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Golpe do falso ressarcimento do INSS lesa 21 em MG

Criminosos ligam oferecendo devolução dos descontos indevidos de associações e pedem dados bancários ou transferências para 'liberar' o dinheiro.

Rita Cavalcanti

📖 12 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • Em Minas Gerais, 21 aposentados perderam cerca de R$ 300 mil para golpistas que se passam por funcionários do INSS, segundo a Polícia Civil.
  • O INSS não liga, não cobra taxa e não pede PIX ou senha para devolver descontos indevidos: o valor cai na mesma conta em que o benefício é pago.
  • Em caso de fraude via PIX, acione o Mecanismo Especial de Devolução (MED) no banco e registre boletim de ocorrência o mais rápido possível.
  • A contestação de descontos associativos deve ser feita apenas pelos canais oficiais: aplicativo Meu INSS, site gov.br ou telefone 135.

Um novo golpe vem se espalhando pelo Brasil justamente no momento em que milhões de aposentados e pensionistas esperam receber de volta os valores descontados sem autorização de seus benefícios. Em Minas Gerais, pelo menos 21 pessoas já foram enganadas e, somadas, perderam cerca de R$ 300 mil para quadrilhas que se passam por funcionários do INSS, de advogados ou de supostos órgãos de defesa do consumidor. O prejuízo médio por vítima passa de R$ 14 mil, um valor que para muitos aposentados representa meses de benefício inteiros.

Se você recebeu uma ligação, mensagem no WhatsApp ou e-mail dizendo que seu ressarcimento "já está liberado" e que basta pagar uma taxa, confirmar dados ou autorizar uma transferência para receber, pare agora. Este texto explica, com calma e sem termo técnico desnecessário, como o golpe do falso ressarcimento do INSS funciona, por que ele cresceu tanto nos últimos meses, como o INSS realmente devolve esse dinheiro e, principalmente, o que fazer se você ou alguém da sua família caiu na armadilha.

Como funciona o golpe do falso ressarcimento de descontos indevidos do INSS

O golpe é inteligente porque se encaixa em um fato verdadeiro. Desde o início de 2025, o INSS admitiu que milhões de aposentados tiveram descontos de mensalidades associativas feitos nos benefícios sem autorização clara, e organizou um processo oficial de devolução desses valores. Ou seja, o ressarcimento existe mesmo. É daí que os criminosos tiram a credibilidade da conversa.

O roteiro mais comum funciona assim: a vítima recebe uma ligação de um número que parece oficial, muitas vezes com o nome "INSS" aparecendo no identificador. Do outro lado, uma pessoa calma, educada e com voz de quem está lendo um sistema afirma que já identificou os descontos indevidos no CPF do aposentado e que o processo de devolução "já foi autorizado". O valor costuma ser alto — alguns milhares de reais — para prender a atenção.

Na sequência, o golpista inventa uma condição qualquer para que o dinheiro "caia na conta". Pode ser o pagamento de uma taxa de liberação, de uma suposta custa processual, de um imposto, de uma guia bancária ou de um PIX de "confirmação de titularidade". Em outras versões, pede que a vítima informe senha do Meu INSS, código enviado por SMS, número do cartão, dados bancários completos ou que instale um aplicativo de "acompanhamento do ressarcimento" — que na verdade é um programa de acesso remoto ao celular.

Em Minas Gerais, segundo as investigações divulgadas pela Polícia Civil, as 21 vítimas identificadas até agora caíram em variações desse mesmo roteiro, com desvios que somam cerca de R$ 300 mil. O número real tende a ser maior, porque muitos aposentados nem percebem que foram enganados, especialmente quando o golpe é feito em etapas, com valores menores.

Os números do golpe aplicado em Minas Gerais

O que chama atenção no caso mineiro não é apenas o volume, mas o perfil das vítimas. Os aposentados abordados foram escolhidos a dedo: em muitos casos, os criminosos já ligavam sabendo o nome completo, o número do benefício e até o valor exato que havia sido descontado da aposentadoria. Isso indica que houve vazamento ou compra de bases de dados de terceiros, provavelmente de associações que operavam os descontos.

Quando o criminoso chega na ligação já com informações pessoais corretas, a resistência da vítima cai muito. Afinal, se ele sabe quanto foi descontado, deve ser mesmo do INSS, certo? Errado. A verdade é que o INSS não liga para o aposentado para oferecer ressarcimento, não cobra taxa para liberar o dinheiro e nunca pede PIX, senha, número de cartão ou código de verificação por telefone.

Outro ponto que preocupa é a logística do golpe. Os valores desviados caem em contas de laranjas — pessoas que emprestam o nome em troca de pagamento — e são rapidamente distribuídos entre várias outras contas, muitas vezes de bancos digitais, até sumirem em compras, saques e transferências para fora do estado. Isso dificulta a recuperação do dinheiro mesmo quando a vítima registra o boletim de ocorrência rapidamente.

Por que o golpe do ressarcimento do INSS está crescendo agora

Não é coincidência que esse tipo de fraude tenha explodido em 2025. Três fatores se somaram.

O primeiro é o escândalo real dos descontos associativos. O INSS reconheceu que diversas entidades estavam retirando mensalidades de aposentados sem consentimento válido, suspendeu novos descontos desse tipo e passou a organizar a devolução dos valores já cobrados indevidamente. O assunto virou manchete em todo o país, foi comentado em grupos de família, em filas de banco e em redes sociais. Qualquer aposentado passou a saber que "tem um dinheiro para receber". E foi aí que os golpistas entraram.

O segundo fator é o canal oficial de contestação. O INSS criou um procedimento próprio para quem quer contestar os descontos, feito pelo aplicativo Meu INSS, pelo site gov.br ou pelo telefone 135. Como muita gente tem dificuldade com aplicativo, acaba atendendo qualquer ligação que mencione o assunto achando que é o próprio INSS retornando. Essa confusão natural é o terreno perfeito para a fraude.

O terceiro fator é o vazamento de dados. Como as entidades associativas tinham acesso ao nome, CPF, número do benefício e valor descontado dos aposentados, essas bases circulam hoje no mercado negro. Com elas, o criminoso constrói uma abordagem assustadoramente convincente — e é por isso que mesmo pessoas atentas estão caindo.

A soma disso tudo é um ambiente em que o aposentado está, ao mesmo tempo, esperando um dinheiro de verdade e exposto a uma avalanche de contatos falsos. O resultado aparece nas estatísticas das delegacias especializadas em crimes cibernéticos, que registram alta expressiva nesse tipo de boletim de ocorrência em 2025.

Como o INSS realmente devolve descontos indevidos

Entender o caminho verdadeiro é a melhor defesa contra o golpe. O processo oficial de ressarcimento tem regras claras, e nenhuma delas envolve pagar nada para receber.

O primeiro passo é a contestação. O aposentado que identificou um desconto de associação ou entidade que ele não autorizou deve pedir a devolução pelos canais oficiais: o aplicativo ou site Meu INSS, o telefone 135 ou uma agência da Previdência Social. Nenhum desses canais exige PIX, taxa, pagamento de boleto ou instalação de aplicativo extra.

Feito o pedido, o INSS analisa o caso e, quando reconhece que o desconto foi indevido, inclui o valor na folha de pagamento do próprio benefício. Ou seja, o dinheiro volta pelo mesmo caminho pelo qual a aposentadoria é paga — na conta onde o segurado já recebe todo mês, sem precisar abrir conta nova, informar chave PIX diferente ou cadastrar "conta de ressarcimento".

O INSS também não cobra para fazer essa devolução. Não existe taxa de liberação, imposto sobre o ressarcimento, custa processual ou pagamento antecipado. Se alguém está pedindo qualquer valor para que o dinheiro caia, é golpe. Ponto. Essa é, talvez, a regra mais simples e mais importante para o aposentado guardar: órgão público não cobra para devolver o que é seu.

Outro ponto é que o INSS não oferece ressarcimento por ligação, SMS ou WhatsApp. O órgão pode fazer campanhas públicas de informação, divulgar prazos em seu site e enviar comunicados dentro do próprio aplicativo Meu INSS, mas um atendente não vai telefonar para dizer "seu dinheiro já foi liberado, confirme seus dados agora". Se a ligação começar assim, pode desligar sem culpa.

Sinais claros de que você está diante do golpe do ressarcimento

Mesmo quando o criminoso é bom de conversa, o golpe deixa pistas. Preste atenção nestes sinais:

Urgência artificial. O golpista sempre diz que o valor "vence hoje", que "se não resolver agora volta pra fila" ou que "só tem até o fim do expediente". Essa pressão de tempo serve para impedir que a vítima pense ou peça opinião a um familiar. O INSS trabalha com prazos oficiais, não com minutos.

Pedido de taxa, PIX ou pagamento. Qualquer cobrança para liberar o ressarcimento é fraude. Não importa se o valor é pequeno ("só R$ 49 de taxa") ou se vem com nome de imposto, custa ou tarifa bancária.

Pedido de senha, código ou dados completos. O INSS nunca pede sua senha do Meu INSS, código de SMS, número completo do cartão ou do seu banco. Esses dados dão acesso à sua conta e à sua aposentadoria. Nenhum atendente legítimo precisa deles por telefone.

Instalação de aplicativo. Se pedirem para você baixar um app para "acompanhar o processo", desligue. Esses aplicativos costumam ser ferramentas de acesso remoto que entregam o controle do seu celular ao criminoso.

Transferência para conta de terceiro. Qualquer valor que deva "passar por uma conta de garantia", conta de advogado, conta de cartório ou conta de qualquer pessoa que não seja a sua é golpe. Dinheiro de ressarcimento do INSS cai na conta onde você recebe o benefício, e em nenhum outro lugar.

Contato por WhatsApp com foto do "servidor". Criminosos criam perfis com nome falso de servidor, foto de uniforme e até um "crachá" fotografado. É encenação. O INSS não presta atendimento oficial por WhatsApp pessoal.

Promessa de valor alto demais. Se a ligação fala em dezenas de milhares de reais sem que você sequer tenha pedido contestação, desconfie. O ressarcimento verdadeiro depende do que foi efetivamente descontado do seu benefício, e esse valor costuma ser bem mais modesto do que o criminoso promete.

O que fazer se você caiu no golpe do ressarcimento do INSS

Primeira coisa: não se envergonhe. Os golpes de hoje são sofisticados, usam dados verdadeiros e são aplicados por pessoas treinadas em manipular conversa. Cair neles não é falta de inteligência — é o resultado de uma engenharia criminosa bem feita. Reagir rápido é mais importante do que se culpar.

Os primeiros minutos são decisivos. Se você fez um PIX, uma transferência ou pagou um boleto, ligue imediatamente para o seu banco e peça o Mecanismo Especial de Devolução (MED), que permite tentar reaver o valor transferido por PIX em caso de fraude. Esse pedido deve ser feito o mais rápido possível, idealmente ainda no mesmo dia, porque é o tempo que o banco tem para bloquear o dinheiro antes que ele seja movimentado.

Se você informou dados do cartão, senha de banco ou códigos recebidos por SMS, bloqueie o cartão, troque a senha dos aplicativos bancários e habilite verificação em duas etapas em tudo que oferecer esse recurso. Se instalou algum aplicativo pedido pelo golpista, desinstale, desligue o celular, remova a conta do Google ou Apple do aparelho e, se possível, restaure o telefone de fábrica.

O segundo passo é o boletim de ocorrência. Ele pode ser feito presencialmente em qualquer delegacia ou, em muitos estados, pela delegacia virtual. O B.O. é essencial para que a investigação avance e para que você consiga contestar débitos indevidos e cobrar o banco em caso de omissão.

O terceiro passo é comunicar o INSS. Pelo 135 ou pelo Meu INSS, informe que você foi vítima de fraude envolvendo o nome do órgão. Essa comunicação ajuda o próprio INSS a mapear o padrão dos golpes e orientar outros segurados, e também protege seu benefício caso o criminoso tente, por exemplo, contratar empréstimo em seu nome.

Se houver suspeita de que o golpe envolveu uso indevido do seu CPF para contratar crédito, consulte seus dados no Registrato do Banco Central (sistema oficial e gratuito) e, se encontrar operação que você não reconhece, conteste-a diretamente com o banco responsável. Caso o banco se recuse a resolver, o próximo caminho é o Procon e, se necessário, o Judiciário.

Como proteger sua família do golpe do falso ressarcimento

A maior parte das vítimas desse golpe tem mais de 60 anos. Muitas moram sozinhas, atendem o telefone com naturalidade e têm vergonha de contar para os filhos quando algo "estranho" acontece. Por isso, a prevenção dentro de casa é tão importante quanto a técnica.

Converse com seus pais e avós sobre esse golpe específico. Explique que, mesmo que a ligação pareça oficial, mesmo que a pessoa saiba o nome e o número do benefício, mesmo que o valor prometido seja alto, a regra é desligar e ligar de volta para o 135 ou abrir o próprio aplicativo Meu INSS. Essa simples pausa derruba 90% dos golpes, porque o criminoso vive de impedir que a vítima verifique.

Combine uma "palavra-chave" da família para decisões financeiras urgentes. Se qualquer pessoa — mesmo que diga ser do INSS, do banco ou da polícia — pedir para fazer transferência imediata, o aposentado deve antes falar com um filho ou neto de confiança. Esse hábito simples salva muito dinheiro.

Se possível, ajude o idoso a configurar bloqueio de chamadas de números desconhecidos, a usar aplicativos de identificação de ligação como o do próprio celular e a desativar instalação de aplicativos fora da loja oficial. São barreiras pequenas que, somadas, afastam a maioria dos criminosos.

Conclusão: ressarcimento verdadeiro não cobra, não corre e não liga

O golpe do falso ressarcimento do INSS cresce porque pega carona em uma preocupação legítima dos aposentados. Mas, por mais sofisticado que ele fique, três verdades continuam valendo: o INSS não cobra para devolver dinheiro, o INSS não telefona oferecendo ressarcimento com urgência, e o valor devido cai sempre na mesma conta em que o benefício é pago.

Se você guardar essas três frases — e repassá-las para quem está próximo — você já reduziu drasticamente o risco de perder dinheiro. E se desconfiar de qualquer contato, o caminho é um só: desligar, abrir o Meu INSS por conta própria ou ligar para o 135. Dois minutos de verificação valem mais que qualquer promessa feita ao telefone.

O caso de Minas Gerais, com 21 vítimas identificadas e R$ 300 mil desviados, é só a parte visível de um movimento maior que atinge aposentados em todo o país. Quanto mais gente souber como o golpe funciona, menor fica o espaço para os criminosos agirem.

Referências

  • Polícia Civil de Minas Gerais — divulgação sobre golpe do falso ressarcimento do INSS
  • INSS / Ministério da Previdência Social — comunicados oficiais sobre descontos associativos e canais de contestação (Meu INSS, gov.br, 135)
  • Banco Central do Brasil — regras do PIX (Mecanismo Especial de Devolução — MED) e sistema Registrato

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