Pix internacional: BC negocia integração com o TIPS na Europa
Banco Central estuda conectar o Pix ao TIPS, sistema de pagamentos instantâneos da zona do euro, para tornar remessas mais rápidas e baratas.
Tatiana Botelho
O Pix, que já se tornou o meio de pagamento mais usado dentro do Brasil, agora começa a mirar o exterior. O Banco Central do Brasil está em conversas com o Banco Central Europeu para conectar o sistema brasileiro ao TIPS, a infraestrutura de pagamentos instantâneos usada pelos países da zona do euro. Se o acordo avançar, uma transferência entre uma conta no Brasil e outra em Portugal, na Alemanha ou na Espanha poderá acontecer em segundos, sem passar pelo caminho tradicional das transferências internacionais, que hoje envolve bancos intermediários, tarifas altas e prazos que chegam a vários dias úteis.
A notícia é especialmente relevante para três públicos: quem manda ou recebe dinheiro de parentes que vivem na Europa, quem viaja para o continente a turismo ou a trabalho, e pequenos negócios que vendem produtos ou serviços para clientes europeus. Neste texto, você vai entender o que é o TIPS, em que estágio está a negociação, o que muda no seu bolso caso a integração seja concluída e quais são os pontos que ainda precisam ser definidos antes de o Pix internacional virar realidade.
O que é o TIPS e por que o Banco Central quer conectar o Pix a ele
O TIPS (sigla em inglês para TARGET Instant Payment Settlement) é o serviço de liquidação de pagamentos instantâneos operado pelo Eurosistema, o conjunto formado pelo Banco Central Europeu e pelos bancos centrais nacionais dos países que adotam o euro. Na prática, é a infraestrutura que permite que uma transferência em euros entre duas contas de bancos diferentes seja concluída em poucos segundos, 24 horas por dia, sete dias por semana — uma lógica muito parecida com a do Pix brasileiro.
A aproximação entre as duas infraestruturas faz sentido porque Brasil e União Europeia enfrentam o mesmo desafio: modernizar as transferências internacionais, que ainda funcionam em grande parte sobre redes bancárias criadas décadas atrás. Nesse modelo antigo, o dinheiro passa por uma cadeia de bancos correspondentes, cada um cobrando sua tarifa e adicionando prazo à operação.
Além do custo elevado, o remetente muitas vezes não sabe com precisão quanto o beneficiário vai realmente receber, porque parte do valor é consumida em taxas de conversão pouco transparentes.
A proposta em discussão é ligar diretamente o Pix ao TIPS, de modo que a ordem de pagamento saia de uma conta brasileira em reais e chegue ao destinatário europeu já em euros, quase em tempo real. Do ponto de vista técnico, os dois sistemas já operam com padrões modernos de mensageria financeira, o que reduz a complexidade da conexão. Do ponto de vista político, o Banco Central tem colocado a internacionalização do Pix como uma das prioridades da agenda de inovação financeira dos próximos anos.
O que muda para quem envia ou recebe remessas da Europa
O principal beneficiado por uma integração desse tipo é o mercado de remessas — dinheiro enviado entre pessoas físicas que vivem em países diferentes. O Brasil tem uma comunidade grande de emigrantes em Portugal, na Espanha, na Alemanha, na Irlanda, na Itália e na França, e ao mesmo tempo recebe estudantes, aposentados e profissionais europeus que precisam mandar recursos para cá. Toda essa movimentação hoje é feita por bancos tradicionais, casas de câmbio ou fintechs especializadas, com custos que podem consumir uma fatia relevante do valor enviado, especialmente em remessas de baixo valor.
Com o Pix conectado ao TIPS, a expectativa é que essas transferências fiquem mais baratas e mais rápidas. Em vez de esperar dois, três ou até cinco dias úteis para o dinheiro cair na conta do parente, a operação poderia ser concluída em segundos, como já acontece dentro do Brasil.
Também tende a ganhar transparência: o remetente saberia, no momento de confirmar o pagamento, exatamente quanto vai sair da conta em reais e quanto vai chegar em euros, com a taxa de câmbio explícita.
Outro ponto importante é o alcance. Diferentemente de serviços privados, que dependem de o beneficiário ter conta em uma instituição específica, uma integração via banco central tende a funcionar entre qualquer instituição participante dos dois sistemas. Isso significa que, na prática, o beneficiário europeu poderia receber o valor direto na conta do banco em que já opera, sem precisar abrir cadastro em uma plataforma nova.
É importante lembrar, no entanto, que existem regras de câmbio, prevenção à lavagem de dinheiro e controle tributário que continuam valendo em qualquer transferência internacional. Ou seja, mesmo que a operação fique tecnicamente instantânea, o usuário ainda precisará informar dados como CPF, finalidade do envio e, em alguns casos, comprovar a origem dos recursos, seguindo as normas do Banco Central do Brasil. Um Pix internacional não será um caminho para burlar essas exigências.
O impacto para turistas brasileiros na zona do euro
A segunda grande frente afetada é o turismo. Hoje, o brasileiro que viaja para a Europa costuma combinar três instrumentos: dinheiro em espécie comprado em casa de câmbio, cartão pré-pago em euros e cartão de crédito internacional. Cada um tem seus custos: o câmbio em espécie tem spread; o cartão pré-pago cobra tarifas de recarga e resgate; e o cartão de crédito soma IOF, cotação de fechamento e, em muitos casos, tarifa de saque no exterior.
Uma eventual conexão entre Pix e TIPS abriria a possibilidade de o turista pagar diretamente comércios europeus a partir de uma conta brasileira, em tempo real, usando um QR Code ou uma chave, no mesmo formato a que já está acostumado no Brasil. Isso não elimina impostos como o IOF de câmbio, que continuam sendo definidos pela legislação brasileira, mas pode reduzir custos operacionais e evitar surpresas com bloqueios de cartão ou taxas escondidas de conversão.
Ainda é cedo, porém, para dizer que a integração vai funcionar exatamente assim para o consumidor final. O acordo entre os bancos centrais define a camada de liquidação — ou seja, como o dinheiro efetivamente muda de mãos entre as instituições. A experiência do usuário, com aplicativo, chave, QR Code e limites, depende de como cada banco vai desenhar seu produto sobre essa base. Detalhes como limite diário de pagamento no exterior, horários e forma de contratação ainda serão definidos.
Prazos, limites e o que ainda precisa ser definido
Embora o assunto tenha ganhado destaque, é fundamental separar o que já é fato do que ainda está em fase de conversa. O que está confirmado é que existe uma negociação em andamento entre o Banco Central do Brasil e o Banco Central Europeu para estudar a conexão entre Pix e TIPS. Não há, até o momento, uma data oficial anunciada para o início da operação, tampouco a lista de bancos brasileiros e europeus que participariam da primeira fase.
Alguns pontos técnicos e regulatórios ainda precisam ser resolvidos antes de o serviço chegar ao público. Entre eles estão: como será feita a conversão de reais para euros e vice-versa, qual instituição fará o papel de câmbio na operação, quais serão as regras de identificação do beneficiário, como as autoridades vão monitorar operações suspeitas e qual será o tratamento tributário aplicado. Também é preciso definir os limites de valor por operação, que costumam ser mais restritivos em transferências internacionais do que em pagamentos domésticos.
Outro fator relevante é que o TIPS atende à zona do euro, mas o continente europeu tem países importantes que não adotam a moeda comum, como Reino Unido, Suíça, Noruega e Suécia. Nesses casos, uma eventual conexão Pix–TIPS não resolveria automaticamente as transferências, que dependeriam de acordos adicionais ou de outras infraestruturas.
Da mesma forma, remessas para Estados Unidos, Japão ou países da América do Sul continuariam seguindo os canais atuais até que arranjos semelhantes sejam construídos.
Como se preparar enquanto o Pix internacional não chega
Para o consumidor, a orientação prática neste momento é acompanhar as comunicações oficiais do Banco Central e do seu próprio banco, sem tomar decisões precipitadas com base em promessas de tarifas ou prazos que ainda não foram formalizados. Se você já envia ou recebe recursos da Europa com frequência, vale continuar comparando as opções disponíveis hoje — bancos, fintechs de câmbio e casas especializadas — e ficar atento a quando o Pix internacional for oficialmente lançado, para avaliar se compensa migrar.
O que esperar daqui para frente
A integração do Pix ao TIPS ainda está em fase de negociação, mas sinaliza um movimento maior: o de transformar os pagamentos instantâneos em um serviço que atravessa fronteiras com o mesmo padrão de agilidade e baixo custo que já existe dentro dos países. Para o Brasil, é a oportunidade de exportar um sistema que virou referência internacional; para o cidadão comum, é a promessa de remessas mais baratas, viagens com menos dor de cabeça financeira e uma nova alternativa frente aos altos custos das transferências internacionais tradicionais.
Enquanto o acordo não é fechado, o recado é de cautela informada: entender o que está em jogo, cobrar transparência sobre tarifas e prazos e continuar planejando as remessas e viagens com as ferramentas disponíveis hoje. Assim que houver anúncio oficial de cronograma, valores e bancos participantes, será possível comparar de verdade quanto se ganha com o Pix internacional em relação ao que já existe no mercado.
Referências
- Banco Central do Brasil — página institucional sobre o Pix e agenda de internacionalização (bcb.gov.br)
- Banco Central Europeu — TARGET Instant Payment Settlement (TIPS), Eurosistema
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