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Inadimplência bate recorde após Desenrola, aponta BC

Dados do Banco Central mostram inadimplência das famílias em nível recorde mesmo após o Desenrola. Entenda as causas e como sair das dívidas.

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Tatiana Botelho

📖 11 min de leitura

Se você olhou o extrato no fim do mês e sentiu que a conta simplesmente não fecha, saiba que essa sensação virou estatística oficial. Os dados mais recentes divulgados pelo Banco Central mostram que a inadimplência das famílias brasileiras atingiu o maior nível já registrado na série histórica, mesmo depois de um programa federal que renegociou milhões de contratos e prometia devolver o CPF de boa parte da população para o azul.

O paradoxo incomoda: por que, mesmo com incentivos governamentais, descontos generosos oferecidos por bancos e uma economia com desemprego formalmente controlado, o número de pessoas com dívidas atrasadas continua batendo recordes? Ao longo deste guia, você vai entender o que os dados oficiais realmente mostram, o que aconteceu com o Desenrola Brasil na prática, quais tipos de crédito estão puxando a inadimplência para cima e — mais importante — o que fazer se você está preso nessa armadilha agora.

O que os dados oficiais mostram sobre a inadimplência em 2026

A inadimplência que o Banco Central monitora considera atrasos superiores a 90 dias em contratos de crédito com o sistema financeiro. Esse indicador é considerado o termômetro mais confiável do endividamento porque não depende de autodeclaração nem de cadastros restritivos privados — ele mede o comportamento real dos pagamentos.

O cenário atual mostra três movimentos preocupantes acontecendo ao mesmo tempo. Primeiro, o percentual de famílias com pelo menos uma conta em atraso voltou a crescer depois de uma breve queda no período em que o Desenrola estava ativo. Segundo, o comprometimento da renda — ou seja, quanto do salário mensal está sendo consumido apenas para pagar prestações — segue em patamar elevado, o que significa que mesmo quem paga em dia está no limite. Terceiro, a chamada dívida rotativa, que envolve juros altíssimos do cartão de crédito e do cheque especial, continua sendo a principal linha de crédito em atraso.

O ponto que passa despercebido é que a inadimplência recorde não significa necessariamente que os brasileiros estão gastando mais. Em muitos casos, significa que estão pagando MAIS pela mesma dívida antiga. Quando uma fatura de cartão não é quitada integralmente, o saldo restante entra no rotativo — e os juros nessa modalidade estão entre os mais altos do mundo, segundo dados do Banco Central.

O que foi o Desenrola Brasil e o que ele entregou

O Desenrola Brasil foi lançado pelo Governo Federal como um programa emergencial de renegociação de dívidas. A ideia era simples de explicar e ambiciosa de executar: reunir bancos, financeiras, empresas de energia, telefonia e comércio numa mesma plataforma e permitir que pessoas endividadas quitassem seus débitos com descontos expressivos, muitas vezes chegando a mais de 90% do valor original em faixas específicas.

O programa foi dividido em faixas de renda, priorizando quem recebia até dois salários mínimos e tinha dívidas de valores menores negativadas nos cadastros de proteção ao crédito. Milhões de CPFs foram "limpos" durante a vigência do programa, e essa foi a fase em que a inadimplência recuou temporariamente nos gráficos oficiais.

O problema é que renegociar uma dívida antiga não muda a estrutura de renda da família. Se o orçamento já não fechava antes do acordo, ele continua não fechando depois — e uma nova dívida rapidamente ocupa o espaço da anterior. Além disso, o Desenrola não atacou a causa da inadimplência, apenas o efeito. Fatores como custo de vida, juros do cartão e ausência de reserva de emergência permaneceram exatamente iguais.

Quando o programa encerrou suas fases mais amplas, o efeito estatístico se dissipou. Quem havia limpado o nome voltou a atrasar contas — muitas vezes as mesmas contas correntes do dia a dia, como cartão, energia elétrica e financiamento — e o indicador voltou a subir com força.

Por que a inadimplência continua crescendo mesmo depois da renegociação

Existem pelo menos quatro razões estruturais que ajudam a entender por que renegociar dívidas não foi suficiente para conter o problema.

1. O custo de vida corrói o salário antes de ele chegar em casa. Alimentos, energia elétrica, transporte e aluguel subiram em ritmo mais rápido que a maioria dos reajustes salariais nos últimos anos. Isso significa que o dinheiro que sobrava para pagar prestações simplesmente evaporou, mesmo para quem manteve o emprego.

2. O cartão de crédito virou renda extra informal. Muitas famílias passaram a usar o cartão não como meio de pagamento, mas como uma extensão do salário. Compram no crédito, pagam o mínimo da fatura e o restante entra no rotativo com juros que, segundo o Banco Central, ultrapassam 400% ao ano na média do sistema. É matematicamente impossível quitar uma dívida crescendo nesse ritmo apenas com o salário mensal.

3. A oferta de crédito continuou agressiva. Enquanto o Desenrola renegociava dívidas velhas, o sistema financeiro seguia oferecendo crédito novo — muitas vezes para as mesmas pessoas que acabavam de sair da renegociação. Sem educação financeira e sem uma reserva mínima, o ciclo recomeça.

4. Emergências não avisam. Uma manutenção de carro, um remédio contínuo, uma consulta médica, um vazamento em casa. Sem reserva de emergência, qualquer imprevisto vai direto para o cartão — e vira dívida rotativa em 30 dias.

Esses quatro fatores explicam por que a curva de inadimplência é muito mais teimosa do que qualquer programa emergencial consegue reverter.

O peso do cartão de crédito e do rotativo nas famílias

Entre todas as modalidades de crédito, o cartão de crédito é disparado o maior responsável pela inadimplência das famílias brasileiras, segundo o Banco Central. Isso acontece por três características desse produto que combinadas viram uma armadilha.

A primeira é a facilidade de contratação. Cartões são distribuídos com limites elevados, muitas vezes sem análise cuidadosa da capacidade de pagamento. A segunda é o parcelamento sem juros aparentes — que na verdade compromete meses de renda futura. A terceira, e mais destrutiva, é o rotativo: quando o cliente paga apenas parte da fatura, o saldo devedor passa a render juros que estão entre os mais altos praticados no mundo.

O Banco Central chegou a impor limites regulatórios para tentar frear o crescimento dessa modalidade, restringindo o tempo em que a dívida pode permanecer no rotativo antes de ser obrigatoriamente parcelada. Mesmo com essas medidas, o saldo total da dívida com cartão continuou crescendo, o que mostra que o problema não é apenas de regulação, mas de comportamento e de renda insuficiente.

O conselho técnico é claro: se você está pagando o mínimo do cartão há dois meses seguidos, você já está numa dívida que dificilmente vai quitar sozinho. É preciso trocar essa dívida cara por uma mais barata — e é aí que entra o crédito consignado.

Como o crédito consignado pode ajudar (INSS e CLT) — e o que muda em 2026

O consignado é, hoje, a linha de crédito com os juros mais baixos disponíveis para o trabalhador comum e para o aposentado. Isso acontece porque a parcela é descontada diretamente da folha ou do benefício, o que reduz drasticamente o risco de calote e permite ao banco cobrar taxas menores. Para quem tem uma dívida cara no cartão ou no cheque especial, trocar essa dívida por um consignado costuma ser a diferença entre quitar em alguns anos ou nunca sair do vermelho.

Consignado para aposentados e pensionistas do INSS. A margem consignável total é de 40% do valor do benefício, mas com uma divisão específica: 5% são reservados exclusivamente para cartão consignado ou cartão benefício. Se o aposentado tiver algum desses cartões contratado, a margem para o empréstimo consignado propriamente dito cai para 35%. Se ele não tiver nenhum cartão, os 40% inteiros podem ser usados no empréstimo. O prazo máximo é de 108 meses (nove anos) e a primeira parcela pode ser lançada em até 90 dias após a contratação.

Consignado para trabalhador CLT (carteira assinada). Nessa modalidade, a margem consignável é de 35% do salário e o prazo máximo é de 96 meses (oito anos). Não existe hoje a figura do cartão consignado privado, então esses 35% ficam integralmente disponíveis para o empréstimo.

E quem recebe BPC/LOAS? Aqui há uma confusão comum que precisa ser corrigida. O Benefício de Prestação Continuada, o BPC/LOAS, é um benefício assistencial pago pelo INSS a idosos e pessoas com deficiência em situação de vulnerabilidade. Por lei, ele PODE ser usado como base para empréstimo consignado — não existe vedação legal. O que acontece atualmente, em 2026, é que devido ao alto volume de cessações e revisões desse tipo de benefício, as instituições financeiras autorizadas recuaram na oferta desse crédito. Ou seja: é permitido por lei, mas a disponibilidade prática junto às instituições está reduzida no momento. Portanto, se você recebe BPC e ouviu que "não pode fazer consignado", a informação está incompleta.

O consignado não é uma solução mágica. Ele é uma ferramenta de troca de dívida cara por dívida barata. Contrair consignado para gastar em consumo novo é o caminho mais curto para o superendividamento — porque a parcela vai descontada da folha e reduz o salário disponível todo mês, durante anos.

Passo a passo para sair da inadimplência de forma sustentável

Se você está entre os brasileiros que engordaram as estatísticas recentes de inadimplência, o caminho para sair do buraco existe — mas ele exige método, não sorte. Veja um roteiro prático:

Passo 1: liste todas as suas dívidas em um único lugar. Coloque no papel ou numa planilha o nome do credor, o valor total devido, a taxa de juros mensal e a parcela mensal. Sem esse diagnóstico, qualquer plano é chute.

Passo 2: identifique a dívida mais cara. Provavelmente será o rotativo do cartão de crédito ou o cheque especial. Essa é a dívida que precisa ser eliminada primeiro, porque ela é a que cresce mais rápido.

Passo 3: procure a renegociação direta com o credor. Bancos e financeiras têm interesse em receber, mesmo com desconto. Ligue, entre no aplicativo, procure a agência. Peça condições de parcelamento com juros menores.

Passo 4: avalie a portabilidade ou a troca por consignado. Se você é aposentado, pensionista do INSS ou trabalhador CLT, simule um consignado com o valor total das suas dívidas caras. Se a parcela do consignado couber no seu orçamento e a taxa for menor que a da dívida atual, essa troca faz sentido matemático.

Passo 5: corte o cartão de crédito temporariamente. Enquanto você estiver pagando dívida antiga, não faça dívida nova. Guarde o cartão, use débito ou dinheiro. Isso é doloroso nos primeiros meses e libertador a partir do sexto.

Passo 6: monte uma reserva mínima. Assim que a primeira dívida for quitada, redirecione aquela parcela para uma reserva de emergência antes de assumir novos compromissos. Sem reserva, o próximo imprevisto joga você de volta ao cartão.

Passo 7: conheça seus direitos como consumidor superendividado. A legislação brasileira reconhece a figura do superendividamento e prevê mecanismos de repactuação global das dívidas em juízo ou nos Procons. Se sua situação for grave, procure o Procon da sua cidade para orientação gratuita.

Conclusão: o recorde de inadimplência é um sinal, não uma sentença

A inadimplência recorde revelada pelos dados do Banco Central não é apenas uma estatística fria — ela mostra que milhões de famílias estão presas num ciclo em que a renda não cresce no ritmo das contas, o cartão de crédito virou muleta emergencial e programas pontuais como o Desenrola aliviam o efeito, mas não curam a causa.

Se você faz parte dessa estatística, o caminho de saída passa por três decisões que só dependem de você: enxergar a dívida inteira sem esconder de si mesmo, trocar dívida cara por dívida barata usando ferramentas como o consignado quando fizerem sentido, e reconstruir uma reserva mínima antes de assumir novos compromissos. Para os aposentados, pensionistas e trabalhadores CLT, o consignado — dentro das regras oficiais de margem e prazo detalhadas neste guia — pode ser a peça-chave dessa reorganização, desde que usado para trocar dívida ruim por dívida gerenciável, e não para consumo novo.

O recorde de inadimplência não é o fim da linha. É o alerta que faltava para começar um plano.

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