Um trabalhador usando uma ferramenta elétrica cria faíscas ao cortar metal, demonstrando habilidade industrial.

Pnad 2025: app paga 12% menos e só 34% recolhem INSS

Pnad 2025 do IBGE mostra que 2 milhões trabalham por aplicativo no Brasil, ganham 12% menos por hora e apenas 34% contribuem para o INSS.

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Rita Cavalcanti

📖 12 min de leitura

Trabalhar por aplicativo virou, para milhões de brasileiros, o caminho mais rápido para gerar renda. Mas os números mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, mostram que esse atalho tem um preço alto: ganho por hora menor, jornada mais longa e uma aposentadoria que, para a maioria, simplesmente não está sendo construída. Segundo o levantamento de 2025, cerca de 2 milhões de trabalhadores atuam via plataformas digitais no país, recebem em média 12% a menos por hora trabalhada e apenas 34% contribuem para a Previdência Social.

Se você é motorista de app, entregador, ou está pensando em entrar nesse mercado, entender esses dados é essencial para tomar decisões melhores sobre orçamento, dívidas e aposentadoria. Neste guia, explicamos ponto a ponto o que a Pnad revelou, por que o rendimento por hora é menor, o que significa não ter INSS em dia e como o julgamento em curso no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a chamada 'uberização' pode mudar sua vida financeira nos próximos anos.

O retrato do trabalho por aplicativo no Brasil em 2025

A Pnad Contínua é a principal radiografia do mercado de trabalho brasileiro, e a edição dedicada às plataformas digitais é a mais completa já divulgada sobre o tema. Ela captura quem dirige para apps de transporte, entrega comida, faz fretes, presta serviços domésticos por aplicativo e outras atividades intermediadas por plataformas.

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O número que salta aos olhos é o volume: aproximadamente 2 milhões de pessoas têm no trabalho por aplicativo sua principal ocupação. Esse contingente cresceu de forma acelerada nos últimos anos, puxado principalmente por dois motivos: a dificuldade de encontrar emprego formal com carteira assinada e a promessa de horários flexíveis. Na prática, porém, a flexibilidade acaba sendo relativa — quem depende do app para pagar as contas geralmente precisa 'ficar on-line' muitas horas por dia para fechar a conta no fim do mês.

Outro dado importante: a maioria desses trabalhadores atua na modalidade conta própria, ou seja, sem carteira assinada, sem CNPJ formalizado como MEI em muitos casos e sem qualquer vínculo trabalhista com a plataforma que intermedia o serviço. Isso os coloca em uma zona cinzenta: não são exatamente autônomos tradicionais, mas também não são empregados formais.

Geograficamente, a atividade se concentra nas grandes regiões metropolitanas, especialmente São Paulo, Rio de Janeiro e capitais do Nordeste, onde a densidade populacional viabiliza corridas e entregas em volume suficiente para gerar renda. O perfil predominante é de homens jovens, com escolaridade média, e uma parcela significativa é composta por trabalhadores negros, o que evidencia como o setor absorve populações historicamente excluídas do mercado formal.

Por que quem trabalha em app ganha menos por hora?

Um dos achados mais impactantes da Pnad é a comparação do rendimento por hora trabalhada. Quando o IBGE ajusta os ganhos considerando o tempo efetivamente dedicado à atividade, o trabalhador de aplicativo recebe, em média, 12% a menos do que o conjunto dos demais ocupados no país.

Essa diferença não aparece de forma tão clara quando se olha só o valor bruto do mês, e é aí que muita gente se engana. É comum um motorista de app comemorar um fechamento de R$ 4.000 ou R$ 5.000 no mês, sem perceber que ficou 12, 14 horas por dia dentro do carro para chegar a esse número. Dividindo o total pelas horas efetivamente rodadas, o valor por hora fica bem abaixo do salário de referência de várias funções formais que exigem escolaridade parecida.

Segundo o analista do IBGE Gustavo Geaquinto Fontes, responsável pelo estudo, essa defasagem tem várias explicações combinadas: a alta oferta de trabalhadores concorrendo pelas mesmas corridas, a política de preços definida unilateralmente pelas plataformas e o fato de que os custos operacionais correm por conta do trabalhador — combustível, manutenção do veículo, aluguel de carro ou moto, seguro, alimentação fora de casa e o próprio celular com internet.

Na hora de comparar sua renda com a de um trabalhador CLT, é preciso lembrar que o salário formal já vem 'limpo' de vários custos: o empregador paga vale-transporte, muitas vezes vale-refeição, deposita FGTS, recolhe a parte patronal do INSS e ainda paga 13º e férias com 1/3 adicional. No trabalho por app, tudo isso sai — ou deveria sair — do seu próprio bolso. Quando você faz essa conta completa, aquele ganho de R$ 4.000 pode equivaler, na prática, a um salário formal bem menor.

Só 34% contribuem para a Previdência: o alerta da aposentadoria

Este talvez seja o dado mais preocupante da pesquisa: apenas 34% dos trabalhadores de aplicativo contribuem para a Previdência Social. Em outras palavras, cerca de dois em cada três estão trabalhando hoje, gerando desgaste físico e emocional, sem construir tempo de contribuição para uma futura aposentadoria por idade, aposentadoria por invalidez, auxílio-doença ou pensão por morte para seus dependentes.

O que isso significa na prática? Quem não recolhe INSS não tem direito, por exemplo, a receber auxílio se ficar doente e não puder trabalhar. Não tem direito ao salário-maternidade em caso de gestação. Se sofrer um acidente sério — e o risco é enorme para quem passa o dia no trânsito —, não recebe benefício por incapacidade. E, ao chegar aos 65 anos (homens) ou 62 anos (mulheres), pode simplesmente não ter direito a aposentadoria alguma, dependendo exclusivamente do BPC/LOAS se comprovar renda familiar muito baixa.

A boa notícia é que ainda dá tempo de mudar essa realidade. O trabalhador de aplicativo pode contribuir de duas formas principais:

  • Como contribuinte individual, recolhendo 20% sobre o valor que declara como renda (respeitando o piso do salário mínimo e o teto do INSS).
  • Como Microempreendedor Individual (MEI), pagando uma guia mensal fixa que inclui a contribuição previdenciária de 5% sobre o salário mínimo, valor bem mais acessível para quem tem renda apertada.

A modalidade MEI costuma ser a mais indicada para quem está começando, porque o custo mensal é baixo e já garante cobertura previdenciária básica. A limitação é que a aposentadoria calculada sobre essa contribuição sai no valor de um salário mínimo. Quem quiser um benefício futuro maior precisa complementar com contribuição adicional.

Jornada extensa e informalidade: o custo escondido da 'liberdade'

A Pnad também trouxe dados sobre a jornada semanal desses trabalhadores. O padrão observado é de jornadas longas, muitas vezes superiores à jornada legal de 44 horas semanais prevista na CLT para o trabalhador formal. Isso confirma o que motoristas e entregadores relatam há anos: para ganhar um valor razoável no fim do mês, é preciso ficar muitas horas conectado, incluindo finais de semana, feriados e horários noturnos.

Essa jornada estendida tem impactos que não aparecem no contracheque — porque contracheque, aliás, não existe:

  • Saúde física: dores lombares, problemas circulatórios, ganho de peso e fadiga crônica são queixas recorrentes de motoristas de app.
  • Saúde mental: a pressão constante das metas, do sistema de avaliação por estrelas e a insegurança da renda variável elevam quadros de ansiedade.
  • Vida familiar: quem trabalha 12 horas por dia, seis ou sete dias por semana, tem pouco tempo para família, filhos, estudo ou lazer.
  • Risco de acidentes: o cansaço é uma das principais causas de sinistros no trânsito, e um acidente sem cobertura previdenciária pode representar prejuízo financeiro relevante para a família.

O ponto central é: a 'liberdade de horários' anunciada pelas plataformas raramente se traduz em trabalhar menos. Ela significa, na prática, escolher quais muitas horas você vai trabalhar — não deixar de trabalhá-las.

O que muda com o julgamento do STF sobre a 'uberização'

Em paralelo à pesquisa do IBGE, o Supremo Tribunal Federal analisa um caso de grande repercussão sobre o vínculo empregatício entre motoristas de aplicativo e as plataformas. A discussão é conhecida no meio jurídico como o julgamento da 'uberização' e vai definir se esses profissionais devem ser considerados empregados, com direito a carteira assinada, FGTS, férias, 13º e todos os demais direitos da CLT — ou se permanecem como autônomos, sem esse vínculo.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentou parecer no processo posicionando-se sobre o tema, e a decisão do STF terá efeito vinculante, ou seja, valerá para todos os casos semelhantes na Justiça do Trabalho em todo o país.

Para o trabalhador que vive do aplicativo, o desfecho desse julgamento pode ter três consequências práticas:

  1. Se o STF reconhecer o vínculo empregatício, as plataformas terão de registrar os motoristas em carteira, recolher INSS e FGTS, garantir férias e 13º. O ganho por hora tende a subir por causa desses direitos, mas o modelo de negócio das plataformas pode mudar, e a disponibilidade de vagas pode ser afetada.
  2. Se o STF descartar o vínculo, o cenário atual se mantém: cabe ao próprio trabalhador se organizar como MEI ou contribuinte individual para ter alguma proteção social.
  3. Se houver um caminho intermediário, o Congresso pode ser chamado a criar uma categoria específica — um 'trabalhador de plataforma' com direitos parciais.

Independentemente do resultado, uma coisa é certa: você não pode esperar a decisão do STF para começar a se proteger. Enquanto o julgamento não termina, é seu benefício futuro que está em jogo.

Como se organizar financeiramente trabalhando por aplicativo

Diante do quadro que a Pnad mostra — renda por hora menor, jornada extensa, poucos com previdência —, o trabalhador de app precisa se transformar, na prática, em gestor da própria empresa. Alguns passos concretos ajudam a sair do modo 'sobrevivência' e construir alguma estabilidade:

1. Separe faturamento de lucro. O dinheiro que entra no app não é seu salário. Dele saem combustível, manutenção, aluguel do carro, depreciação do veículo, alimentação, plano de celular e impostos. Anote esses gastos todos os dias. Só o que sobra depois disso é lucro — e é sobre ele que você deve calcular o quanto pode gastar em vida pessoal.

2. Reserve uma parcela fixa para o INSS. A contribuição como MEI é uma das formas mais baratas de garantir aposentadoria, auxílio-doença e outros benefícios. Pense nela como uma despesa fixa do seu 'negócio', igual ao combustível: sem ela, o negócio quebra no médio prazo.

3. Monte uma reserva de emergência. No trabalho por app não existe seguro-desemprego se a plataforma bloquear sua conta, não existe estabilidade se você adoecer. Uma reserva equivalente a pelo menos três meses de despesas essenciais é o mínimo para não cair em empréstimos caros no primeiro imprevisto.

4. Cuidado com crédito caro. Cheque especial, cartão rotativo e empréstimos pessoais com juros altos são armadilhas frequentes para quem tem renda variável. Se precisar de crédito, compare taxas antes e evite parcelar dívidas de curto prazo por vários meses.

5. Analise o custo real do veículo. Muitos motoristas descobrem tarde que o carro está 'comendo' o próprio ganho. Faça a conta: quilômetros rodados por mês, consumo, manutenção, seguro, IPVA, depreciação. Se o veículo é alugado, some o valor do aluguel. Só assim você sabe se o trabalho está compensando.

6. Invista em qualificação paralela. A Pnad mostra que o setor é volátil e que decisões judiciais e regulatórias podem mudar o mercado em pouco tempo. Manter alguma qualificação que permita migrar para outra atividade é uma proteção estratégica.

Quem recebe BPC/LOAS ou aposentadoria e trabalha por app

Uma dúvida muito comum é o que fazer quando a pessoa recebe algum benefício do INSS e também roda no aplicativo para complementar a renda. As regras variam:

  • Aposentados do INSS podem trabalhar por app sem perder a aposentadoria. Nesse caso, também podem contratar consignado com margem de até 40% do benefício, prazo de até 108 meses e carência de até 90 dias para a primeira parcela — sendo que 5% dessa margem são reservados a cartão consignado e cartão benefício. Se o aposentado não tem nenhum desses cartões, os 40% inteiros ficam disponíveis para o empréstimo consignado.
  • Beneficiários do BPC/LOAS que trabalham por app precisam ter cuidado extra: o BPC é um benefício assistencial voltado a quem comprova baixa renda familiar, e gerar renda relevante pode implicar cessação do benefício em uma revisão. Vale destacar que, por lei, quem recebe BPC/LOAS pode contratar empréstimo consignado — não há vedação. Na prática, no entanto, por causa do alto volume atual de revisões e cessações desse tipo de benefício, as instituições autorizadas recuaram na oferta dessa modalidade, então a disponibilidade está reduzida no momento.

Conclusão: os números da Pnad são um alerta, não uma sentença

O retrato traçado pelo IBGE em 2025 é duro: 2 milhões de brasileiros vivendo do aplicativo, ganhando 12% menos por hora e, em sua maioria, sem construir aposentadoria. Mas esse retrato pode e deve ser mudado — em parte pelas decisões que ainda virão do STF e do Congresso sobre o vínculo dos trabalhadores de plataforma, e em parte por cada trabalhador, individualmente, ao organizar melhor suas finanças e sua contribuição previdenciária.

O próximo passo prático, se você trabalha por app, é simples: pegue os últimos três meses de faturamento, some tudo, desconte todos os custos operacionais e veja quanto realmente sobrou. Depois, decida separar uma parcela fixa desse lucro para pagar INSS (como MEI, na maior parte dos casos) e começar uma reserva. Sem isso, a estatística ruim da Pnad seguirá se repetindo — e, daqui a 20 ou 30 anos, quem terá pago a conta é você.

Referências

  • Pnad Contínua IBGE 2025 — edição sobre plataformas digitais.
  • Declarações do analista do IBGE Gustavo Geaquinto Fontes sobre os resultados da pesquisa.
  • Julgamento do STF sobre a chamada 'uberização' e o vínculo empregatício entre motoristas de aplicativo e plataformas.
  • Parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR) no processo em análise pelo STF sobre o tema.

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