Trabalho após os 60 cresce 53% em 10 anos; metade é informal
Número de trabalhadores 60+ subiu 53% em uma década e cerca de metade está na informalidade. Veja riscos, impactos na aposentadoria e como se proteger.
Anderson Coelho
A força de trabalho brasileira está envelhecendo em ritmo acelerado, e os números mostram uma transformação que muda o desenho do mercado: o número de pessoas com 60 anos ou mais ocupadas cresceu 53% nos últimos dez anos, segundo levantamento da Nexus. O dado, por si só, já seria suficiente para reorganizar políticas públicas de previdência, saúde ocupacional e renda. Mas há um detalhe que torna o cenário mais delicado: cerca de metade desses trabalhadores idosos está na informalidade, sem carteira assinada, sem contribuição ao INSS e sem rede de proteção em caso de doença, acidente ou desemprego.
Para quem é aposentado, pensionista ou está chegando perto da idade de se aposentar, entender esse movimento é fundamental. Ele explica por que tanta gente acima dos 60 continua trabalhando mesmo já recebendo benefício do INSS, por que a renda dessa população segue apertada e por que o consignado, os bicos e a venda informal de produtos viraram parte tão central do orçamento doméstico de famílias chefiadas por idosos. Nesta matéria, você vai entender o que está por trás do salto de 53%, por que a informalidade pesa tanto nessa faixa etária, quais são os riscos práticos para quem trabalha sem registro depois dos 60 e que caminhos existem para reforçar a renda sem abrir mão da proteção previdenciária.
O que diz o levantamento sobre os trabalhadores 60+
O crescimento de 53% no número de trabalhadores com 60 anos ou mais em uma década é uma mudança estrutural, não uma oscilação passageira, conforme o estudo da Nexus. Em termos práticos, significa que postos de trabalho, vagas em comércios, atividades autônomas e serviços passaram a ser ocupados de forma muito mais relevante por uma geração que, em décadas anteriores, já estaria fora do mercado.
Dois fenômenos se somam para explicar esse salto. O primeiro é demográfico: o brasileiro está vivendo mais, com saúde melhor após os 60, e a fatia da população nessa faixa cresceu de forma consistente. O segundo é econômico: aposentadorias do INSS — especialmente as próximas do piso, equivalentes a um salário mínimo — frequentemente não dão conta de cobrir aluguel, mercado, remédio e dívidas. Para muita gente, parar de trabalhar simplesmente não é uma opção.
O problema é que esse retorno ou permanência no mercado não vem, na maior parte dos casos, com carteira assinada. Cerca de metade dos ocupados 60+ atua sem vínculo formal, segundo o mesmo levantamento, o que coloca essa geração em uma posição vulnerável dentro de um mercado que já castiga quem não tem registro.
Por que metade dos idosos está na informalidade
A alta presença de trabalhadores 60+ em ocupações informais não é uma coincidência — é o resultado de uma combinação de barreiras que se intensifica com a idade. A primeira delas é a dificuldade de recolocação no emprego formal. Empresas, na prática, raramente abrem processos seletivos pensando em candidatos com mais de 60 anos para vagas CLT, mesmo quando a legislação proíbe discriminação por idade.
A segunda barreira é a própria estrutura da aposentadoria. Quem já recebe o benefício do INSS muitas vezes prefere — ou só consegue — atuar como autônomo, prestador de serviço, vendedor por aplicativo, diarista, motorista, costureira, cuidador, feirante. São atividades que pagam por dia, por entrega ou por tarefa, sem férias, sem 13º e sem FGTS.
A terceira barreira é a digitalização do mercado de trabalho. Muitas vagas formais hoje exigem domínio de plataformas, sistemas e ferramentas digitais para os quais o trabalhador 60+ não recebeu treinamento ao longo da carreira. Sem requalificação acessível, sobra o caminho do trabalho por conta própria.
Por fim, há uma questão de saúde e de jornada. Trabalhar 8 horas por dia, com deslocamento, em uma rotina rígida, é incompatível com a realidade de quem tem dor crônica, faz tratamento contínuo ou cuida de um familiar. A informalidade, nesse caso, é escolhida porque permite uma jornada flexível — ainda que com perdas enormes em proteção e em previsibilidade de renda.
Os riscos de trabalhar sem carteira assinada depois dos 60
Quando o trabalhador 60+ entra na informalidade, ele perde acesso a uma série de direitos que fazem diferença concreta no fim do mês e em situações de emergência. Os principais pontos de atenção são:
- Sem contribuição ao INSS automática: o autônomo precisa recolher por conta própria como contribuinte individual ou MEI para manter a qualidade de segurado. Sem isso, perde acesso a auxílios como o auxílio-doença, caso já não esteja recebendo aposentadoria.
- Sem FGTS: não há depósito mensal nem possibilidade de saque-aniversário ou saque por rescisão.
- Sem 13º, férias e adicionais: a renda do mês é exatamente o que foi recebido naquele período — sem nenhum mês com pagamento dobrado para ajudar a fechar contas no fim do ano.
- Sem seguro-desemprego: perder o cliente principal ou ficar doente significa renda zero imediatamente.
- Sem afastamento remunerado em caso de doença: a queda de renda em uma cirurgia ou internação é integral.
Para o aposentado que já recebe um benefício do INSS, parte dessa proteção continua existindo pela própria aposentadoria — mas o complemento que vem do trabalho informal é frágil, instável e some no primeiro imprevisto.
Como esse cenário se conecta com a aposentadoria do INSS
O peso do trabalho 60+ na informalidade está diretamente ligado ao valor das aposentadorias. Quando o benefício é próximo do salário mínimo, sobra pouco depois de despesas básicas. Remédio de uso contínuo, plano de saúde (quando há), conta de luz, gás, água e mercado consomem rapidamente o valor recebido. O trabalho informal entra como complemento — e, em muitos casos, como o que de fato paga as contas.
É nesse ponto que entra também o uso do crédito. O empréstimo consignado para aposentados e pensionistas do INSS tornou-se uma das principais ferramentas de organização financeira dessa população justamente porque tem desconto direto no benefício, juros mais baixos que outras linhas e prazo longo. Hoje, o consignado INSS pode ser contratado em até 108 meses, e o desconto total das parcelas pode chegar a 40% do valor do benefício — sendo 35% para o empréstimo em si e mais 5% reservados ao cartão consignado ou cartão benefício, caso o aposentado opte por ter um desses produtos. Se o aposentado não tem nenhum cartão contratado, esses 40% inteiros podem ser usados em empréstimo. A primeira parcela pode vencer em até 90 dias após a contratação.
O ponto de atenção aqui é claro: usar o consignado para quitar dívidas mais caras e organizar o orçamento faz sentido; usar o consignado para sustentar um padrão de gastos que a aposentadoria sozinha não cobre tende a piorar a situação no médio prazo, porque reduz a renda líquida mensal pelo período que durar o contrato.
Vale também lembrar uma confusão recorrente: quem recebe BPC/LOAS — benefício assistencial pago pelo INSS a idosos de baixa renda e a pessoas com deficiência — tem, por lei, direito de contratar empréstimo consignado. O que ocorre atualmente é que, devido ao alto volume de revisões e cessações desse tipo de benefício, as instituições autorizadas reduziram a oferta para esse público. Ou seja: a contratação é permitida, mas, na prática, a disponibilidade no mercado está restrita.
O que o trabalhador 60+ pode fazer para se proteger
Diante desse quadro, há algumas decisões práticas que ajudam quem está acima dos 60 e atua na informalidade — seja como complemento da aposentadoria, seja como única fonte de renda:
- Formalizar a atividade como MEI sempre que possível: o custo mensal é baixo e garante contribuição ao INSS, emissão de nota fiscal e acesso a crédito com melhores condições.
- Manter contribuições ao INSS em dia, mesmo como contribuinte individual, para preservar direitos previdenciários como auxílio-doença e pensão.
- Separar a renda da aposentadoria da renda do trabalho informal em controles simples (caderno ou planilha), para enxergar quanto realmente entra a cada mês e evitar que o orçamento dependa do bico.
- Cuidado redobrado com crédito caro: cartão de crédito rotativo e cheque especial têm juros que podem ultrapassar facilmente o ganho de qualquer bico. Trocar essas dívidas por uma linha mais barata, como o consignado, costuma ser o primeiro passo de organização.
- Avaliar plano de saúde popular, descontos em farmácia e programas municipais para idosos: reduzir despesa fixa é tão eficiente quanto aumentar receita.
- Atenção a golpes: o público 60+ é alvo recorrente de fraudes em consignado, vendas porta a porta e ligações que se passam por bancos. Em caso de dúvida, sempre confirmar diretamente com a instituição pelos canais oficiais.
Conclusão: envelhecer trabalhando virou regra — e exige planejamento
O crescimento de 53% no número de trabalhadores com 60 anos ou mais em uma década, combinado com a informalidade que atinge cerca de metade deles, mostra que envelhecer no Brasil deixou de significar parar de trabalhar, segundo o levantamento da Nexus. Para a maioria, significa apenas trocar o emprego formal por um arranjo mais frágil, com renda menor e quase nenhuma proteção.
O próximo passo prático, para quem se enxerga nesse cenário, é simples: revisar receitas e despesas do mês, identificar dívidas caras, formalizar a atividade econômica quando possível e, antes de assumir qualquer novo crédito, comparar condições — especialmente prazo, taxa de juros e quanto da aposentadoria vai ficar comprometida com a parcela. Trabalhar depois dos 60 pode ser uma escolha legítima; o que não pode é trabalhar a vida inteira e, ainda assim, viver sem nenhuma segurança financeira.
Referências
- Portal Contábeis — Trabalho entre pessoas 60+ cresce 53% em dez anos (estudo Nexus): https://www.contabeis.com.br/noticias/77448/trabalho-entre-pessoas-60-cresce-53-em-dez-anos/
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