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Tesouro Direto: o que reduz sua rentabilidade líquida

IR regressivo, IOF, taxa da B3 de 0,20% e eventual taxa de corretora reduzem o ganho do Tesouro Direto. Veja como calcular o rendimento líquido real.

TB

Tatiana Botelho

📖 8 min de leitura

Quem entra no site do Tesouro Direto e vê um título prometendo, por exemplo, 'IPCA + 6,5% ao ano' costuma imaginar que esse é exatamente o rendimento que vai receber. Só que, na prática, esse número é o rendimento bruto — antes dos descontos obrigatórios. Entre a rentabilidade anunciada e o valor que cai efetivamente na conta existem pelo menos quatro camadas de custo: Imposto de Renda, IOF (em resgates muito rápidos), taxa de custódia da B3 e, em alguns casos, taxa cobrada pela corretora.

Entender cada uma dessas cobranças é o que separa o investidor que se frustra na hora do resgate daquele que planeja o retorno com precisão. Neste guia, vamos destrinchar, um a um, os descontos que reduzem a rentabilidade do Tesouro Direto e mostrar como calcular quanto você realmente vai receber ao final da aplicação.

Imposto de Renda no Tesouro Direto: quanto mais tempo, menos você paga

O principal desconto sobre o rendimento do Tesouro Direto é o Imposto de Renda. Ele segue a chamada tabela regressiva da renda fixa, ou seja, quanto mais tempo o dinheiro fica investido, menor é a alíquota cobrada. Conforme a Receita Federal, as faixas são:

  • 22,5% sobre o rendimento em aplicações de até 180 dias;
  • 20% entre 181 e 360 dias;
  • 17,5% entre 361 e 720 dias;
  • 15% acima de 720 dias.

Dois pontos são fundamentais aqui. O primeiro: o IR incide apenas sobre o rendimento, e não sobre o valor total investido. Se você aplicou R$ 10 mil e o título rendeu R$ 1.000, o imposto vai incidir sobre esses R$ 1.000. O segundo: o recolhimento é feito automaticamente na fonte, no momento do resgate, do vencimento ou do pagamento de cupons semestrais. Você não precisa gerar guia nem pagar por conta própria — o valor já sai debitado antes de o dinheiro cair na sua conta.

Essa lógica regressiva é o motivo pelo qual investir com prazo muito curto no Tesouro Direto costuma ser ineficiente. Sacar antes de 180 dias significa entregar quase um quarto do rendimento para o Leão. Já quem consegue segurar o investimento por mais de dois anos paga a menor alíquota possível para renda fixa: 15%. Para efeitos de comparação, essa é a mesma alíquota mínima que incide sobre CDBs, LCIs tributadas e fundos de renda fixa de longo prazo.

IOF: o pedágio de quem resgata nos primeiros 30 dias

Além do Imposto de Renda, existe uma segunda cobrança que pega muito investidor iniciante de surpresa: o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). Ele só se aplica quando o resgate acontece nos primeiros 30 dias da aplicação — mas, quando incide, morde uma fatia importante do ganho.

A tabela do IOF também é regressiva e vai diminuindo dia após dia. No primeiro dia após a compra, o imposto pode chegar a 96% do rendimento; no décimo, cai para cerca de 66%; no vigésimo, para 33%; e zera completamente a partir do 30º dia. Em termos práticos, isso significa que qualquer aplicação no Tesouro Direto só começa a fazer sentido a partir do 31º dia de investimento — antes disso, o IOF corrói tanto o ganho que dificilmente vai sobrar rentabilidade real.

Essa característica reforça uma regra de ouro: o Tesouro Direto não é um substituto da conta-corrente nem um lugar para deixar dinheiro que você pode precisar em uma semana. Para essa função — a chamada reserva de emergência de curtíssimo prazo — existem opções sem IOF depois de determinados prazos, mas dentro do próprio Tesouro só o Tesouro Selic costuma ser recomendado, e mesmo assim respeitando o carência mínima de 30 dias para evitar o IOF.

Taxa de custódia da B3: o desconto silencioso que muitos esquecem

Se o IR e o IOF são cobranças conhecidas, a taxa de custódia da B3 é a que costuma passar despercebida. A B3 é a bolsa brasileira e, no caso do Tesouro Direto, ela é responsável por guardar os títulos em nome do investidor. Por esse serviço, cobra uma taxa anual de 0,20% sobre o valor total investido.

Alguns pontos importantes sobre essa cobrança:

  • A taxa é calculada de forma proporcional aos dias em que o dinheiro fica aplicado (pró-rata) e cobrada em duas parcelas ao ano, em janeiro e julho, ou no momento do resgate/vencimento.
  • Ela incide sobre o valor de mercado dos títulos, não apenas sobre o rendimento. Ou seja, mesmo que o título ainda não tenha valorizado muito, a taxa já está sendo calculada.
  • No caso específico do Tesouro Selic, existe uma isenção sobre o estoque de até R$ 10 mil por investidor: até esse limite, não se paga taxa de custódia. O que passar dos R$ 10 mil, sim.
  • Para os demais títulos (Tesouro Prefixado, Tesouro IPCA+, Tesouro RendA+, Tesouro Educa+), a cobrança de 0,20% ao ano vale desde o primeiro real investido.

Parece pouco, mas 0,20% ao ano faz diferença no longo prazo. Em uma aplicação de R$ 100 mil deixada por dez anos, essa taxa representa vários milhares de reais em custo acumulado. Por isso, sempre que você comparar o rendimento anunciado no site do Tesouro Direto com outros investimentos, é fundamental descontar essa taxa mentalmente para chegar ao rendimento líquido real.

Taxa da corretora e como calcular a rentabilidade líquida do Tesouro Direto

A quarta camada de custo depende de onde você abriu a conta para investir. Historicamente, muitas corretoras cobravam uma taxa de administração para operar Tesouro Direto, que podia variar de 0,10% até 0,50% ao ano. Hoje, o cenário mudou: a grande maioria das corretoras e bancos digitais zerou essa taxa como estratégia de atração de clientes. Ainda assim, é indispensável confirmar essa informação antes de aplicar — especialmente se você usa a corretora de um banco tradicional, onde a cobrança pode continuar existindo.

Para juntar tudo e calcular o quanto você realmente vai ganhar, o raciocínio é este:

  1. Comece pela rentabilidade bruta anunciada pelo título (por exemplo, um prefixado de 12% ao ano).
  2. Subtraia a taxa de custódia da B3 (0,20% ao ano) e a eventual taxa da corretora.
  3. Aplique o IR conforme o prazo em que você pretende sacar o dinheiro (22,5% a 15%).
  4. Se o resgate ocorrer antes de 30 dias, some ainda o IOF sobre o rendimento.

Um exemplo prático: suponha um Tesouro Prefixado a 12% ao ano, mantido por três anos, em uma corretora que não cobra taxa. O rendimento bruto seria de 12% ao ano; descontando 0,20% da B3, sobra 11,80% ao ano de rentabilidade bruta líquida de taxas. Sobre esse ganho, incide 15% de IR (prazo acima de 720 dias), o que resulta em uma rentabilidade líquida próxima de 10,03% ao ano. É um número bem diferente dos 12% que apareciam originalmente na tela.

Esse tipo de conta é o que permite comparar o Tesouro Direto com outras opções, como CDBs, LCIs, LCAs e fundos de renda fixa. Cada aplicação tem uma combinação diferente de tributos e taxas — e o que interessa, no fim do dia, é o rendimento líquido depois de todos os descontos. Antes de investir, faça essa simulação. Muitos títulos que parecem menos atrativos no anúncio bruto se revelam melhores quando o cálculo líquido é feito corretamente — e o contrário também é verdadeiro.

Conclusão: rentabilidade líquida é a única que importa

O Tesouro Direto continua sendo um dos investimentos mais seguros e acessíveis do Brasil, mas a rentabilidade que aparece em destaque no site é sempre uma rentabilidade bruta. Sobre ela incidem, em ordem: a taxa de custódia da B3 de 0,20% ao ano, a eventual taxa da corretora, o IR regressivo (de 22,5% a 15% conforme o prazo) e o IOF nos primeiros 30 dias.

Antes de aplicar, defina o prazo em que pretende ficar com o título, confirme se sua corretora cobra taxa, considere a isenção parcial do Tesouro Selic até R$ 10 mil e faça a conta do rendimento líquido. Esse número — e não o que aparece em letras grandes na tela — é o que realmente vai cair no seu bolso.

Referências

  • Folha de São Paulo — Mercado (26/07/2026): descrição das camadas de custo do Tesouro Direto e panorama das taxas cobradas pelas corretoras.
  • Receita Federal — Tabela de IR regressivo para renda fixa: alíquotas de IR (22,5% a 15%) e regras do IOF regressivo até o 30º dia.
  • B3 — Taxa de custódia do Tesouro Direto: alíquota de 0,20% ao ano, isenção de até R$ 10 mil no Tesouro Selic e cobrança semestral (janeiro/julho) ou no resgate/vencimento.

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