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IBGE: 6 dos 10 setores que mais empregam pagam abaixo da média

Dados do CEMPRE 2024 do IBGE mostram que seis das dez atividades que mais empregam no Brasil pagam, em média, abaixo da média nacional de remuneração.

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Tatiana Botelho

📖 7 min de leitura

Quando alguém recebe a oferta de um novo emprego, costuma comparar o salário com o que ouve do vizinho, do colega ou do grupo de WhatsApp. Mas há uma referência mais precisa: a média salarial do país e do setor em que a pessoa atua. Segundo dados do IBGE divulgados a partir das Estatísticas do Cadastro Central de Empresas (CEMPRE) referentes a 2024, dos dez setores que mais empregam no Brasil, seis pagam, em média, menos do que a média nacional de remuneração.

Na prática, a maior parte das vagas formais disponíveis no mercado se concentra justamente em atividades que puxam o salário médio para baixo. Para quem está pensando em trocar de emprego, planejar uma mudança de carreira, organizar o orçamento da família ou avaliar se o salário atual está adequado, esse retrato é peça-chave. Nas próximas seções, você vai entender o que esses dados mostram, quais são os setores que mais contratam, por que muitos deles pagam abaixo da média, e como usar essa informação para tomar decisões financeiras melhores.

O que mostram os dados do IBGE 2024 sobre o salário médio no Brasil

O CEMPRE é um levantamento anual feito pelo IBGE que reúne informações sobre empresas formalmente registradas no país, número de trabalhadores ocupados, massa salarial e remuneração média paga em cada atividade econômica. Por se basear em registros administrativos, é uma das fotografias mais completas do mercado de trabalho formal brasileiro.

A leitura mais importante do levantamento de 2024 é a relação entre volume de empregos e nível salarial de cada setor. Em vez de olhar apenas para quem paga mais ou quem paga menos isoladamente, o cruzamento revela uma assimetria: as atividades que concentram milhões de carteiras assinadas no Brasil costumam estar entre as que pagam abaixo da média geral. Já os setores com salários mais elevados — em geral ligados a serviços especializados, finanças, energia e tecnologia — empregam um contingente proporcionalmente menor de trabalhadores.

Para o trabalhador, o ponto central é o seguinte: comparar o próprio salário com a média do país, isoladamente, pode dar uma falsa sensação de "estou ganhando pouco" ou "estou ganhando bem". O ideal é comparar com a média do seu setor, porque é nele que estão seus concorrentes diretos por uma vaga.

Os setores que mais empregam — e por que a maioria paga abaixo da média

Os setores responsáveis pelos maiores volumes de contratação formal no Brasil são, historicamente, comércio, indústria de transformação, construção civil, alimentação, serviços administrativos, transporte, saúde e educação, entre outros. Eles concentram a maior fatia da força de trabalho com carteira assinada — e é exatamente nesse grupo que se encontram seis das dez atividades cuja remuneração média ficou abaixo da média nacional em 2024.

O motivo pelo qual esses setores costumam remunerar menos não é casual. Em geral, são atividades que:

  • Exigem menos qualificação formal de entrada, o que amplia a base de candidatos disponíveis e reduz a pressão por salários maiores.
  • Operam com margens estreitas de lucro, como comércio varejista e alimentação, repassando essa pressão para a folha de pagamento.
  • Têm forte rotatividade, com muita admissão e demissão ao longo do ano, o que rebaixa a média de tempo de casa e, portanto, de salário.
  • Concentram funções operacionais que historicamente são remuneradas em torno do piso da categoria ou do salário mínimo regional.

Do outro lado, as atividades que pagam acima da média costumam ser intensivas em conhecimento técnico, exigir formação superior, certificações específicas ou anos de experiência. Tecnologia, setor financeiro, energia, indústria extrativa e serviços profissionais especializados puxam o teto para cima, ainda que empreguem proporcionalmente menos pessoas.

Diferenças por escolaridade, gênero e UF: onde seu salário se encaixa

Outro recorte relevante do levantamento do IBGE é a diferença de remuneração por escolaridade, gênero e unidade da federação. Esses três fatores ajudam a explicar por que duas pessoas no mesmo setor podem receber salários muito distintos.

Escolaridade. O dado é consistente há muitos anos: quanto maior a escolaridade média do setor, maior tende a ser o salário médio pago. Setores com alta concentração de profissionais com ensino superior completo e pós-graduação registram remunerações médias substancialmente maiores do que aqueles com predominância de ensino médio ou fundamental.

Gênero. O recorte por sexo continua mostrando que homens, em média, recebem mais do que mulheres no Brasil — mesmo em setores com participação feminina majoritária.

Unidade da federação. O salário médio também varia bastante entre estados. Em geral, capitais e estados do Sudeste e Sul, com economias mais industrializadas e maior peso de serviços de alto valor agregado, registram médias mais altas. Estados do Norte e Nordeste, fora dos polos industriais específicos, costumam apresentar remunerações médias menores, ainda que o custo de vida local também seja menor.

Para o trabalhador, a leitura prática desses recortes é importante: ao comparar o seu salário com qualquer média, considere três filtros: setor de atividade, nível de escolaridade e estado em que você trabalha. A comparação "crua" com a média nacional pode levar a conclusões equivocadas sobre o quanto você ganha.

O que fazer com essa informação no seu planejamento financeiro

Saber que o seu setor paga, em média, abaixo da média nacional não é motivo para frustração — é informação estratégica para decisões de carreira e de bolso. Veja alguns caminhos práticos para usar esse retrato a seu favor:

1. Reavalie seu salário com base no setor e na região, não só na média do país. Se você atua no comércio em uma cidade do interior, comparar seu salário com a média de quem trabalha com tecnologia em São Paulo vai gerar uma frustração desnecessária. A referência justa é o seu setor, na sua UF, no seu nível de escolaridade.

2. Use a diferença de remuneração entre setores como bússola de carreira. Se o seu setor estrutura salários historicamente mais baixos e há margem para uma transição — por meio de cursos, certificações ou requalificação —, talvez seja o momento de planejar essa virada. Os dados mostram que ganho de escolaridade tem efeito direto na remuneração média.

3. Ajuste o orçamento à realidade do seu setor. Em atividades com salários menores e alta rotatividade, é ainda mais importante manter uma reserva de emergência equivalente a alguns meses de despesas essenciais. Quem trabalha em setor de alta rotatividade convive mais com o risco de troca de emprego ao longo do ano.

4. Cuidado redobrado com endividamento. Em setores que pagam abaixo da média, o orçamento doméstico fica mais sensível a parcelas fixas longas. Antes de aderir a crediário, financiamento ou empréstimo consignado, simule se a parcela cabe no orçamento mesmo em um cenário de queda de renda.

5. Negocie com dados, não com intuição. Em conversas de aumento ou em uma nova proposta de emprego, citar a média do setor e da região fortalece o argumento. As publicações do IBGE são fonte pública e gratuita, e podem ser consultadas no portal oficial do instituto.

Resumo prático: como interpretar os dados do IBGE no seu dia a dia

Os dados do CEMPRE 2024 do IBGE revelam um Brasil em que a maior parte das vagas formais está concentrada em setores que remuneram, em média, abaixo da média nacional. Isso ajuda a explicar a sensação de que "todo mundo trabalha muito e ganha pouco": estatisticamente, a maioria dos trabalhadores formais está mesmo em setores onde o salário médio é mais baixo.

O próximo passo prático para o leitor é simples:

  • Identifique o setor em que você trabalha (comércio, indústria, serviços, construção, saúde, educação etc.).
  • Localize, no relatório do IBGE, a remuneração média do seu setor, na sua UF e na sua faixa de escolaridade.
  • Compare com o seu salário atual. Se estiver muito abaixo da média do recorte, vale conversar com o RH, buscar requalificação ou avaliar oportunidades em setores que pagam mais.
  • Se estiver na média ou acima, use o restante da energia para fortalecer sua reserva de emergência e reduzir dívidas caras.

Mais do que um número, o salário médio é uma ferramenta de planejamento. Quem entende em que ponto do mapa salarial brasileiro está, decide com mais clareza onde quer chegar.

Referências

  • IBGE — Estatísticas do Cadastro Central de Empresas (CEMPRE) 2024.
  • G1 Economia, 24/06 — divulgação dos dados do CEMPRE 2024.

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