Open Finance faz 5 anos e pode baratear seu crédito
Open Finance chega a 240 milhões de consentimentos ativos em 5 anos e pode reduzir juros, facilitar a portabilidade e ampliar ofertas de crédito.
Tatiana Botelho
O Open Finance brasileiro — sistema regulado pelo Banco Central que permite ao cliente autorizar o compartilhamento dos próprios dados financeiros entre instituições — atingiu a marca de 240 milhões de consentimentos ativos ao completar cinco anos de operação. O número, revelado em levantamento produzido pela associação Zetta em parceria com o instituto AtlasIntel, é maior do que a população adulta do país e mostra que o mesmo consumidor tende a manter várias autorizações abertas ao mesmo tempo.
Na prática, esse marco significa que uma parcela crescente de brasileiros já usa (mesmo sem saber o nome técnico) a estrutura que promete o mais antigo dos sonhos de quem toma crédito no Brasil: pagar juros mais baixos e trocar de banco com facilidade. Neste artigo, você vai entender o que muda com o Open Finance depois de cinco anos, como ele pode reduzir o custo do seu empréstimo, o que muda na portabilidade de crédito e quais cuidados tomar antes de autorizar qualquer compartilhamento de dados.
O que é Open Finance e o que representa a marca de 240 milhões de consentimentos
O Open Finance é um sistema criado e regulado pelo Banco Central que permite ao próprio cliente — pessoa física ou empresa — decidir compartilhar seus dados financeiros (movimentação de conta, histórico de crédito, investimentos, cartões) com outras instituições autorizadas. A ideia é simples: os dados pertencem ao cliente, não ao banco. Ao permitir que outra instituição enxergue esse histórico, o consumidor abre espaço para receber ofertas mais personalizadas e, principalmente, mais competitivas.
A marca de 240 milhões de consentimentos ativos, alcançada nos cinco primeiros anos do sistema, indica dois movimentos. O primeiro é a popularização da ferramenta: hoje é comum que aplicativos de banco tradicionais, bancos digitais e fintechs peçam esse tipo de autorização em fluxos de contratação de crédito, cartão ou investimento. O segundo é o fato de que cada pessoa costuma manter mais de um consentimento aberto ao mesmo tempo — por exemplo, um para o banco onde recebe salário, outro para uma fintech de crédito, outro para um aplicativo de investimentos.
É importante entender que “consentimento ativo” não é o mesmo que “usuário único”. Um mesmo CPF pode responder por vários consentimentos, cada um com uma finalidade e um prazo de validade — que, conforme a regulamentação do Banco Central, precisa ser renovado periodicamente pelo cliente.
Como o Open Finance pode reduzir os juros do seu empréstimo
Esse é o ponto que mais interessa a quem sente o peso do crédito no orçamento. Historicamente, o brasileiro paga juros altos porque o banco no qual ele já é cliente tem uma vantagem enorme sobre os concorrentes: só ele conhece o histórico daquele cliente. Um banco novo, sem acesso a essa informação, precisa cobrar mais caro para se proteger do risco de não saber com quem está lidando.
O Open Finance vira essa lógica de cabeça para baixo. Ao autorizar o compartilhamento dos dados, o cliente permite que outras instituições vejam seu histórico de pagamentos, sua renda que entra na conta e seu comportamento financeiro. Com essa informação, uma segunda instituição consegue oferecer uma proposta de crédito calibrada para o risco real daquele cliente — e não para uma média conservadora do mercado.
Na prática, isso pode se traduzir em:
- Ofertas de empréstimo pessoal com taxas menores do que as apresentadas pelo banco principal do cliente.
- Limites de cartão de crédito mais adequados à renda real, sem depender de meses de relacionamento novo.
- Aprovação mais rápida em fintechs, porque a análise deixa de depender apenas do score de bureaus de crédito.
- Ofertas de refinanciamento e de troca de dívida cara (como cheque especial e rotativo do cartão) por linhas mais baratas.
O estudo produzido pela Zetta em parceria com o AtlasIntel aponta justamente que o efeito mais tangível dos cinco anos do sistema aparece no mercado de crédito, com aumento da concorrência entre instituições e melhora nas ofertas apresentadas a consumidores que compartilham dados.
Vale reforçar: o Open Finance não obriga ninguém a fechar nada. Ele apenas permite que o cliente receba propostas mais bem calibradas. A decisão de aceitar ou não uma nova oferta continua sendo, por regra do Banco Central, exclusiva do consumidor.
Portabilidade de crédito: o que muda com o sistema maduro
A portabilidade de crédito é um direito antigo do consumidor brasileiro, previsto em normas do Conselho Monetário Nacional e regulamentado pelo Banco Central. Na teoria, qualquer pessoa com um financiamento (imobiliário, de veículo, empréstimo pessoal, consignado) pode transferir esse contrato para outra instituição que ofereça condições melhores, sem custo pela operação. Na prática, o processo sempre esbarrou em fricção: reunir documentos, enviar contratos, esperar respostas, refazer análises.
Com o amadurecimento do Open Finance, essa fricção começa a cair. Como a instituição de destino consegue enxergar diretamente o contrato ativo do cliente e o comportamento de pagamento, a análise que antes levava semanas pode ser feita em dias — ou horas. Isso tem impacto direto em três frentes:
- Portabilidade de consignado. Aposentados e pensionistas do INSS, além de trabalhadores CLT, são os principais alvos de campanhas de portabilidade. Quanto mais barato ficar comparar e migrar contratos, maior a pressão para que os bancos reduzam as taxas cobradas de quem já é cliente, para evitar perder o contrato.
- Portabilidade de financiamento imobiliário. Como se trata de dívidas longas e com saldos altos, mesmo pequenas diferenças de taxa geram economia relevante ao longo dos anos.
- Troca de dívidas caras por linhas baratas. O cliente com dívida no rotativo do cartão ou no cheque especial pode receber, via Open Finance, oferta de crédito pessoal com juros bem menores para quitar o saldo atual.
Na modalidade de consignado, é importante lembrar que os limites de margem e de prazo continuam sendo definidos pela regulação, independentemente de o cliente usar Open Finance ou não. Para aposentados e pensionistas do INSS, o prazo máximo é de 108 meses e a margem consignável total é de 40% do benefício, sendo 5% reservados a cartão consignado ou cartão benefício — quando não há nenhum cartão contratado, os 40% inteiros podem ser usados no empréstimo consignado. Para trabalhadores CLT, o teto é de 96 meses de prazo e 35% de margem.
Segurança, controle dos dados e como usar o Open Finance sem cair em golpes
Um sistema com centenas de milhões de consentimentos ativos naturalmente vira alvo de golpistas. É importante separar o que é responsabilidade do sistema (regulado pelo Banco Central, com camadas de segurança e criptografia) e o que continua sendo responsabilidade do próprio consumidor.
Algumas regras práticas para usar Open Finance com segurança:
- O consentimento é sempre iniciado por você. Nenhum banco pode acessar seus dados sem que você autorize expressamente pelo aplicativo da instituição que vai receber a informação.
- Todo consentimento tem prazo de validade. Se você autorizou o compartilhamento por 12 meses, ele expira automaticamente. Renovações precisam de nova autorização.
- Você pode revogar a qualquer momento. Basta entrar no aplicativo do banco e cancelar o consentimento. A partir dali, aquela instituição perde o acesso ao seu histórico.
- Desconfie de ligações e mensagens. Golpistas tentam se passar por “atendentes do Open Finance” para pedir códigos ou pedir para você abrir o app e “confirmar” algo. O Banco Central e as instituições reguladas nunca operam dessa forma.
- Compartilhe dados apenas com instituições autorizadas. A lista de participantes do Open Finance é pública e mantida pelo Banco Central em seu site oficial (bcb.gov.br).
Outro ponto importante é revisar periodicamente quais consentimentos você tem ativos. Muita gente autoriza um compartilhamento para receber uma proposta pontual de crédito e depois esquece que a autorização segue valendo. Rever a lista uma ou duas vezes por ano é uma boa prática de higiene financeira.
O que esperar dos próximos anos e como aproveitar agora
O patamar de 240 milhões de consentimentos ativos mostra que o Open Finance deixou de ser uma promessa técnica e virou infraestrutura do sistema financeiro brasileiro. Os próximos anos devem trazer mais integração entre bancos, fintechs, seguradoras e plataformas de investimento, além do avanço para o chamado Open Insurance (dados de seguros) e para dados de crédito de segmentos que hoje estão fora do sistema bancário tradicional.
Para o consumidor que quer se beneficiar disso na prática, algumas atitudes fazem diferença desde já:
- Antes de contratar qualquer crédito, compare em pelo menos duas ou três instituições diferentes. Use o Open Finance para permitir que essas instituições vejam seu histórico real — as ofertas tendem a ser bem melhores do que as simuladas “no escuro”.
- Se você tem consignado ativo, simule a portabilidade uma vez por ano. Como o teto de juros do consignado é revisado periodicamente pelo Conselho Nacional de Previdência Social e pelo Banco Central, quem contratou em momento de juros altos pode encontrar taxas melhores hoje.
- Priorize quitar dívidas caras com linhas mais baratas. Rotativo do cartão e cheque especial continuam sendo, historicamente, as modalidades mais caras do mercado. Se via Open Finance surgir uma oferta de crédito pessoal com juros menores para quitar esses saldos, o alívio no orçamento é imediato.
- Cuidado especial com o BPC/LOAS. O Benefício de Prestação Continuada, pago pelo INSS a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda, por lei pode ser usado para empréstimo consignado. No entanto, diante do atual volume de revisões e cessações desses benefícios, muitas instituições autorizadas recuaram na oferta desse tipo de contrato — ou seja, é permitido pela regulamentação, mas a disponibilidade prática está reduzida no momento. Desconfie de qualquer promessa de contratação “garantida” em cima do BPC.
O Open Finance é, no fim das contas, uma ferramenta a favor do cliente. Ele não decide por você, mas amplia — e muito — o seu poder de comparar, negociar e escolher. Aproveitar esse poder, com informação e sem pressa, é o caminho para pagar menos juros, sair de dívidas mais rápido e ter uma vida financeira menos apertada.
Referências
- Estudo Zetta em parceria com AtlasIntel — “Open Finance no Brasil: cinco anos de transformação e uma agenda para o futuro”.
- AtlasIntel / Folha de São Paulo — Caderno Mercado (09/01/2026).
- Regras de margem e prazo do crédito consignado: Instrução Normativa INSS nº 138/2022 e legislação correlata; regulamentação do Banco Central sobre Open Finance disponível em bcb.gov.br.
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