados pelo juízo;
- Taxa de desbloqueio judicial ou de "alvará";
- Imposto de Renda retido que precisa ser quitado antes do saque;
- Custas processuais finais;
- Depósito de garantia para liberar o precatório.
O valor pedido geralmente é alto o suficiente para parecer plausível diante da quantia prometida (alguém que receberia R$ 80 mil acha razoável pagar R$ 3 mil de "taxa"), mas baixo o suficiente para que a vítima consiga juntar rápido. O pagamento é exigido por Pix imediato para uma chave que, na maioria das vezes, está em nome de pessoa física — terceira pessoa, conta de laranja — o que já seria, sozinho, um enorme sinal vermelho.
Uma vez feita a transferência, o criminoso some. Em alguns casos, o golpe ainda evolui para uma segunda etapa: o falso advogado liga de novo, dias depois, dizendo que houve "mais uma exigência da Justiça" e pede outro Pix. Há vítimas que pagaram três, quatro vezes antes de perceber.
Por que aposentados, pensionistas e trabalhadores são os alvos preferidos
O golpe mira no público com três características muito específicas: tem um processo real em andamento, tem dificuldade de acompanhar o andamento pelos canais digitais e tem urgência emocional para receber o dinheiro.
Isso explica por que aposentados e pensionistas do INSS estão no topo da lista. Boa parte das ações desse público envolve revisão de benefício, conversão de aposentadoria, restituição de descontos indevidos do consignado, devolução de empréstimo consignado fraudulento e indenização por inscrição irregular em cartão consignado — processos que se arrastam por anos. Quando o telefone toca e alguém diz que "saiu o valor", a vontade de acreditar é enorme.
O mesmo vale para trabalhadores CLT que entraram com ações trabalhistas após demissão, para vítimas de empréstimo consignado contratado sem autorização e para famílias que aguardam pagamento de seguro DPVAT, indenização de plano de saúde ou herança. Em todos esses casos, há um processo verdadeiro, com partes verdadeiras, e uma expectativa real de receber dinheiro — o terreno fértil para o golpista atuar.
Outro fator que pesa: pessoas idosas têm, em média, menor familiaridade com a consulta online de processos no site do tribunal. Isso impede a checagem rápida do que está sendo dito por telefone. Soma-se a esse ponto o respeito quase reverencial que muitos brasileiros têm pela figura do advogado, o que reduz o instinto de questionar.
De onde os criminosos tiram os dados verdadeiros dos processos
Essa é a pergunta que mais aflige as vítimas: como o golpista sabia o número do meu processo, o nome do meu advogado e até o valor da causa? Existem várias portas de entrada para essa informação, e nem todas dependem de um vazamento criminoso.
A primeira fonte é a publicidade dos processos judiciais. No Brasil, a maioria dos processos é pública por força constitucional e fica disponível para consulta nos sites dos tribunais (TJSP, TRTs, TRFs). Qualquer pessoa, com o nome completo ou CPF, consegue localizar processos em nome daquela parte e ler peças, valores e movimentações. Os criminosos rastreiam essas listas em busca de causas com valor elevado e perto da fase final.
A segunda fonte são os vazamentos de dados pessoais que se tornaram comuns no país nos últimos anos. Bases com CPF, nome da mãe, telefone, endereço e até histórico de benefícios do INSS são vendidas no submundo digital. Cruzando esses dados com a consulta processual pública, o criminoso monta um dossiê completo da vítima.
A terceira fonte, mais grave, é a infiltração em escritórios de advocacia, cartórios e até em órgãos públicos, com pessoas que repassam informações sigilosas em troca de dinheiro. Por isso, a OAB-SP tem orientado escritórios a reforçarem a segurança de dados de clientes.
Por fim, há o phishing direto: a vítima recebe um e-mail ou SMS falso pedindo para "atualizar dados do processo" e fornece, sem perceber, exatamente as informações que serão usadas contra ela depois.
Entender essas origens é importante para uma conclusão clara: o fato de alguém saber dados do seu processo NÃO prova que essa pessoa é o seu advogado. Esses dados, hoje, circulam com muito mais facilidade do que o cidadão imagina.
Sinais de alerta: como identificar que o advogado que está ligando é falso
Apesar do nível de sofisticação, o golpe deixa rastros que, uma vez conhecidos, ficam fáceis de identificar. Toda vez que aparecer pelo menos um dos sinais abaixo, a regra é desligar e checar antes de fazer qualquer coisa.
1. Cobrança de qualquer valor para liberar o pagamento. Esse é o sinal mais importante. Nenhum juiz, banco ou advogado honesto pede que a parte transfira dinheiro para "liberar" um valor a receber. Custas, honorários e impostos são descontados diretamente do valor depositado em juízo — nunca exigidos por Pix antecipado.
2. Pix para conta de pessoa física. Escritórios de advocacia recebem em conta jurídica (CNPJ). Pix para CPF de terceiro, em nome diferente do advogado da causa, é golpe em 100% dos casos.
3. Urgência exagerada. "O alvará vence hoje", "se não pagar até amanhã o juiz cancela o pagamento", "a verba vai voltar para a União". Justiça não funciona assim. Prazos existem, mas não dependem de Pix imediato do cliente.
4. Contato por número desconhecido, sobretudo WhatsApp. O advogado verdadeiro tem um número que você já usou alguma vez. Mensagens vindas de números novos, mesmo com foto de perfil profissional, devem ser tratadas como suspeitas até que se prove o contrário.
5. Pedido para baixar aplicativo ou clicar em link para "acompanhar o processo". É a porta de entrada para invasão do celular e roubo das senhas bancárias.
6. Pedido de dados bancários, senha do INSS, código do banco ou foto de documentos. Nenhum advogado precisa disso para receber um valor que será depositado em conta judicial.
7. O "advogado" não consegue marcar uma reunião presencial no escritório. Sempre que houver dúvida, exija ir até o escritório. Golpista nunca aceita.
O que fazer se você ou um parente foi abordado pelo falso advogado
Se a abordagem já aconteceu, mas o pagamento ainda não foi feito, a regra é simples: não pague nada, não envie documento nenhum e não devolva a ligação. Encerre o contato e siga estes passos.
Primeiro, ligue para o seu advogado verdadeiro pelo número que você já tem registrado — não pelo número que apareceu na ligação suspeita. Pergunte diretamente: "Você acabou de me ligar pedindo um Pix?".
Segundo, consulte o andamento do seu processo no site do tribunal correspondente (TJSP para ações estaduais, TRT para trabalhistas, TRF para federais e contra o INSS). Se você não souber como, peça ajuda a um filho, neto ou ao próprio advogado. Veja se de fato há algum alvará para pagamento e qual a fase real do processo.
Terceiro, registre boletim de ocorrência, mesmo que você não tenha caído no golpe. Isso ajuda as autoridades a mapear as quadrilhas. A Polícia Civil de São Paulo aceita registro online pela Delegacia Eletrônica.
Quarto, denuncie à OAB-SP. A seccional mantém canal específico para denúncias contra falsos advogados, e o volume de relatos é o que alimenta as estatísticas e a investigação.
Agora, se o pagamento já foi feito, a ação precisa ser ainda mais rápida:
- Acione imediatamente o seu banco pelo MED (Mecanismo Especial de Devolução) do Pix, instituído pelo Banco Central, que permite tentar reverter transferências feitas em casos de fraude. O pedido tem que ser feito em até 80 dias da transação, mas as chances de recuperar caem muito após as primeiras horas;
- Registre boletim de ocorrência com todos os comprovantes, números de telefone usados pelo golpista, prints de conversas e chave Pix do recebedor;
- Comunique a OAB-SP e o seu advogado verdadeiro;
- Avise familiares e vizinhos: quadrilhas costumam atacar pessoas do mesmo grupo (a mesma agência bancária, o mesmo escritório, o mesmo bairro de aposentados).
Como confirmar com segurança se o advogado que está ligando é mesmo o seu
Existem maneiras práticas e simples de checar, em poucos minutos, se a pessoa do outro lado da linha é mesmo o profissional da sua causa. Memorize essas verificações e ensine para seus pais e avós.
Consulte o número da OAB no Cadastro Nacional dos Advogados (CNA). Toda pessoa que exerce a advocacia tem um número de OAB. Esse número é público e pode ser consultado gratuitamente no portal nacional do CNA, mantido pelo Conselho Federal da OAB. Lá, você confirma se o nome, a foto, a seccional e a situação (ativo ou não) batem com o que o suposto advogado disse.
Compare o número de telefone. Pegue o contato que você tem do escritório desde o início do processo — em geral, está em algum cartão, contrato ou e-mail antigo — e ligue para esse número. Não confie em "o telefone do escritório mudou".
Vá ao endereço físico. Marque uma reunião presencial. Escritório real tem endereço, recepção e secretária. Quadrilha não tem.
Cheque o processo direto no tribunal. Mesmo sem entender de Direito, você consegue ver as últimas movimentações. Se não há ordem de pagamento, alvará expedido ou depósito feito, qualquer cobrança por fora é golpe.
Desconfie de mudança de banco para receber o valor. Pagamentos judiciais saem por bancos oficiais (Caixa, Banco do Brasil ou o banco depositário do tribunal). Não existe pagamento de processo via Pix para conta privada.
Cuidados extras para quem tem consignado, ação contra banco ou processo no INSS
Quem é aposentado, pensionista ou trabalhador CLT com empréstimo consignado precisa redobrar a atenção, porque esse público concentra três fatores que os golpistas adoram: benefício recorrente, processos comuns contra bancos por descontos indevidos e baixa familiaridade com canais digitais.
A primeira recomendação é nunca tratar de empréstimo consignado, cartão consignado ou revisão de benefício do INSS por telefone com pessoa que ligou sem ser chamada. Se o contato veio de fora, desconfie por padrão. O INSS não liga pedindo dado bancário e não cobra taxa para liberar revisão. Os bancos consignados também não cobram "taxa para devolver desconto indevido".
Segundo: ao contratar um advogado para entrar com ação de devolução de consignado fraudulento ou revisão de aposentadoria, exija contrato escrito, com nome completo, número da OAB, CNPJ do escritório e dados de contato verificáveis. Guarde uma cópia em casa e outra com um familiar de confiança.
Terceiro: combine com seu advogado, logo no início, uma regra simples — "nenhum pedido de dinheiro será feito por telefone ou WhatsApp; qualquer cobrança será tratada pessoalmente, no escritório". Essa combinação prévia funciona como uma senha contra o golpe.
Quarto: monte uma rede de proteção familiar. Aposentados que moram sozinhos são alvo número um. Combine com filhos e netos que toda vez que aparecer uma ligação sobre processo, dinheiro a receber, empréstimo ou benefício, eles serão consultados antes de qualquer Pix.
Quinto: ative na sua conta bancária o limite reduzido de Pix noturno e, se possível, um limite diário baixo para Pix em geral. Isso, sozinho, já trava boa parte das tentativas de golpe que dependem de transferência imediata e alta.
Conclusão: a regra de ouro contra o golpe do falso advogado
As 1.520 denúncias registradas na OAB-SP em 2026 mostram que o golpe do falso advogado deixou de ser exceção e virou um dos esquemas mais comuns aplicados contra quem aguarda dinheiro na Justiça. Ele explora exatamente quem mais precisa de proteção: aposentado que espera revisão, trabalhador que aguarda acerto trabalhista, família que sonha com o fim de uma briga judicial antiga.
A regra de ouro para se proteger cabe em uma frase: nenhum processo, em hipótese alguma, exige que a parte pague Pix antecipado para receber o que tem direito. Custas, impostos e honorários saem do valor depositado em juízo, não da conta da vítima.
Desconfie do excesso de informação que o golpista demonstra — hoje, esses dados vazam de várias portas e não provam absolutamente nada. Confirme tudo pelo número antigo do seu advogado, consulte o processo no site do tribunal, exija reunião presencial, registre boletim de ocorrência e denuncie à OAB-SP. Compartilhe este alerta com pais, avós e vizinhos: a melhor defesa contra esse golpe não é tecnologia, é informação passada de pessoa para pessoa.
Se você está com um processo em andamento e recebeu uma ligação suspeita nas últimas semanas, não pague nada até confirmar diretamente com o profissional que você conhece.
Referências
- OAB-SP — dados de denúncias de golpe do falso advogado em 2026.
- Folha de São Paulo, caderno Mercado, edição de 23/06/2026 — reportagem sobre o modus operandi do golpe.
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