Golpes online atingem 45 milhões: como proteger banco e Gov.br
Pesquisa do Cetic.br mostra que 45 milhões de brasileiros já sofreram tentativa de golpe online. Veja como proteger a conta bancária e o Gov.br.
Rita Cavalcanti
Você provavelmente já recebeu uma mensagem estranha pedindo confirmação de cadastro, um link de suposta atualização do Gov.br ou uma ligação avisando que sua conta seria bloqueada. Não é impressão sua: o Brasil vive uma onda de golpes digitais que já bateu na porta de dezenas de milhões de pessoas. Uma pesquisa oficial mostra que cerca de 45 milhões de brasileiros passaram por alguma tentativa de fraude online, e a maior parte desses ataques mira exatamente o que o trabalhador e o aposentado mais têm a perder: dinheiro na conta e acesso a serviços públicos.
Neste guia, você vai entender o tamanho do problema, os canais que os criminosos mais usam, como se proteger na prática — com foco em dados bancários e no login do Gov.br — e o que fazer se você desconfiar que caiu em um golpe. A ideia é sair daqui com um passo a passo simples, sem termos técnicos, para reduzir de verdade o risco de ter o benefício, o salário ou a aposentadoria roubados.
45 milhões de brasileiros já sofreram tentativa de golpe online
O número vem da terceira edição da pesquisa sobre privacidade e proteção de dados pessoais divulgada em dezembro de 2025 pelo Cetic.br, ligado ao NIC.br e ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). Segundo o levantamento, aproximadamente 45 milhões de brasileiros relataram ter sido alvo de alguma tentativa de golpe pela internet. O dado foi apresentado durante o 17º Seminário de Proteção à Privacidade e aos Dados Pessoais.
Para dimensionar: estamos falando de mais de um a cada cinco brasileiros com acesso à rede. E o alerta feito pelos responsáveis pelo estudo é claro — o crime digital deixou de ser um problema de nicho e virou uma questão de saúde pública financeira. O coordenador da pesquisa, Winston Oyadomari, e a coordenadora do CGI.br, Renata Mielli, destacaram no seminário que a informação pessoal virou moeda para quadrilhas cada vez mais organizadas.
Mais do que o número absoluto, o que preocupa é o perfil das vítimas. Aposentados, pensionistas e trabalhadores de baixa renda estão entre os públicos mais visados porque recebem benefícios previsíveis (INSS, salário, Bolsa Família) e, muitas vezes, têm menos familiaridade com recursos de segurança digital. É esse leitor que precisa entender, com prioridade, como se proteger.
Por quais canais os golpistas mais atacam
Os criminosos misturam canais para parecer confiáveis. Os principais pontos de entrada identificados nas tentativas de fraude reportadas pelas vítimas são:
- WhatsApp e mensagens SMS: links falsos, supostos avisos de banco, prêmios ou atualização cadastral.
- Ligações telefônicas: o famoso golpe do "falso funcionário do banco" ou do "falso atendente do INSS".
- E-mails com logotipos oficiais: cópias quase perfeitas de comunicações do banco, da Receita, do INSS ou do Gov.br.
- Redes sociais: anúncios patrocinados de "empréstimos aprovados na hora" e perfis clonados pedindo Pix a parentes.
- Sites falsos que aparecem no Google: páginas que imitam bancos, o Meu INSS e o próprio Gov.br para roubar login e senha.
O padrão é sempre o mesmo: urgência + medo + link. "Sua conta será bloqueada em 24 horas", "seu benefício será cancelado", "clique aqui para regularizar". Toda vez que uma mensagem tentar te apressar, desconfie. Instituições oficiais como o INSS e o Banco Central não pedem senha, código de segurança ou selfie por WhatsApp.
Como blindar seus dados bancários
A maioria dos golpes financeiros bem-sucedidos não invade o banco — invade a cabeça da vítima. Ou seja, a proteção começa em hábitos simples que praticamente eliminam a chance de perder dinheiro. Veja o que fazer hoje mesmo:
1. Nunca clique em links recebidos por SMS, WhatsApp ou e-mail para acessar o banco. Sempre abra o aplicativo oficial baixado pela loja de aplicativos (Google Play ou App Store) ou digite o endereço direto no navegador.
2. Ative a autenticação em duas etapas no app do seu banco e do WhatsApp. Assim, além da senha, será exigido um segundo código para qualquer acesso novo. Segundo orientações do Banco Central, esse é o principal recurso de proteção contra invasão de conta.
3. Configure limites baixos para Pix noturno e para transferências. A regulamentação do Banco Central permite ao cliente reduzir limites pelo próprio app. Deixe o valor máximo do Pix noturno em algo que, se cair um golpe, não comprometa sua sobrevivência.
4. Cadastre uma senha forte e diferente para cada serviço. Repetir a mesma senha do e-mail no banco é o erro mais comum. Se o criminoso descobre uma, entra em tudo.
5. Nunca informe código recebido por SMS. Esse código é o que autoriza a transação. Se alguém está pedindo, é golpe — mesmo que a pessoa diga ser do banco, da polícia ou do INSS.
6. Desconfie de "empréstimo aprovado" que pede depósito antecipado. Nenhum banco sério cobra taxa antes de liberar o crédito. O consignado do INSS, por exemplo, é descontado direto na folha do benefício, sem taxas prévias.
7. Ative notificações de qualquer movimentação. Assim, se algo estranho acontecer, você percebe em segundos e pode bloquear o cartão ou pedir estorno.
Como proteger seu acesso ao Gov.br
O login do Gov.br virou a chave-mestra da vida digital do cidadão. Com ele, se acessa Meu INSS, Carteira de Trabalho Digital, Receita Federal, Detran, SUS, entre outros serviços. Se um criminoso toma posse dessa conta, ele pode simular saques, pedir consignado em nome da vítima, alterar dados de benefícios e até desviar restituição do Imposto de Renda. Por isso, blindar essa conta é tão importante quanto blindar o banco.
Ative a verificação em duas etapas do Gov.br. Dentro da própria plataforma, é possível exigir um código extra enviado ao aplicativo oficial toda vez que alguém tentar entrar. Sem esse código, nem quem sabe sua senha consegue acessar.
Aumente o nível da conta para Prata ou Ouro. Contas Prata (validação por bancos credenciados ou biometria) e Ouro (validação por reconhecimento facial ou certificado digital) são muito mais difíceis de serem sequestradas do que a conta Bronze.
Não instale aplicativos por links recebidos. Existem falsos "apps do Gov.br" distribuídos por golpistas para roubar senha. Só instale pela loja oficial de aplicativos.
Desconfie de qualquer contato pedindo selfie, foto de documento ou código do Gov.br. O governo federal não solicita esse tipo de material por WhatsApp, SMS ou ligação.
Revise periodicamente os aplicativos conectados à sua conta Gov.br. Dentro da área "Privacidade" do portal, é possível ver quais serviços têm acesso aos seus dados e revogar permissões antigas.
O que fazer se desconfiar que caiu em um golpe
Rapidez é tudo. Nas primeiras horas, ainda dá para reverter muita coisa. Se você percebeu movimentações estranhas ou clicou em algo suspeito, siga esta ordem:
- Ligue imediatamente para o banco pelo número oficial que está no verso do seu cartão e peça o bloqueio da conta, do Pix e dos cartões.
- Registre um boletim de ocorrência (pode ser feito online em delegacias eletrônicas na maioria dos estados). Esse documento é indispensável para pedir estorno.
- Acione o Mecanismo Especial de Devolução do Pix (MED) através do próprio banco. Ele permite tentar recuperar valores transferidos em casos de fraude, conforme regras do Banco Central.
- Troque todas as senhas — banco, e-mail, Gov.br, redes sociais. Comece pelo e-mail, porque ele costuma ser a porta de recuperação de tudo o mais.
- Consulte seu CPF e o extrato do INSS. No Meu INSS, verifique se aparece algum empréstimo consignado que você não contratou. Se aparecer, é possível contestar diretamente pelo aplicativo.
- Bloqueie o CPF para novas operações de crédito. Isso pode ser feito nos birôs de crédito e evita que criminosos abram contas ou peçam empréstimos em seu nome.
Conclusão: informação é o antivírus mais barato
A pesquisa que revelou os 45 milhões de brasileiros atingidos por tentativas de golpe serve como um alerta necessário: o problema é grande, real e não vai desaparecer sozinho. Mas a boa notícia é que a maior parte dos ataques só funciona quando a vítima entrega, sem perceber, a chave da própria porta.
Ativar a verificação em duas etapas no banco, no e-mail e no Gov.br, nunca clicar em links de mensagens e desconfiar de qualquer urgência já reduz drasticamente o risco. Se você é aposentado, pensionista do INSS ou trabalhador CLT, dedique 15 minutos hoje para revisar essas configurações. E compartilhe estas orientações com familiares mais velhos: eles são o alvo preferido dos golpistas justamente porque muitas vezes ninguém explicou o básico. O próximo passo é simples: abra agora o app do seu banco e ative a autenticação em duas etapas. Faça o mesmo no Gov.br em seguida.
Referências
- Pesquisa Cetic.br/NIC.br/CGI.br — 3ª edição "Privacidade e Proteção de Dados Pessoais" (dezembro de 2025).
- 17º Seminário de Proteção à Privacidade e aos Dados Pessoais, com apresentação de Winston Oyadomari (coordenador da pesquisa) e Renata Mielli (coordenadora do CGI.br).
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