Redução da jornada: o que o Brasil pode aprender de Colômbia e Chile
Colômbia e Chile já cortaram horas semanais por lei e acumulam dados sobre emprego e custos. Veja o que o Brasil pode aprender no debate sobre a escala 6x1.
Rita Cavalcanti
A discussão sobre reduzir a jornada de trabalho no Brasil ganhou força nos últimos meses, principalmente puxada pela proposta de acabar com a escala 6x1 — aquela em que o trabalhador encara seis dias seguidos de expediente e folga só um. O debate, porém, costuma ficar preso a opiniões: de um lado, quem defende mais tempo livre e saúde para o trabalhador; do outro, empresários preocupados com aumento de custo e perda de produtividade.
O que quase ninguém traz para a mesa é a experiência concreta de países vizinhos que já fizeram essa mudança. Colômbia e Chile aprovaram leis reduzindo as horas semanais de trabalho e hoje têm números reais sobre o que aconteceu com o emprego, com o caixa das empresas e com a forma de organizar o expediente. Entender esses casos ajuda o trabalhador brasileiro a separar promessa de campanha do que de fato acontece quando a redução vira lei.
Por que o debate sobre redução de jornada voltou ao centro no Brasil
A jornada padrão prevista na legislação brasileira é de 44 horas semanais, organizada em até 8 horas diárias. Sobre essa base, surgiram escalas como a 6x1, muito usada no comércio, em supermercados, em serviços de alimentação e em call centers. A pressão para revisar esse modelo aumentou com propostas em discussão no Congresso para extinguir a escala 6x1 e, em paralelo, com sindicatos defendendo a redução da jornada para 40 ou até 36 horas semanais sem corte de salário.
O ponto sensível é simples de entender: quem trabalha seis dias por semana em jornada cheia tem menos tempo para descanso, estudo, cuidado com a família e saúde. Para o empregador, qualquer mudança no total de horas significa, na prática, repensar escala, contratação e folha de pagamento. Antes de o Brasil escolher um caminho, é útil olhar para quem já enfrentou esse mesmo dilema e tomou decisões. É aí que entram Colômbia e Chile.
Como a Colômbia está reduzindo a jornada de 48h para 42h
A Colômbia aprovou em 2021 uma lei de redução gradual da jornada de trabalho. A legislação prevê uma descida escalonada da carga horária semanal partindo de 48 horas, com cortes ao longo dos anos, até chegar a 42 horas. O modelo escalonado foi a forma encontrada pelo país para dar previsibilidade às empresas — em vez de um corte brusco, o empregador tem tempo de ajustar escalas, contratar, renegociar produtividade e revisar custos.
Um dos pontos mais citados desde então é a tentativa de medir o que aconteceu com o emprego durante a transição. Uma análise atribuída à área econômica do mercado financeiro colombiano aponta que, entre 2022 e o início de 2025, foram registradas cerca de 787 mil novas contratações formais durante o período de implementação da redução. Esse número é frequentemente apresentado como indicativo de que a redução da jornada não travou, sozinha, a geração de empregos formais no país. É importante registrar, contudo, que o estudo não isola o efeito da redução de jornada de outras variáveis macroeconômicas que influenciam contratação no mesmo período.
Do lado empresarial, um levantamento com 610 empresários colombianos foi divulgado para captar a percepção do setor produtivo sobre a mudança. A leitura geral é de que houve, sim, aumento de custos operacionais e necessidade de reorganizar turnos, mas com adaptação ao longo do tempo. Em paralelo, em 2025 o governo colombiano avançou em uma nova rodada de reforma trabalhista, ampliando o escopo da discussão para além da jornada — incluindo pontos como contratação, terceirização e proteção social. O economista Stefano Farné, do Observatório do Mercado de Trabalho da Universidade Externado, tem acompanhado o processo.
A lição mais clara da Colômbia para o Brasil não é se a redução “deu certo” ou “deu errado” — é metodológica: o país escolheu uma transição com prazo definido e em fases, em vez de mudar tudo de uma vez. Esse desenho ajuda a evitar choque na folha de pagamento das empresas e dá tempo para a fiscalização trabalhista se ajustar.
A experiência do Chile com a redução para 40 horas semanais
O Chile aprovou em 2023, no governo Gabriel Boric, uma lei que reduz a jornada semanal de 45 para 40 horas, também em formato escalonado ao longo de alguns anos. A diferença em relação à Colômbia é que a base de partida chilena já era mais baixa: 45 horas, contra 48 horas colombianas e 44 horas brasileiras. O destino, porém, é mais ambicioso — chegar a 40 horas semanais como padrão legal.
Um dado importante para o debate brasileiro é que o Chile não está mexendo nessa carga horária pela primeira vez. Em 2005, o país já havia feito uma redução, saindo de 48 para 45 horas semanais. Esse episódio anterior virou objeto de estudo acadêmico. A análise atribuída ao pesquisador Rafael Sanchéz examinou o que aconteceu com produtividade, salário e emprego depois daquela mudança. Esse tipo de evidência histórica é valiosa porque ajuda a entender como, em economias parecidas com a brasileira, o ajuste pode vir acompanhado de ganhos de produtividade por hora trabalhada — quando a empresa investe em organização e tecnologia para compensar a redução de horas.
No Brasil, o pesquisador Bruno Ottoni, da Uerj, é uma das vozes que tem analisado esse tipo de comparação internacional. O que se destaca, de modo geral, é que reduções escalonadas e combinadas com algum grau de flexibilidade na organização das horas (banco de horas, jornada concentrada em menos dias, possibilidade de acordos coletivos) costumam ter aceitação melhor entre empregadores do que cortes lineares e imediatos.
A experiência chilena reforça uma ideia central: redução de jornada não é só sobre “trabalhar menos”. É sobre como redistribuir as horas durante a semana, como medir produtividade, e como abrir espaço para negociação coletiva entre empresa e trabalhador definir a melhor escala dentro do limite legal.
O que o Brasil pode aprender com Colômbia e Chile
Reunindo o que os dois países mostram, três pontos práticos saltam para o debate brasileiro.
1. Transição escalonada
Tanto Colômbia quanto Chile evitaram cortar a jornada de uma só vez. Eles definiram um destino (42 horas no caso colombiano, 40 horas no caso chileno) e um cronograma de redução com etapas anuais. Isso reduz o risco de choque para o setor produtivo e dá previsibilidade ao trabalhador. No Brasil, qualquer proposta séria de fim da escala 6x1 ou redução para 40 horas semanais provavelmente precisa adotar lógica parecida, em vez de mudança imediata.
2. Flexibilidade na organização das horas
Reduzir o total semanal não significa, obrigatoriamente, encurtar todos os dias na mesma proporção. Pode significar manter jornadas diárias parecidas e abrir mais um dia de folga; pode significar concentrar a carga em quatro dias maiores; pode significar mais espaço para acordos coletivos por categoria. As experiências de Colômbia e Chile mostram que essa flexibilidade ajuda setores muito diferentes — comércio, indústria, serviços essenciais — a se ajustarem sem demitir.
3. Medir o efeito real, com dados
Tanto os 787 mil postos formais citados na Colômbia quanto a percepção dos 610 empresários ouvidos no levantamento setorial mostram que é possível acompanhar emprego, custo e produtividade ao longo da transição. O Brasil tem instrumentos parecidos: o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) permitem fazer esse tipo de monitoramento em tempo quase real. Sem esse acompanhamento, o debate continua emocional. Com ele, vira política pública baseada em evidência.
O recado para o trabalhador brasileiro
Para o trabalhador brasileiro, especialmente quem está hoje na escala 6x1, o recado prático é que existem caminhos intermediários entre “manter tudo como está” e “mudar tudo amanhã”. Os modelos colombiano e chileno mostram que a redução de jornada é tecnicamente viável quando combinada com prazo, flexibilidade de escala e diálogo entre empresa e empregado. O próximo passo é cobrar do Congresso e dos sindicatos que, ao discutirem a proposta brasileira, considerem esses três pilares — e não apenas o número de horas no papel.
No fim, a pergunta não é se o Brasil consegue reduzir jornada, mas como organizar essa transição sem destruir vagas e sem manter o trabalhador exausto. E aí, sim, vale olhar para fora.
Referências
- Lei colombiana de redução de jornada (Lei 2101/2021), que prevê descida escalonada de 48 para 42 horas semanais.
- Reforma trabalhista do governo Petro, na Colômbia (2025), ampliando o escopo para além da jornada.
- Análise atribuída à Corficolombiana sobre cerca de 787 mil contratações formais entre 2022 e início de 2025.
- Levantamento atribuído à Fenalco com 610 empresários colombianos sobre os efeitos da redução de jornada.
- Stefano Farné — Observatório do Mercado de Trabalho, Universidade Externado (Bogotá).
- Estudo do pesquisador Rafael Sanchéz sobre os efeitos da reforma chilena de 2005 (48→45 horas).
- Reforma trabalhista chilena de 2023, no governo Gabriel Boric, reduzindo a jornada de 45 para 40 horas em formato escalonado.
- Bruno Ottoni — economista e pesquisador da Uerj.
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