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Golpes no WhatsApp e por ligação atingem 45 milhões, diz Cetic.br

Cetic.br aponta 45 milhões de brasileiros alvos de golpes com dados pessoais; 48% tiveram prejuízo. Veja como identificar abordagens e se proteger.

RC

Rita Cavalcanti

📖 8 min de leitura

Se você já recebeu uma mensagem estranha de um número desconhecido no WhatsApp, uma ligação dizendo que seu CPF foi bloqueado ou um SMS com um link suspeito, saiba que você faz parte de um grupo grande — e cada vez maior — de brasileiros na mira de criminosos digitais. Levantamento do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) aponta que 45 milhões de pessoas no país já sofreram algum tipo de tentativa de golpe envolvendo o uso indevido de dados pessoais. E, segundo a mesma pesquisa, em 48% dos casos os criminosos conseguiram efetivamente subtrair dinheiro das vítimas.

O recado é claro. Não se trata mais de um problema pontual, de gente distraída ou de idoso desavisado. É um fenômeno de escala nacional, que atinge trabalhador CLT, aposentado do INSS, autônomo e beneficiário de programas sociais. Nesta reportagem, você vai entender por que os golpes cresceram, quais são os canais preferidos dos criminosos, como eles conseguem seus dados e o que fazer para não cair — e o que fazer caso já tenha caído.

45 milhões de vítimas e prejuízo financeiro em quase metade dos casos

Segundo a pesquisa Privacidade e Proteção de Dados Pessoais divulgada pelo Cetic.br, 45 milhões de brasileiros relataram já ter sido alvo de uma tentativa de golpe que usou informações pessoais suas — como nome completo, CPF, endereço, número de telefone ou dados bancários. Desse total, 48% afirmaram que os criminosos conseguiram efetivamente subtrair valores, seja por transferência via Pix, seja por compras não autorizadas, seja por contratação de crédito em nome da vítima.

Na prática, isso significa que quase metade das pessoas envolvidas em situações de golpe não apenas foi enganada — perdeu dinheiro de verdade. E, para famílias que vivem de salário mínimo, de aposentadoria do INSS ou do BPC/LOAS, uma perda de algumas centenas de reais já representa a diferença entre pagar as contas ou entrar no vermelho.

O gerente do Cetic.br, Alexandre Barbosa, chama atenção para o fato de que o uso indevido de dados pessoais é o que dá aparência de veracidade ao golpe. Quando o criminoso liga já sabendo o seu nome completo, o banco onde você recebe seu benefício e até o número do seu documento, a chance de você acreditar aumenta bastante. Não é mais aquele golpe genérico de anos atrás — é um ataque personalizado.

WhatsApp e ligações: os canais preferidos dos golpistas

A pesquisa também mapeou por onde os criminosos preferem chegar até a vítima. Os dois canais mais usados são o WhatsApp e as ligações telefônicas convencionais. Não é coincidência: são exatamente os meios de comunicação mais presentes no cotidiano do brasileiro, especialmente das classes C, D e E, e também das pessoas mais velhas, que muitas vezes têm o WhatsApp como principal ferramenta digital.

No WhatsApp, os golpes mais comuns seguem alguns padrões que vale a pena conhecer:

  • Falso parente ou filho pedindo dinheiro: o criminoso cria um perfil com foto retirada de redes sociais e manda mensagem dizendo "mãe, troquei de número, salva aí". Depois, pede um Pix urgente.
  • Falso funcionário de banco ou do INSS: manda mensagem alertando sobre supostas irregularidades no benefício, pedindo confirmação de dados ou envio de código.
  • Falso suporte técnico ou promoção: oferece prêmios, cashback ou recadastramento e envia um link que instala aplicativo malicioso no celular.

Nas ligações telefônicas, o roteiro costuma ser mais elaborado. O criminoso se apresenta como funcionário do banco ou de alguma central oficial, informa que houve tentativa de fraude na conta e orienta a vítima a fazer uma transferência "para uma conta segura" ou passar códigos que chegam por SMS. É o golpe da falsa central telefônica, um dos mais devastadores porque explora o medo imediato de perder o dinheiro.

O ponto em comum entre os dois canais é a urgência. O golpista sempre pressiona: "resolve agora", "se você não fizer nos próximos minutos vai bloquear tudo", "seu benefício vai ser cancelado". Essa pressão psicológica é o principal indicador de que algo está errado.

Como os criminosos conseguem seus dados pessoais

Uma dúvida legítima é: como essas quadrilhas sabem tanto sobre a gente? A resposta envolve várias frentes, e entender isso ajuda a se proteger.

Vazamentos de dados em empresas e instituições. Nos últimos anos, o Brasil viveu diversos incidentes em que bancos de dados com milhões de CPFs, nomes, endereços e telefones vazaram e passaram a circular em fóruns criminosos. Esses cadastros são vendidos aos golpistas por valores irrisórios.

Aplicativos falsos e links maliciosos. Ao clicar em promoções que chegam por SMS ou WhatsApp, muitas vítimas instalam sem perceber programas espiões que capturam senhas, mensagens e até acesso remoto ao aparelho.

Excesso de informação em redes sociais. Fotos de documentos, do cartão de banco, do comprovante do benefício, do local de trabalho — cada informação pública é uma peça a mais no quebra-cabeça que o criminoso monta.

Ligações e mensagens de "confirmação de cadastro". Muitas vezes o golpista não sabe tudo sobre a vítima e usa o próprio contato para preencher as lacunas. Perguntas aparentemente inocentes, como "o senhor recebe pelo Banco X mesmo?", servem para confirmar dados que ele ainda não tinha.

A pesquisa do Cetic.br reforça que o problema não é apenas o cidadão ser descuidado — muitas vezes o dado vaza por caminhos que fogem completamente do controle da pessoa comum. Mesmo assim, existem cuidados que reduzem o risco.

Como se proteger de golpes por WhatsApp, SMS e ligações

Não existe proteção 100%, mas existem hábitos simples que diminuem muito a chance de você virar estatística. Anote essas regras práticas:

1. Desconfie de qualquer contato inesperado que pede pressa. Banco, INSS, Receita Federal e Justiça não resolvem nada por WhatsApp nem por ligação avulsa. Se algo é urgente de verdade, você consegue confirmar indo pessoalmente à agência ou ligando para o número oficial impresso no seu cartão ou no site .gov.br.

2. Nunca passe códigos que chegam por SMS. Aquele código de 6 dígitos que o banco ou o WhatsApp mandam é a chave da sua conta. Ninguém legítimo vai te pedir esse número — nem gerente, nem "segurança do banco", nem parente.

3. Ative a verificação em duas etapas no WhatsApp. Vá em Configurações → Conta → Confirmação em duas etapas e cadastre uma senha de 6 dígitos. Isso impede que criminosos clonem seu número mesmo que consigam o código de ativação.

4. Não clique em links de promoções, prêmios ou recadastramentos. Se a mensagem promete algo bom demais, é golpe. Se ameaça bloqueio, também é golpe.

5. Confirme por outro canal antes de fazer qualquer Pix. Se "seu filho" mandou mensagem pedindo dinheiro de um número novo, ligue para o número antigo dele antes de transferir qualquer valor. Combine com a família uma palavra-código para emergências.

6. Aposentado do INSS: nunca informe senha do Meu INSS por telefone. O INSS não liga pedindo senha, não pede transferência para "regularizar benefício" e não envia link por SMS. Consultas oficiais são feitas no aplicativo Meu INSS ou pelo telefone 135.

7. Cuidado redobrado com ofertas de empréstimo por WhatsApp. Golpistas se passam por bancos oferecendo consignado com juros baixíssimos e cobram "taxa antecipada" que nunca existe em contrato legítimo. Se pediram Pix antes de liberar o crédito, é golpe.

O que fazer se você já caiu no golpe

Se o prejuízo já aconteceu, agir rápido pode reduzir o dano. Siga esta sequência:

Ligue imediatamente para o banco e peça o bloqueio da conta, dos cartões e a contestação de qualquer transação suspeita. Bancos têm mecanismo de devolução via Pix quando há indício de fraude, mas a comunicação precisa ser feita em poucas horas.

Registre boletim de ocorrência. Pode ser feito online, pelas delegacias eletrônicas dos estados. O B.O. é essencial para eventual reembolso e para provar que você foi vítima, e não autor da transação.

Comunique ao Banco Central pelo canal de reclamações caso o banco se recuse a reverter a operação ou não trate o caso com a devida agilidade. A instituição financeira tem obrigações regulatórias sobre segurança das operações.

Troque todas as senhas — banco, e-mail, WhatsApp e redes sociais — a partir de um aparelho seguro, de preferência não o mesmo que foi usado no momento do golpe.

Monitore seu CPF. Consulte o Registrato do Banco Central para ver se algum empréstimo foi contratado em seu nome sem autorização. Se houver, é possível contestar administrativamente e, se necessário, judicialmente.

O número de 45 milhões de brasileiros afetados mostra que este não é um problema individual, é coletivo. Falar sobre golpes com a família — especialmente com pais e avós — é hoje uma das formas mais eficazes de prevenção. Compartilhe as regras deste guia com quem você ama. Um minuto de conversa pode evitar meses de prejuízo.


Referências

  • Pesquisa Privacidade e Proteção de Dados Pessoais — Cetic.br (dez/2025).
  • Declaração de Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br — G1 Economia, 31/08/2026.

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