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Só 28% esperam se aposentar até os 60 anos, diz Fenaprevi

Pesquisa da Fenaprevi mostra que apenas 28% dos brasileiros esperam se aposentar até os 60 anos. Veja o cenário e como se planejar além do INSS.

AC

Anderson Coelho

📖 8 min de leitura

A ideia de parar de trabalhar aos 60 anos, curtir a família e viver de uma renda tranquila virou, para a maior parte dos brasileiros, uma expectativa cada vez mais distante. Uma pesquisa recente da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi) mostrou que apenas 28% da população acredita que vai conseguir se aposentar até essa idade.

O número é baixo — e revela um retrato importante do trabalhador brasileiro: existe medo do que vem pela frente, mas ainda falta ação prática para transformar essa preocupação em segurança financeira.

Se você é trabalhador CLT, autônomo, aposentado do INSS ou está começando agora a pensar em como se organizar para o futuro, vale entender o que esse dado significa, por que ele apareceu justamente neste momento e, principalmente, o que dá para fazer para não ficar refém apenas do benefício previdenciário público.

Nesta matéria, você vai entender o cenário completo da pesquisa, a contradição entre medo e falta de planejamento, os principais obstáculos para poupar no Brasil e um passo a passo prático para começar a se preparar mesmo com salário apertado.

O que a pesquisa da Fenaprevi revelou sobre a aposentadoria no Brasil

A Fenaprevi, entidade que reúne as seguradoras e empresas de previdência privada do país, divulgou um levantamento em que apenas 28% dos entrevistados afirmam ter expectativa de se aposentar até os 60 anos de idade. Ou seja, mais de 7 em cada 10 brasileiros já assumem, hoje, que vão precisar continuar trabalhando depois dessa faixa etária — seja por falta de reserva financeira, seja porque o próprio sistema previdenciário exige mais tempo de contribuição para conceder o benefício integral.

Esse dado não aparece por acaso. Ele reflete uma combinação de fatores que vem se acumulando há anos: reformas na Previdência que aumentaram idade mínima e tempo de contribuição, envelhecimento da população, mercado de trabalho mais instável, salários pressionados e uma cultura financeira em que poupar para daqui a 30 anos ainda parece luxo diante das contas do mês.

Para o leitor comum, a leitura prática é direta: contar apenas com o INSS para viver a partir dos 60 anos virou uma aposta arriscada. O benefício público continua sendo o pilar principal para a maioria dos trabalhadores — e vai continuar sendo —, mas a pesquisa deixa claro que a percepção coletiva já é de que ele, sozinho, não basta.

A contradição: medo do futuro, mas baixa adesão à previdência privada

O ponto mais interessante do estudo é justamente a contradição que ele escancara. Ao mesmo tempo em que a maioria dos brasileiros demonstra preocupação com a velhice — reconhecendo que provavelmente não conseguirá parar de trabalhar cedo —, a adesão a produtos de previdência privada, seguros de vida com componente de acumulação e reservas de longo prazo continua muito abaixo do que se vê em outros países.

Em outras palavras: o brasileiro tem medo, mas não age. Esse descompasso tem várias explicações, todas conhecidas de quem convive com a realidade financeira das famílias:

  • Renda comprometida com o presente: boa parte do salário vai para moradia, alimentação, transporte, saúde e parcelas de dívidas, sobrando pouco (ou nada) para pensar em 20, 30 anos à frente.
  • Desconfiança e desinformação: muita gente ainda enxerga previdência privada como produto "só para rico", complicado ou pouco confiável, sem entender que existem modalidades acessíveis a partir de valores baixos.
  • Prioridade para o curto prazo: quitar o cartão, comprar a geladeira, ajudar um filho — situações imediatas quase sempre vencem a discussão sobre poupar para dali a décadas.
  • Falta de educação financeira: o tema quase não aparece nas escolas, no trabalho ou na conversa familiar, o que faz com que o assunto só entre no radar quando a aposentadoria já está batendo na porta.

Essa combinação alimenta um ciclo perigoso. A pessoa sabe que vai precisar de uma renda extra na velhice, teme não conseguir se sustentar, mas empurra a decisão de começar a poupar para "quando as coisas melhorarem". E, quando esse "depois" chega, sobra menos tempo de acumulação e o esforço mensal necessário fica muito maior.

Por que aposentar aos 60 ficou tão difícil no Brasil

Entender por que apenas 28% acreditam na aposentadoria até os 60 passa por olhar o que mudou nos últimos anos nas regras e no mercado de trabalho.

Do lado das regras, o INSS hoje trabalha com idade mínima e tempo mínimo de contribuição para a concessão da aposentadoria por idade e por tempo de contribuição, conforme regras definidas após a reforma da Previdência.

Isso significa que, mesmo quem começou a trabalhar cedo, precisa cumprir requisitos que, em muitos casos, empurram a aposentadoria para depois dos 60 anos.

Do lado do mercado, os desafios se somam:

  • Rotatividade alta: trocas frequentes de emprego, períodos como autônomo, MEI ou desempregado criam "buracos" na contribuição.
  • Informalidade: trabalhadores sem carteira assinada muitas vezes não contribuem por conta própria, o que reduz o valor do benefício ou até impede a aposentadoria.
  • Salários pressionados: aumentos reais modestos ao longo da carreira fazem com que a média salarial usada no cálculo do benefício seja mais baixa do que o trabalhador gostaria.
  • Expectativa de vida maior: viver mais é uma ótima notícia, mas significa que a reserva precisa durar mais anos.

Juntando tudo, faz sentido que a maioria já não acredite em pendurar as chuteiras cedo.

E é exatamente esse cenário que joga luz sobre a necessidade de uma estratégia complementar ao INSS — não para substituir o benefício público, mas para não depender exclusivamente dele.

Como se planejar para a aposentadoria sem depender só do INSS

A boa notícia é que não existe idade certa para começar, mas existe uma regra prática que todo especialista repete: quanto antes, melhor. O tempo é o principal aliado de quem quer construir uma reserva para a aposentadoria, porque cada ano poupado é um ano a mais rendendo juros sobre juros.

Algumas frentes que valem entrar no radar:

1. Mantenha as contribuições ao INSS em dia. O benefício público continua sendo a base da aposentadoria da maioria dos trabalhadores, conforme a Previdência Social. Se você é autônomo, MEI ou está em período sem carteira assinada, avalie contribuir por conta própria para não perder tempo de contribuição. As alíquotas e categorias de contribuição são definidas pelo INSS.

2. Considere um plano de previdência privada. Existem modalidades diferentes (como PGBL e VGBL), cada uma com regras próprias de tributação e resgate. Não é preciso começar com valor alto: o importante é criar o hábito de aportes regulares. Vale conversar com uma instituição financeira de confiança para entender o que faz sentido para o seu perfil e sua renda.

3. Monte uma reserva de emergência antes. Antes de pensar em investir para o longo prazo, tenha uma reserva equivalente a alguns meses de despesas em um investimento seguro e de fácil resgate. Isso evita que, diante de um imprevisto, você precise mexer no dinheiro que deveria ficar rendendo para a aposentadoria.

4. Cuide das dívidas caras. Juros de cartão de crédito e de cheque especial costumam ser altíssimos. Enquanto essas dívidas estiverem ativas, dificilmente qualquer investimento vai render mais do que elas custam. Renegociar e quitar essas dívidas é, em muitos casos, o primeiro passo antes de começar a poupar.

5. Diversifique conforme for possível. Além da previdência privada, existem outros investimentos de longo prazo — do Tesouro Direto a fundos e imóveis — que podem entrar na estratégia. A ideia é não concentrar todo o futuro em um único produto.

Passo a passo prático para começar hoje, mesmo com salário apertado

Para quem lê a pesquisa da Fenaprevi e se identifica com o grupo que está preocupado, mas não sabe por onde começar, um roteiro simples ajuda a sair da inércia:

  1. Faça um raio-X do orçamento. Anote, durante pelo menos 30 dias, tudo o que entra e tudo o que sai. Sem esse retrato, qualquer plano de poupança fica no achismo.
  2. Corte gastos invisíveis. Assinaturas esquecidas, tarifas bancárias, compras por impulso e juros de rotativo costumam somar valores significativos ao fim do mês.
  3. Defina um valor fixo mensal para o futuro. Pode começar com um percentual pequeno da renda. O mais importante é a regularidade, não o tamanho do aporte inicial.
  4. Automatize. Programe a transferência ou o débito automático logo depois de receber o salário. Assim, o dinheiro sai antes de ser gasto.
  5. Revise uma vez por ano. Aumentos de salário, mudanças na família e novas metas exigem ajustes no plano. Uma revisão anual mantém o planejamento vivo.
  6. Busque informação de qualidade. Antes de contratar qualquer produto financeiro, entenda taxas, prazos, tributação e regras de resgate. Desconfie de promessas de retorno alto e garantido — elas quase sempre escondem algum risco.

O recado central do estudo da Fenaprevi é claro: o brasileiro já sabe que a aposentadoria vai ser um desafio, mas ainda demora a agir. Sair dessa contradição é uma decisão individual, que começa com pequenos passos e ganha força com o tempo. Se apenas 28% acreditam que vão conseguir parar de trabalhar até os 60, vale a pena se perguntar hoje: em qual grupo você quer estar daqui a 20 ou 30 anos — e o que está disposto a fazer, a partir deste mês, para chegar lá com mais tranquilidade?

Referências

  • Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi) — Pesquisa sobre expectativa de aposentadoria dos brasileiros
  • Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) — Regras de aposentadoria vigentes após a Reforma da Previdência (EC nº 103/2019)

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