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Two women with shopping bags on a sidewalk

Inflação pesa o dobro no bolso dos mais pobres, diz Ipea

Estudo do Ipea mostra que a inflação de maio atingiu as famílias de baixa renda no dobro do ritmo das mais ricas. Veja como proteger o orçamento da família.

TB

Tatiana Botelho

📖 8 min de leitura

A conta do supermercado, do gás de cozinha e do transporte público não pesa igual no bolso de todo mundo. Um novo levantamento do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) referente a maio mostrou que a inflação sentida pelas famílias de menor renda ficou em torno do dobro da registrada pelas famílias mais ricas no mesmo período. O dado confirma um movimento que muita gente já percebe na prática: quem ganha menos é justamente quem mais sofre quando os preços sobem.

Neste artigo, você vai entender o que o estudo do Ipea revelou sobre a inflação por faixa de renda, por que o aumento de preços bate mais forte em quem vive com o salário curto e, principalmente, o que dá para fazer agora para proteger o orçamento da sua família. A ideia é traduzir o dado econômico em decisões práticas do dia a dia — daquelas que cabem na realidade de quem precisa fazer o dinheiro durar até o fim do mês.

O que o estudo do Ipea sobre inflação por faixa de renda revelou

O Ipea acompanha mensalmente a chamada inflação por classes de renda. Em vez de olhar apenas um índice único (como o IPCA cheio, calculado pelo IBGE), o instituto separa as famílias em faixas — da renda muito baixa até a renda alta — e calcula quanto cada grupo gastou a mais para manter o mesmo padrão de consumo. É um retrato muito mais fiel da vida real, porque o pobre e o rico não compram as mesmas coisas, nem nas mesmas proporções.

No recorte de maio, o resultado foi claro: a inflação para as famílias de renda mais baixa avançou em ritmo significativamente maior do que a inflação sentida pelas famílias de renda alta. Em termos práticos, isso significa que, no mesmo mês, o mesmo país viveu duas inflações diferentes — uma branda para quem tem mais e outra muito mais agressiva para quem tem menos.

O padrão observado pelo instituto é consistente com os meses anteriores: alimentos, energia elétrica, gás de cozinha e tarifas básicas têm puxado o índice para cima, e justamente esses itens ocupam uma fatia desproporcional do orçamento das famílias mais pobres.

Por que a inflação bate mais forte em quem ganha menos

A explicação está na composição do orçamento. Uma família que vive com até dois salários mínimos costuma comprometer a maior parte da renda com itens que não dá para cortar: comida na mesa, conta de luz, botijão de gás, ônibus e remédios. Quando esses itens sobem, não há para onde fugir — ninguém deixa de comer arroz, feijão ou de cozinhar.

Já uma família de renda mais alta tem o orçamento mais diluído. Os mesmos gastos básicos ocupam uma fração pequena do que ela ganha. O peso do mês está em outras categorias — viagens, lazer, serviços, educação privada — que, em geral, sobem menos rápido do que os alimentos e a energia. É por isso que, mesmo num cenário em que o IPCA cheio parece controlado, a inflação real para quem mora na periferia, no interior ou depende do mínimo pode ser bastante alta.

Outro fator importante é o acesso ao crédito. Famílias de renda alta conseguem parcelar grandes compras com juros menores, têm reservas para comprar à vista em promoções e, muitas vezes, ainda recebem rendimento de aplicações financeiras que acompanham a Selic. Quem ganha pouco depende do crediário da loja, do cartão rotativo e de empréstimos com juros bem maiores — o que amplia o efeito da inflação no bolso. No fim, sobra menos para o essencial.

Como proteger o orçamento familiar quando os preços sobem mais para você

O primeiro passo para reagir à inflação é entender, com clareza, onde o seu dinheiro está sendo consumido. Pode parecer básico, mas é o controle simples — caderno, planilha ou aplicativo — que mostra de onde está vazando renda sem você perceber. A inflação tem um efeito silencioso: o preço sobe pouco a pouco, e o orçamento vai apertando sem um motivo aparente.

Alguns movimentos práticos ajudam bastante quando a inflação está concentrada em alimentos e tarifas:

  • Refazer a lista de compras com foco em substitutos. Quando uma proteína sobe muito (carne vermelha, por exemplo), trocar parcialmente por ovos, frango ou leguminosas pode reduzir o gasto sem perder a refeição.
  • Comparar preços por unidade, não por embalagem. Embalagens menores quase sempre custam mais por quilo ou por litro. Levar a embalagem maior, quando cabe no orçamento, costuma render mais.
  • Aproveitar feiras e atacarejos no fim do dia ou no fim de semana. Hortifrútis costumam ter desconto perto do fechamento, e o ganho semanal é relevante.
  • Revisar contratos fixos. Pacotes de celular, internet, TV por assinatura e seguros costumam ter planos mais baratos disponíveis para quem pede a renegociação. Vale ligar.
  • Cortar pequenos gastos recorrentes. Aplicativos esquecidos no cartão, assinaturas pouco usadas e taxas de manutenção de conta somam um valor que, ao longo do ano, faz diferença.

Esses ajustes não resolvem sozinhos a inflação, mas devolvem espaço no orçamento — espaço que é justamente o que a alta de preços tira de quem tem menos.

O perigo do crédito caro num cenário de inflação alta para a baixa renda

Em momentos de aperto, é natural recorrer ao crédito para fechar o mês. O problema é que nem todo crédito tem o mesmo custo — e os mais acessíveis no curto prazo costumam ser os mais perigosos no médio prazo. Cartão de crédito rotativo, cheque especial e crediário de loja figuram, historicamente, entre as formas mais caras de financiar consumo no Brasil.

Numa família que já sente o dobro da inflação no bolso, pagar 10%, 15% ou mais ao mês de juros vira uma bola de neve em pouquíssimo tempo. A dívida que começou de R$ 500 para cobrir o supermercado pode dobrar em menos de um ano se ficar girando no rotativo. É um caminho que aparenta resolver, mas aprofunda o problema.

Quando o crédito é realmente necessário — para quitar uma dívida mais cara, cobrir uma emergência médica ou substituir um eletrodoméstico essencial — vale buscar as modalidades de menor juro disponíveis para o perfil. Para trabalhadores com carteira assinada, o empréstimo consignado CLT/privado tem prazo de até 96 meses e margem de 35% do salário comprometida em folha, o que costuma resultar em taxas bem inferiores às do cartão. Para aposentados e pensionistas do INSS, o consignado INSS vai até 108 meses, com margem total de 40% do benefício — sendo 5% reservados ao cartão benefício/consignado. Quem não tem cartão usa os 40% inteiros no empréstimo; quem tem algum cartão fica com 35% disponíveis para a contratação do consignado. A primeira parcela pode vencer em até 90 dias.

Vale lembrar também que quem recebe BPC/LOAS — benefício assistencial pago pelo INSS — pode, por lei, contratar empréstimo consignado. É comum ouvir que esse público está proibido, mas isso não é verdade. O que acontece neste momento é diferente: por causa do alto volume de revisões e cessações desse benefício, várias instituições recuaram na oferta para esse público, então, mesmo sendo permitido por lei, a disponibilidade prática hoje está bastante restrita. Antes de contratar qualquer crédito, é fundamental comparar o CET (Custo Efetivo Total), não apenas a parcela.

O que esperar dos próximos meses e como preparar a família

Enquanto os preços de alimentos e tarifas seguirem pressionados, a tendência é que a inflação continue desigual entre as faixas de renda. Não é razoável esperar que o efeito sobre quem ganha menos seja revertido em um único mês — a recuperação do poder de compra costuma ser gradual, à medida que a economia se ajusta.

Para as próximas semanas, três movimentos ajudam qualquer família a chegar mais firme no fim do mês:

  1. Construir uma reserva mínima, mesmo que seja com pequenos valores semanais. Um colchão de poucas centenas de reais já evita o uso do cartão de crédito numa emergência.
  2. Quitar primeiro a dívida mais cara. Se houver rotativo do cartão e cheque especial em aberto, esses devem ser os primeiros a sair. Em alguns casos, trocar essa dívida por uma linha mais barata reduz drasticamente o custo mensal.
  3. Planejar compras grandes para meses de promoção. Eletrodomésticos, material escolar e itens de cama, mesa e banho têm períodos claros de preço melhor — antecipar o calendário evita a parcela cara feita às pressas.

Conclusão: dado do Ipea mostra que o ajuste precisa começar dentro de casa

A leitura do Ipea sobre maio confirma o que muita gente sente todo dia no caixa do mercado: a inflação tem CEP, tem faixa de renda e tem cor de bairro. Enquanto as famílias mais ricas observam uma alta moderada de preços, as famílias mais pobres enfrentam um aumento que pode chegar ao dobro. Esperar que o cenário externo melhore sozinho não é estratégia.

O próximo passo prático é organizar o orçamento desta semana com base no que foi visto aqui: revisar onde o dinheiro está indo, cortar o que for supérfluo, comparar antes de gastar e, se for necessário recorrer a crédito, escolher a modalidade de menor custo possível — fugindo do rotativo e do cheque especial. É assim que se transforma um dado econômico em proteção real para a família.


Referências

  • Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) — cálculo mensal de inflação por faixa de renda, recorte de maio.
  • Regras vigentes de crédito consignado CLT/privado e INSS, incluindo prazos, margens e condições para beneficiários do BPC/LOAS.

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