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Bradesco diz que Desenrola 3 não é prioridade do banco

CEO do banco sinalizou pouco interesse no novo programa do governo, que pretende comprar carteiras de inadimplentes com desconto mínimo de 90% — entenda o impacto no seu bolso.

Tatiana Botelho

📖 8 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • O presidente do Bradesco, Marcelo Noronha, afirmou que participar do Desenrola 3 não é prioridade para o banco neste momento.
  • A declaração foi feita durante a divulgação dos resultados do terceiro trimestre de 2026 do Bradesco.
  • O Desenrola 3 prevê a aquisição de carteiras de dívidas inadimplentes dos bancos com desconto mínimo de 90% sobre o valor dessas carteiras.

Quem está com o nome sujo e vinha torcendo pela terceira edição do Desenrola Brasil recebeu um balde de água fria nesta semana. O presidente do Bradesco, Marcelo Noronha, afirmou publicamente que o programa anunciado pelo governo federal não é uma prioridade para o banco. A fala, feita durante a divulgação dos resultados do terceiro trimestre de 2026 da instituição, acendeu um alerta sobre o ritmo real de adesão do mercado financeiro ao novo desenho da renegociação de dívidas.

Se o maior banco privado do país sinaliza que não pretende correr para dentro do programa, a conta é simples: a oferta de descontos pode ficar menor, mais lenta e mais seletiva do que foi nas duas primeiras edições. Para o consumidor endividado, isso significa que esperar sentado pelo Desenrola 3 pode custar meses de juros a mais na dívida. Nas próximas seções, você vai entender o que o executivo disse, como o programa foi desenhado desta vez, por que o modelo não agrada aos bancos e o que fazer, na prática, para não ficar refém de uma renegociação que pode nem chegar.

O que o CEO do Bradesco realmente disse sobre o Desenrola 3

A declaração de Marcelo Noronha foi direta: participar do Desenrola 3 não está entre as prioridades do Bradesco neste momento. O executivo falava no contexto da apresentação dos números do terceiro trimestre do banco, ocasião em que normalmente os presidentes de instituições financeiras respondem a analistas sobre estratégia, inadimplência e novos produtos.

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É importante separar o que foi dito do que não foi dito. O CEO não anunciou que o Bradesco vai se recusar a renegociar dívidas em qualquer hipótese — bancos renegociam todos os dias, dentro e fora de programas oficiais. O que ele sinalizou é que, especificamente no formato proposto pelo governo para esta terceira edição, o banco não enxerga vantagem suficiente para aderir com entusiasmo.

Essa diferença é fundamental para o leitor que está endividado: ignorar o canal direto de renegociação com o banco — a chamada "mesa de recuperação" — porque está esperando o programa oficial é, provavelmente, um erro estratégico neste momento.

Como funciona o Desenrola 3 (e por que ele é diferente dos anteriores)

Ao contrário das duas primeiras edições, o Desenrola 3 não foi desenhado como uma plataforma pública onde o cidadão entra, digita o CPF e vê ofertas de desconto na hora. O novo modelo é, essencialmente, uma operação de atacado: o programa prevê a aquisição de carteiras de dívidas inadimplentes dos bancos, com desconto mínimo de 90% sobre o valor dessas carteiras.

Traduzindo para quem não é do mercado financeiro: o governo (ou uma estrutura ligada a ele) compraria dos bancos lotes de dívidas vencidas pagando, no máximo, 10% do valor de face delas. Depois, essas dívidas seriam renegociadas com os devedores em condições mais camaradas, já que foram adquiridas por uma fração do preço original. Em tese, isso permitiria oferecer descontos agressivos ao consumidor final sem que o banco original precise "abrir mão" diretamente do crédito.

O problema é que, para o banco, vender uma carteira por 10% ou menos do valor é um negócio que só faz sentido em algumas condições muito específicas — por exemplo, quando a dívida já está contabilizada como perda provável e qualquer recuperação é lucro. Em outras situações, pode ser mais vantajoso para a instituição manter a cobrança por conta própria, tentar acordos diretos ou vender a carteira para empresas especializadas em recuperação de crédito, que podem até pagar mais do que o piso do programa.

Esse detalhe técnico explica melhor a resistência sinalizada pelo Bradesco do que qualquer especulação sobre motivação do executivo: o desenho atual do programa, do jeito que foi apresentado, exige que o banco venda ativos abaixo do que ele considera adequado.

Por que a posição do Bradesco pesa para o programa inteiro

Quando um banco do porte do Bradesco diz que algo "não é prioridade", o recado vai muito além dos clientes daquela instituição. O setor bancário brasileiro é altamente concentrado — poucos grupos respondem pela maior parte das carteiras de crédito do país. Se um dos grandes recua, dois movimentos tendem a acontecer.

Primeiro, outros bancos ganham margem para também não aderir, ou aderir de forma simbólica, oferecendo apenas uma pequena fatia da carteira inadimplente. Isso reduz o volume total de dívidas que o Desenrola 3 consegue abraçar — e, consequentemente, o número de brasileiros efetivamente beneficiados.

Segundo, o governo passa a ter menos poder de barganha para melhorar as condições do programa. Se os bancos sinalizam que não têm interesse de vender a 10%, a pressão fica sobre o Ministério da Fazenda para aumentar esse piso — o que, por sua vez, encarece o programa para o cofre público e pode esbarrar em restrições fiscais.

O cenário mais provável, portanto, é de um Desenrola 3 bem menor do que os anteriores — tanto em volume de dívidas renegociadas quanto em descontos oferecidos. Não é um fracasso anunciado, mas é prudente ajustar as expectativas.

O que isso significa para quem está com o nome sujo

Se você está entre os brasileiros negativados e vinha segurando a renegociação à espera do Desenrola 3, a mensagem prática é clara: não dá para apostar todas as fichas no programa. O cronograma de efetivação ainda depende de adesão dos bancos, e a fala do Bradesco mostra que essa adesão não será automática nem rápida.

Enquanto o programa não deslancha, os juros continuam correndo sobre a sua dívida. Em modalidades como cartão de crédito rotativo e cheque especial, o custo mensal é alto o suficiente para fazer o saldo devedor dobrar em pouco tempo.

Esperar seis meses por uma renegociação que pode nem vir é, em muitos casos, pior do que renegociar hoje em condições apenas razoáveis.

Vale também lembrar que o Desenrola 3, do jeito que foi desenhado, não cobre todo mundo. Dívidas muito recentes, dívidas com garantia (como consignado e financiamento de veículo) e dívidas fora do sistema financeiro tradicional dificilmente entrariam no escopo.

Para comparar o custo de diferentes linhas de crédito usadas por quem precisa quitar dívida — e enxergar o quanto é caro deixar uma dívida parada —, vale olhar as médias oficiais mais recentes:

Juros médios do mercadoTaxa média mensal de juros por tipo de crédito, para pessoa física.
Empréstimo pessoal6,39% a.m.
Cheque especial7,43% a.m.
Cartão de crédito rotativo15,18% a.m.

Médias de mercado — Banco Central do Brasil, taxa média de juros de pessoa física com recursos livres (séries SGS 20742, 20741 e 22022), ref. ago/2026, convertida de % ao ano para a taxa mensal equivalente.

Como negociar diretamente com o banco e com a Serasa

Independentemente do destino do Desenrola 3, existem três canais que estão abertos todos os dias e que podem resolver o seu problema mais rápido.

1. Mesa de negociação do próprio banco. Toda instituição financeira tem uma área dedicada à recuperação de crédito. Procure sua agência, o aplicativo do banco ou a central de atendimento e peça expressamente uma proposta de "acordo para quitação da dívida vencida". Em geral, quanto mais antiga a dívida e quanto maior o risco de a instituição não receber nada, maior o desconto que ela aceita oferecer. Peça para formalizar qualquer acordo por escrito e guarde o comprovante.

2. Plataformas gratuitas de renegociação. Serasa Limpa Nome, Acordo Certo e o portal oficial consumidor.gov.br reúnem ofertas de bancos, varejistas e empresas de telefonia. É possível comparar propostas, contrapropor e fechar acordo sem sair de casa. O cadastro é gratuito — desconfie de qualquer intermediário que cobre taxa para fazer isso por você.

3. Feirões de renegociação. Periodicamente, Febraban, Serasa e órgãos de defesa do consumidor organizam campanhas com descontos reforçados. Vale acompanhar e aproveitar essas janelas.

Ao negociar, três cuidados fazem toda a diferença: nunca aceite parcela que não cabe no orçamento (acordo quebrado reinscreve o nome e muitas vezes anula o desconto), peça sempre a Carta de Quitação depois de pagar a última parcela e, no caso de acordo à vista, confirme a retirada da negativação em até cinco dias úteis.

O que esperar daqui para frente e o próximo passo prático

O Desenrola 3 ainda pode acontecer, e pode até trazer alívio para parte dos endividados. Mas a sinalização do Bradesco mostra que o programa, no formato atual, encontra resistência relevante no setor bancário. É possível que o governo precise revisar o desenho — aumentando o piso de compra das carteiras ou criando incentivos adicionais para a adesão — antes que a renegociação em larga escala saia do papel.

Enquanto isso, o que está no controle do consumidor é a decisão de agir ou esperar. Agir significa procurar o banco, usar as plataformas gratuitas de renegociação e fechar o melhor acordo possível dentro da realidade do seu orçamento. Esperar significa continuar vendo a dívida crescer com juros que, hoje, estão entre os mais altos do mundo em modalidades como rotativo do cartão.

Resumo prático em três pontos para você tirar deste texto:

  • O Desenrola 3 foi desenhado como compra de carteiras de inadimplentes dos bancos, com desconto mínimo de 90% sobre o valor dessas carteiras, e não como uma plataforma direta ao consumidor nos moldes anteriores.
  • O maior banco privado do país disse que o programa não é prioridade neste momento, o que tende a atrasar e reduzir o alcance da renegociação.
  • O caminho mais seguro para quem precisa limpar o nome agora é negociar diretamente com o credor pelos canais já existentes, sem apostar todas as fichas em um programa cuja largada ainda depende do humor dos bancos.

Se o seu nome está negativado, o próximo passo concreto é abrir o aplicativo do banco credor hoje mesmo e pedir uma proposta de quitação — e, em paralelo, consultar as ofertas disponíveis no Serasa Limpa Nome e no consumidor.gov.br. Decisão tomada hoje vale mais do que promessa esperada por meses.

Referências

  • Ministério da Fazenda — Portaria do Desenrola 3
  • Bradesco — Divulgação de resultados do 3º trimestre de 2026

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