Selic em 14,5%: o que muda no consignado e no crédito
Copom mantém Selic em 14,5% ao ano. Veja o impacto no consignado INSS, CLT, BPC/LOAS, cartão de crédito e como usar o crédito a seu favor em 2026.
Tatiana Botelho
Selic em 14,5%: o que o Copom decidiu e por quê
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central definiu nesta semana a nova taxa básica de juros da economia brasileira: a Selic permanece em 14,5% ao ano. A decisão era aguardada por bancos, fintechs, investidores e — principalmente — por quem precisa de crédito para fechar o orçamento do mês, refinanciar uma dívida ou contratar um empréstimo consignado.
A Selic é o principal instrumento que o Banco Central usa para controlar a inflação. Quando os preços sobem rápido demais, o BC eleva os juros para encarecer o crédito, reduzir o consumo e, com isso, frear a alta dos preços. Por outro lado, juros altos tornam o financiamento mais caro para o trabalhador, o aposentado e o empreendedor.
Para o seu bolso, a manutenção da Selic em patamar elevado significa, na prática, que o crédito tende a continuar caro nos próximos meses. Não há previsão imediata de redução significativa nos juros das principais linhas, como cartão de crédito, cheque especial, financiamento de veículo e crédito pessoal. Já as linhas com teto regulado — caso do consignado INSS — seguem sendo as mais baratas do mercado e tendem a manter sua atratividade.
Neste guia, você vai entender em detalhes como essa decisão afeta o seu dia a dia, quais são as regras atuais do empréstimo consignado, o que diz a lei sobre BPC/LOAS e o que fazer agora para usar o crédito a seu favor sem cair em armadilhas.
Como a Selic influencia o juro do empréstimo consignado
Antes de falar de números, é preciso entender uma mecânica simples: a Selic é a referência de juros usada pelos bancos para captar recursos. Quando essa taxa sobe, o sistema financeiro tende a repassar o aumento ao consumidor final. Quando cai, o crédito tende a ficar mais barato — embora o repasse nem sempre seja imediato.
No consignado, esse efeito é amortecido por uma razão importante: existe um teto de juros definido pelo Conselho Nacional de Previdência Social (CNPS) para o consignado do INSS e regras específicas para o consignado privado (CLT). Isso significa que, mesmo com a Selic alta, o aposentado e o pensionista têm acesso a uma das linhas de crédito mais baratas do país.
Ainda assim, quando a Selic está elevada, é comum que os bancos pratiquem juros próximos ao teto regulamentar. Quando a taxa cai, há uma tendência (não obrigatória) de que algumas instituições reduzam suas próprias tarifas para atrair clientes. Por isso, ficar atento à decisão do Copom faz toda a diferença para escolher o momento de contratar — ou de portar — uma dívida.
Outro ponto importante: a Selic afeta a remuneração da poupança, do Tesouro Direto e dos CDBs. Para quem tem dinheiro guardado, juros altos são bons. Para quem precisa pegar emprestado, juros altos são ruins. É essa balança que cada brasileiro precisa avaliar com cuidado neste cenário.
Consignado INSS em 2026: regras vigentes para aposentados e pensionistas
O empréstimo consignado para aposentados e pensionistas do INSS é a modalidade mais procurada do país justamente por ter juros menores e desconto direto em folha. Em 2026, as regras oficiais em vigor são as seguintes:
- Prazo máximo: 108 meses, ou seja, até 9 anos para quitar a dívida.
- Margem consignável total: 40% do valor do benefício mensal.
- Reserva para cartões: dentro desses 40%, 5% são exclusivos para cartão benefício e/ou cartão consignado.
- Carência da 1ª parcela: até 90 dias após a contratação.
Como funciona na prática? Se o aposentado já tem algum cartão (benefício ou consignado) contratado, a margem disponível para o empréstimo consignado tradicional fica em 35% do benefício. Se ele não tem nenhum cartão contratado, os 40% inteiros podem ser direcionados para o empréstimo consignado.
Exemplo prático: um aposentado que recebe R$ 2.000 por mês pode comprometer, no máximo, R$ 800 com as operações de crédito consignado (40%). Desse total, até R$ 700 (35%) podem ser usados em um empréstimo consignado tradicional, e até R$ 100 (5%) ficam reservados para cartão benefício/consignado. Se ele não usa cartão algum, os R$ 800 podem ir todos para o empréstimo.
A margem só pode ser ampliada por lei ou regulamentação do Conselho Nacional de Previdência. Por isso, desconfie de promessas de 'margem extra' feitas por intermediários — fora das regras oficiais, não existe esse tipo de manobra. Em caso de dúvida, consulte diretamente o aplicativo Meu INSS ou um canal oficial.
A carência de até 90 dias para o vencimento da primeira parcela é um ponto positivo para quem precisa do dinheiro agora e ainda não consegue arcar com um pagamento imediato. Mas atenção: durante esses dias, o saldo devedor continua sendo corrigido por juros. Quanto maior a carência usada, mais cara fica a operação no total.
Consignado CLT (carteira assinada): teto de juros e margem
Quem trabalha com carteira assinada também tem acesso ao consignado, e as regras vigentes em 2026 são diferentes das do INSS. Veja:
- Prazo máximo: 96 meses (8 anos).
- Margem consignável: 35% do salário líquido.
- Modalidade: atualmente, existe apenas o empréstimo consignado. Não há cartão consignado para o trabalhador CLT no modelo em vigor, então a totalidade dos 35% é direcionada para a operação de empréstimo.
O consignado CLT passou por uma reformulação importante nos últimos anos e hoje está integrado a um sistema digital nacional, que permite ao trabalhador comparar propostas de diferentes bancos sem precisar passar pelo RH da empresa. Isso aumentou a concorrência entre as instituições e ajudou a reduzir as taxas.
Mesmo com a Selic em 14,5%, o consignado CLT segue mais barato do que o crédito pessoal comum, justamente porque tem desconto direto na folha — o que reduz o risco de inadimplência para o banco e permite cobrar juros menores.
Vale lembrar: o trabalhador que pede demissão, é demitido ou troca de emprego precisa renegociar o saldo devedor. Em geral, parte do saldo é abatida pelas verbas rescisórias e o restante é renegociado em outra modalidade. Antes de assinar qualquer contrato, leia com atenção a cláusula sobre o que acontece se você perder o vínculo de trabalho.
BPC/LOAS pode fazer consignado? O que a lei diz e o cenário atual
Essa é uma das maiores confusões do mercado, e é importante esclarecer com clareza: sim, quem recebe o Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS) pode, por lei, contratar empréstimo consignado. Não existe vedação legal. Qualquer afirmação categórica de que 'beneficiário do BPC não pode pegar consignado' está incorreta.
O BPC/LOAS é um benefício assistencial pago pelo INSS a idosos com 65 anos ou mais e a pessoas com deficiência, ambos com renda familiar abaixo do limite definido em lei. Ele não é aposentadoria nem pensão, mas é um benefício federal, com pagamento mensal, o que permite, dentro das regras gerais, ser usado como base para crédito consignado.
Dito isso, é fundamental contar a outra metade da história: na prática, em 2026, a oferta de consignado para BPC/LOAS está reduzida. O motivo é o alto volume de cessações e revisões realizadas pelo INSS nesse tipo de benefício. Como o BPC tem critérios de renda familiar que precisam ser comprovados periodicamente, muitos beneficiários acabam sendo cessados ou revisados, o que aumenta o risco para os bancos.
Por causa disso, várias instituições autorizadas recuaram na oferta dessa modalidade. Algumas pararam de operar com BPC; outras mantêm a oferta apenas com condições mais restritivas. Ou seja: a lei permite, mas a disponibilidade junto aos bancos está limitada no momento.
Se você recebe o BPC e quer tentar contratar o consignado, três cuidados são essenciais:
- Pesquise diretamente nos canais oficiais das instituições financeiras quais ainda operam com BPC.
- Desconfie de quem garante a contratação antes mesmo de analisar seus dados — pode ser golpe.
- Avalie se o consignado é realmente a melhor opção: comprometer parte do benefício assistencial por anos pode reduzir a renda mensal disponível para necessidades básicas.
Como a Selic alta impacta cartão de crédito, cheque especial e financiamento
Se no consignado o efeito da Selic é amortecido por tetos regulatórios, em outras linhas de crédito o repasse tende a ser mais direto. Veja o panorama atual:
Cartão de crédito (rotativo): continua sendo a linha de crédito mais cara do mercado. Mesmo com regras que limitam o tempo de permanência no rotativo, os juros mensais seguem elevados, e a Selic em 14,5% pressiona ainda mais as taxas praticadas. A recomendação é nunca pagar o mínimo da fatura por mais de um mês — buscar parcelamento direto com o banco ou trocar essa dívida por um consignado, se for o caso, sai muito mais barato.
Cheque especial: também tem juros entre os mais altos do mercado. Existe um limite regulatório de cobrança, mas, ainda assim, a linha é desaconselhada para qualquer uso recorrente. Em um cenário de Selic alta, usar o cheque especial favorece o acúmulo rápido de dívida.
Financiamento de veículos e imóveis: os juros tendem a subir proporcionalmente à Selic. Quem está com financiamento contratado em taxa fixa não é afetado. Quem pretende contratar agora pode encontrar parcelas mais salgadas. Vale comparar bancos, simular em diferentes prazos e, se possível, dar uma entrada maior para reduzir o valor financiado.
Crédito pessoal sem garantia: segue caro. Para quem tem acesso ao consignado (INSS ou CLT), essa modalidade quase nunca compensa.
Poupança e investimentos conservadores: o lado bom da Selic alta. A poupança rende mais (embora ainda perca para CDBs e Tesouro Selic), e aplicações de renda fixa atreladas ao CDI entregam retornos atrativos. Para quem tem alguma reserva, esse é um bom momento para mantê-la rendendo, em vez de usá-la em consumo.
Como usar o crédito a seu favor com a Selic em 14,5%: passos práticos
Agora que você entendeu o cenário, vamos ao que importa: o que fazer com tudo isso? Aqui vão orientações práticas para diferentes perfis.
Se você é aposentado ou pensionista do INSS:
- Antes de contratar, consulte sua margem consignável no aplicativo Meu INSS ou no telefone 135. Saber exatamente quanto pode comprometer evita propostas abusivas.
- Compare a taxa de pelo menos três bancos. As taxas variam mais do que parece, mesmo dentro do teto.
- Se já tem um consignado antigo com juros altos, avalie a portabilidade: trocar o contrato por outro banco que cobre menos pode reduzir a parcela ou o prazo.
- Cuidado com ofertas por telefone e WhatsApp. O INSS não liga oferecendo empréstimo, e golpes envolvendo falsos servidores são comuns. Sempre procure agências físicas ou canais oficiais.
Se você trabalha com carteira assinada (CLT):
- Use a plataforma oficial do consignado privado para comparar ofertas. A concorrência tem reduzido taxas.
- Lembre que o limite de 35% sobre o salário líquido é o teto, não a obrigação. Comprometer o máximo da renda em parcelas longas pode apertar o orçamento.
- Avalie se a finalidade do empréstimo justifica a operação. Trocar uma dívida cara (cartão, cheque especial) por consignado faz sentido. Tomar consignado para consumo supérfluo geralmente não.
Se você recebe BPC/LOAS:
- Saiba que tem o direito de contratar, mas a oferta está restrita no momento.
- Antes de contratar qualquer crédito, considere o impacto no benefício mensal. O BPC é, em geral, a única fonte de renda da família.
- Procure orientação em CRAS, defensorias públicas ou canais oficiais antes de assinar contratos.
Para todos os perfis:
- Evite o rotativo do cartão. Se tem dívida no cartão, busque renegociar ou trocar por uma linha mais barata.
- Mantenha uma reserva, mesmo que pequena, aplicada em renda fixa de baixo risco. Com Selic alta, essa reserva rende bem.
- Não acredite em 'liberação garantida' sem análise. Promessas desse tipo são, na maioria das vezes, porta de entrada para golpes ou taxas abusivas.
Conclusão: planejamento vence cenário
A decisão do Copom desta semana reforça o que o brasileiro já vinha sentindo no dia a dia: crédito caro pede mais critério na hora de contratar. Para quem tem acesso ao consignado, ele segue como a porta mais barata para resolver pendências financeiras — desde que usado com planejamento e dentro das regras oficiais aqui apresentadas. Para os demais, paciência, comparação e fuga das linhas mais caras são as melhores estratégias enquanto a Selic não recua.
O próximo passo prático é simples: identifique exatamente quais dívidas você tem hoje, suas taxas de juros e compare com o que o consignado (se você tem acesso) ofereceria. Se a troca reduz o custo total, faça as contas; se não, mantenha o foco em quitar primeiro as dívidas mais caras. Pequenas decisões agora fazem grande diferença ao longo dos próximos meses.
Referências
- Banco Central do Brasil — Copom: https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/copom
Comentários (0)
Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!
Deixe seu comentário
📩 Gostou? Receba mais como este
Novidades sobre consignado e FGTS toda semana.