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Tesouro Direto: prefixado cai até 16% com marcação a mercado

Título considerado conservador aparece no vermelho poucas semanas depois da compra — e muita gente só descobre o motivo quando tenta resgatar antes do vencimento.

Tatiana Botelho

📖 9 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • Títulos prefixados e Tesouro IPCA+ longos comprados na euforia pós-1º turno acumulam perda de até 16% em cerca de três semanas, segundo simulação de mercado.
  • A marcação a mercado reavalia o preço do título todo dia útil conforme os juros futuros; o Tesouro Selic quase não sofre esse efeito e serve para reserva de emergência.
  • Quem levar o prefixado ou o IPCA+ até o vencimento recebe exatamente a taxa contratada — a perda só vira dinheiro a menos no bolso se o investidor vender antes.
  • O erro mais comum é casar título longo com dinheiro de curto prazo ou tratar como renda fixa tradicional uma aposta na queda dos juros.

Investidores que compraram títulos do Tesouro Direto no otimismo logo após o 1º turno das eleições veem agora um extrato no vermelho: segundo simulação de mercado, alguns papéis acumulam perda de até 16% em cerca de três semanas.

É um susto para o investidor que escolheu renda fixa justamente para fugir da montanha-russa das ações — e, pior, para quem imagina que título público não cai de preço.

A explicação para esse vermelho tem nome técnico: marcação a mercado. Entender esse mecanismo é o que separa o investidor que leva o papel até o vencimento e recebe exatamente o combinado daquele que vende no pior momento e trava prejuízo.

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Nesta matéria, você vai entender por que o Tesouro Direto oscila mesmo sendo renda fixa, em que situação a perda deixa de ser um número na tela e vira dinheiro a menos no bolso, e como escolher o título certo para o seu objetivo.

O que é marcação a mercado no Tesouro Direto

Marcação a mercado é o nome que o mercado financeiro dá ao processo de atualizar, todo dia útil, o preço de um ativo com base no quanto outros investidores estão dispostos a pagar por ele naquele momento. No Tesouro Direto, isso significa que, mesmo um título prefixado — aquele em que você sabe exatamente a taxa que vai receber se ficar até o fim — tem o preço "recalculado" diariamente.

Funciona assim: no dia da compra, você acerta com o Tesouro Nacional uma taxa de rentabilidade (por exemplo, prefixada em determinado percentual ao ano). Essa taxa está travada para você, desde que leve o papel até o vencimento. O problema é que o mercado continua negociando esse mesmo título todos os dias, e a taxa de juros considerada "justa" muda conforme a percepção de risco do país, a inflação esperada e as decisões do Banco Central sobre a Selic.

Quando os juros futuros sobem, os títulos antigos — comprados a taxas mais baixas — passam a valer menos, porque qualquer investidor novo prefere comprar um papel que paga mais.

Quando os juros futuros caem, acontece o contrário: o título que você comprou vale mais no mercado secundário. É essa gangorra que faz o seu extrato oscilar.

Um detalhe que muita gente não sabe: a marcação a mercado atinge principalmente os títulos prefixados e os Tesouro IPCA+ (atrelados à inflação com uma parcela de juros real prefixada). O Tesouro Selic, por acompanhar a taxa básica no dia a dia, praticamente não sofre esse efeito, oscilando muito pouco mesmo em momentos de estresse.

Por que quem comprou na euforia pós-1º turno viu até 16% de perda

O cenário descrito agora é um exemplo didático de como o humor do mercado joga contra o investidor que entra na hora errada. No período logo após o 1º turno, uma onda de otimismo derrubou os juros futuros negociados na bolsa. Com juros projetados menores, os preços dos títulos prefixados e dos IPCA+ longos dispararam — e muitos investidores correram para comprar, achando que o movimento continuaria.

Semanas depois, a conta virou. A deterioração das expectativas e a reprecificação do risco empurraram os juros futuros para cima de novo. Como os preços andam no sentido inverso das taxas, os títulos comprados no topo passaram a valer menos. Uma simulação feita no período mostra perda de até 16% em cerca de três semanas em papéis longos.

Parece contraintuitivo que um título público, considerado o investimento mais seguro do país, perca mais de dez por cento em menos de um mês. Mas esse número não representa calote nem risco de crédito. Representa apenas o preço de mercado daquele papel caindo porque, agora, há títulos novos pagando taxas melhores.

Quem segurar até o vencimento continuará recebendo o que foi contratado. Quem precisar vender antes é que vai realizar o prejuízo.

Prejuízo "na tela" x prejuízo "no bolso": quando a perda vira real

Essa é a parte mais importante — e a menos explicada — do Tesouro Direto. Existe uma diferença enorme entre ver um número vermelho no extrato e efetivamente perder dinheiro.

Prejuízo na tela é a variação diária de preço causada pela marcação a mercado. Ele existe no sistema porque o Tesouro Nacional é obrigado a mostrar quanto o seu título vale hoje se você quisesse vender agora. Esse valor sobe e desce de acordo com os juros futuros. Para quem não precisa resgatar, é só volatilidade: desconforto psicológico, não perda real.

Prejuízo no bolso só acontece se o investidor decide vender o título antes do vencimento por um preço inferior ao que pagou. Nesse momento, a perda da tela vira perda efetiva. Até lá, independentemente do que o extrato mostra no meio do caminho, quem levar o papel prefixado até o fim recebe exatamente a taxa contratada no dia da compra. Quem ficar com o IPCA+ até o vencimento recebe a inflação do período mais os juros reais que combinou.

A regra prática, portanto, é clara:

  • Se você comprou com objetivo e prazo compatíveis com o vencimento do título, ignore a oscilação. O resultado contratado está preservado.
  • Se você comprou achando que seria um investimento de curto prazo e precisará do dinheiro antes, pode ter que vender no prejuízo.
  • Se o objetivo era especular com a queda dos juros, a aposta é legítima — mas é aposta, não renda fixa tradicional.

Uma observação importante: parte dos investidores entra em títulos longos (com vencimento daqui a dez, quinze, vinte anos) sem perceber. O Tesouro Direto oferece papéis com datas finais bem distantes, e são justamente esses que oscilam mais na marcação a mercado. Quanto maior o prazo até o vencimento, maior o efeito de uma variação de juros sobre o preço de hoje.

Como escolher o Tesouro certo para seu objetivo

A escolha do título precisa partir do objetivo e do prazo do investidor, não da moda do momento. Veja um guia simples:

Reserva de emergência e dinheiro que pode ser usado a qualquer hora: o Tesouro Selic é o mais indicado. Como seu preço praticamente não oscila com a marcação a mercado, você pode resgatar a qualquer momento sem susto. É a opção mais parecida com o que o público em geral espera de "renda fixa segura".

Metas de médio e longo prazo com data definida (compra de imóvel em cinco anos, troca de carro em três, faculdade do filho em dez): aqui faz sentido olhar o Tesouro Prefixado e o Tesouro IPCA+ com vencimento próximo da data da meta. Assim, você captura a taxa oferecida e, no fim do prazo, recebe o combinado — sem depender do humor do mercado no meio do caminho.

Aposentadoria e proteção contra inflação de longo prazo: o Tesouro IPCA+ com vencimentos longos e o IPCA+ com juros semestrais são desenhados para esse público. A chave é entender que o preço vai oscilar bastante ao longo dos anos — e que isso é normal, desde que o plano seja segurar o papel.

Especulação com queda de juros: investidores mais experientes compram prefixados e IPCA+ longos justamente para vender antes do vencimento quando os juros futuros caem, lucrando com a valorização do preço. É uma estratégia válida, mas carrega o risco oposto, que foi exatamente o que machucou quem entrou na euforia pós-1º turno.

Um erro comum: olhar apenas para a taxa oferecida no momento e esquecer o prazo. Taxa alta em título longo é tentadora, mas significa também mais oscilação até o vencimento. Se não houver estômago (ou prazo) para aguentar o balanço, a escolha pode cobrar caro na primeira necessidade de resgate.

Checklist antes de resgatar antecipadamente

Se você está entre os investidores que compraram no otimismo e agora vê o extrato no vermelho, respire antes de clicar em "vender". Faça este check-up rápido:

  1. Qual é a data de vencimento do título? Se faltam anos, boa parte do movimento atual pode se desfazer antes do fim do prazo.
  2. Você precisa desse dinheiro agora, de verdade? Se não precisa, o prejuízo é só da tela. Vender materializa a perda.
  3. Qual era o seu objetivo original com a compra? Se era segurar até o vencimento, nada mudou do ponto de vista do contrato. O que mudou foi o mercado — e o que o mercado dá, o mercado também tira de volta.
  4. Existe algum título melhor para onde migrar? Em alguns casos, pode fazer sentido vender um papel ruim para a estratégia e trocar por outro mais aderente ao objetivo. Mas isso é diferente de vender só por medo da volatilidade.
  5. O resgate antecipado vai pagar imposto de renda sobre o quê? O Imposto de Renda incide sobre o rendimento positivo. Se a venda for com prejuízo em relação à compra, não haverá IR a pagar — mas também não há como "recuperar" o imposto já pago em títulos anteriores.

A conclusão prática é direta: Tesouro Direto não é mágica, mas também não é armadilha. É um investimento que, quando casado com o prazo certo, entrega exatamente o que promete. O erro não está no produto — está em comprar título longo com dinheiro de curto prazo, ou em entrar na euforia esperando que a festa dure para sempre.

Se você acompanha o próprio patrimônio pelo extrato diário e sofre com cada ponto percentual de variação, provavelmente escolheu um título com prazo maior do que o seu perfil aguenta. O próximo passo é revisar a carteira: separar o que é reserva de emergência (Tesouro Selic), o que é meta com data (prefixado ou IPCA+ com vencimento batendo na meta) e o que é posição de longo prazo (IPCA+ longo, para carregar e esquecer). Feito isso, a marcação a mercado deixa de ser susto e passa a ser o que sempre foi: barulho no caminho, não o destino.

Referências

  • Tesouro Nacional — Programa Tesouro Direto, documentação sobre marcação a mercado e tipos de títulos públicos.
  • Banco Central do Brasil — Comitê de Política Monetária (Copom), decisões de taxa Selic e expectativas de juros futuros.

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