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TRF1: pensão por morte retroage à data do óbito para filho menor

Decisão da 2ª Turma reforça entendimento de que o prazo de 180 dias não corre contra crianças e adolescentes, e abre caminho para cobrar atrasados do INSS.

Ricardo Silva

📖 7 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • A 2ª Turma do TRF1 determinou que o INSS pague a pensão por morte desde a data do falecimento quando há filho menor entre os dependentes.
  • A decisão se apoia na regra de que não corre prazo de prescrição nem de decadência contra o absolutamente incapaz, categoria dos menores de 16 anos.
  • Pela Lei 8.213/1991, a pensão só retroage ao óbito se o pedido for feito em até 180 dias para filho menor e 90 dias para os demais dependentes.
  • Famílias podem pedir o benefício pelo Meu INSS ou pelo 135 e, se negado, recorrer à Defensoria Pública da União para cobrar os atrasados.

Famílias que perderam um ente querido e demoraram para dar entrada no benefício no INSS costumam ouvir a mesma resposta: a pensão por morte só vale a partir do dia em que o pedido foi feito. Uma decisão recente da 2ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) desafia essa prática quando há crianças ou adolescentes entre os dependentes — e manda o INSS pagar o benefício desde o dia do falecimento, mesmo que o requerimento tenha sido feito anos depois.

O entendimento não é novo nos tribunais, mas ganha força a cada decisão porque atinge diretamente o bolso de milhares de famílias de baixa renda, que muitas vezes só descobrem o direito tempos depois do óbito. Neste texto, você vai entender o que diz a lei, por que a Justiça está afastando o prazo quando há filho menor, como calcular os valores que podem ser cobrados e qual é o caminho prático para receber esses atrasados.

O que o TRF1 decidiu sobre pensão por morte retroativa

A 2ª Turma do TRF1 confirmou sentença que determinou ao INSS o pagamento da pensão por morte a partir da data do falecimento do segurado, e não da data em que o requerimento administrativo foi apresentado, por existir filho menor de idade entre os dependentes. Na prática, isso significa que todo o período em que o benefício ficou sem ser pago — que pode chegar a vários anos — precisa ser quitado em uma única cobrança de atrasados, corrigida monetariamente.

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O raciocínio adotado pelo colegiado parte de uma regra do Código Civil que vale para todo o ordenamento jurídico: contra o absolutamente incapaz — categoria em que se enquadram as crianças menores de 16 anos — não corre prazo de prescrição nem de decadência.

Como o prazo para que a pensão retroaja à data do óbito é um prazo legal (de 180 dias para filhos menores, no texto atual da Lei 8.213/1991), ele também fica suspenso enquanto a criança não completa a idade em que passa a responder sozinha pelos próprios atos.

Por que a pensão retroage quando há criança ou adolescente na família

O ponto central é proteger quem não tem condições de buscar o próprio direito. Um bebê que perde o pai não vai, por conta própria, até uma agência do INSS pedir o benefício. Depende de que a mãe, a avó, um tutor ou o Conselho Tutelar façam esse requerimento. Se essas pessoas, por falta de informação, por luto ou por dificuldade de acesso, demoram para procurar o INSS, a Justiça entende que seria injusto fazer a criança perder dinheiro que é dela.

Essa lógica aparece em várias decisões do próprio TRF1 e já é aplicada por outras cortes federais e pela Turma Nacional de Uniformização dos Juizados Especiais Federais. A tese é simples: a lei estabelece prazo, mas o prazo não pode correr contra quem a lei considera incapaz de se defender sozinho. Enquanto o filho não atinge a idade que o faz responsável por si — e, para efeito do consumidor absolutamente incapaz, o marco é 16 anos no Código Civil atual — ele mantém o direito de pedir a pensão por morte com efeitos financeiros desde o dia da morte do segurado.

Na prática, essa regra beneficia principalmente:

  • Filhos de segurado que faleceu quando a criança tinha poucos meses ou poucos anos de vida;
  • Famílias que receberam a orientação errada de que "não tinham mais direito" porque passou do prazo;
  • Casos em que a mãe ou responsável só descobriu que o falecido era segurado do INSS tempos depois (por exemplo, ao achar carteira de trabalho, holerites ou comprovante de contribuição);
  • Situações em que o óbito foi reconhecido tardiamente, como morte presumida ou localização de corpo após anos.

Qual é o prazo da pensão por morte na regra geral do INSS

Para entender o tamanho do impacto da decisão, é importante olhar primeiro o que diz a regra geral. Segundo a Lei 8.213/1991, que organiza os benefícios do INSS, a pensão por morte é devida a partir da data do óbito quando o pedido é feito dentro de um prazo específico: até 180 dias depois da morte, no caso de filho menor de 16 anos, e até 90 dias depois da morte, para os demais dependentes. Passado esse prazo, a regra oficial do INSS é começar a pagar o benefício apenas a partir da data em que o requerimento administrativo foi protocolado — e tudo o que ficou para trás, teoricamente, se perde.

É exatamente esse "se perde" que a Justiça vem derrubando quando há criança envolvida. O argumento é que a lei previdenciária não pode se sobrepor à proteção constitucional da criança e do adolescente, nem à regra geral de que o incapaz tem seus prazos suspensos. Quando o INSS insiste em contar o benefício só a partir do pedido, a família tem como pedir na Justiça o reconhecimento dos atrasados — e, segundo o padrão de decisões do TRF1, costuma ganhar.

Vale lembrar que a pensão por morte continua, enquanto o filho é dependente, nas regras atuais:

  • Até os 21 anos de idade, no caso de filho não inválido;
  • Enquanto durar a invalidez ou a deficiência, quando reconhecidas pela perícia do INSS;
  • Pelos prazos escalonados por tempo de contribuição e idade do cônjuge, no caso do viúvo ou viúva (regras separadas das do filho).

Como pedir os atrasados da pensão por morte do filho menor

Se a família se encaixa na situação descrita — segurado faleceu, havia filho menor de idade, o benefício só começou a ser pago anos depois (ou ainda não foi pedido) — o primeiro passo é organizar a documentação. Em geral, são necessários:

  • Certidão de óbito do segurado;
  • Certidão de nascimento do filho, para comprovar a idade na data do óbito;
  • Documentos que mostrem a qualidade de segurado do falecido no momento da morte (CTPS, carnês de contribuinte individual, extrato do CNIS);
  • Comprovante do pedido administrativo feito ao INSS, se já houve;
  • Documentos de identificação do responsável legal pela criança.

Com isso em mãos, o caminho natural é dar entrada no pedido de pensão por morte pelo Meu INSS (site ou aplicativo) ou pelo telefone 135, mesmo que o óbito tenha ocorrido há muito tempo. Se o INSS conceder o benefício mas marcar a data de início só a partir do pedido, a família pode entrar com recurso administrativo ou, de forma mais eficaz, procurar a Defensoria Pública da União ou um advogado para ajuizar ação na Justiça Federal pedindo a retroação à data do óbito, com base no entendimento do TRF1 e de outros tribunais.

Alguns pontos práticos que costumam fazer diferença no processo:

  • Pedir desde o início o pagamento desde a data do óbito, deixando claro que havia filho menor;
  • Juntar prova da idade da criança naquele momento (certidão de nascimento basta);
  • Pedir correção monetária e juros sobre os atrasados;
  • Se mais de um filho era menor, pedir a retroação proporcional à parte que caberia a cada um.

O que fazer agora

Quem perdeu um familiar segurado do INSS e tem filho que era criança ou adolescente na época do falecimento deve rever a situação, mesmo que já tenha ouvido do atendente que "passou do prazo" ou que "só vale a partir de agora". A tese reforçada pelo TRF1 mostra que esse prazo não é tão rígido quanto parece, e que valores significativos podem estar sendo pagos a menos.

O próximo passo prático é simples: reúna os documentos listados acima, dê entrada ou revise o benefício no Meu INSS e, se a resposta administrativa não reconhecer a data do óbito como marco inicial, procure a Defensoria Pública da União na sua cidade — o serviço é gratuito e pode entrar com a ação para destravar os atrasados. Em muitos casos, estamos falando de anos de pensão acumulada, que, pela decisão do TRF1, pertencem à criança e precisam ser pagos.

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Referências

  • TRF1 — 2ª Turma: acórdão sobre retroação da pensão por morte à data do óbito em favor de dependente menor
  • Lei nº 8.213/1991 — art. 74 (termo inicial da pensão por morte)
  • Código Civil (Lei nº 10.406/2002) — art. 3º (absolutamente incapazes) e art. 198, I (não corre prescrição contra incapaz)

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