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MTE exige convenção coletiva para comércio em feriados

Nova portaria do MTE passa a exigir convenção coletiva para autorizar lojas, shoppings e supermercados a abrirem em feriados. Veja o que muda para você.

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Rita Cavalcanti

📖 13 min de leitura

O trabalhador do comércio ganhou uma camada extra de proteção quando o assunto é escalar plantão em feriado. Uma nova portaria do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) passou a exigir que a abertura de lojas, supermercados, shoppings e demais estabelecimentos comerciais em feriados só aconteça mediante convenção coletiva de trabalho — ou seja, com autorização formal negociada entre o sindicato dos trabalhadores e o sindicato patronal. Na prática, sem esse acordo firmado, o comércio não pode simplesmente escalar seus funcionários para trabalhar em datas como Natal, Ano Novo, feriados religiosos ou cívicos.

A mudança é relevante porque, nos últimos anos, muitas redes vinham operando em feriados apoiadas em acordos individuais, acordos coletivos setoriais mais frágeis ou até em interpretações administrativas mais permissivas da legislação. Agora, o parâmetro voltou a ser mais rígido: o instrumento válido é a convenção coletiva, que tem alcance mais amplo e envolve obrigatoriamente as entidades sindicais representativas.

Se você trabalha em loja de rua, quiosque, praça de alimentação, supermercado, farmácia ou shopping, este texto explica em linguagem simples o que muda, quem é afetado, quais são os seus direitos, como identificar se a sua empresa está cumprindo a regra e o que fazer caso perceba irregularidade. Também vamos abordar o impacto para o consumidor, para o pequeno lojista e para as grandes redes.

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O que muda com a nova portaria do MTE

A nova portaria do MTE reforça a exigência de convenção coletiva de trabalho como pré-requisito para autorizar o funcionamento do comércio em feriados. Isso significa que, para que uma loja possa abrir e escalar empregados em um feriado — nacional, estadual ou municipal —, precisa haver um documento coletivo, negociado entre sindicato laboral e sindicato patronal, que autorize expressamente esse tipo de jornada.

Antes, era comum ver empresas escalando funcionários em feriados apoiadas em: (i) acordos coletivos assinados só entre a empresa e o sindicato dos trabalhadores; (ii) previsões genéricas em contrato individual; ou (iii) interpretações mais permissivas de normas anteriores. A nova portaria fecha essa porta e recoloca a convenção coletiva como o instrumento adequado.

É importante entender a diferença entre os dois instrumentos:

  • Acordo coletivo de trabalho: firmado entre uma empresa (ou grupo restrito de empresas) e o sindicato dos trabalhadores. Tem alcance limitado.
  • Convenção coletiva de trabalho: firmada entre o sindicato patronal (que representa todas as empresas do setor) e o sindicato dos trabalhadores. Tem alcance amplo, valendo para toda a categoria daquela base territorial.

A exigência da convenção significa, portanto, que a autorização para trabalhar em feriado precisa passar por uma negociação de categoria, e não por um acerto individual entre empresa e empregado — o que, historicamente, é uma relação bastante desequilibrada.

Observação editorial: o número exato do artigo da portaria, a data de publicação no Diário Oficial da União e o prazo de vigência ainda serão detalhados assim que consolidados em fonte oficial.

Por que a exigência de convenção coletiva protege o trabalhador

O comércio é um dos setores com maior rotatividade e maior incidência de reclamações trabalhistas relacionadas a jornada — inclusive trabalho em domingos e feriados sem a devida compensação ou pagamento em dobro. Ao exigir convenção coletiva, o MTE busca três efeitos principais:

  1. Equilibrar a negociação. Um trabalhador sozinho, ou até um sindicato negociando com uma grande rede varejista, tem pouco poder de barganha. A convenção coletiva coloca o sindicato patronal na mesa, o que força uma discussão de padrões mínimos para todo o setor.
  2. Padronizar direitos. Sem convenção, cada empresa podia impor regras próprias sobre folga compensatória, adicional de feriado, escalas e revezamento. Com a convenção, esses pontos ficam definidos em um só documento aplicável a toda a categoria.
  3. Facilitar a fiscalização. A auditoria fiscal do trabalho passa a ter um parâmetro claro: existe convenção coletiva autorizando aquele feriado ou não? Se não existe, o funcionamento é irregular, independentemente do que a empresa alegue.

Além disso, a exigência tem impacto direto no bolso: o trabalho em feriado, em regra, deve ser remunerado em dobro (ou compensado com folga equivalente), conforme a legislação trabalhista. Quando a abertura acontece sem base coletiva válida, é mais fácil que a empresa deixe de pagar corretamente esse adicional, e é o trabalhador quem sai perdendo.

Quem é afetado: lojistas, shoppings, supermercados e trabalhadores

A regra atinge o comércio em geral, o que inclui uma lista ampla de estabelecimentos:

  • Lojas de rua e galerias
  • Shopping centers e outlets
  • Supermercados e hipermercados
  • Lojas de departamento
  • Farmácias e drogarias (na parte comercial)
  • Padarias, lanchonetes e praças de alimentação
  • Comércio atacadista com atendimento ao público
  • Postos de combustíveis (na parte de loja de conveniência)

Na ponta do trabalhador, os impactados são caixas, repositores, vendedores, operadores de loja, atendentes, seguranças contratados pelo estabelecimento, promotores e demais empregados vinculados diretamente ao comércio.

Para o pequeno lojista, a nova regra traz uma dor de cabeça administrativa: antes de escalar equipe em feriado, é preciso verificar se a convenção coletiva da categoria naquela cidade autoriza a abertura e sob quais condições (folga compensatória, adicional, intervalo mínimo, etc.). Não basta pagar em dobro — se não houver convenção coletiva autorizando, o funcionamento é irregular.

Para grandes redes, o impacto é menor no que diz respeito a estrutura jurídica (elas costumam ter departamentos que acompanham convenções), mas maior no risco reputacional e em ações coletivas: descumprir a exigência pode gerar autuações em massa e ações civis públicas.

Já para o consumidor, o efeito prático pode ser sentido em algumas cidades onde a convenção coletiva não foi assinada ou não prevê abertura em determinados feriados — nesses casos, o comércio local pode simplesmente fechar as portas naquela data.

Observação editorial: eventuais exceções para atividades essenciais (como farmácias 24 horas) ainda dependem de detalhamento em fonte oficial.

Como funciona o pagamento do trabalho em feriado

Entender o novo enquadramento fica mais fácil quando lembramos como o pagamento do trabalho em feriado costuma funcionar. A regra geral é a seguinte:

  • Feriado trabalhado sem folga compensatória: o empregador deve pagar a hora em dobro, além do salário normal do dia (ou seja, o trabalhador recebe como se tivesse trabalhado dois dias).
  • Feriado trabalhado com folga compensatória em outro dia: o trabalhador não recebe em dobro, mas tem direito a uma folga equivalente dentro do prazo definido em convenção coletiva.
  • Intervalos e escalas: a convenção normalmente define intervalos mínimos entre jornadas, revezamento de folgas em domingos, e limites de quantos feriados consecutivos um mesmo empregado pode ser escalado.

Com a nova portaria, tudo isso passa a valer somente se estiver amparado em convenção coletiva vigente. Ou seja: se a empresa escalou você para trabalhar em um feriado e não existe convenção autorizando essa abertura, além do pagamento devido, você tem um forte argumento de irregularidade — a jornada em si não deveria ter ocorrido daquela forma.

Um ponto importante para o trabalhador: mesmo em um cenário irregular, você não deixa de ter direito ao valor daquele dia trabalhado. Pelo contrário — a irregularidade tende a reforçar o crédito trabalhista, e não a extingui-lo.

O que o trabalhador do comércio deve fazer na prática

A nova regra é positiva, mas exige que o trabalhador esteja atento. Veja um passo a passo prático para não ser prejudicado:

1. Descubra qual é o seu sindicato. No comércio, o sindicato dos empregados costuma se chamar "Sindicato dos Comerciários" da sua cidade ou região. É esse sindicato que negocia a convenção coletiva com o sindicato patronal (geralmente o SINDILOJAS ou entidade equivalente).

2. Peça a convenção coletiva vigente. Você tem direito a consultar o documento. Ele fica disponível no sindicato, muitas vezes no site, e também é registrado no sistema Mediador do MTE. Verifique especificamente se existe cláusula tratando de trabalho em feriados.

3. Confira o que a convenção autoriza. Ela deve dizer: (i) em quais feriados o comércio pode abrir; (ii) como será o pagamento (dobra, adicional, folga compensatória); (iii) prazo para conceder a folga compensatória; (iv) regras de revezamento.

4. Documente sua jornada. Guarde imagens do ponto, comprovantes de entrada e saída, mensagens de escala e holerites. Se houver irregularidade, esse material será decisivo.

5. Denuncie se for o caso. Se a empresa escalou você em feriado sem base em convenção coletiva válida, é possível registrar denúncia na Superintendência Regional do Trabalho da sua região ou procurar o sindicato. Também é possível ingressar com ação trabalhista para cobrar diferenças de dobra e reflexos.

6. Não assine "acordos individuais" sem entender. Uma prática comum é a empresa oferecer um documento pedindo que o empregado "concorde" em trabalhar no feriado. Isso não substitui convenção coletiva. Assinar não cria autorização legal — apenas pode ser usado como prova em disputa futura.

Fiscalização e riscos para empresas que descumprirem

O descumprimento da nova exigência gera riscos concretos para o empregador. A auditoria fiscal do trabalho, vinculada ao MTE, é o órgão responsável por fiscalizar e autuar. Entre as consequências possíveis:

  • Autuação administrativa com multa por empregado encontrado em situação irregular no feriado. O valor da multa varia conforme o porte da empresa e o histórico de reincidência.
  • Pagamento em dobro de todos os feriados trabalhados irregularmente, com reflexos em férias, 13º salário, FGTS e demais verbas.
  • Ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público do Trabalho, especialmente contra redes de grande porte, com pedido de dano moral coletivo.
  • Interdição do estabelecimento em casos extremos, quando há reiteração e recusa em regularizar.
  • Reflexos reputacionais, especialmente em datas simbólicas como Natal e Dia dos Trabalhadores, quando denúncias tendem a ganhar repercussão.

Observação editorial: o valor específico da multa administrativa e os critérios de dosimetria previstos na portaria ainda serão detalhados em fonte oficial.

Do lado do trabalhador, a via judicial trabalhista continua aberta com prazo de até dois anos após o fim do contrato (e cinco anos retroativos, contados da data da ação). Portanto, mesmo quem foi escalado irregularmente meses atrás pode buscar seus direitos.

Pequenos comerciantes: como se adaptar sem tomar prejuízo

Se você é dono de um comércio pequeno — padaria, mercado de bairro, loja de roupas, farmácia independente — a nova regra também vale para o seu negócio. Algumas orientações práticas:

Filie-se ou consulte o sindicato patronal da sua categoria. É por meio dele que a convenção coletiva é negociada. Se você não sabe qual é, procure a federação do comércio do seu estado (Fecomercio) ou o SEBRAE local, que costuma orientar sobre isso.

Leia a convenção antes de fazer a escala do feriado. Pareça óbvio, mas é o erro mais comum. Muitos empregadores escalam "como sempre fizeram" e descobrem depois que a convenção mudou ou nunca autorizou aquela abertura.

Formalize a folga compensatória. Se a convenção permitir compensar com folga em vez de pagar em dobro, deixe isso por escrito, com data específica da folga concedida. Sem documento, na hora da fiscalização vale a dobra.

Considere não abrir se o custo não compensar. Em muitos feriados, o custo trabalhista — mesmo dentro da regra — pode superar a receita do dia. Fazer a conta antes evita surpresas.

Não terceirize a responsabilidade. Contratar autônomo, MEI ou "freelancer" para cobrir feriado é prática de risco elevado. Se ficar caracterizado vínculo, além da autuação por trabalho em feriado sem convenção, entra também a autuação por vínculo não reconhecido.

E se não houver convenção coletiva na sua cidade?

Um cenário que preocupa é o das localidades onde o sindicato dos comerciários e o sindicato patronal não conseguem chegar a um acordo — ou onde a convenção coletiva simplesmente venceu e não foi renovada. Nesses casos, a leitura mais rigorosa da nova portaria é a de que o comércio não está autorizado a abrir em feriados naquele território, até que uma nova convenção seja firmada.

Isso pode gerar efeitos práticos importantes: cidades em que historicamente o comércio abria em datas comemorativas podem ver as portas fechadas até que a negociação seja concluída. Para o trabalhador, isso significa direito à folga; para o consumidor, adaptação de hábitos; para o empregador, urgência em pressionar o sindicato patronal a se sentar à mesa.

Vale lembrar que a Justiça do Trabalho e o próprio MTE têm rejeitado a tese de que "na ausência de convenção, valeriam automaticamente as regras antigas". A tendência tem sido de leitura restritiva: sem convenção válida e vigente, não há autorização.

Observação editorial: eventual regra de transição para casos de convenções em fase de negociação ainda depende de detalhamento em fonte oficial.

Perguntas frequentes

Posso me recusar a trabalhar no feriado se não houver convenção? Se não existe convenção coletiva autorizando a abertura, a escala é irregular. O trabalhador que se recusa nesse cenário tem argumento sólido, mas o ideal é buscar orientação do sindicato antes de simplesmente faltar, para evitar disputa sobre falta injustificada.

A regra vale para trabalho aos domingos também? Domingo tem regra própria, com autorização já prevista em normas específicas para o comércio. A portaria trata especialmente de feriados, mas domingos e feriados costumam ser regulados em conjunto na mesma convenção coletiva.

E o comércio essencial, como farmácia de plantão? Atividades consideradas essenciais têm tratamento diferenciado em várias normas trabalhistas. O detalhamento sobre eventuais exceções previstas na portaria depende de consulta ao texto oficial.

Trabalhei em feriado sem convenção. Perco o direito ao pagamento? Não. A irregularidade recai sobre a empresa. O trabalhador continua com direito ao pagamento (em regra, em dobro) e pode cobrar diferenças na Justiça do Trabalho.

Meu contrato diz que aceito trabalhar em feriados. Isso vale? Cláusula individual não substitui convenção coletiva. O direito ao descanso em feriado é indisponível em contrato individual — só pode ser flexibilizado em instrumento coletivo válido.

Resumo prático e próximo passo

A nova portaria do MTE devolve peso à convenção coletiva como instrumento central para autorizar o funcionamento do comércio em feriados. Isso significa mais proteção para o trabalhador, mais previsibilidade nas regras e mais responsabilidade para o empregador.

Se você trabalha no comércio, o próximo passo é simples: procure o sindicato dos comerciários da sua cidade, peça a convenção coletiva vigente e leia a cláusula sobre feriados. Guarde uma cópia. Se for escalado para um feriado, confira se a data está autorizada e como deve ser o pagamento.

Se você é empregador, a orientação é semelhante em direção oposta: consulte o sindicato patronal, obtenha a convenção, planeje as escalas com base nela e formalize compensações. Escalar sem base coletiva pode custar muito mais caro do que fechar as portas em um feriado específico.

A regra é nova, e nos próximos meses a fiscalização deve intensificar visitas em datas comemorativas — especialmente no comércio de rua e em shoppings de grande fluxo. Estar em conformidade deixa de ser diferencial e passa a ser condição mínima para operar.


Referências

  1. Contábeis — "Trabalho em feriados no comércio passa a exigir convenção coletiva". Disponível em: https://www.contabeis.com.br/noticias/78512/trabalho-em-feriados-no-comercio-passa-a-exigir-convencao-coletiva/

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