Perícia do INSS: por que segurados viajam centenas de km
Entenda por que a perícia do INSS exige longos deslocamentos, quem é mais afetado e o que fazer para não perder auxílio-doença, BPC/LOAS e aposentadoria.
Anderson Coelho
Conseguir uma perícia médica do INSS deveria ser um passo simples para quem está doente ou incapacitado para o trabalho. Na prática, milhares de segurados em todo o Brasil descobrem que precisam pegar a estrada — às vezes por centenas de quilômetros — apenas para serem examinados por um médico perito. Esse deslocamento, que pesa no bolso e no corpo de quem já está fragilizado, é um dos principais gargalos do acesso a benefícios como auxílio por incapacidade temporária (antigo auxílio-doença), aposentadoria por incapacidade permanente e BPC/LOAS.
Neste artigo, você vai entender por que a perícia do INSS está concentrada em poucas cidades, quem mais sofre com isso, como o deslocamento afeta o resultado do pedido e o que fazer para não perder direito ao benefício por causa da distância.
Por que a perícia do INSS exige deslocamentos tão longos
A perícia médica do INSS é realizada por médicos peritos federais, que são servidores públicos lotados em unidades específicas — as Agências da Previdência Social (APS) com sala de perícia. Nem toda APS oferece o serviço: muitas agências fazem atendimento administrativo (entrada de pedido, atualização cadastral, prova de vida), mas não contam com perito médico no local.
O resultado é uma distribuição desigual. Em capitais e regiões metropolitanas, costuma haver mais postos com perícia disponível. Já no interior, principalmente em municípios pequenos e em regiões do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o segurado pode ser obrigado a se deslocar para outra cidade — em alguns casos, para outro estado próximo — porque a APS mais perto não tem perito.
Além da concentração geográfica, três fatores agravam o problema:
- Déficit de médicos peritos: o quadro de peritos federais foi reduzido nos últimos anos por aposentadorias e baixa reposição via concurso.
- Afastamentos e licenças: quando o único perito de uma cidade entra de férias ou de licença, a agência simplesmente para de marcar perícias, e os segurados são redirecionados para a unidade mais próxima.
- Concentração da demanda em poucas unidades: as APS que ainda contam com peritos acabam recebendo segurados de toda uma microrregião, o que estica a fila e empurra a marcação para outras cidades com agenda mais aberta.
Na prática, o segurado que mora em um município sem perito é convocado pelo sistema do INSS para a APS com vaga disponível, mesmo que ela fique distante. Recusar a marcação ou faltar à perícia significa, na maioria dos casos, perder o benefício ou voltar para o fim da fila.
Quem é mais afetado pela falta de peritos médicos
O impacto não é distribuído por igual. Existem grupos que sofrem muito mais com a distância até a perícia:
1. Trabalhadores rurais e moradores do interior. Quem vive em zonas rurais ou em cidades pequenas costuma depender de transporte intermunicipal precário. Uma perícia marcada para uma capital a 200 ou 300 km de casa pode exigir sair de madrugada, dormir fora ou pagar transporte particular.
2. Pessoas com mobilidade reduzida e doenças graves. É justamente quem mais precisa do benefício por incapacidade que tem mais dificuldade de viajar. Pacientes em tratamento de câncer, com doenças neurológicas, ortopédicas graves ou em pós-operatório enfrentam horas de viagem em situação física delicada.
3. Idosos e candidatos ao BPC/LOAS. O BPC/LOAS é um benefício assistencial pago pelo INSS a idosos com 65 anos ou mais e a pessoas com deficiência, ambos em situação de baixa renda. Muitos candidatos são pessoas com pouca instrução, sem condições financeiras de bancar deslocamentos longos e que dependem de familiares para chegar à perícia.
Vale lembrar, inclusive, um ponto que costuma gerar confusão: quem recebe BPC/LOAS pode, sim, fazer empréstimo consignado. Não existe vedação legal que impeça o uso desse benefício para crédito consignado. O que ocorre atualmente é diferente: por causa do alto volume de revisões e cessações desse tipo de benefício, várias instituições autorizadas recuaram na oferta de consignado para beneficiários do BPC/LOAS. Ou seja, é permitido por lei, mas a disponibilidade prática junto aos bancos está reduzida hoje. Não confunda “oferta restrita” com “proibição”.
4. Famílias de baixa renda em geral. Para quem ganha um salário mínimo ou vive de bicos, gastar com passagem rodoviária, alimentação fora de casa e eventual diária de hotel para acompanhar um familiar à perícia é um peso real no orçamento. Em muitos casos, a viagem custa mais do que algumas parcelas do benefício pleiteado.
Como a distância impacta o acesso a benefícios por incapacidade
A distância não é só inconveniente: ela mexe diretamente na chance de o segurado obter o benefício a que tem direito.
- Faltas e remarcações. Quando o segurado não consegue chegar à APS no dia marcado — por falta de dinheiro, problema de saúde ou transporte — a perícia é registrada como falta. Em muitos casos, isso significa novo pedido, nova fila e mais semanas (ou meses) sem renda.
- Atraso no início do benefício. Quanto mais demora para fazer a perícia, mais tempo o trabalhador passa sem auxílio por incapacidade temporária. Para quem está afastado do serviço e sem salário, esse intervalo costuma virar dívida, atraso de aluguel e corte de plano de saúde.
- Apresentação prejudicada no exame. Chegar à perícia depois de horas de viagem, cansado, com dor e fora do território conhecido prejudica a comunicação com o perito. Muitos segurados saem do exame com a sensação de não ter conseguido explicar a real condição de saúde.
- Risco de indeferimento e necessidade de recurso. Um indeferimento obriga o segurado a entrar com recurso administrativo ou a buscar a Justiça, o que aumenta ainda mais o tempo até receber o benefício.
Esse efeito em cadeia ajuda a entender por que tantos segurados desistem do pedido no meio do caminho — não porque não têm direito, mas porque o custo prático de comprovar o direito ficou alto demais.
O que o segurado pode fazer para garantir a perícia
Apesar do cenário difícil, existem caminhos para reduzir o impacto da distância e aumentar a chance de conseguir o benefício:
1. Use o Meu INSS para acompanhar e remarcar. O aplicativo e o site Meu INSS, oficiais do INSS, permitem ver a perícia agendada, o endereço da APS e, em algumas situações, solicitar remarcação para uma unidade mais próxima quando há vaga. Mantenha o cadastro atualizado e ative as notificações.
2. Solicite perícia em domicílio quando aplicável. Segurados que estão acamados, com mobilidade muito reduzida ou internados podem ter direito à perícia médica domiciliar ou hospitalar. O pedido é feito pelo Meu INSS ou pela Central 135, com apresentação de laudo médico que comprove a impossibilidade de locomoção.
3. Leve toda a documentação médica organizada. Laudos, exames, receitas, relatórios do médico assistente, atestados de internação e histórico de afastamentos ajudam o perito a entender o caso. Documentação completa diminui a chance de indeferimento e evita perícias adicionais.
4. Não falte sem justificar. Se for impossível comparecer, justifique pelo Meu INSS ou pela Central 135 com antecedência e apresente documento que comprove o motivo (atestado, comprovante de internação). Isso reduz o risco de o pedido ser arquivado.
5. Avalie a perícia médica documental (Atestmed), quando disponível. Em determinadas situações de auxílio por incapacidade temporária, o INSS aceita análise documental do atestado e dos exames, sem perícia presencial. Verifique no Meu INSS se o seu caso se enquadra.
6. Recorra em caso de indeferimento. Se o benefício for negado, é possível entrar com recurso administrativo no próprio INSS e, depois, buscar o Judiciário. Em muitos casos, a perícia judicial reconhece a incapacidade que a perícia administrativa não enxergou.
Conclusão: distância não pode virar barreira para o direito
A dificuldade para acessar a perícia médica do INSS é um problema concreto e cotidiano, especialmente para quem mora longe das capitais, é idoso, tem baixa renda ou está com a saúde comprometida. Enquanto a estrutura de peritos não é reforçada e melhor distribuída no país, o segurado precisa se proteger: usar os canais oficiais (Meu INSS e Central 135), guardar documentação médica completa, justificar faltas, avaliar a perícia documental e, se for o caso, recorrer.
O próximo passo prático é simples: entre hoje no Meu INSS, confira se há perícia agendada em seu nome, veja o endereço da APS e organize com antecedência transporte, acompanhante e documentos. Quanto mais cedo o segurado se planeja, menor o risco de a distância custar o benefício a que ele tem direito.
Referências
- INSS — distribuição de agências e regras de perícia médica (presencial, domiciliar e hospitalar).
- INSS — Atestmed (análise documental do atestado médico).
- Dados regulatórios oficiais sobre uso de BPC/LOAS em empréstimo consignado.
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