woman holding Android smartphone

MB projeta alta de 9,5% em alimentos com Super El Niño 2027

Estudo da MB Associados projeta que um Super El Niño em 2027 pode empurrar a inflação de alimentos a até 9,5%. Veja o que sobe e como se preparar.

TB

Tatiana Botelho

📖 8 min de leitura

Se o cenário climático se confirmar, o brasileiro deve sentir no carrinho de compras um dos maiores apertos dos últimos anos. Estudo assinado pela consultoria MB Associados, sob coordenação do economista-chefe Sergio Vale, aponta que a formação de um Super El Niño em 2027 pode empurrar a inflação de alimentos para até 9,5% naquele ano. O número é mais que o dobro da meta de inflação cheia perseguida pelo Banco Central e, na prática, significa que produtos básicos da mesa — arroz, feijão, carnes, frutas, legumes e verduras — devem ficar mais caros de forma acelerada.

A boa notícia é que o choque não chega de uma hora para outra: fenômenos como o El Niño costumam se instalar em ondas, primeiro afetando lavouras específicas, depois o transporte, e só então a prateleira do supermercado. Isso dá tempo para a família rever hábitos de consumo, renegociar dívidas, montar uma reserva alimentar inteligente e evitar entrar no aperto endividada. Nas próximas seções, você vai entender por que o Super El Niño pesa tanto no preço da comida, quais itens tendem a subir primeiro, como o frete amplifica esse repasse e, principalmente, o que dá para fazer agora, com antecedência, para proteger o orçamento doméstico.

Por que o Super El Niño pode elevar a inflação de alimentos em 2027

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico. Quando ele ganha intensidade acima da média — configurando o chamado 'Super El Niño' — o padrão de chuvas no Brasil se desorganiza: o Sul enfrenta enchentes e excesso de umidade, enquanto o Centro-Oeste, o Sudeste e o Nordeste tendem a sofrer com estiagem, ondas de calor e queda de produtividade agrícola. Essa combinação atinge exatamente as regiões que abastecem o país de grãos, carne, leite, hortaliças e frutas.

É nesse ponto que entra a projeção da MB Associados. O estudo estima que, num cenário de Super El Niño confirmado, o índice de inflação de alimentos no Brasil pode alcançar 9,5% em 2027, patamar bastante superior ao registrado em anos climáticos normais. O raciocínio é direto: menos chuva no momento certo significa lavouras menores; enchentes fora de época significam perdas na colheita; calor extremo reduz o peso dos animais e a produção de leite. Como o Brasil abastece boa parte do próprio consumo com produção interna, qualquer choque de oferta bate rapidamente no preço final.

Outro fator que agrava o cenário é a defasagem entre plantio e colheita. Culturas como arroz, feijão, milho e soja levam meses entre uma etapa e outra. Se o clima estraga a safra de verão, a reposição só vem na próxima janela de plantio — e, até lá, o preço fica pressionado. Por isso um evento climático que começa em 2026 pode transbordar em cheio para os preços de 2027, exatamente como sugere a projeção citada.

Quais alimentos sobem primeiro no supermercado

Um dos pontos mais úteis para o consumidor é entender a ordem em que os preços costumam reagir. Nem tudo sobe ao mesmo tempo, e conhecer essa sequência ajuda a comprar melhor.

Os primeiros a sentir o choque são os hortifrútis — tomate, cebola, batata, alface, cenoura, banana. Como são altamente perecíveis e dependem de colheitas frequentes, qualquer chuva excessiva ou estiagem forte tira produto do mercado em questão de semanas. É comum ver o quilo do tomate ou da cebola dobrar de preço em ciclos climáticos ruins.

Na sequência aparecem os grãos básicos, com destaque para arroz e feijão, além do milho — que é insumo essencial para ração animal. Quando o milho sobe, sobem também frango, ovo, carne suína e leite, porque a alimentação dos animais fica mais cara. Esse é o chamado 'efeito cascata' das proteínas: começa no campo, passa pelo confinamento e chega ao açougue.

As carnes bovinas costumam demorar um pouco mais para reagir, já que o ciclo de engorda é longo, mas quando a alta chega ela costuma ser mais persistente. Já o leite e derivados (queijo, manteiga, iogurte) reagem em prazo intermediário, pressionados tanto pelo custo da ração quanto pelo estresse térmico das vacas em períodos de calor extremo.

Por fim, produtos industrializados que dependem de trigo importado, óleo de soja, açúcar e cacau podem oscilar em ritmo próprio, já que sofrem influência do câmbio e do mercado internacional — e o El Niño afeta lavouras em vários países ao mesmo tempo, o que costuma pressionar cotações globais.

Como o frete amplifica o repasse ao consumidor

Muita gente esquece de um detalhe fundamental: o preço da comida não depende só da lavoura, mas também de como ela chega até o supermercado. Aqui entra a memória recente do El Niño de 2023-2024, quando eventos climáticos extremos — incluindo enchentes na Região Sul — desorganizaram o transporte rodoviário, elevaram custos de frete e comprometeram a logística de escoamento da produção.

No Brasil, a maioria dos alimentos viaja de caminhão. Quando estradas são interditadas por deslizamentos, pontes caem, cidades ficam alagadas ou rotas precisam ser desviadas, o custo do frete dispara. Esse custo extra é incorporado ao preço do produto e chega ao consumidor final. Em episódios anteriores, produtos que sofreram pouco no campo ainda assim ficaram mais caros na prateleira justamente porque a conta do transporte pesou.

Outro ponto é a concentração logística: o Sul e o Sudeste concentram tanto grande parte da produção agroindustrial quanto os principais corredores rodoviários do país. Basta uma dessas rotas ficar comprometida por semanas para o efeito ser sentido no Brasil inteiro. Por isso, ao projetar 9,5% de inflação de alimentos em 2027, o estudo considera não apenas a perda direta de produção, mas também esses efeitos secundários, que amplificam o repasse.

Para o consumidor, o recado é claro: em anos de choque climático, comprar apenas 'na feira mais barata' pode não ser suficiente, porque o custo logístico contamina praticamente todos os canais de venda. A estratégia passa a ser outra: planejamento, substituição inteligente de itens e uso consciente do orçamento.

Como se preparar no orçamento familiar antes do choque

A melhor forma de encarar uma alta de 9,5% nos alimentos não é reagir depois, mas se antecipar. Algumas medidas simples podem reduzir bastante o aperto:

  1. Refaça o orçamento com um cenário 'estressado'. Pegue o que você gasta hoje com mercado e simule esse valor 10% maior. Se, nessa simulação, as contas não fecham, você já sabe onde precisa cortar antes que a alta chegue. É melhor ajustar agora, com calma, do que no meio da crise.

  2. Monte uma reserva alimentar inteligente. Isso não significa estocar comida sem critério, e sim manter em casa uma quantidade razoável de itens não perecíveis que você realmente consome — arroz, feijão, macarrão, óleo, açúcar, café, leite em pó, enlatados. Compre em promoções e substitua conforme o consumo, para nada vencer. É uma forma de 'travar' preço.

  3. Aprenda a substituir. Se o tomate subir demais, use molho pronto de compra planejada; se a carne bovina disparar, aumente frango, ovo e ovos mexidos, fontes de proteína mais baratas. Se o feijão carioca subir, experimente feijão preto ou lentilha. Substituir é mais barato que insistir.

  4. Fuja de dívidas caras para bancar mercado. Este é o ponto mais importante. Colocar compras de supermercado no rotativo do cartão de crédito ou no cheque especial transforma uma alta de 10% em uma dívida de 300% ao ano. Se precisar de crédito, procure sempre as linhas de juros mais baixos, como o consignado, para quem tem direito, e evite o crédito emergencial no caixa do supermercado.

  5. Renegocie dívidas antes do choque. Se você já está apertado hoje, a chegada de um ciclo inflacionário forte vai piorar sua situação. Aproveite o período atual para negociar descontos, alongar prazos e reduzir a parcela mensal — isso libera espaço no orçamento para absorver a alta dos alimentos sem precisar tomar novo crédito.

  6. Priorize compras grandes agora. Se você planejava trocar geladeira, freezer ou fogão, considere fazer isso antes do pico inflacionário. Bens duráveis também podem ficar mais caros em ciclos de pressão de custos, e ter esses equipamentos em boas condições ajuda a estocar e conservar alimentos comprados em promoção.

O que esperar daqui para frente

Projeções climáticas são cenários, não certezas. O Super El Niño previsto para 2027 pode se concretizar em toda a sua intensidade, ficar abaixo do esperado ou ser parcialmente compensado por outros fatores — como uma safra recorde em outra região do mundo, uma valorização do real que baratearia insumos importados, ou políticas públicas de amparo à produção. Mas o próprio tamanho do risco já justifica atenção: uma inflação de alimentos perto de 9,5% em um único ano corrói poder de compra de forma agressiva, especialmente para famílias de baixa renda, que gastam proporcionalmente mais com comida.

O caminho mais seguro é encarar a informação como um aviso: há tempo para se organizar, cortar gastos supérfluos, sair de dívidas caras, criar uma reserva de emergência e ajustar hábitos de consumo. Quem chegar em 2027 com o orçamento no vermelho e sem folga vai sofrer muito mais o impacto do que quem começar os ajustes agora, com o preço ainda relativamente estável. Planejamento, nesses casos, vale mais do que qualquer promoção de última hora.

Referências

  • Estudo da MB Associados, coordenado pelo economista-chefe Sergio Vale, divulgado pela GloboNews, com projeção de inflação de alimentos de até 9,5% em 2027 em cenário de Super El Niño.
  • Histórico de impacto do El Niño 2023-2024 sobre o frete rodoviário e a logística de escoamento de alimentos no Brasil.

Comentários (0)

Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu comentário

📩 Gostou? Receba mais como este

Novidades sobre consignado e FGTS toda semana.