Marcação a mercado: por que seu Tesouro cai sem calote
Entenda por que o Tesouro Direto oscila no extrato, quando essa queda vira prejuízo de verdade e como evitar o susto na próxima alta de juros.
Tatiana Botelho
📖 7 min de leitura
Resumo em 30 segundos
- Marcação a mercado atualiza diariamente o preço do seu título pelo valor pelo qual ele seria vendido hoje, se você resgatasse antes do vencimento.
- Em cenários de alta de juros, títulos públicos longos chegaram a cair até 30% no extrato, mesmo sem risco de calote do Tesouro Nacional.
- A perda só se concretiza se você vender antes do vencimento; segurando o título até o fim do prazo, recebe a rentabilidade contratada na compra.
- O Tesouro Selic praticamente não sofre marcação a mercado e, por isso, é o indicado para reserva de emergência e dinheiro de curto prazo.
Você aplicou em um título público considerado 'seguro' e, de repente, abre o aplicativo da corretora e vê o saldo caindo 10%, 20%, até 30%. O governo quebrou? Deu calote? Nada disso. O que você está vendo na tela é o efeito da marcação a mercado — um mecanismo contábil que mostra, dia a dia, por quanto o seu título seria vendido se você o liquidasse naquele exato momento. Em cenários extremos de alta de juros, títulos públicos longos chegam a registrar perdas de até 30%, mesmo com o Tesouro Nacional pagando normalmente.
Neste guia, você vai entender por que isso acontece, quando a perda realmente afeta o seu bolso e o que fazer para não ser pego de surpresa. A ideia é simples: quem entende como funciona a marcação a mercado deixa de se desesperar com oscilações e aprende a usar o Tesouro Direto do jeito certo.
O que é marcação a mercado em renda fixa
Marcação a mercado é a regra que obriga bancos, corretoras e plataformas de investimento a atualizar diariamente o valor dos seus títulos pelo preço que eles valeriam no mercado hoje. Em vez de mostrar apenas o rendimento contratado até o vencimento, o extrato exibe quanto você receberia se vendesse agora.
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Sethi Sociedade de Crédito Direto S.A. · CNPJ 50.946.592/0001-07 · autorizada pelo Banco Central do Brasil.
A prática foi padronizada no Brasil pela Comissão de Valores Mobiliários e pelo próprio Tesouro Nacional justamente para dar transparência ao investidor. Antes dela, muita gente aplicava em fundos de renda fixa achando que o produto não tinha risco e só descobria as perdas no momento do resgate.
A intenção da regra é correta: você precisa enxergar o valor real do que tem. O problema é que, para o investidor leigo, essa transparência vira susto. Afinal, o Tesouro Direto é vendido como o investimento mais seguro do país — e é mesmo, do ponto de vista do calote. Mas 'seguro contra calote' não é a mesma coisa que 'nunca oscila'.
É aqui que mora a confusão. Risco de crédito (o emissor não pagar) é diferente de risco de mercado (o preço variar antes do vencimento). A marcação a mercado trata exatamente desse segundo risco. No Tesouro Direto, o risco de calote é considerado o menor do mercado brasileiro, mas o risco de preço continua existindo — e é ele que aparece na tela em dias de aperto monetário.
Por que o preço de um título público sobe e desce todo dia
A relação entre taxa de juros e preço de título é inversa: quando os juros de mercado sobem, o preço dos títulos antigos cai; quando os juros caem, o preço dos títulos antigos sobe. Parece contraintuitivo, mas o raciocínio é direto.
Imagine que você comprou um título prefixado pagando 10% ao ano. Alguns meses depois, o Banco Central aperta a política monetária e novos títulos equivalentes passam a pagar 13% ao ano. Quem vai querer comprar o seu papel de 10% pelo preço cheio, se encontra 13% no mercado? Ninguém.
Para o seu título voltar a ser atrativo, o preço precisa cair até que a rentabilidade restante, calculada sobre esse preço menor, se iguale aos 13% atuais.
O inverso também vale: se os juros caírem para 7%, o seu papel que paga 10% vira ouro — o preço sobe, porque todo mundo quer travar essa rentabilidade mais alta.
Esse movimento é muito mais forte em títulos longos. Um Tesouro Prefixado com vencimento daqui a 10 ou 15 anos reage com intensidade bem maior a uma alta de juros do que um papel que vence no próximo ano. Isso porque o impacto da nova taxa se acumula por muito mais tempo. É por essa razão que, em períodos de aperto monetário, não é incomum ver Tesouro IPCA+ longo e Tesouro Prefixado longo caindo 15%, 20% ou mesmo os 30% registrados em cenários recentes.
Já o Tesouro Selic praticamente não sofre com marcação a mercado, porque sua rentabilidade acompanha a taxa básica em tempo real. É exatamente por isso que ele é o indicado para reserva de emergência: o preço quase não oscila, e você pode resgatar a qualquer momento sem susto.
Quando a perda vira real e quando é só susto no extrato
Essa é a parte mais importante do artigo, porque é onde mora a decisão prática. A perda da marcação a mercado só vira perda de verdade se você vender o título antes do vencimento. Se segurar o papel até o fim do prazo, você recebe exatamente a rentabilidade contratada no dia da compra, independentemente do que o preço fez no meio do caminho.
Em outras palavras: aquele -20% que apareceu na sua tela é hipotético. É quanto você perderia se vendesse hoje. Enquanto você segurar o título, o preço vai naturalmente convergindo de volta para o valor de face à medida que o vencimento se aproxima — fenômeno conhecido entre investidores como 'puxão para o par'.
Isso muda totalmente a forma de encarar o investimento. Quem compra um Tesouro IPCA+ longo pensando em usar o dinheiro só na aposentadoria, daqui a 20 anos, não deveria sequer olhar o extrato toda semana. A marcação, para esse investidor, é apenas ruído. Já quem comprou o mesmo papel achando que poderia resgatar em dois anos pode ter uma surpresa amarga se os juros subirem no meio do caminho.
Também vale lembrar: existe uma situação em que a marcação joga a seu favor. Quando os juros caem, o preço do seu título sobe acima do valor contratado. Nesse momento, vender antes do vencimento pode gerar um ganho superior à rentabilidade original. É uma estratégia muito usada por investidores experientes para aproveitar ciclos de corte da Selic — mas exige acompanhar o mercado e saber a hora certa de sair.
Como se proteger da marcação a mercado no Tesouro Direto
A primeira regra é simples e vale para qualquer investidor: case o prazo do título com o prazo do seu objetivo. Dinheiro que você pode precisar nos próximos 12 meses vai para Tesouro Selic ou para um CDB de liquidez diária, nunca para um prefixado longo. Dinheiro para a aposentadoria, daqui a 20 anos, pode ir para um IPCA+ longo — e você aceita a oscilação do caminho porque não vai vender.
A segunda regra é diversificar prazos. Em vez de concentrar tudo em um único vencimento, divida a carteira em títulos com maturidades diferentes. Assim, se precisar de dinheiro em algum momento, você liquida o papel de prazo mais curto (que oscila menos) e deixa os longos quietos até o fim.
A terceira recomendação é entender o produto antes de comprar. Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+ sofrem marcação forte. Tesouro Selic praticamente não sofre. Essa diferença muda tudo e, conforme o próprio Tesouro Direto informa na plataforma oficial, cada tipo de título tem um comportamento específico de preço — essa informação fica disponível antes mesmo da compra, na ficha de cada papel.
Por fim, cuidado com o viés emocional. A maior perda real da marcação a mercado não é a oscilação em si: é o investidor que, assustado com o vermelho na tela, vende no pior momento e transforma uma perda contábil em perda definitiva. Esse padrão de comportamento é um dos mais estudados em finanças pessoais, e virar refém dele costuma custar mais caro do que qualquer taxa de administração.
Conclusão: susto no extrato não é prejuízo no bolso
Marcação a mercado é um mecanismo de transparência, não um risco escondido. Ela mostra, todo dia, por quanto você venderia o título agora — e é essa fotografia instantânea que pode exibir quedas de 20%, 30%, mesmo em papéis do Tesouro Nacional. Mas essa queda só se materializa se você vender antes do vencimento.
Se o seu plano é levar o título até o fim do prazo, respire fundo, feche o aplicativo e lembre-se: a rentabilidade contratada no dia da compra está garantida, desde que o emissor pague — e, no caso do Tesouro Nacional, essa é a hipótese mais segura do mercado brasileiro.
O próximo passo prático é revisar sua carteira hoje: todo título que você tem precisa estar com prazo compatível com o uso que você fará do dinheiro. Se estiver, você pode dormir tranquilo mesmo em dia de notícia ruim sobre juros. Se não estiver, agora é a hora de ajustar — antes do próximo ciclo de aperto monetário te pegar de surpresa.
Referências
- Tesouro Nacional — Portal do Tesouro Direto, informações sobre marcação a mercado e características de cada título
- Comissão de Valores Mobiliários (CVM) — regras de atualização diária do valor de títulos e cotas
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