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Reforma Tributária pode encarecer passagens aéreas, diz estudo

Projeção indica que CBS e IBS, novos tributos da Reforma Tributária, podem elevar o preço das passagens aéreas em até 16%. Veja o impacto e como se planejar.

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Tatiana Botelho

📖 8 min de leitura

Comprar passagem aérea no Brasil já é, para a maior parte das famílias, uma decisão que exige planejamento de meses. E, se você tem viagem marcada para os próximos anos — férias, visita a parentes ou até deslocamento a trabalho —, precisa entender o que está sendo desenhado nos bastidores da Reforma Tributária.

Projeções recentes indicam que o novo modelo de tributação sobre o consumo pode encarecer o bilhete aéreo em até 16%. Não se trata de um reajuste comercial das companhias, mas de uma mudança estrutural na forma como o país cobra impostos — e ela chega junto ao preço final que aparece na tela na hora de comprar.

Neste guia, você vai entender por que a passagem tende a ficar mais cara, quanto isso pode pesar no orçamento, quando as novas regras começam a valer e o que dá para fazer, desde já, para não ser pego de surpresa. A explicação é feita em linguagem direta, sem juridiquês, para que qualquer pessoa consiga tomar decisões melhores sobre suas próximas viagens.

Por que a passagem aérea pode ficar mais cara com a Reforma Tributária

A Reforma Tributária brasileira, aprovada por Emenda Constitucional e regulamentada por lei complementar, substitui um conjunto de tributos atuais (como PIS, Cofins, ICMS e ISS) por dois novos: a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de competência federal, e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de competência dos estados e municípios. A lógica é unificar a cobrança e acabar com a chamada 'cumulatividade', em que imposto incide sobre imposto.

O problema, para setores intensivos em serviços — e o transporte aéreo é um deles —, é que hoje eles operam com uma carga tributária relativamente baixa, especialmente por conta de regimes específicos e da base menor de tributos como o PIS/Cofins no lucro real. Ao migrar para uma alíquota única de referência no novo sistema, esses setores tendem a sentir aumento de carga, ainda que a Reforma preveja regimes diferenciados e mecanismos de compensação para reduzir esse efeito.

Ou seja: a passagem aérea não fica mais cara porque a companhia decidiu subir preço — fica mais cara porque a parte do bilhete que corresponde a tributos cresce dentro do novo modelo. E quem paga essa conta, no fim, é o consumidor.

Outro ponto importante: combustível de aviação (o querosene, conhecido como QAV), manutenção de aeronaves, taxas aeroportuárias e serviços contratados pelas companhias também são impactados pela nova sistemática. Como boa parte desses custos entra no preço final da passagem, qualquer alteração na tributação da cadeia respinga no que o passageiro paga.

Quanto pode subir o preço do bilhete

A projeção que serve de base para este debate aponta um aumento de até 16% no preço médio das passagens aéreas após a implementação plena do novo modelo tributário. Para entender o tamanho desse impacto no bolso, vale traduzir em números do dia a dia:

  • Um bilhete doméstico que hoje custa R$ 800 poderia chegar a cerca de R$ 928 no cenário de alta máxima.
  • Uma passagem de R$ 1.500 (comum em trechos mais longos ou datas de alta temporada) poderia passar de R$ 1.740.
  • Para uma família de quatro pessoas viajando de férias, o acréscimo pode facilmente ultrapassar R$ 500 só no transporte.

É importante deixar claro: 16% é o teto projetado no estudo, não uma garantia. O impacto real vai depender da alíquota final do IBS e da CBS (que ainda será definida), da eventual inclusão do transporte aéreo em regime diferenciado com alíquota reduzida, e da forma como as companhias vão repassar (ou absorver) parte desse custo.

Outro fator que pesa: rotas regionais, que já operam com margens apertadas, tendem a sentir mais. Nessas linhas, um aumento de tributo pode ser a diferença entre a rota se manter economicamente viável ou ser cortada — o que reduziria a oferta e, por tabela, pressionaria os preços ainda mais.

Quando as novas regras começam a valer

A Reforma Tributária não entra em vigor de uma vez. O modelo aprovado prevê uma transição longa, que começa de forma gradual e só é concluída anos depois, para dar tempo de empresas, estados e municípios se adaptarem. Nesse período de convivência, tributos antigos vão sendo reduzidos enquanto os novos (CBS e IBS) vão sendo implantados em fases.

Na prática, isso significa que o impacto no preço da passagem aérea também deve ser sentido de forma progressiva, e não em um único salto. Nos primeiros anos, as alterações tendem a ser menores; à medida que a transição avança, a nova carga passa a se refletir com mais força no bilhete final.

Esse desenho gradual tem um lado bom para o consumidor: dá tempo de se planejar. Quem tem viagens grandes previstas — lua de mel, formatura, viagem internacional em família — pode aproveitar a janela inicial da transição para comprar com carga tributária ainda parecida com a de hoje. Já quem só decide na última hora tende a sentir mais o aperto conforme os anos passarem.

Vale acompanhar também eventuais ajustes legislativos. Setores organizados costumam pressionar por regimes diferenciados durante a regulamentação, e o transporte aéreo — pela importância econômica e pela conectividade que garante a cidades sem outras opções de transporte — é um dos que buscam tratamento específico dentro da Reforma.

Como se planejar para viajar gastando menos

Mesmo com o cenário de aumento, dá para tomar decisões inteligentes agora para reduzir o impacto no orçamento familiar. Algumas estratégias práticas:

1. Antecipe viagens já planejadas. Se você já sabia que faria uma viagem nos próximos dois anos, faz sentido considerar comprar antes que a transição avance. Isso vale principalmente para trechos internacionais e datas de alta temporada, em que o preço-base já é elevado.

2. Use pontos e milhas com estratégia. Programas de milhagem e cartões que acumulam pontos ganham peso extra em um cenário de passagens mais caras. Concentrar gastos essenciais (mercado, contas, combustível) em um único cartão que rende bem pode custear parte relevante do bilhete no futuro.

3. Fuja das datas mais caras. Sair uma terça e voltar uma quarta, evitar feriados prolongados e viajar fora do período escolar reduz o valor-base da passagem — e, quanto menor a base, menor o valor absoluto do imposto embutido.

4. Compare aeroportos alternativos. Muitas capitais têm um segundo aeroporto ou aeroportos regionais próximos com tarifas menores. A economia costuma ser maior do que o custo do deslocamento até lá.

5. Cuidado com parcelamento longo. Diante da expectativa de alta, pode ser tentador parcelar em muitas vezes para 'diluir' o valor. Mas parcelamento com juros embutidos pode custar mais do que o próprio aumento tributário. Se for parcelar, prefira parcelamentos sem juros oferecidos diretamente pela companhia ou por bancos parceiros.

6. Não confunda alta tributária com oportunidade de crédito caro. Financiar viagem no cheque especial, rotativo do cartão ou empréstimo pessoal costuma sair muito mais caro do que qualquer variação de preço de passagem. Se a viagem não cabe no bolso hoje, o melhor caminho é adiar ou reduzir o padrão, e não recorrer a crédito de juros altos.

O que esperar daqui para frente

Impacto vai além do setor aéreo

A Reforma Tributária é um dos maiores rearranjos econômicos das últimas décadas no Brasil e, por afetar a forma como todos os produtos e serviços são tributados, seus efeitos vão muito além da passagem aérea. Alimentação fora de casa, serviços de saúde particulares, educação, streaming, aplicativos de transporte e turismo em geral também estão no radar de mudanças.

Para o consumidor comum, a lição principal é acompanhar de perto o que sai publicado em fontes oficiais — como o portal do governo federal e as normas complementares que ainda serão editadas — e desconfiar de promessas milagrosas de 'travar preço' ou 'garantir tarifa antiga', que costumam vir acompanhadas de armadilhas comerciais.

No caso específico das passagens aéreas, a projeção de alta de até 16% serve como um alerta, não como uma sentença. Ainda há espaço para ajustes na regulamentação, para regimes diferenciados e para respostas do próprio setor. Mas quem já sabe que vai viajar tem, agora, uma informação valiosa para decidir se compra hoje, se acumula milhas ou se reorganiza o calendário. Planejamento continua sendo o melhor desconto disponível — e, com Reforma Tributária no horizonte, ele vale mais do que nunca.

Referências

  • Emenda Constitucional nº 132/2023 — Reforma Tributária sobre o consumo
  • Lei Complementar nº 214/2025 — regulamentação da CBS e do IBS
  • Estudo setorial sobre impacto da CBS/IBS no transporte aéreo (setembro/2026)

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