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Imunidade a igrejas pode elevar IVA em 1 ponto, diz Fazenda

Ministério da Fazenda alerta que ampliar a imunidade tributária a igrejas pode elevar o IVA em 1 ponto e encarecer compras do dia a dia. Entenda.

TB

Tatiana Botelho

📖 11 min de leitura

A reforma tributária entrou em uma nova fase de discussão e, dessa vez, o assunto bateu direto no bolso do consumidor. Um alerta vindo do Ministério da Fazenda colocou um número concreto em cima de uma das disputas mais delicadas do Congresso: ampliar a imunidade tributária para igrejas pode elevar em 1 ponto percentual a alíquota do novo IVA, o imposto sobre valor agregado que vai substituir uma série de tributos no Brasil.

Pode parecer pouco. Mas 1 ponto percentual a mais em um imposto que incide praticamente em tudo o que você compra — do arroz à conta de luz, do remédio ao plano de telefone — significa, no fim do mês, alguns reais a mais saindo do salário, da aposentadoria ou do benefício. E, ao longo do ano, esse pequeno percentual vira centenas de reais para uma família comum.

Neste guia, você vai entender o que está sendo discutido, por que essa conta sobra para o consumidor final, quanto isso pode pesar no seu orçamento e o que esperar dos próximos passos da reforma. Tudo explicado em linguagem simples, sem juridiquês.

O que está em jogo na reforma tributária e por que o IVA virou o centro do debate

A reforma tributária aprovada para o consumo criou um modelo de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) que unifica vários tributos antigos em duas grandes cobranças: uma federal e outra compartilhada entre estados e municípios. Na prática, o objetivo é simplificar o sistema, acabar com a cobrança em cascata (imposto sobre imposto) e tornar mais transparente quanto cada brasileiro paga de tributo quando vai ao supermercado, à farmácia ou contrata um serviço.

A promessa do novo modelo é que o consumidor passe a ver, claramente, quanto está pagando de imposto em cada produto. Hoje, esse valor fica escondido dentro do preço. Com o IVA, ele tende a aparecer destacado na nota fiscal.

O ponto sensível é a chamada alíquota de referência — o percentual padrão que será cobrado pelo IVA. Quanto maior o número de setores, produtos ou entidades com tratamento diferenciado (descontos, isenções, imunidades), mais alta precisa ser essa alíquota geral para que a arrecadação do país não caia. É uma conta simples: se alguém paga menos, alguém paga mais. E, na cadeia de consumo, esse "alguém" costuma ser o consumidor final.

Foi exatamente esse mecanismo que motivou o alerta recente da equipe econômica do governo: ampliar a imunidade tributária para igrejas — incluindo atividades hoje não cobertas pela imunidade — faria o IVA precisar subir em torno de 1 ponto percentual para manter o equilíbrio fiscal.

Por que a imunidade a igrejas afeta o IVA pago por todos

A Constituição brasileira já garante imunidade tributária a templos de qualquer culto. Isso significa que, sobre os bens e atividades ligados ao culto religioso, não incidem determinados impostos. Essa proteção existe há décadas e não está em discussão.

O que está em debate no Congresso é uma proposta de ampliar o alcance dessa imunidade para alcançar atividades econômicas mais amplas vinculadas às entidades religiosas — como negócios, serviços e operações que hoje, mesmo sendo de igrejas, pagam tributos normalmente porque não fazem parte do culto em si.

O raciocínio do Ministério da Fazenda é técnico, mas fácil de entender:

  1. O IVA precisa arrecadar determinado volume para sustentar serviços públicos, transferências, saúde, educação e dívida pública.
  2. Se um conjunto de operações deixa de pagar esse imposto, o volume arrecadado cai.
  3. Para compensar essa perda, a alíquota cobrada de todo mundo precisa subir.
  4. Resultado: o restante da população — trabalhador CLT, aposentado, pensionista, beneficiário do INSS, microempreendedor — paga mais caro em tudo para cobrir o que deixou de ser arrecadado em outro lugar.

Esse é o motivo de o tema ter saído do campo "religioso" e virado uma discussão de bolso. Não se trata de ser contra ou a favor de igrejas: trata-se de quem assume a conta quando alguém recebe um benefício tributário.

Quanto 1 ponto percentual a mais no IVA pesa no seu bolso

É aqui que muita gente subestima o impacto. Um ponto percentual parece pouco, mas o IVA incide sobre praticamente todo consumo. Veja como pensar nisso de forma prática.

Imagine uma família que gasta, por mês, em torno de R$ 3.000 com itens e serviços tributados — supermercado, gás, energia elétrica, internet, telefone, transporte por aplicativo, vestuário, material escolar, pequenas compras. Um ponto percentual a mais no imposto que está embutido nesses preços representa, aproximadamente, R$ 30 a mais por mês. Em um ano, são cerca de R$ 360. Para famílias que gastam mais, o impacto é proporcionalmente maior.

Para aposentados e pensionistas do INSS, esse efeito é especialmente sensível. Como o benefício tem reajuste anual fixo (vinculado à inflação e ao salário mínimo, conforme regras do próprio INSS), qualquer aumento de carga tributária que pressione preços corrói o poder de compra antes do próximo reajuste. Ou seja: o dinheiro que entra na conta no início do mês compra menos coisas.

O mesmo raciocínio vale para o trabalhador CLT, especialmente quem ganha até três salários mínimos. Como a renda já é destinada quase integralmente ao consumo essencial, qualquer ponto a mais no IVA é sentido imediatamente, sem espaço para corte de gastos.

Vale lembrar que o novo sistema prevê mecanismos de devolução de parte do imposto para famílias de baixa renda (o chamado cashback do IVA). Mesmo com esse mecanismo, uma alíquota maior tende a manter o consumidor em desvantagem em relação ao cenário com IVA mais enxuto.

Como funciona a regra atual de imunidade tributária — e o que muda na prática

A imunidade tributária prevista na Constituição protege algumas categorias específicas de pagar determinados impostos. É o caso, por exemplo:

  • de templos de qualquer culto;
  • de partidos políticos e suas fundações;
  • de entidades sindicais de trabalhadores;
  • de instituições de educação e de assistência social sem fins lucrativos, atendidos certos requisitos;
  • de livros, jornais, periódicos e o papel destinado à sua impressão.

Essa lista é histórica e foi pensada para proteger atividades consideradas essenciais à democracia, à cultura e à liberdade religiosa. Ela continua valendo.

O debate atual gira em torno de até onde vai essa proteção quando entidades imunes desenvolvem atividades econômicas que vão além do núcleo original protegido pela Constituição. A proposta em discussão no Congresso busca ampliar esse alcance, e é justamente aí que a Fazenda projeta o impacto de cerca de 1 ponto percentual a mais na alíquota do IVA para todos os demais contribuintes.

Um ponto importante para o leitor: esse debate não retira nenhum direito que já está garantido na Constituição. O que está em discussão é uma expansão do benefício. Por isso a Fazenda alertou — porque expansão de benefício tributário, no modelo do IVA, vira automaticamente aumento de alíquota para o restante da sociedade.

O que diz o Ministério da Fazenda sobre o alerta

A equipe econômica vem usando o termo "pautas-bomba" para descrever projetos em tramitação que, se aprovados, ampliam renúncias fiscais sem indicar de onde virá o dinheiro para compensar. A imunidade ampliada a igrejas é uma dessas pautas que entraram no radar.

O recado do Ministério da Fazenda foi direto: cada nova exceção criada dentro do IVA empurra a alíquota geral para cima. E, diferentemente de outros impostos que atingem só faixas específicas (como o Imposto de Renda, que progride conforme a renda), o IVA é um imposto sobre consumo — ele é cobrado igualmente de quem ganha um salário mínimo e de quem ganha vinte. Por isso, mexer na alíquota do IVA atinge primeiro quem tem menos margem no orçamento.

A Fazenda também tem reforçado a necessidade de manter a chamada trava da alíquota de referência, um mecanismo que limita até onde o IVA pode subir. A preocupação é justamente que a soma de várias exceções — não só a das igrejas, mas outras em tramitação — acabe rompendo esse teto e penalizando a população.

Reforma tributária, IVA e o impacto direto no consumidor: o que esperar dos próximos passos

O calendário da reforma tributária prevê uma transição gradual entre o sistema antigo e o novo. Durante esse período, a alíquota do IVA será ajustada com base no comportamento da arrecadação. É por isso que decisões tomadas agora, no Congresso, repercutem no percentual que será cobrado nos próximos anos.

Para o consumidor que está acompanhando o assunto, o que importa entender é:

  • Toda nova imunidade, isenção ou regime especial dentro do IVA tende a elevar a alíquota geral.
  • Quanto maior a alíquota geral, mais caro tudo que você consome no dia a dia.
  • O impacto, em pontos percentuais, parece pequeno — mas, em produtos essenciais e ao longo do ano, vira valor relevante no orçamento.
  • Mecanismos compensatórios (como cashback para baixa renda e a Cesta Básica Nacional com alíquota zero) ajudam, mas não eliminam o efeito de uma alíquota maior sobre o consumo total da família.

Do lado prático, o que dá para fazer enquanto a reforma se ajusta é o básico bem-feito: revisar o orçamento doméstico, comparar preços, evitar dívidas caras e proteger a renda recorrente — especialmente quem depende de salário CLT ou de benefício do INSS. Para quem é aposentado ou pensionista e considera crédito, é importante lembrar das regras vigentes do consignado INSS, que permitem prazo de até 108 meses e margem total de 40% do benefício (com 5% reservados a cartão consignado ou cartão benefício — ou seja, 35% para empréstimo quando há cartão contratado, ou os 40% inteiros para empréstimo quando não há cartão). No caso do trabalhador CLT, o consignado privado tem prazo máximo de 96 meses e margem de 35% do salário. Conhecer essas regras evita cair em ofertas fora do padrão em um momento em que a pressão sobre o custo de vida pode aumentar.

Vale também o lembrete de que quem recebe BPC/LOAS — benefício assistencial pago pelo INSS — não está proibido por lei de fazer empréstimo consignado. O benefício é elegível pela legislação. O que acontece, no momento, é que devido ao alto volume de revisões e cessações desse tipo de benefício, as instituições autorizadas reduziram a oferta prática do consignado para BPC/LOAS. Ou seja: é permitido por lei, mas a disponibilidade junto aos bancos está restrita hoje. Vale como informação para evitar promessas falsas circulando por aí.

Conclusão: o que o leitor leva dessa discussão para casa

A discussão sobre imunidade tributária a igrejas é, na superfície, um debate político e religioso. Mas, por baixo dela, existe uma conta econômica que afeta diretamente o bolso de quem vai ao mercado, paga conta de luz, abastece o carro, compra remédio ou contrata um serviço. O alerta da Fazenda — de que uma ampliação dessa imunidade poderia elevar o IVA em torno de 1 ponto percentual — é um aviso de que cada nova exceção criada dentro do novo sistema é paga, no fim das contas, pelo consumidor final.

Para o trabalhador CLT, para o aposentado e pensionista do INSS e para o beneficiário de programas assistenciais, ficar de olho nesse debate é tão importante quanto acompanhar reajustes de salário mínimo ou novas regras do consignado. Imposto sobre consumo é, na prática, o imposto que mais pesa para quem tem menos. Quanto mais simples e enxuto o IVA, menor a alíquota — e menor a fatia do seu salário ou benefício que vai embora todo mês embutida no preço das coisas.

O próximo passo, do ponto de vista do consumidor, é continuar atento à tramitação da reforma e às decisões que ampliem ou reduzam exceções. Cada uma delas mexe, ainda que de forma silenciosa, no preço final que você paga no caixa.


Referências

  • Entrevista de Dario Durigan ao UOL News em 09/06/2026, com o alerta de que ampliar a imunidade tributária a igrejas pode elevar a alíquota do IVA em cerca de 1 ponto percentual.
  • Ministério da Fazenda (gov.br): posicionamento institucional de que novas exceções e imunidades no IVA pressionam a alíquota de referência para cima.
  • G1 Economia: reportagem enquadrando a imunidade ampliada a igrejas como uma das "pautas-bomba" monitoradas pela equipe econômica do governo.

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