photo of man about to jump from cliff

Juros altos travam 59% das PMEs, diz sondagem Omie

Pesquisa recente mostra que o custo do crédito segura investimentos das pequenas e médias, enquanto a reforma tributária deixa empresários em compasso de espera.

Tatiana Botelho

📖 8 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • Sondagem com empresários aponta que 59% das PMEs veem os juros altos como principal obstáculo ao crescimento do negócio em 2025.
  • A maioria dos entrevistados ainda não decidiu qual regime tributário vai adotar diante da reforma, que começa a transição em 2026 e vai até 2033.
  • A reforma substitui PIS, Cofins, ICMS e ISS pelo IBS e pela CBS, de forma escalonada, segundo informações oficiais da Receita Federal e do Ministério da Fazenda.
  • Revisar o custo das dívidas atuais, rodar simulações tributárias com o contador e separar caixa pessoal do empresarial são medidas que independem do cenário macro.

Pequenas e médias empresas (PMEs) são responsáveis por grande parte dos empregos formais no Brasil, mas estão vivendo um momento de aperto duplo em 2024 e 2025. De um lado, o custo do dinheiro continua elevado e segura planos de expansão. De outro, a transição para o novo modelo tributário brasileiro ainda gera dúvidas sobre qual regime adotar nos próximos anos. Um levantamento recente com empresários desse porte mostrou que 59% apontam os juros altos como principal obstáculo ao crescimento do negócio neste ano.

Se você é dono de uma PME, trabalha como MEI pensando em migrar para microempresa ou está no financeiro de um negócio familiar, este artigo explica o que esses dois gargalos — juros e indefinição tributária — significam na prática, por que eles aparecem juntos justamente agora e o que dá para fazer, mesmo com o cenário incerto, para não travar o caixa do seu negócio.

Por que os juros altos travam o crescimento de 59% das PMEs

O dado central da pesquisa é bastante direto: a cada dez empresários de pequeno e médio porte ouvidos, quase seis dizem que a taxa de juros elevada é o fator que mais atrapalha o crescimento da empresa em 2025. Esse número é relevante porque desloca para a frente da fila preocupações clássicas do empresariado brasileiro, como carga tributária, inadimplência de clientes e dificuldade de contratar mão de obra qualificada.

Trabalha de carteira assinada? Você pode ver se o seu vínculo permite contratar o consignado CLT sem compromisso: você só segue se a condição fizer sentido.

Sethi Sociedade de Crédito Direto S.A. · CNPJ 50.946.592/0001-07 · autorizada pelo Banco Central do Brasil.

Para entender o impacto, é preciso lembrar que a maioria das PMEs não cresce só com capital próprio. Quando o empresário quer comprar uma máquina, abrir uma filial, ampliar o estoque antes de uma data sazonal ou simplesmente contratar mais gente, ele costuma recorrer a crédito — capital de giro, antecipação de recebíveis, cartão BNDES, financiamento de equipamentos ou linhas específicas do banco com quem já tem relacionamento.

Com a taxa básica de juros em patamar alto, todas essas linhas ficam mais caras. O resultado é que projetos que faziam sentido com juro de um dígito passam a não fechar a conta quando o custo do crédito avança para dois dígitos ao ano.

Em vez de investir, muitos empresários preferem segurar o caixa, trabalhar com estoque mais enxuto e postergar contratações. Isso explica por que, mesmo em setores com demanda firme, o crescimento das PMEs tem sido mais lento do que o das grandes companhias, que têm acesso a captações no mercado de capitais em condições melhores.

Outro efeito pouco comentado é a troca de dívida ruim por dívida ainda pior. Quando o fluxo de caixa aperta, parte dos empresários acaba recorrendo a cheque especial empresarial ou ao rotativo do cartão para cobrir folha e fornecedores — linhas conhecidas por ter o maior custo do mercado. Isso cria um ciclo em que o juro alto não só impede investir como corrói a margem do que já está funcionando.

Reforma tributária: por que a maioria ainda não escolheu o modelo

O segundo gargalo apontado é mais recente. A reforma tributária aprovada pelo Congresso trouxe mudanças profundas na forma como bens e serviços serão tributados no Brasil, com a criação do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), em substituição a tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS, segundo informações oficiais da Receita Federal e do Ministério da Fazenda. A transição será feita em etapas, começando em 2026 e indo até 2033, de acordo com o governo federal.

A pesquisa com PMEs mostrou que a maior parte dos empresários ainda não decidiu qual modelo tributário vai adotar durante e depois desse período de transição. Isso envolve pelo menos três decisões importantes:

  1. Continuar no Simples Nacional, regime unificado voltado para micro e pequenas empresas, ou migrar para outro regime.
  2. Optar pelo Lucro Presumido, no qual o imposto é calculado sobre uma margem presumida de lucro, independentemente do resultado real.
  3. Ir para o Lucro Real, com apuração baseada no lucro efetivamente obtido pela empresa.

A dúvida existe porque, dependendo da atividade da empresa, do porte, dos clientes (consumidor final ou outras empresas) e da forma como a reforma vai tratar créditos tributários, um regime pode ficar mais vantajoso que o outro.

Para alguns setores de serviços, por exemplo, o Simples Nacional continua interessante, mas pode gerar perda de competitividade se o cliente final for outra empresa que precise se creditar do IBS/CBS. Já indústrias e distribuidoras podem passar a enxergar o Lucro Real com outros olhos, por conta justamente do aproveitamento de créditos.

Sem clareza sobre as regras definitivas de transição e sem simulações precisas do impacto no próprio negócio, muitos empresários estão adiando a decisão. É um comportamento compreensível, mas arriscado: a escolha errada do regime pode custar caro em imposto pago a mais ao longo do ano.

O cenário combinado: juros caros e insegurança tributária

O que torna 2025 particularmente desafiador para as PMEs é a combinação dos dois fatores. Juros altos encarecem qualquer movimento de expansão. Insegurança tributária paralisa decisões estruturais, como abrir uma nova unidade, mudar o CNPJ, segregar atividades em empresas diferentes ou formalizar um sócio.

Na prática, isso significa que boa parte do empresariado está em modo de espera: espera o Banco Central começar a reduzir a taxa básica de juros, espera o governo e o Congresso detalharem a regulamentação completa da reforma tributária e espera o próprio contador apresentar um estudo comparativo entre os regimes.

Enquanto esse pacote de decisões não se resolve, o investimento produtivo fica em segundo plano.

Alguns indicadores oficiais ajudam a dimensionar o cenário. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, mostra que a geração de vagas no segmento de serviços e comércio — onde se concentram as PMEs — vem desacelerando. Dados do Banco Central sobre concessões de crédito a pessoas jurídicas também apontam que o volume emprestado para pequenas empresas cresce em ritmo menor do que o do crédito a grandes companhias. São sinais compatíveis com o que a sondagem captou.

O que a PME pode fazer agora, sem esperar o cenário melhorar

Mesmo com juros altos e reforma em definição, há movimentos que não dependem de o cenário externo mudar. Três frentes concentram a maior parte do ganho possível:

1. Revisar o custo da dívida atual. Antes de contratar crédito novo, vale olhar para o estoque de dívidas que a empresa já tem. Trocar uma linha cara (cheque especial, rotativo do cartão corporativo) por uma mais barata (capital de giro com garantia, antecipação de recebíveis em condições negociadas) pode liberar fôlego imediato de caixa, sem precisar vender mais para pagar os mesmos juros.

2. Fazer o comparativo tributário com o contador. Mesmo sem a regulamentação final da reforma, já é possível rodar simulações com os cenários mais prováveis. O contador consegue estimar qual regime tende a ser mais eficiente para o seu tipo de atividade, considerando faturamento, folha, margem e perfil de clientes. Chegar em 2026 com essa conta já feita evita decisão apressada.

3. Separar caixa pessoal e caixa da empresa. Parece básico, mas uma parcela relevante das PMEs ainda mistura as duas coisas. Em cenários de juros altos, essa confusão aumenta o custo de qualquer operação de crédito — tanto pessoal quanto empresarial — e distorce o resultado da empresa, dificultando qualquer análise tributária séria.

Muitas vezes, o problema do crescimento travado não é só o juro em si: é a falta de visibilidade sobre quanto a empresa realmente ganha depois de pagar impostos, folha e dívidas. Resolver isso é algo que o empresário consegue fazer independentemente do que o Banco Central ou o Congresso decidirem nos próximos meses.

Como se preparar para 2026

O ano que vem concentra os principais marcos práticos da transição tributária e deve trazer novidades também na política monetária. Para as PMEs, três datas merecem atenção especial: o início da cobrança de teste do IBS e da CBS, o fim do prazo de opção pelo regime tributário do exercício seguinte e as reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) ao longo do ano, que vão sinalizar o ritmo de queda — ou manutenção — da taxa básica de juros.

Acompanhar essas datas, pedir ao contador uma projeção atualizada a cada trimestre e manter o cadastro da empresa em dia em instituições financeiras são passos simples, mas que fazem diferença na hora de aproveitar oportunidades: a empresa que chegar a 2026 com planejamento tributário feito e caixa organizado consegue capturar primeiro qualquer melhora de cenário — seja um juro mais baixo, seja uma linha de crédito nova direcionada a pequenos negócios.

Se 59% das PMEs estão travadas pelos juros hoje, a boa notícia é que decisões internas bem tomadas podem reduzir essa dependência do cenário macro. O crédito continuará existindo, a reforma tributária vai se detalhar nos próximos meses e o Banco Central eventualmente retomará um ciclo de corte de juros. Quem usar esse período para arrumar a casa — dívida mais barata, regime tributário escolhido com base em simulação e separação clara entre pessoa física e jurídica — sai do modo de espera e volta a crescer antes do concorrente que ficou parado.

Referências

  • Sondagem Omie com pequenas e médias empresas (2025)
  • Receita Federal e Ministério da Fazenda — informações sobre a reforma tributária (IBS e CBS)
  • Banco Central — dados de concessão de crédito a pessoas jurídicas
  • Ministério do Trabalho e Emprego — Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged)

Comentários (0)

Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu comentário

Publicamos após revisão da equipe. Campos com asterisco são obrigatórios.

📩 Gostou? Receba mais como este

Novidades sobre consignado e FGTS toda semana.

Leia também em Vida Financeira

Ver todos →