Tesouro Direto: por que um título rendeu 15% e outro perdeu 5%
Entenda como a marcação a mercado faz títulos do Tesouro Direto terem resultados opostos no mesmo ano e como escolher o papel certo para seu objetivo.
Tatiana Botelho
Muita gente começa a investir no Tesouro Direto acreditando que todo título público é igual: dinheiro emprestado para o governo, com retorno garantido e zero risco. A realidade é bem diferente. Nos últimos doze meses, dois títulos vendidos na mesma plataforma, para o mesmo investidor, com a mesma chancela do Tesouro Nacional, entregaram resultados completamente opostos: enquanto um rendeu cerca de 15%, outro ficou no campo negativo, com perdas próximas a 5%. Como isso é possível se ambos são considerados os investimentos mais seguros do país?
A resposta tem nome técnico — marcação a mercado — e é um dos conceitos mais importantes para quem quer parar de perder dinheiro com escolhas erradas na renda fixa. Neste guia, você vai entender o que aconteceu com cada tipo de título, por que o preço oscila mesmo quando o governo continua honrando a dívida, qual modalidade combina com cada objetivo e como evitar surpresas no extrato.
O que aconteceu com os títulos do Tesouro Direto nos últimos 12 meses
O período recente foi de juros altos e expectativa de inflação volátil, o cenário clássico em que os títulos públicos se comportam de maneiras opostas dependendo da indexação. De um lado, os papéis pós-fixados — atrelados à taxa Selic — surfaram diretamente a alta dos juros e acumularam ganhos próximos a 15% em doze meses. De outro, os títulos prefixados de longo prazo e parte dos indexados à inflação fecharam o mesmo período com rentabilidade negativa, chegando a marcar perdas em torno de 5% no extrato dos investidores que precisaram vender antes do vencimento.
O ponto que confunde o investidor é justamente esse: como dois produtos do mesmo Tesouro Nacional podem entregar resultados tão diferentes? A explicação não está em risco de calote — o Tesouro continua pagando rigorosamente o combinado no vencimento de cada papel. O que muda é o preço do título no caminho até lá. E é esse preço, atualizado diariamente, que aparece na sua corretora e determina quanto você levaria embora se decidisse resgatar hoje.
Para quem comprou um Tesouro Selic, a lógica foi simples: a Selic subiu, a remuneração diária acompanhou, e o saldo cresceu de forma praticamente linear. Para quem comprou um Tesouro Prefixado ou um Tesouro IPCA+ de prazo longo, a história foi outra. O título foi contratado com uma taxa fixa lá atrás, e quando os juros do mercado subiram, ninguém mais quis pagar o preço antigo por aquele papel. Resultado: o valor de mercado caiu, e o investidor que olhou o extrato viu vermelho.
O que é marcação a mercado e por que ela faz os preços oscilarem
Marcação a mercado é o nome dado à atualização diária do preço de um título com base em quanto ele valeria se fosse vendido naquele momento. Em vez de mostrar apenas o valor que você pagou mais um juro corrido bonitinho, a corretora exibe quanto outro investidor pagaria pelo seu papel hoje, considerando as condições atuais de juros e inflação.
A mecânica funciona assim: imagine que você comprou um Tesouro Prefixado pagando 11% ao ano. Meses depois, o Banco Central sobe a Selic e títulos novos do mesmo tipo passam a pagar 13% ao ano. Ninguém vai aceitar comprar o seu título antigo, que paga menos, pelo mesmo preço. Para tornar o seu papel atrativo, o preço dele precisa cair. Essa queda aparece no seu extrato como rentabilidade negativa — mesmo que, na prática, nada tenha mudado: se você esperar o vencimento, recebe exatamente o que foi contratado.
O movimento contrário também ocorre. Se os juros do mercado caem, o seu título antigo, que paga mais, passa a valer mais, e o preço sobe. É por isso que muita gente que carrega Tesouro IPCA+ por anos vê momentos de ganho expressivo seguidos de quedas bruscas, em uma montanha-russa que assusta quem não entende a lógica.
Dois fatores fazem essa oscilação ser mais ou menos intensa:
- Prazo do título: quanto mais longo o vencimento, maior o impacto da variação dos juros no preço. Um Tesouro Prefixado para 2035 oscila muito mais do que um para 2027.
- Tipo de indexação: títulos pós-fixados (Tesouro Selic) praticamente não sofrem marcação a mercado, porque a remuneração acompanha a taxa básica em tempo real. Já prefixados e IPCA+ são os mais sensíveis.
Entender esse conceito é o que separa o investidor que dorme tranquilo do que entra em pânico e vende no pior momento, transformando uma perda "de tela" em prejuízo real.
Tesouro Selic, Prefixado e IPCA+: qual é o risco de cada um
O Tesouro Direto oferece três grandes famílias de títulos, e cada uma responde de um jeito ao ciclo de juros. Saber para que serve cada uma é o primeiro passo para não repetir o erro de quem se assustou com o vermelho recente.
Tesouro Selic (LFT) — é o título pós-fixado, atrelado à taxa básica de juros. Praticamente não sofre marcação a mercado relevante, mantém ganhos diários e é o mais indicado para reserva de emergência ou recursos que podem ser sacados a qualquer momento. Foi justamente o grande vencedor dos últimos doze meses, exatamente porque a Selic permaneceu em patamar elevado.
Tesouro Prefixado (LTN e NTN-F) — paga uma taxa fixa, contratada no momento da compra. É excelente quando você acredita que os juros vão cair, porque trava um rendimento alto enquanto o resto do mercado começa a pagar menos. O problema aparece no caminho inverso: se os juros sobem, o preço do título despenca. Foi um dos protagonistas das perdas registradas nos últimos meses.
Tesouro IPCA+ (NTN-B Principal e NTN-B) — paga uma taxa fixa mais a variação da inflação medida pelo IPCA. É o título ideal para proteger o poder de compra em prazos longos, como aposentadoria. Em compensação, é altamente sensível à marcação a mercado, principalmente em vencimentos distantes. Mesmo um título que vai pagar IPCA + 6% ao ano pode aparecer com rentabilidade negativa no extrato durante meses.
Ou seja: não existe título melhor ou pior em absoluto. Existe título adequado ao seu objetivo e ao seu prazo. Misturar essas peças é o que dá tranquilidade na hora de olhar o saldo.
Como escolher o título certo e evitar prejuízo
O erro mais comum entre investidores iniciantes é comprar um título de prazo longo para um objetivo de curto prazo — e depois resgatar no susto quando o preço cai. Para evitar essa armadilha, vale seguir uma régua simples antes de cada compra:
- Defina o prazo do dinheiro. Se é reserva de emergência ou algo que você pode precisar em meses, Tesouro Selic é a resposta. Se é um objetivo de cinco, dez ou vinte anos, prefixado ou IPCA+ entram em cena.
- Combine o vencimento do título com o seu objetivo. Quer comprar um imóvel em 2030? Procure um título que vença próximo dessa data. Assim, você recebe exatamente o combinado e a marcação a mercado deixa de ser problema.
- Aceite a oscilação como parte do jogo. Quem leva o título até o vencimento recebe a taxa contratada, ponto final. As variações de preço no meio do caminho são apenas "fotos" do mercado, não o resultado final do investimento.
- Use a marcação a mercado a seu favor. Em momentos de juros altos, comprar prefixado e IPCA+ longos pode travar taxas excelentes para o futuro. Se os juros caírem antes do vencimento, há a chance de vender o título com lucro acima do contratado — é o que chamam de "ganho na marcação".
- Diversifique entre os três tipos. Um portfólio que mistura Selic para liquidez, prefixado para travar taxas em momentos oportunos e IPCA+ para proteção contra inflação tende a entregar um resultado mais estável ao longo dos anos.
O contraste entre o título que rendeu 15% e o que perdeu 5% no mesmo ano não é uma falha do Tesouro Direto — é uma demonstração prática de que renda fixa não significa rendimento garantido no curto prazo, e sim regras de remuneração claras no vencimento.
Conclusão: segurança não é sinônimo de ausência de oscilação
O Tesouro Direto continua sendo um dos investimentos mais seguros disponíveis no Brasil, com a garantia do governo federal sobre o pagamento dos títulos no vencimento. O que o investidor precisa entender é que segurança de crédito é diferente de estabilidade de preço. Enquanto a Selic permanecer alta, o pós-fixado tende a brilhar; quando o mercado começar a precificar quedas de juros, prefixados e IPCA+ longos podem entregar ganhos extraordinários. E vice-versa.
O próximo passo prático é simples: abra hoje o extrato da sua corretora, identifique quais títulos você tem na carteira, anote o vencimento de cada um e pergunte-se se aquele prazo combina com o que você pretende fazer com o dinheiro. Se a resposta for sim, ignore as oscilações de tela. Se for não, talvez seja o momento de reorganizar a carteira — sem pânico, com estratégia. Esse é o tipo de decisão que separa quem perde dinheiro com renda fixa de quem usa o Tesouro Direto como ele foi pensado: uma ferramenta poderosa para construir patrimônio no longo prazo.
Referências
- Folha de São Paulo — Mercado (06/09/2026).
- Tesouro Direto — site oficial: https://www.tesourodireto.com.br
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