Projeto quer 2FA gratuita em bancos para clientes 60+
Proposta em análise na Câmara pretende obrigar bancos a oferecer autenticação em duas etapas gratuita a clientes com 60 anos ou mais. Entenda.
Rita Cavalcanti
Uma proposta em tramitação na Câmara dos Deputados pretende criar uma nova camada obrigatória de proteção para clientes bancários com 60 anos ou mais: a chamada autenticação em duas etapas — também conhecida como verificação em dois fatores ou 2FA — teria de ser oferecida gratuitamente pelas instituições financeiras a esse público. Se aprovada, a medida atinge diretamente aposentados, pensionistas do INSS e trabalhadores mais velhos, que hoje são alvo frequente de golpistas em fraudes envolvendo Pix, cartões, empréstimos e desbloqueios de conta.
A discussão ganha peso em um momento em que o crédito consignado, o cartão de benefício e o próprio pagamento da aposentadoria movimentam bilhões de reais por mês nas contas de idosos. Qualquer brecha de segurança nesse fluxo se transforma, na prática, em risco de perda de renda para quem vive de um benefício fixo. Nesta matéria, você vai entender o que o projeto propõe, por que os maiores de 60 anos concentram tantas ocorrências de golpe, como funciona essa proteção extra e o que já dá para fazer hoje mesmo para se blindar.
O que propõe o projeto de lei sobre autenticação em duas etapas para idosos
O texto em análise no Congresso quer transformar em obrigação legal aquilo que hoje muitos bancos já oferecem, mas de forma opcional ou escondida no menu do aplicativo: a exigência de um segundo fator de confirmação toda vez que o cliente faz uma operação sensível, como transferência de valores altos, contratação de crédito, alteração de senha ou cadastro de novo dispositivo.
Pelo desenho da proposta, a camada extra de segurança teria de ser disponibilizada sem custo adicional para correntistas com 60 anos ou mais, tanto em bancos tradicionais quanto em instituições digitais. A ideia é evitar que a proteção fique restrita a pacotes pagos ou a serviços premium que boa parte dos aposentados e pensionistas não contrata.
É importante deixar claro: enquanto o projeto não for aprovado pela Câmara, pelo Senado e sancionado pela Presidência, nada muda na obrigação dos bancos. Ou seja, hoje a decisão de ativar ou não a verificação em duas etapas continua nas mãos do próprio cliente e depende do que cada instituição oferece.
Por que os idosos são o principal alvo de golpes bancários no Brasil
A escolha do recorte etário — 60 anos ou mais — não é aleatória. Esse é o grupo que mais aparece nos boletins de ocorrência e nos registros de reclamação envolvendo fraudes financeiras. Há uma combinação de fatores que ajuda a explicar o cenário.
Fator econômico
Aposentados e pensionistas do INSS têm renda previsível, que cai todo mês na conta e serve de garantia para o empréstimo consignado — modalidade em que o desconto é feito direto no benefício. Isso torna a conta desse público especialmente atraente para criminosos que aplicam golpes de falso empréstimo, falsa central do banco ou clonagem de cartão.
Fator comportamental
Muitos idosos começaram a usar o aplicativo do banco há pouco tempo, muitas vezes por necessidade, depois da digitalização acelerada dos serviços do INSS e dos bancos. Não é falta de inteligência: é falta de familiaridade com padrões de fraude que quem cresceu na internet reconhece com mais facilidade. Golpistas exploram essa curva de aprendizado com ligações que imitam o SAC do banco, mensagens que copiam o layout oficial e links falsos enviados por WhatsApp.
Fator regulatório
O INSS já vem endurecendo regras para conter descontos indevidos em benefícios, exigindo, por exemplo, autorização mais rigorosa para averbação de empréstimo consignado. Só que essa proteção não alcança o outro lado: a hora em que o golpista assume o controle do aplicativo bancário do idoso e faz operações como se fosse o próprio titular. É aí que entra a autenticação em duas etapas.
Como funciona a autenticação em duas etapas (2FA) no aplicativo do banco
A verificação em duas etapas é simples de descrever: para concluir uma operação, não basta digitar a senha. É preciso confirmar a identidade por um segundo caminho, independente do primeiro. Na prática, o banco costuma combinar:
- Algo que o cliente sabe: senha, PIN de 4 ou 6 dígitos, resposta secreta.
- Algo que o cliente tem: celular cadastrado, token físico, chave de segurança.
- Algo que o cliente é: biometria facial ou digital.
Quando o 2FA está ativo, mesmo que o criminoso descubra a senha, ele ainda precisa passar por um segundo obstáculo — normalmente um código enviado por SMS ou gerado dentro do próprio aplicativo, ou o reconhecimento facial. Isso reduz o risco de que uma senha vazada, phishing ou instalação de aplicativo espião resulte em transferência via Pix ou contratação de crédito indevida.
O ponto que o projeto quer atacar é o seguinte: nem todos os bancos deixam essa camada extra ativada por padrão, e nem todos oferecem a opção sem exigir configuração avançada. Para quem tem menos intimidade com o app, isso significa navegar sem cinto de segurança. Tornar o recurso gratuito e obrigatório para os maiores de 60 anos seria uma forma de padronizar a proteção.
O que muda para quem tem consignado, cartão de benefício e conta do INSS
Essa discussão é especialmente relevante para quem depende do benefício previdenciário. O golpe mais comum contra esse público segue um roteiro conhecido: o criminoso liga se passando por atendente do banco ou do próprio INSS, alega uma "revisão de segurança" ou um "desbloqueio de empréstimo" e induz o idoso a fornecer senha, código de SMS ou instalar um aplicativo de acesso remoto. Em minutos, faz transferência, contrata crédito consignado ou compra no cartão.
Vale lembrar as regras oficiais em vigor em 2026, para o leitor não confundir o que é golpe com o que é operação legítima do próprio benefício:
- Empréstimo consignado INSS: prazo máximo de 108 meses e margem consignável total de 40% do benefício, sendo 5% reservados exclusivamente para cartão benefício e/ou cartão consignado. Se houver algum cartão contratado, o empréstimo em si fica limitado a 35%; se não houver nenhum cartão, os 40% podem ser usados no empréstimo. A primeira parcela pode vencer em até 90 dias.
- BPC/LOAS: pode, por lei, ser usado para consignado — é incorreto afirmar que quem recebe BPC não tem direito. No entanto, no cenário atual, com o alto volume de revisões e cessações desse benefício, as instituições autorizadas recuaram e a oferta está bastante restrita na prática.
Entender esses parâmetros ajuda o idoso e a família a identificar quando uma proposta que chegou por telefone ou WhatsApp está fora do razoável — por exemplo, um "consignado" com prazo de 120 meses ou desconto acima da margem, sinais claros de tentativa de fraude ou de contratação irregular.
Com a autenticação em duas etapas obrigatória, mesmo que o criminoso convença o idoso a informar a senha, ainda haveria a exigência de uma confirmação adicional dentro do aplicativo — o que dá tempo para reflexão e para o próprio banco identificar a tentativa suspeita.
Como se proteger enquanto o projeto não é aprovado
Mesmo antes de qualquer mudança na lei, algumas atitudes já reduzem muito o risco de golpe:
- Ative a verificação em duas etapas manualmente no aplicativo do seu banco. Normalmente a opção fica em "Segurança", "Configurações" ou "Privacidade". Se não encontrar, ligue no telefone oficial que está no verso do cartão e peça orientação.
- Cadastre biometria facial para autorizar Pix, transferências e contratação de crédito. É uma trava difícil de burlar remotamente.
- Defina um limite baixo para Pix noturno e para transferências fora da lista de contatos habituais. Bancos permitem configurar esses tetos no próprio app.
- Nunca informe códigos recebidos por SMS ou WhatsApp, nem para pessoas que se apresentem como funcionários do banco ou do INSS. Nenhum órgão oficial pede código de confirmação por telefone.
- Bloqueie no INSS o consignado caso não pretenda contratar. O bloqueio de empréstimos consignados pode ser feito pelo aplicativo Meu INSS ou pela central 135, e impede que qualquer instituição averbe crédito no benefício sem sua autorização prévia.
- Confira o extrato do benefício todo mês, especialmente a linha de "empréstimos consignados" e "mensalidades associativas". Descontos que você não reconhece devem ser contestados imediatamente junto ao INSS e ao banco pagador.
O que esperar dos próximos passos
A aprovação de projetos como esse costuma exigir passagem por comissões temáticas antes de ir ao plenário da Câmara e, depois, ao Senado. Ou seja, ainda há caminho a percorrer até que a autenticação em duas etapas gratuita para o público 60+ vire regra em todos os bancos.
O recado prático para o leitor é: não espere a lei sair para se proteger. Ative hoje, no seu aplicativo, todas as camadas de segurança disponíveis, oriente pais e avós a fazer o mesmo e mantenha o consignado bloqueado no Meu INSS enquanto não houver interesse concreto em contratar. Segurança financeira, para quem vive de benefício, é também segurança de renda no fim do mês.
Referências
- Câmara dos Deputados — projeto de lei citado.
- Seu Crédito Digital.
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