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6 em cada 10 brasileiros fazem bico para fechar o mês

Pesquisa Ipsos-Ipec mostra que cerca de 60% dos brasileiros dependem de bicos para fechar o mês. Veja o que a pesquisa revela e como organizar seu orçamento.

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Tatiana Botelho

📖 9 min de leitura

Se você chega no dia 20 do mês com a conta no vermelho e já pensou em pegar um serviço por fora para completar o orçamento, saiba que essa é a realidade da maior parte do país. Uma pesquisa recente realizada pelo Ipsos-Ipec aponta que aproximadamente 6 em cada 10 brasileiros recorrem a bicos, freelas ou algum tipo de trabalho complementar para conseguir fechar o mês. O levantamento foi conduzido em parceria com o Instituto Cidades Sustentáveis, a Fundação Grupo Volkswagen e a União Europeia, e escancara um retrato conhecido de quem vive de salário: o rendimento fixo, sozinho, não está dando conta das despesas básicas.

Mais do que um dado estatístico, esse número ajuda a explicar comportamentos financeiros cada vez mais comuns nas famílias brasileiras — do endividamento no cartão de crédito à busca por antecipações, empréstimos e adiantamentos. Entender o que está por trás desse cenário é o primeiro passo para reorganizar o próprio orçamento, evitar armadilhas de crédito caro e planejar uma renda complementar de forma estruturada, sem sufoco.

Neste guia, você vai entender o que a pesquisa Ipsos-Ipec mostrou sobre a renda familiar dos brasileiros, por que tantas pessoas dependem de trabalhos extras para chegar até o fim do mês, quais são os riscos de viver apenas do bico e o que fazer para transformar essa realidade em uma organização financeira mais segura, mesmo ganhando pouco.

O que a pesquisa Ipsos-Ipec revela sobre a renda dos brasileiros

O ponto mais impactante do estudo é a proporção da população que precisa complementar o salário: cerca de 60% dos brasileiros fazem algum tipo de bico ou trabalho extra para pagar as contas do mês. Isso significa que a renda principal — seja de um emprego CLT, de uma aposentadoria ou de um trabalho autônomo — não é suficiente para cobrir gastos como aluguel, alimentação, transporte, luz, água, gás, remédios e material escolar.

A pesquisa foi coordenada por instituições ligadas a temas de desenvolvimento social e sustentabilidade urbana, entre elas o Instituto Cidades Sustentáveis, a Fundação Grupo Volkswagen e a União Europeia. O objetivo foi mapear como as famílias vivem hoje nas cidades brasileiras, incluindo aspectos de renda, moradia, mobilidade e qualidade de vida. Nesse pacote, o comportamento financeiro apareceu como um dos pontos mais críticos.

Esse percentual de 60% ajuda a explicar outros indicadores que o brasileiro sente na pele:

  • O crescimento do trabalho por aplicativo (motoristas, entregadores, prestadores de serviço).
  • O aumento de vendas informais, revendas de cosméticos, doces e marmitas.
  • A busca crescente por crédito rápido, mesmo com juros altos.
  • A dificuldade de guardar dinheiro ou montar uma reserva de emergência.

O recado que fica é claro: fazer bico deixou de ser exceção e virou parte da estratégia de sobrevivência de milhões de famílias, inclusive das que têm carteira assinada.

Por que tantos brasileiros precisam de bico para fechar o mês

Entender por que a maioria da população precisa de renda extra ajuda cada leitor a se enxergar dentro desse cenário — e a parar de se culpar como se fosse um problema individual. Existem fatores estruturais, econômicos e comportamentais que empurram o trabalhador para essa situação.

1. Custo de vida crescendo mais que o salário. Nos últimos anos, itens essenciais como alimentação, energia elétrica, combustíveis e aluguel subiram em ritmo forte. Quando o salário é reajustado, muitas vezes o aumento não repõe o que a inflação já corroeu. Resultado: a mesma cesta básica pesa cada vez mais no orçamento.

2. Endividamento acumulado. Muitas famílias entram no mês já devendo parcelas de cartão, carnê, crediário e empréstimos pessoais. Uma parte do salário some antes mesmo de ser gasta com necessidades atuais, o que obriga a busca por renda adicional só para manter as parcelas em dia.

3. Instabilidade do trabalho formal. Mesmo quem tem carteira assinada convive com jornadas reduzidas, contratos temporários, redução de benefícios e medo de demissão. O bico funciona como um 'plano B' permanente, caso a renda principal desapareça.

4. Aposentadoria e benefícios que não cobrem tudo. Aposentados e beneficiários do INSS frequentemente se veem em situação semelhante: o benefício mensal ajuda, mas não fecha a conta quando entram remédios, plano de saúde, ajuda para filhos e netos, e reformas na casa.

5. Ausência de reserva de emergência. Sem uma poupança mínima, qualquer imprevisto — pneu furado, boleto esquecido, consulta médica, conserto de geladeira — vira uma crise. Sem reserva, o bico ou o crédito emergencial acabam sendo os únicos caminhos.

A pesquisa Ipsos-Ipec, ao mostrar que essa é a realidade de 6 em cada 10 pessoas, deixa evidente que o problema é coletivo, não pessoal. Isso muda a forma de encarar a situação: em vez de vergonha, o foco precisa ser estratégia.

Como organizar o orçamento quando o salário não cobre as despesas

Depender de bico para fechar o mês não é, por si só, um problema — o problema é depender do bico sem nenhum controle. Quem transforma a renda extra em algo previsível e organizado consegue sair do sufoco. Veja um passo a passo prático:

1. Escreva tudo o que entra e tudo o que sai. Pegue papel, planilha ou aplicativo e liste, por 30 dias, cada real que entra (salário, bico, benefício, ajuda) e cada real que sai (contas fixas, mercado, transporte, lazer, dívidas). Sem esse retrato real, qualquer plano vira chute.

2. Separe despesas essenciais de despesas evitáveis. Moradia, alimentação, saúde e transporte para o trabalho são inegociáveis. Streaming, apps de comida, cafés fora de casa, compras por impulso podem ser reduzidos temporariamente enquanto o orçamento se reequilibra.

3. Ataque primeiro as dívidas mais caras. Cartão de crédito rotativo e cheque especial costumam ter os juros mais pesados do mercado. Sempre que possível, priorize quitar ou renegociar essas dívidas antes de pensar em investimentos.

4. Defina uma meta para o dinheiro do bico. Em vez de gastar a renda extra assim que ela entra, decida antes: 'esse dinheiro vai pagar a fatura X', 'vai formar minha reserva', 'vai quitar aquele carnê'. Renda com destino definido rende muito mais do que renda solta.

5. Comece uma reserva de emergência mínima. Mesmo que seja R$ 20 ou R$ 50 por semana, o hábito importa mais do que o valor inicial. A reserva evita que, no próximo imprevisto, você precise recorrer a crédito caro.

6. Renegocie antes de contratar novo crédito. Se as contas apertaram, ligue para os credores, procure o Procon, use plataformas oficiais de renegociação de dívidas. Contratar um empréstimo novo para pagar dívida antiga, sem plano, costuma piorar a situação.

Alternativas para quem depende de bico: transformando renda extra em segurança

Se a pesquisa mostra que a maioria já faz bico, vale dar um passo além: como fazer com que essa renda complementar deixe de ser desespero e vire uma fonte estável de complemento?

Profissionalize o bico. Se você entrega comida, vende doces, faz unhas, conserta eletrônicos, presta serviços de limpeza ou tem qualquer habilidade que já rende dinheiro, comece a tratar essa atividade como um pequeno negócio. Anote clientes, controle o que gasta, defina preço com margem de lucro e busque indicações. Muitas pessoas descobrem, com o tempo, que o bico rende mais que o emprego principal.

Considere a formalização como MEI. O Microempreendedor Individual permite emitir nota, contribuir para o INSS com alíquota reduzida e ter acesso a direitos como aposentadoria, auxílio-doença e salário-maternidade. Formalizar também abre portas para crédito produtivo mais barato do que o crédito pessoal comum. As regras oficiais estão disponíveis nos canais do Governo Federal (gov.br) e da Receita Federal.

Invista em qualificação de baixo custo. Cursos gratuitos oferecidos por instituições públicas, Senai, Senac, Sebrae e plataformas de ensino online podem aumentar bastante o valor que você cobra pelo seu serviço. Renda extra qualificada paga mais por hora trabalhada.

Cuidado com o excesso de horas. Ganhar mais fazendo bico não pode custar sua saúde. Trabalhar 16 horas por dia por meses seguidos costuma cobrar caro em problemas médicos, que depois viram novas despesas. Renda extra sustentável exige descanso.

Planeje a proteção previdenciária. Quem só faz bico e não contribui para o INSS fica sem cobertura em caso de doença, acidente ou velhice. Segundo o INSS, o trabalhador por conta própria pode se filiar como contribuinte individual ou facultativo, garantindo acesso a benefícios previdenciários no futuro. Consultar as regras atualizadas no site oficial do INSS (gov.br/inss) é fundamental antes de escolher a forma de contribuição.

Conclusão: um retrato que exige planejamento, não culpa

O dado de que 6 em cada 10 brasileiros dependem de bico para fechar o mês, apurado pela pesquisa Ipsos-Ipec em parceria com o Instituto Cidades Sustentáveis, a Fundação Grupo Volkswagen e a União Europeia, não é apenas um número — é o reflexo de uma economia em que o salário fixo, sozinho, deixou de dar conta da vida real da maioria das famílias.

Como transformar o dado em ação prática

Mais importante do que se assustar com o dado é usar essa informação para agir. Se você está entre esses 60%, o próximo passo é sair do modo 'sobrevivência mensal' e entrar no modo 'organização financeira': mapear entradas e saídas, atacar as dívidas mais caras, criar uma reserva mínima e profissionalizar a renda extra que já existe. Fazer bico não é fracasso; fazer bico sem plano é o que impede muita gente de sair do lugar.

O retrato mostrado pela pesquisa é duro, mas também é um convite. Enquanto o país discute soluções estruturais, cada família pode começar hoje, no seu próprio orçamento, o movimento que transforma renda extra em segurança de longo prazo.

Referências

  • Ipsos-Ipec — Pesquisa sobre renda e trabalho complementar dos brasileiros
  • Instituto Cidades Sustentáveis, Fundação Grupo Volkswagen e União Europeia — instituições parceiras do estudo
  • INSS — regras de contribuição do trabalhador por conta própria (gov.br/inss)
  • Portal do Empreendedor / Receita Federal — regras do Microempreendedor Individual (MEI)

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